5 a 8 sries
PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS
TEMAS TRANSVERSAIS

Presidente da Repblica
Fernando Henrique Cardoso
Ministro de Estado da Educao e do Desporto
Paulo Renato Souza
Secretrio Executivo
Luciano Oliva Patrcio


PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS
TERCEIRO E QUARTO CICLOS DO ENSINO FUNDAMENTAL
TEMAS TRANSVERSAIS

Secretaria de Educao Fundamental
Iara Glria Areias Prado
Departamento de Poltica da Educao Fundamental
Virgnia Zlia de Azevedo Rebeis Farha
Coordenao-Geral de Estudos e Pesquisas da Educao Fundamental
Maria Ins Laranjeira

PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS (5a A 8a SRIES)

B823p Brasil. Secretaria de Educao Fundamental.
Parmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto
ciclos do ensino fundamental: Lngua Portuguesa/ Secretaria de
Educao Fundamental. - Braslia : MEC/SEF, 1998.
436 p.

1. Parmetros curriculares nacionais. 2. Apresentao dos temas transversais: Ensino de quinta a oitava sries.
I. Ttulo.
CDU: 371.214

pg. 02
MINISTRIO DA EDUCAO E DO DESPORTO
SECRETARIA DE EDUCAO FUNDAMENTAL

PARMETROS
CURRICULARES
NACIONAIS

TERCEIRO E QUARTO CICLOS
DO ENSINO FUNDAMENTAL

TEMAS TRANSVERSAIS

Braslia
1998
pg. 03


AO PROFESSOR
O papel fundamental da educao no desenvolvimento das pessoas e das sociedades amplia-se ainda mais no despertar do novo milnio e aponta para a necessidade de se construir uma escola voltada para a formao de cidados. Vivemos numa era marcada pela competio e pela excelncia, em que progressos cientficos e avanos tecnolgicos definem exigncias novas para os jovens que ingressaro no mundo do trabalho. Tal demanda impe uma reviso dos currculos, que orientam o trabalho cotidianamente realizado pelos professores e especialistas em educao do nosso pas.
Assim,  com imensa satisfao que entregamos aos professores das sries finais do ensino fundamental os Parmetros Curriculares Nacionais, com a inteno de ampliar e aprofundar um debate educacional que envolva escolas, pais, governos e sociedade e d origem a uma transformao positiva no sistema educativo brasileiro.
Os Parmetros Curriculares Nacionais foram elaborados procurando, de um lado, respeitar diversidades regionais, culturais, polticas existentes no pas e, de outro, considerar a necessidade de construir referncias nacionais comuns ao processo educativo em todas as regies brasileiras. Com isso, pretende-se criar condies, nas escolas, que permitam aos nossos jovens ter acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente elaborados e reconhecidos como necessrios ao exerccio da cidadania.
Os documentos apresentados so o resultado de um longo trabalho que contou com a participao de muitos educadores brasileiros e tm a marca de suas experincias e de seus escudos, permitindo assim que fossem produzidos no contexto das discusses pedaggicas atuais. Inicialmente foram elaborados documentos, em verses preliminares, para serem analisados e debatidos por professores que atuam em diferentes graus de ensino, por especialistas da educao e de outras reas, alm de instituies governamentais e no-governamentais. As crticas e sugestes apresentadas contriburam para a elaborao da atual verso, que dever ser revista periodicamente, com base no acompanhamento e na avaliao de sua implementao.
Esperamos que os Parmetros sirvam de apoio s discusses e ao desenvolvimento do projeto educativo de sua escola,  reflexo sobre a prtica pedaggica, ao planejamento de suas aulas,  anlise e seleo de materiais didticos e de recursos tecnolgicos e, em especial, que possam contribuir para sua formao e atualizao profissional.

Paulo Renato Souza
Ministro da Educao e do Desporto
pg. 05

OBJETIVOS DO ENSINO FUNDAMENTAL
Os Parmetros Curriculares Nacionais indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos sejam capazes de:
 compreender a cidadania como participao social e poltica, assim como exerccio de direitos e deveres polticos, civis e sociais, adotando, no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperao e repdio s injustias, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito;
 posicionar-se de maneira crtica, responsvel e construtiva nas diferences situaes sociais, utilizando o dilogo como forma de mediar conflitos e de tomar decises coletivas;
 conhecer caractersticas fundamentais do Brasil nas dimenses sociais, materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noo de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinncia ao pas;
 conhecer e valorizar a pluralidade do patrimnio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e naes, posicionando-se contra qualquer discriminio baseada em diferenas culturais, de classe social, de crenas, de sexo, de etnia ou outras caractersticas individuais e sociais;
 perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente, identificando seus elementos e as interaes entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente;
 desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiana em suas capacidades afetiva, fsica, cognitiva, tica, esttica, de inter-relao pessoal e de insero social, para agir com perseverana na busca de conhecimento e no exerccio da cidadania;
 conhecer o prprio corpo e dele cuidar, valorizando e adoando hbitos saudveis como um dos aspectos bsicos da qualidade de vida e agindo com responsabilidade em relao  sua sade e  sade coletiva;
 utilizar as diferentes linguagens  verbal, musical, matemtica, grfica, plstica e corporal  como meio para produzir,
Pg. 07
expressar e comunicar suas idias, interpretar e usufruir das produes culturais, em contextos pblicos e privados, atendendo a diferentes intenes e situaes de comunicao; 
 saber utilizar diferentes fontes de informao e recursos tecnolgicos para adquirir e construir conhecimentos; 
  questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolv-los, utilizando para isso o pensamento lgico, a criatividade, a intuio, a capacidade de anlise crtica, selecionando procedimentos e verificando sua adequao.
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ESTRUTURA DOS PARMETROS CURRCULARES NACIONAIS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL
Objetivos Gerais do Ensino Fundamental
rea de Lnguas Portuguesa  rea  de Lngua estrangeira  rea de Matemtica  rea de Cincias Naturais  rea de histria  rea de geografia  rea de arte  rea de educao fsica. tica  sade  meio ambiente  orientao sexual  pluralidade cultural  trabalho e  consumo. Caracterizao da rea  objetivos gerais da rea. 1 ciclo (1 e 2 s.), 2 ciclo (3 e 4 s.), 3 ciclo (5 e 6 s.), 4 ciclo (7 e 8 s.) = objetividade da rea  contedo da rea por ciclo  critrios de avaliao da rea por ciclo  orientaes didticas.
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SUMRIO
APRESENTAO DOS TEMAS TRANSVERSAIS
Apresentao....................................................................................................................17
Introduo........................................................................................................................ 19
Justificativa...................................................................................................................... 23
Os Temas Transversais .................................................................................................. 25
Critrios adotados para a eleio dos Temas Transversais................................. 25
A transversalidade ................................................................................................ 26
Transversalidade e interdisciplinaridade .............................................................. 29
Os Temas Transversais no projeto educativo ...................................................... 30
O convvio escolar................................................................................................. 30
O educador como cidado.................................................................................... 31
A interao entre escola, comunidade e outras instituies................................. 32
A insero dos Temas Transversais nos Parmetros Curriculares Nacionais..........35
Os objetivos dos Temos Transversais ................................................................. 35
O tratamento dos contedos dos Temas Transversais ........................................ 35
A perspectiva da autonomia no ensino de valores ............................................... 35
Os materiais usados nas situaes didticas........................................................ 36
Os procedimentos e a perspectiva da participao social.................................... 37
O ensino e a aprendizagem de conceitos, como instrumento de
compreenso e problematizao da realidade..................................................... 38
A avaliao do ensino de valores.......................................................................... 38
Projetos ............................................................................................................................. 43

TICA
Apresentao................................................................................................................... 45

1a PARTE
tica e sociedade............................................................................................................. 49
tica e Moral: o significado dos conceitos............................................................. 49
A presena da moralidade na cultura.................................................................... 50
A dimenso pessoal da moralidade ..................................................................... 51
A tica: reflexo crtica ......................................................................................... 52
tica e Cidadania; os princpios fundamentais da vida democrtica ................... 54
O carter poltico da participao dos indivduos na sociedade .......................... 54
Dignidade de vida humana ................................................................................... 56
A sociedade brasileira hoje: desafios  reflexo tica.......................................... 57
A tica na educao escolar.......................................................................................... 61
A formao moral e o contexto escolar................................................................. 61
Possibilidades e limites do escola na formao moral.......................................... 62
Experincias escolares de educao moral.......................................................... 64
Legitimao de valores.......................................................................................... 67
A vivncia da tica no processo de ensino e aprendizagem ............................... 75
A atuao do professor no processo de educao em valores ........................... 76
tica e convivncia na escola............................................................................... 79
A tica como um tema transversal........................................................................ 83
Objetivos gerais para o ensino fundamental................................................................ 91
pg. 11
2a PARTE
Contedos de tica para terceiro e quarto ciclos........................................................ 95
Respeito mtuo..................................................................................................... 96
Justia .................................................................................................................. 99
Solidariedade ...................................................................................................... 104
Dilogo ............................................................................................................... 108

PLURALIDADE CULTURAL
Apresentao................................................................................................................... 117

1a PARTE
Introduo...................................................................................................................... 121
Justificativa ......................................................................................................... 122
Estado atual dos trabalhos com a temtica......................................................... 124
Caracterizao do tema ..................................................................................... 125

Contribuies para o estudo da Pluralidade Cultural no mbito da escola............ 129
Fundamentos ticos............................................................................................ 129
Conhecimentos jurdicos..................................................................................... 129
Conhecimentos histricos e geogrficos ............................................................ 130
Conhecimentos sociolgicos............................................................................... 131
Conhecimentos antropolgicos .......................................................................... 131
Linguagens e representaes............................................................................. 133
Conhecimentos populacionais............................................................................. 134
Conhecimentos psicolgicos e pedaggicos ..................................................... 134

Ensino e aprendizagem na perspectiva da Pluralidade Cultural.............................. 137
Ensinar Pluralidade Cultural ou viver Pluralidade Cultural?................................ 137
Objetivos gerais para o ensino fundamental.............................................................. 143

2a PARTE
Contedos de Pluralidade Cultural para terceiro e quarto ciclos............................. 147
Critrios de seleo............................................................................................. 147
Blocos de contedos .......................................................................................... 147
	Pluralidade Cultural e a vida dos adolescentes no Brasil........................... 148
	Pluralidade Cultural na formao do Brasil ............................................... 152
	O ser humano como agente social e produtor de cultura .......................... 155
	Direitos humanos, direitos de cidadania e pluralidade............................... 160

MEIO AMBIENTE
Apresentao................................................................................................................. 169

1a PARTE
A questo ambiental...................................................................................................... 173
Crise ambiental ou crise civilizatria?................................................................. 178
A educao como elemento indispensvel para a transformao da conscincia ambiental..........................................................................................................................180
Alguns pontos polmicos no debate ambiental................................................... 182
Ensinar e aprender em Educao Ambiental.............................................................. 187
As esferas global e local...................................................................................... 189
A relao entre a comunidade e a escola .......................................................... 191
pg. 12
Superar a fragmentao do saber nas situaes de ensino .............................. 193
A necessidade de transversalizao do tema nas reas.................................... 193
Objetivos gerais para o ensino fundamental.............................................................. 197

2a PARTE
Contedos de Meio Ambiente para terceiro e quarto ciclos .................................... 201
Critrios de seleo e organizao dos contedos ............................................ 202
Blocos de contedos .......................................................................................... 205
	A natureza "cclica" da Natureza ............................................................... 205
	Sociedade e meio ambiente ...................................................................... 212
	Manejo e conservao ambiental............................................................... 219
Anexos............................................................................................................................ 227
Anexo l  Debates sobre Educao Ambiental: encontros internacionais........ 229
Anexo II  Princpios da Educao Ambiental: Tbilisi/1977 .............................. 231
Anexo III  Conceitos fundamentais na problemtica ambiental....................... 233

SADE
Apresentao................................................................................................................. 245

1 PARTE
O que  sade?.............................................................................................................. 249
Consideraes iniciais......................................................................................... 249
Em busca de um conceito dinmico de sade ................................................... 251
Brasil: onde  necessrio prevenir e remediar.................................................... 252
Assumindo compromissos para a ao............................................................... 253
Educao para a sade; consolidando posies, estabelecendo limites e possibilidades.................................................................................................................257
Um pouco da histria da abordagem da sade no currculo das escolas brasileiras: Ensino
de Sade ou Educao para a Sade? ...........................................................................257
A inter-relao entre Educao e Educao para a Sade ............................................ 259
	A educao para a Sade como um tema transversal ........................................ 263

2 PARTE
Objetivos e contedos de Sade para terceiro e quarto ciclos................................ 269
Objetivos.............................................................................................................. 269
Contedos........................................................................................................... 269
Critrios de seleo............................................................................................. 270
Drogas: situando o problema em suas reais dimenses.................................... 271
Tratamento didtico............................................................................................. 273
Blocos de contedos .......................................................................................... 274
Autoconhecimento para o autocuidado............................................................... 275
Vida coletiva........................................................................................................ 279

ORIENTAO SEXUAL
Apresentao................................................................................................................. 287

1a PARTE
Justificativa.................................................................................................................... 291
Concepo do tema....................................................................................................... 295
pg. 13
Sexualidade na infncia e na adolescncia ....................................................... 295
O trabalho de Orientao Sexual na escola................................................................ 299
Manifestaes da sexualidade na escola ........................................................... 300
Postura dos educadores...................................................................................... 302
Relao escola-famlias...................................................................................... 304
Orientao Sexual como Tema Transversal............................................................... 307
Objetivos gerais............................................................................................................. 311

2a PARTE
Contedos de Orientao Sexual para terceiro e quarto ciclos............................... 315
Critrios de seleo............................................................................................. 315
Blocos de contedos .......................................................................................... 316
	Corpo: matriz da sexualidade..................................................................... 317
	Relaes de Gnero................................................................................... 321
	Preveno das Doenas Sexualmente Transmissveis/Aids ..................... 325
O Trabalho com Orientao Sexual em Espao Especfico...................................... 331


TRABALHO E CONSUMO
Apresentao................................................................................................................. 339

1a PARTE
Introduo...................................................................................................................... 343
Escola trabalho e consumo ................................................................................ 344
Caracterizao do tema ................................................................................... 347
Caractersticas do trabalho e do consumo no sociedade atual........................... 350
Trabalho e consumo na sociedade brasileira ..................................................... 354
	Tributao, distribuio de renda e justia social....................................... 355
	Alguns descritores da situao do trabalho no Brasil................................. 356
O tema no ensino fundamental.................................................................................... 361
Ensinar e aprender trabalho e consumo ............................................................ 362
Os jovens, a escota e a insero no trabalho..................................................... 364
Transversalidade................................................................................................. 368
Objetivos gerais para o ensino fundamental.............................................................. 373

2a PARTE
Contedos de Trabalho e Consumo para terceiro e quarto ciclos........................... 377
Critrios de seleo............................................................................................. 377
Blocos de contedos .......................................................................................... 378
	Relaes de trabalho.................................................................................. 378
	Trabalho, consumo, sade e meio ambiente.............................................. 385
	Consumo, meios de comunicao de massas, publicidade e vendas ...... 390
	Direitos humanos, cidadania, trabalho e consumo..................................... 395
	Direitos dos trabalhadores.......................................................................... 397
	Direitos dos consumidores......................................................................... 401

Bibliografia..................................................................................................................... 407
Apresentao dos Temas Transversais.............................................................. 407
tica..................................................................................................................... 414
Pluralidade Cultural............................................................................................. 416
Meio Ambiente .................................................................................................... 420
Sade.................................................................................................................. 424
Orientao Sexual............................................................................................... 426
Trabalho e Consumo........................................................................................... 429
pg. 14


PARMETROS CURRICULARES
APRESENTAO DOS TEMAS TRANSVERSAIS
Pg. 15
APRESENTAO
O compromisso com a construo da cidadania pede necessariamente uma prtica educacional voltada para a compreenso da realidade social e dos direitos e responsabilidades em relao  vida pessoal e coletiva e a afirmao do princpio da participao poltica. Nessa perspectiva  que foram incorporadas como Temas Transversais as questes da tica, da Pluralidade Cultural, do Meio Ambiente, da Sade, da Orientao Sexual e do Trabalho e Consumo.
Amplos o bastante para traduzir preocupaes da sociedade brasileira de hoje, os Temas Transversais correspondem a questes importantes, urgentes e presentes sob vrias formas na vida cotidiana. O desafio que se apresenta para as escolas  o de abrirem-se para o seu debate.
Isso no significa que tenham sido criadas novas reas ou disciplinas. Como voc poder perceber pela leitura deste documento, os objetivos e contedos dos Temas Transversais devem ser incorporados nas reas j existentes e no trabalho educativo da escola.  essa forma de organizar o trabalho didtico que recebeu o nome de transversalidade.
O presente texto apresenta a concepo de cidadania e os princpios democrticos que a norteiam, discute a amplitude do trabalho com questes sociais na escola e apresenta a proposta em sua globalidade: a relao de transversalidade entre os temas e as reas curriculares, assim como sua presena em todo o convvio escolar.
Segue-se um documento para cada tema, expondo as questes que cada um envolve e apontando objetivos e contedos para subsidi-lo na criao de seu planejamento de trabalho e de uma prtica educativa coerente com seus objetivos mais amplos.
Secretaria de Educao Fundamental
pg.17
INTRODUO
A Constituio da Repblica Federativa do Brasil promulgada em 1988, pela primeira vez na histria, inicia a explicitao dos fundamentos do Estado brasileiro elencando os direitos civis, polticos e sociais dos cidados. Tambm coloca claramente que os trs poderes constitudos, o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judicirio, so meios  e no fins  que existem para garantir os direitos sociais e individuais.
Os fundamentos do Estado Democrtico de Direito so: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o pluralismo poltico (artigo 1 da Constituio Federal).
Constituem objetivos fundamentais da Repblica: construir uma sociedade livre, justa e solidria; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalizao e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raa, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminao (artigo 3 da Constituio Federal).
Esses so os fundamentos e os princpios: longe de serem expresso de realidades vigentes, correspondem muito mais a metas, a grandes objetivos a serem alcanados. Sabe-se da distncia entre as formulaes legais e sua aplicao, e da distncia entre aquelas e a conscincia e a prtica dos direitos por parte dos cidados. O fundamento da sociedade democrtica  a constituio e o reconhecimento de sujeitos de direito. Porm, a definio de quem  ou deve ser reconhecido como sujeito de direito (quem tem direito a ter direitos)  social e histrica e recebeu diferentes respostas no tempo e nas diferentes sociedades. Por histrico no se entenda progressivo, linear, mas processos que envolveram lutas, rupturas, descontinuidades, avanos e recuos. A ampliao do rol dos direitos a serem garantidos constitui o ncleo da histria da modernidade. Dos direitos civis  ampliao da extenso dos direitos polticos para todos, at a conquista dos direitos sociais e culturais: este foi (e ) um longo e rduo processo.
Tradicionalmente considerava-se que direitos humanos e liberdades fundamentais eram direitos individuais, prprios de cada ser humano, mas no das coletividades. Atualmente cresce o consenso de que alguns direitos humanos so direitos essencialmente coletivos, como o direito a paz e a um ambiente saudvel. Muitos dos direitos que reclamam os povos indgenas, por exemplo, so tanto individuais quanto coletivos, como o direito  terra e a seus recursos, o de no ser vtimas de polticas etnocidas e o de manter suas identidades e suas culturas.
Assim a cidadania deve ser compreendida como produto de histrias sociais protagonizadas pelos grupos sociais, sendo, nesse processo, constituda por diferentes tipos de direitos e instituies. O debate sobre a questo da cidadania  hoje diretamente
pg.19
relacionado com a discusso sobre o significado e o contedo da democracia, sobre as perspectivas e possibilidades de construo de uma sociedade democrtica.
A democracia pode ser entendida em um sentido restrito como um regime poltico. Nessa concepo restrita, a noo de cidadania tem um significado preciso:  entendida como abrangendo exclusivamente os direitos civis (liberdade de ir e vir, de pensamento e expresso, direito  integridade fsica, liberdade de associao) e os direitos polticos (eleger e ser eleito), sendo que seu exerccio se expressa no ato de votar.
Entendida em sentido mais amplo, a democracia  uma forma de sociabilidade que penetra em todos os espaos sociais. Nessa concepo, a noo de cidadania ganha novas dimenses.
A conquista de significativos direitos sociais nas relaes de trabalho, previdncia social, sade, educao e moradia, amplia a concepo restrita de cidadania. Os movimentos sociais revelam as tenses que expressam a desigualdade social e a luta pela crescente eqidade na participao ou ampliao dos direitos, assim como da relao entre os direitos individuais e os coletivos e da relao entre os direitos civis, polticos, sociais e econmicos com os Direitos Humanos.
A sociedade brasileira carrega uma marca autoritria: j foi uma sociedade escravocrata, alm de ter uma larga tradio de relaes polticas paternalistas e clientelistas, com longos perodos de governos no democrticos. At hoje  uma sociedade marcada por relaes sociais hierarquizadas e por privilgios que reproduzem um altssimo nvel de desigualdade, injustia e excluso social. Na medida em que boa parte da populao brasileira no tem acesso a condies de vida digna, encontra-se excluda da plena participao nas decises que determinam os rumos da vida social (suas regras, seus benefcios e suas prioridades).  nesse sentido que se fala de ausncia de cidadania, cidadania excludente ou regulada, caracterizando a discusso sobre a cidadania no Brasil.
Novos atores, novos direitos, novas mediaes e novas instituies redefinem o espao das prticas cidads, propondo o desafio da superao da marcante desigualdade social e econmica da sociedade brasileira, com sua conseqncia de excluso de grande parte da populao na participao dos direitos e deveres. Trata-se de uma noo de cidadania ativa, que tem como ponto de partida a compreenso do cidado como portador de direitos e deveres, alm de consider-lo criador de direitos, condies que lhe possibilita participar da gesto pblica.
Assim, tanto os princpios constitucionais quanto a legislao da decorrente (como o Estatuto da Criana e do Adolescente) tomam o carter de instrumentos que orientam e legitimam a busca de transformaes na realidade. Portanto, discutir a cidadania do Brasil de hoje significa apontar a necessidade de transformao das relaes sociais nas dimenses econmica, poltica e cultural, para garantir a todos a efetivao do direito de ser cidado.
Essa tarefa demanda a afirmao de um conjunto de princpios democrticos para
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reger a vida social e poltica. No mbito educativo, so fundamentos que permitem orientar, analisar, julgar, criticar as aes pessoais, coletivas e polticas na direo da democracia.
Os Parmetros Curriculares Nacionais, ao propor uma educao comprometida com a cidadania, elegeram, baseados no texto constitucional, princpios segundo os quais orientar a educao escolar:
Dignidade da pessoa humana
Implica em respeito aos direitos humanos, repdio  discriminao de qualquer tipo, acesso a condies de vida digna, respeito mtuo nas relaes interpessoais, pblicas e privadas.
Igualdade de direitos
Refere-se  necessidade de garantir a todos a mesma dignidade e possibilidade de exerccio de cidadania. Para tanto h que se considerar o princpio da equidade, isto , que existem diferenas (tnicas, culturais, regionais, de gnero, etrias, religiosas etc.) e desigualdades (socioeconmicas) que necessitam ser levadas em conta para que a igualdade seja efetivamente alcanada.
Participao
Como princpio democrtico, traz a noo de cidadania ativa, isto , da complementaridade entre a representao poltica tradicional e a participao popular no espao pblico, compreendendo que no se trata de uma sociedade homognea e sim marcada por diferenas de classe, tnicas, religiosas etc. , nesse sentido, responsabilidade de todos a construo e a ampliao da democracia no Brasil.
Co-responsabilidade pela vida social
Implica em partilhar com os poderes pblicos e diferentes grupos sociais, organizados ou no, a responsabilidade pelos destinos da vida coletiva.
Pg. 21
JUSTIFICATIVA
Eleger a cidadania como eixo vertebrador da educao escolar implica colocar-se explicitamente contra valores e prticas sociais que desrespeitem aqueles princpios, comprometendo-se com as perspectivas e decises que os favoream. Isso refere-se a valores, mas tambm a conhecimentos que permitam desenvolver as capacidades necessrias para a participao social efetiva1.
Ao se admitir que a realidade social, por ser constituda de diferentes classes e grupos sociais,  contraditria, plural, polissmica, e que isso implica na presena de diferentes pontos de vista e projetos polticos, ser ento possvel compreender que seus valores e seus limites so tambm contraditrios. Por outro lado, a viso de que a constituio da sociedade  um processo histrico permanente, permite compreender que esses limites so potencialmente transformveis pela ao social. E aqui  possvel pensar sobre a ao poltica dos educadores. A escola no muda a sociedade, mas pode, partilhando esse projeto com segmentos sociais que assumem os princpios democrticos, articulando-se a eles, constituir-se no apenas como espao de reproduo, mas tambm como espao de transformao.
Essa possibilidade no  dada, nem  automaticamente decorrente da vontade.  antes um projeto de atuao poltico-pedaggica que implica em avaliar prticas e buscar, explcita e sistematicamente, caminhar nessa direo.
A concretizao desse projeto passa pela compreenso de que as prticas pedaggicas so sociais e polticas e de que no se trata de educar para a democracia  para o futuro. Na ao mesma da educao, educadores e educandos estabelecem uma determinada relao com o trabalho que fazem (ensinar e aprender) e a natureza dessa relao pode conter (em maior ou menor medida) os princpios democrticos.
A relao educativa  uma relao poltica, por isso a questo da democracia se  apresenta para a escola assim como se apresenta para a sociedade. Essa relao se define na vivncia da escolaridade em sua forma mais ampla, desde a estrutura escolar, em como a escola se insere e se relaciona com a comunidade, nas relaes entre os trabalhadores da escola, na distribuio de responsabilidades e poder decisrio, nas relaes entre professor e aluno, no reconhecimento dos alunos como cidados, na relao com o conhecimento.

1 No documento de Introduo aos Parmetros Curriculares Nacionais encontram-se explicitados a fundamentao e os princpios gerais dessa proposta. Nos documentos de reas e Temas Transversais, essa questo reaparece na especifidade de cada um deles.
Pg. 23
A eleio de contedos, por exemplo, ao incluir questes que possibilitem a compreenso e a crtica da realidade, ao invs de trat-los como dados abstratos a serem aprendidos apenas para "passar de ano", oferece aos alunos a oportunidade de se apropriarem deles como instrumentos para refletir e mudar sua prpria vida. Por outro lado, o modo como se d o ensino e a aprendizagem, isto , as opes didticas, os mtodos, a organizao e o mbito das atividades, a organizao do tempo e do espao que conformam a experincia educativa, ensinam valores, atitudes, conceitos e prticas sociais. Por meio deles pode-se favorecer em maior ou menor medida o desenvolvimento da autonomia e o aprendizado da cooperao e da participao social, fundamentais para que os alunos se percebam como cidados. Entretanto,  preciso observar que a contradio  intrnseca a qualquer instituio social e que, ainda que se considerem todas essas questes, no se pode pretender eliminar a presena de prticas e valores contraditrios na acuao da escola e dos educadores. Esse no  um processo simples: no existem receitas ou modelos prefixados. Trata-se de um fazer conjunto, um fazer-se na cumplicidade entre aprender e ensinar, orientado por um desejo de superao e transformao. O resultado desse processo no  controlvel nem pela escola, nem por nenhuma outra instituio: ser forjado no processo histrico-social.
A contribuio da escola, portanto,  a de desenvolver um projeto de educao comprometida com o desenvolvimento de capacidades que permitam intervir na realidade para transform-la. Um projeto pedaggico com esse objetivo poder ser orientado por trs grandes diretrizes:
posicionar-se em relao s questes sociais e interpretar a tarefa educativa como uma interveno na realidade no momento presente;
no tratar os valores apenas como conceitos ideais;
incluir essa perspectiva no ensino dos contedos das reas de conhecimento escolar.
Pg. 24

OS TEMAS TRANSVERSAIS
A educao para a cidadania requer que questes sociais sejam apresentadas para a aprendizagem e a reflexo dos alunos, buscando um tratamento didtico que contemple sua complexidade e sua dinmica, dando-lhes a mesma importncia das reas convencionais. Com isso o currculo ganha em flexibilidade e abertura, uma vez que os temas podem ser priorizados e contextualizados de acordo com as diferences realidades locais e regionais e que novos temas sempre podem ser includos. O conjunto de temas aqui proposto  tica, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Sade, Orientao Sexual, Trabalho e Consumo  recebeu o ttulo geral de Temas Transversais, indicando a metodologia proposta para sua incluso no currculo e seu tratamento didtico.
Esse trabalho requer uma reflexo tica como eixo norteador, por envolver posicionamentos e concepes a respeito de suas causas e efeitos, de sua dimenso histrica e poltica.
A tica  um dos temas mais trabalhados do pensamento filosfico contemporneo, mas  tambm um tema que escapa aos debates acadmicos, que invade o cotidiano de cada um, que faz parte do vocabulrio conhecido por quase todos.
A reflexo tica traz  luz a discusso sobre a liberdade de escolha. A tica interroga sobre a legitimidade de prticas e valores consagrados pela tradio e pelo costume. Abrange tanto a crtica das relaes entre os grupos, dos grupos nas instituies e ante elas, quanto  dimenso das aes pessoais. Trata-se, portanto, de discutir o sentido tico da convivncia humana nas suas relaes com vrias dimenses da vida social: o ambiente, a cultura, o trabalho, o consumo, a sexualidade, a sade.
Critrios Adotados para a eleio dos Temas Transversais
Muitas questes sociais poderiam ser eleitas como temas transversais para o trabalho escolar, uma vez que o que os norteia, a construo da cidadania e a democracia, so questes que envolvem mltiplos aspectos e diferentes dimenses da vida social. Foram ento estabelecidos os seguintes critrios para defini-los e escolh-los:

 Urgncia social
Esse critrio indica a preocupao de eleger como Temas Transversais questes graves, que se apresentam como obstculos para a concretizao da plenitude da cidadania, afrontando a dignidade das pessoas e deteriorando sua qualidade de vida.
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 Abrangncia nacional
Por ser um parmetro nacional, a eleio dos temas buscou contemplar questes que, em maior ou menor medida e mesmo de formas diversas, fossem pertinentes a todo o pas. Isso no exclui a possibilidade e a necessidade de que as redes estaduais e municipais, e mesmo as escolas, acrescentem outros temas relevantes  sua realidade.

 Possibilidade de ensino e aprendizagem no ensino fundamental
Esse critrio norteou a escolha de temas ao alcance da aprendizagem nessa etapa da escolaridade. A experincia pedaggica brasileira, ainda que de modo no uniforme, indica essa possibilidade, em especial no que se refere  Educao para a Sade, Educao Ambiental e Orientao Sexual, j desenvolvidas em muitas escolas.

 Favorecer a compreenso da realidade e a participao social
A finalidade ltima dos Temas Transversais se expressa neste critrio: que os alunos possam desenvolver a capacidade de posicionar-se diante das questes que interferem na vida coleciva, superar a indiferena e intervir de forma responsvel. Assim os temas eleitos, em seu conjunto, devem possibilitar uma viso ampla e consistente da realidade brasileira e sua insero no mundo, alm de desenvolver um trabalho educativo que possibilite uma participao social dos alunos.

A transversalidade
Por serem questes sociais, os Temas Transversais tm natureza diferente das reas convencionais. Tratam de processos que esto sendo intensamente vividos pela sociedade, pelas comunidades, pelas famlias, pelos alunos e educadores em seu cotidiano. So debatidos em diferentes espaos sociais, em busca de solues e de alternativas, confrontando posicionamentos diversos tanto em relao  interveno no mbito social mais amplo quanto  atuao pessoal. So questes urgentes que interrogam sobre a vida humana, sobre a realidade que est sendo construda e que demandam transformaes macrossociais e tambm de atitudes pessoais, exigindo, portanto, ensino e aprendizagem de contedos relativos a essas duas dimenses.
Nas vrias reas do currculo escolar existem, implcita ou explicitamente, ensinamentos a respeito dos temas transversais, isto , todas educam em relao a questes sociais por meio de suas concepes e dos valores que veiculam nos contedos, no que elegem como critrio de avaliao, na metodologia de trabalho que adotam, nas situaes didticas que propem aos alunos. Por outro lado, sua complexidade faz com que nenhuma das reas, isoladamente, seja suficiente para explic-los; ao contrrio, a problemtica dos temas transversais atravessa os diferentes campos do conhecimento.
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Por exemplo, ainda que a programao desenvolvida no se refira diretamente  questo ambiental e que a escola no tenha nenhum trabalho nesse sentido, a Literatura, a Geografia, a Histria e as Cincias Naturais sempre veiculam alguma concepo de ambiente, valorizam ou desvalorizam determinadas idias e aes, explicitam ou no determinadas questes, tratam de determinados contedos; e, nesse sentido, efetivam uma "certa" educao ambiental. A questo ambiental no  compreensvel apenas a partir das contribuies da Geografia. Necessita de conhecimentos histricos, das Cincias Naturais, da Sociologia, da Demografia, da Economia, entre outros.
Considerando esses fatos, experincias pedaggicas brasileiras e internacionais de trabalho com direitos humanos, educao ambiental, orientao sexual e sade tm apontado a necessidade de que tais questes sejam trabalhadas de forma contnua, sistemtica, abrangente e integrada e no como reas ou disciplinas.
Diante disso optou-se por integr-las no currculo por meio do que se chama de transversalidade: pretende-se que esses temas integrem as reas convencionais de forma a estarem presentes em todas elas, relacionando-as s questes da atualidade e que sejam orientadores tambm do convvio escolar.
As reas convencionais devem acolher as questes dos Temas Transversais de forma que seus contedos as explicitem e que seus objetivos sejam contemplados. Por exemplo, a rea de Cincias Naturais inclui a comparao entre os principais rgos e funes do aparelho reprodutor masculino e feminino, relacionando seu amadurecimento s mudanas no corpo e no comportamento de meninos e meninas durante a puberdade e respeitando as diferenas individuais. Dessa forma, o estudo do corpo humano no se restringe  dimenso biolgica, mas coloca esse conhecimento a servio da compreenso da diferena de gnero (contedo de Orientao Sexual) e do respeito  diferena (contedo de tica). Assim, no se trata de que os professores das diferentes reas devam "parar" sua programao para trabalhar os temas, mas sim de que explicitem as relaes entre ambos e as incluam como contedos de sua rea, articulando a finalidade do estudo escolar com as questes sociais, possibilitando aos alunos o uso dos conhecimentos escolares em sua vida extra-escolar. No se trata, portanto, de trabalh-los paralelamente, mas de trazer para os contedos e para a metodologia da rea a perspectiva dos temas.
 importante salientar que os temas formam um conjunto articulado, o que faz com que haja objetivos e contedos coincidentes ou muito prximos entre eles. Por exemplo, a discusso sobre o consumo traz objetivos e contedos fundamentais para a questo ambiental, para a sade, para a tica. Os valores e princpios que os orientam so os mesmos (os da cidadania e da tica democrtica) e as atitudes a serem desenvolvidas nos diferentes momentos e espaos escolares, ainda que possam ser concretizadas em atividades diferentes, so tambm fundamentalmente as mesmas, fazendo com que o trabalho dos diferentes educadores seja complementar.
A integrao, a extenso e a profundidade do trabalho podem se dar em diferentes
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nveis, segundo o domnio do tema e/ou a prioridade que se eleja nas diferentes realidades locais. Isso se efetiva atravs da organizao didtica eleita pela escola.
 possvel e desejvel que conhecimentos apreendidos em vrios momentos sejam articulados em torno de um tema em questo de modo a explicit-lo e dar-lhe relevncia2.
Para se entender o que  sade e como preserv-la,  preciso ter alguns conhecimentos sobre o corpo humano, matria da rea de Cincias Naturais.  tambm preciso ter conhecimentos sobre Meio Ambiente, uma vez que a sade das pessoas depende da qualidade do meio em que vivem. Conhecimentos de Lngua Portuguesa e 
2 Ver texto sobre Projero no final deste documento.
Matemtica tambm comparecem: questes de sade so temas de debates na imprensa, informaes importantes so veiculadas em folhetos; a leitura e a compreenso de tabelas e dados estatsticos so essenciais na percepo da situao da sade pblica. Portanto, o tema Sade tem como especificidade o fato de, alm de conhecimentos inerentes a ele, nele convergirem conhecimentos de reas distintas.
Caber aos professores mobilizar tais contedos em torno de temticas escolhidas, de forma que as diversas reas no representem continentes isolados, mas digam respeito aos diversos aspectos que compem o exerccio da cidadania.
Ao invs de se isolar ou de compartimentar o ensino e a aprendizagem, a relao entre os Temas Transversais e as reas deve se dar de forma que:

as diferentes reas contemplem   objetivos e os contedos (fatos, conceitos e princpios; procedimentos e valores; normas e atitudes) que os temas da convivncia social propem;
haja momentos em que as questes relativas aos temas sejam explicitamente trabalhadas e contedos de campos e origens diferentes sejam colocados na perspectiva de respond-las.

Alm disso o trabalho com questes sociais exige que os educadores estejam preparados para lidar com as ocorrncias inesperadas do cotidiano. Existem situaes escolares no programveis, emergentes, s quais devem responder, e, para tanto, necessitam ter clareza e articular sua ao pontual ao que  sistematicamente desenvolvido com os alunos de modo coerente.
Indo alm do que se refere  organizao dos contedos, o trabalho com a proposta da transversalidade se define em torno de quatro pontos:
os temas no constituem novas reas, pressupondo um tratamento integrado nas diferentes reas;
a proposta de transversalidade traz a necessidade de a escola refletir e atuar conscientemente na educao de valores e 
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atitudes em todas as reas, garantindo que a perspectiva poltico-social se expresse no direcionamento do trabalho pedaggico; influencia a definio de objetivos educacionais e orienta eticamente as questes epistemolgicas mais gerais das reas, seus contedos e, mesmo, as orientaes didticas;
a perspectiva transversal aponta uma transformao da prtica pedaggica, pois rompe o confinamento da atuao dos professores s atividades pedagogicamente formalizadas e amplia a responsabilidade com a formao dos alunos. Os Temas Transversais permeiam necessariamente toda a prtica educativa que abarca relaes entre os alunos, entre professores e alunos e entre diferentes membros da comunidade escolar;
a incluso dos temas implica a necessidade de um trabalho sistemtico e contnuo no decorrer de toda a escolaridade, o que possibilitar um tratamento cada vez mais aprofundado das questes eleitas. Por exemplo, se  desejvel que os alunos desenvolvem uma postura de respeito s diferenas,  fundandamental que isso seja tratado desde o incio da escolariedade e que continue sendo tratado cada vez com maiores possibilidades de reflexo, compreeno  e autonomia. Muitas vezes essas questes so vistas como sendo da natureza dos alunos (eles so ou no so respeitosos), ou atribudas ao fato de terem tido ou no essa educao em casa. Outras vezes so vistas como aprendizados possveis somente quando jovens (maiores) ou quando adultos. Sabe-se, entretanto, que  um processo de aprendizagem que precisa de ateno durante toda a escolaridade e que a  contribuio da educao ecolar  de natureza complementar  familiar: no se excluem nem se dispensam matuamente.
TRANSVERSALIDADE E INTERDISCIPLINARIDADE
A proposta de transversalidade pode acarretar algumas discusses do ponto de vista conceitual, como, por exemplo, a da sua relao com a concepo de interdisciplinaridade, bastante difundida no campo da pedagogia. Essa discusso  pertinente e cabe analisar como esto sendo consideradas nos Parmetros Curriculares Nacionais as diferenas entre os dois conceitos, bem como suas implicaes mtuas.
Ambas  transversalidade e interdisciplinaridade  se fundamentam na crtica de uma concepo de conhecimento que toma a realidade como um conjunto de dados estveis, 
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sujeitos a um ato de conhecer isento e distanciado. Ambas apontam a complexidade do real e a necessidade de se considerar a teia de relaes entre os seus diferentes e contraditrios aspectos. Mas diferem uma da outra, uma vez que a interdisciplinaridade refere-se a uma abordagem epistemolgica dos objetos de conhecimento, enquanto a transversalidade diz respeito principalmente  dimenso da didtica.
A interdisciplinaridade questiona a segmentao entre os diferentes campos de conhecimento produzida por uma abordagem que no leva em conta a inter-relao e a influncia entre eles  questiona a viso compartimentada (disciplinar) da realidade sobre a qual a escola, tal como  conhecida, historicamente se constituiu.
A transversalidade diz respeito  possibilidade de se estabelecer, na prtica educativa, uma relao entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre a realidade) e as questes da vida real e de sua transformao (aprender na realidade e da realidade). E a uma forma de sistematizar esse trabalho e inclu-lo explcita e estruturalmente na organizao curricular, garantindo sua continuidade e aprofundamento ao longo da escolaridade.
Na prtica pedaggica, interdisciplinaridade e transversalidade alimentam-se mutuamente, pois o tratamento das questes trazidas pelos Temas Transversais expe as inter-relaes entre os objetos de conhecimento, de forma que no  possvel fazer um trabalho pautado na transversalidade tomando-se uma perspectiva disciplinar rgida. A transversalidade promove uma compreenso abrangente dos diferentes objetos de conhecimento, bem como a percepo da implicao do sujeito de conhecimento na sua produo, superando a dicotomia entre ambos. Por essa mesma via, a transversalidade abre espao para a incluso de saberes extra-escolares, possibilitando a referncia a sistemas de significado construdos na realidade dos alunos.
Os Temas Transversais, portanto, do sentido social a procedimentos e conceitos prprios das reas convencionais, superando assim o aprender apenas pela necessidade escolar de "passar de ano".

Os Temas Transversais no projeto educativo da escola

O convvio escolar
O convvio escolar refere-se a todas as relaes e situaes vividas na escola, dentro e fora da sala de aula, em que esto envolvidos direta ou indiretamente todos os sujeitos da comunidade escolar.
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A busca de coerncia entre o que se pretende ensinar aos alunos e o que se faz na escola (e o que se oferece a eles)  tambm fundamental. No se ter sucesso no ensino de autocuidado e higiene numa escola suja e abandonada. Nem se poder esperar uma mudana de atitudes em relao ao desperdcio (importante questo ambiental) se no se realizarem na escola prticas que se pautem por esse valor. Trata-se, portanto, de oferecer aos alunos a perspectiva de que tais atitudes so viveis, exequveis, e, ao mesmo tempo, criar possibilidades concretas de experienci-las.
 certo que muitas medidas esto fora do alcance dos educadores, mas h muitas delas que so possveis e, quando for o caso, a reivindicao junto aos responsveis em torno da soluo de problemas  um importante ensinamento das atitudes de auto-estima, co-responsabilidade e participao.
O trabalho com os temas sociais se concretizar nas diversas decises tomadas pela comunidade escolar, o que aponta a necessidade de envolvimento de todos no processo de definio do trabalho e das prioridades a serem eleitas. Assim, a opo por esse trabalho precisa mobilizar toda a comunidade escolar no processo de definio das propostas e das prioridades a serem eleitas para o seu desenvolvimento. O fundamental  que todos possam reflerir sobre os objetivos a serem alcanados, de forma a que se definam princpios comuns em torno do trabalho a ser desenvolvido. Cada um  alunos, professores, funcionrios epais  ter sua funo nesse trabalho. Para isso,  importante que as instncias responsveis pelas escolas criem condies, que a direo da escola facilite o trabalho em equipe dos professores e promova situaes favorveis  comunicao, ao debate e  reflexo entre os membros da comunidade escolar.
Para os professores polivalentes de primeiro e segundo ciclos, essas situaes sero especialmente valiosas para que possam definir a forma de trabalhar com os Temas Transversais a partir da realidade de cada um e dentro das possibilidades da escola. Para os professores das diversas reas, de terceiro e quarto ciclos, essas situaes sero fundamentais para que possam coordenar a ao de cada um e de todos em torno do trabalho conjunto com os Temas Transversais.

O educador como cidado
Propor que a escola trate questes sociais na perspectiva da cidadania coloca imediatamente a questo da formao dos educadores e de sua condio de cidados.  Para desenvolver sua prtica os professores precisam tambm desenvolver-se como profissionais e como sujeitos crticos na realidade em que esto, isto , precisam poder situar-se como educadores e como cidados, e, como tais, participantes do processo de construo da cidadania, de reconhecimento de seus direitos e deveres, de valorizao profissional.
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Tradicionalmente a formao dos educadores brasileiros no contemplou essa dimenso. As escolas de formao inicial no incluem matrias voltadas para a formao poltica nem para o tratamento de questes sociais. Ao contrrio, de acordo com as tendncias predominantes em cada poca, essa formao voltou-se para a concepo de neutralidade do conhecimento e do trabalho educativo.
Porm, o desafio aqui proposto  o de no esperar por professores que s depois de "prontos" ou "formados" podero trabalhar com os alunos. Sem desconhecer a necessidade de investir na formao inicial e de criar programas de formao continuada,  possvel afirmar-se que o debate sobre as questes sociais e a eleio conjunta e refletida dos princpios e valores, assim como a formulao e implementao do projeto educativo j iniciam um processo de formao e mudana. A discusso sobre tica necessita ser constantemente contemplada e acompanhar de perto o trabalho que se faz com os alunos, uma vez que se trata de uma proposta nova, como processo sistemtico e explcito, necessitando aprofundamento, leituras e discusses, levantando situaes a serem experenciadas com os alunos etc.
Para o professor, a escola no  apenas lugar de reproduo de relaes de trabalho alienadas e alienantes. , tambm, lugar de possibilidade de construo de relaes de autonomia, de criao e recriao de seu prprio trabalho, de reconhecimento de si, que possibilita redefinir sua relao com a instituio, com o Estado, com os alunos, suas famlias e comunidades.

A interao  entre  escola, comunidade e outras instituies
No que se refere s problemticas sociais, alm do que est continuamente sendo produzido no mbito da Cincia, existem outros saberes produzidos em diversas instituies sociais.
O contato e a parceria para trabalhos conjuntos com as instituies e organizaes compromissadas com as questes apresentadas pelos Temas Transversais e que desenvolvem atividades de interesse para o trabalho educativo (tais como postos de sade, bibliotecas, organizaes no-governamentais, grupos culturais etc.),  uma rica contribuio, principalmente pelo vnculo que estabelece com a realidade da qual se est tratando. Por outro lado, representa uma forma de interao com o repertrio sociocultural, permitindo o resgate, no interior do trabalho escolar, da dimenso de produo coletiva do conhecimento e da realidade. Para isso  preciso buscar formas de a escola estar mais presente no dia-a-dia da comunidade e tambm o inverso, isto , a presena da comunidade no cocidiano da
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escola (pais, pessoas ligadas a associaes e instituies, profissionais que possam demonstrar o trabalho que realizam etc), de modo que a escola, os estudantes e os professores possam se envolver em atividades voltadas para o bem-estar da sua comunidade, desenvolvendo projetos que repercutam dentro e fora da escola.
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A INSERO DOS TEMAS TRANSVERSAIS NOS PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS

Os objetivos dos Temas Transversais
Ao lado do conhecimento de fatos e situaes marcantes da realidade brasileira, de informaes e prticas que lhe possibilitem participar ativa e construtivamente dessa sociedade, os objetivos do ensino fundamental apontam a necessidade de que os alunos se tornem capazes de eleger critrios de ao pautados na justia, detectando e rejeitando a injustia quando ela se fizer presente, assim como criar formas no violentas de atuao nas diferentes situaes da vida. Tomando essa idia central como meta, cada um dos temas traz objetivos especficos que os norteiam.

O tratamento dos contedos dos Temas Transversais
A incluso dos Temas Transversais exige, portanto, uma tomada de posio diante de problemas fundamentais e urgentes da vida social, o que requer uma reflexo sobre o ensino e a aprendizagem de seus contedos: valores, procedimentos e concepes a eles relacionados.

A PERSPECTIVA DA AUTONOMIA NO ENSINO DE VALORES
A autonomia refere-se, por um lado, a um nvel de desenvolvimento psicolgico (conforme explicitado no documento de tica), e, por outro lado,  uma dimenso social. A autonomia pressupe uma relao na qual os outros se fazem necessariamente presentes como alteridade. Nesse sentido, trata-se da perspectiva da construo de relaes de autonomia. No existe a autonomia pura, como se fosse uma capacidade absoluta de um sujeito isolado. Por isso, s  possvel realiz-la como processo coletivo e que implica relaes de poder no autoritrias.
Lembrando que a dimenso tica da democracia consiste na afirmao daqueles valores que garantem a todos o direito a ter direitos,  preciso fazer uma distino entre afirmao e imposio de valores.
A imposio, por si prpria, contraria o princpio democrtico da liberdade e, com isso, o mximo que se consegue  que as pessoas tenham "comportamentos adequados" quando sob controle externo, o que  essencialmente diferente da perspectiva da autonomia na construo de valores e atitudes.
O comportamento pessoal se articula com inmeros outros fatores sociais seja na
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manuteno, seja na transformao desses valores e das relaes que os sustentam. Portanto, o desenvolvimento de atitudes pressupe conhecer diferentes valores, poder apreci-los, experiment-los, analis-los criticamente e eleger livremente um sistema de valores para si.
Concretizar essa, inteno exigir que os valores eleitos e a inteno de ensin-los sejam explicitados para todos, principalmente para os alunos, e que o trabalho pedaggico inclua a possibilidade de discusso e questionamento e a no ocultao de contradies, conflitos e confrontos. Pressupe compreender que conflitos so inerentes aos processos democrticos, so o que os fazem avanar e, portanto, no so algo negativo a ser evitado. O fato de os alunos serem crianas e adolescentes no significa que sejam passivos e recebam sem resistncia ou contestao tudo o que implcita ou explicitamente se lhes quer transmitir.
Isso significa valorizar positivamente a capacidade de questionar e propor mudanas, buscando construir situaes didticas que potencializem tal capacidade e possibilitem o aprendizado de modo a utiliz-lo de forma consequente, responsvel e eficaz. Como exemplos tm-se experincias educativas de construo coletiva de regras de convvio escolar, de discusso coletiva de situaes-problema na classe e na escola, de projetos de interveno no espao escolar e extra-escolar que podem ser adaptadas aos nveis de escolaridade de acordo com a possibilidade dos alunos. Mesmo nas sries iniciais  possvel oferecer informaes, vivncias e reflexo sobre as causas e as nuanas dos valores que orientam os comportamentos e trat-los como produtos de relaes sociais, que podem ser transformados.
Outra questo fundamental para o contexto escolar  a da relao entre autonomia e autoridade: permitir que valores e normas sejam discutidos, avaliados e reformulados no significa abolir, negar ou qualificar negativamente a autoridade dos educadores. Pelo contrrio, reconhec-la  fundamental uma vez que  nela que se apoia a garantia de direitos e deveres no contexto escolar. Estabelecer relaes de autonomia, necessrias  postura crtica, participativa e livre pressupe um longo processo de aprendizagem at que os alunos sejam capazes de atuar segundo seus prprios juzos. Esse processo no dispensa a participao da autoridade dos adultos na sua orientao. O que se coloca  a necessidade dessa autoridade ser construda por meio da assuno plena da responsabilidade de educar, de intervir com discernimento e justia nas situaes de conflito, de se pautar, coerentemente, pelos mesmos valores colocados como objetivo da educao dos alunos e de reconhecer que a autoridade dos educadores na escola se referenda numa sociedade que se quer democrtica.

Os materiais usados nas situaes didticas
Os materiais que se usa como recurso didtico expressam valores e concepes a
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respeito de seu objeto. A anlise crtica desse material pode representar uma oportunidade para se desenvolver os valores e as atitudes com os quais se pretende trabalhar.
Discutir sobre o que veiculam jornais, revistas, livros, fotos, propagandas ou programas de TV trar  tona suas mensagens  implcitas ou explcitas  sobre valores e papis sociais.
Vrias anlises j mostraram, por exemplo, que na maioria dos livros didticos, a mulher  representada apenas como dona de casa e me, enquanto o homem participa do mundo do trabalho extradomstico e nunca aparece em situaes de relao afetiva com os filhos ou ocupado nos cuidados da casa. Nesse exemplo, fica subentendida a concepo a respeito do papel que  e deve ser desempenhado pelos diferentes sexos.  interessante contrap-la com essa e outras concepes presentes em outros materiais produzidos pela imprensa, por organizaes no-governarnentais, na literatura etc., de modo a no se ficar restrito apenas ao livro didtico. A discusso dessa concepo esclarecer sobre mensagens contraditrias com os valores e as atitudes que se escolheu trabalhar.
Portanto, a anlise crtica dos diferentes materiais usados em situaes didticas, discutindo-os em classe, contrapondo-os a outras possibilidades e contextualizando-os histrica, cultural e socialmente, favorecer evidenciar os valores que expressam, mostrando as formas como o fazem.
Isso  mais interessante do que simplesmente rejeit-los quando negativos, porque favorece o desenvolvimento da capacidade de analis-los criticamente de tal forma que os alunos, na medida de suas possibilidades e cada vez mais, os compreendam, percebam sua presena na sociedade e faam escolhas pessoais e conscientes a respeito dos valores que elegem para si.

OS PROCEDIMENTOS E A PERSPECTIVA DA PARTICIPAO SOCIAL
Embora menos complexo que o trabalho com valores e atitudes, o ensino e a aprendizagem de procedimentos referentes ao trabalho com questes sociais merece ateno e definio de diretrizes por parte dos educadores.
No caso das temticas sociais trata-se de contemplar aprendizagens que permitam efetivar o princpio de participao e o exerccio das atitudes e dos conhecimentos adquiridos. Nas temticas relativas  Pluralidade Cultural; por exemplo, a consulta a documentos jurdicos  necessria ao aprendizado das formas de atuao contra discriminaes.
A formao da cidadania se faz, antes de mais nada, pelo seu exerccio: aprende-se a participar, participando. E a escola ser um lugar possvel para essa aprendizagem se promover a convivncia democrtica no seu cotidiano. No entanto, se a escola negar aos alunos a possibilidade de exercerem essa capacidade, estar, ao contrrio, ensinando a
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passividade, a indiferena e a obedincia cega.  aqui que a importncia do convvio escolar ganha amplitude, a fim de tomar a escola como espao de atuao publica dos alunos.
O ensino e a aprendizagem da participao tm como suporte bsico a realidade escolar. Assim, devem ser eleitos mtodos e atividades nos quais os alunos possam opinar, assumir responsabilidades, colocar-se, resolver problemas e conflitos e refletir sobre as consequncias de seus atos. Situaes que envolvam atividades como seminrios, exposio de trabalhos, organizao de campanhas, monitoria de grupos de estudos, eleio e desenvolvimento de projetos etc., favorecem essa aprendizagem. No mesmo sentido se apresenta a possibilidade de conhecer instituies pblicas e privadas existentes na comunidade para pedir e oferecer apoio ao desenvolvimento de projetos conjuntos em Sade, Meio Ambiente, Orientao Sexual, Pluralidade Cultural, tica e Trabalho e Consumo.
 importante levar em considerao que a participao deve ser dimensionada a partir dos limites de possibilidade dos alunos e da complexidade das situaes. Crianas pequenas tm, em geral, maiores possibilidades de participar produtivamente em situaes simples nas quais possam perceber com clareza as consequncias de sua interveno.  medida que sua autonomia e sua capacidade de abstrao e reflexo aumentam e que seu pensamento, capacidade de ao e sociabilidade se ampliam, podem tomar como desafio situaes mais complexas e de maior abrangncia. A existncia de grmio estudantil ou de grupos de atividade extraclasse (como os de teatro, por exemplo) incentiva e fortalece a participao dos alunos e amplia os limites da vida escolar.
Para garantir que as possibilidades de participao se desenvolvam,  necessria uma interveno sistemtica dos professores, de forma planejada e que v se transformando de acordo com o desenvolvimento da autonomia dos alunos.

O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE CONCEITOS, COMO INSTRUMENTO DE COMPREENSO E PROBLEMATIZAO DA REALIDADE
No tratamento de questes sociais, da perspectiva aqui adotada, aprender a formular questes a respeito da realidade e das relaes que a compem apresenta-se como fundamental. Essa  tambm uma meta de longo prazo, e seu ensino demanda um trabalho sobre conceitos, ainda que essa abordagem no seja acadmica. A compreenso das questes sociais, o pensar sobre elas, analis-las, fazer proposies e avaliar alternativas exigem a capacidade de aprender informaes e relacion-las. Assim as temticas sociais, alm de atitudes e procedimentos, propem tambm contedos de natureza conceitual.

A AVALIAO DO ENSINO DE VALORES
Todos os Temas Transversais trazem contedos que, de acordo com a proposta de
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transversalidade, fazem parte do ensino das reas. Portanto, sua avaliao no  outra alm da que  feita nos seus contextos.
Entretanto,  preciso atentar para o fato de que a avaliao de valores, atitudes e procedimentos, que tm presena marcante entre os contedos dos Temas Transversais,  bastante difcil.
Ao colocar a possibilidade da avaliao de atitudes no se pode deixar de salientar os limites da atuao da escola nessa formao. Vale lembrar que a educao no pode controlar todos os fatores que interagem na formao do aluno e que no se trata de impor determinados valores, mas de ser coerente com os valores assumidos, de possibilitar aos alunos uma discusso sobre eles e a construo de critrios para a escolha pessoal.
Embora se possa saber como, quando e onde intervir e que essa interveno produz mudanas, sabe-se tambm que tais mudanas no dependem apenas das aes pedaggicas. As atitudes das crianas no dependem unicamente da ao da escola, mas tm intrincadas implicaes de natureza tanto psicolgica quanto social, nas relaes de vida familiar e comunitria. Pode-se, entretanto, intencionalmente direcionar e redirecionar a ao pedaggica em funo dos objetivos e concepes definidas. Um papel essencial da avaliao ser responder: O que est sendo produzido com essa interveno? Em que medida as situaes de ensino construdas favoreceram a aprendizagem das atitudes desejadas?".
Deve-se ter presente que a finalidade principal das avaliaes  ajudar os educadores a planejar a continuidade de seu trabalho, ajustando-o ao processo de seus alunos, buscando oferecer-lhes condies de superar obstculos e desenvolver o autoconhecimento e a autonomia  e nunca de qualificar os alunos.
Capacidades como dialogar, participar e cooperar so conquistas feitas paulatinamente em processos nem sempre lineares e que necessitam ser reafirmados e retomados constantemente. A qualificao, ou rotulao dos alunos, seja negativa ou positiva, tende a estigmatiz-los, a gerar comportamentos estereotipados e obstaculizar o desenvolvimento, alm de ser uma atitude autoritria e desrespeitosa.
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PROJETOS
Os projetos so uma das formas de organizar o trabalho didtico, que pde integrar diferentes modos de organizao curricular. Pode ser utilizado, por exemplo, em momentos especficos do desenvolvimento curricular de modo a envolver mais de um professor e uma turma, articular o trabalho de vrias reas, ou realizar-se no interior de uma nica rea.
A organizao dos contedos em torno de projetos, como forma de desenvolver atividades de ensino e aprendizagem, favorece a compreenso da multiplicidade de aspectos que compem a realidade, uma vez que permite a articulao de contribuies de diversos campos de conhecimento. Esse tipo de organizao permite que se d relevncia s questes dos Temas Transversais, pois os projetos podem se desenvolver em torno deles e serem direcionados para metas objetivas, com a produo de algo que sirva como instrumento de interveno nas situaes reais (como um jornal, por exemplo). Professores e alunos compartilham os objetivos do trabalho e os contedos so organizados em torno de uma ou mais questes. Uma vez definido o aspecto especfico de um tema, os alunos tm a possibilidade de usar o que j sabem sobre o assunto; buscar novas informaes e utilizar os conhecimentos e os recursos oferecidos pelas diversas reas para dar um sentido amplo  questo.
Para isso  importante que os professores planejem uma srie de atividades organizadas e direcionadas para a meta preestabelecida, de forma que, ao realiz-las, os alunos tomem, coletivamente, decises sobre o desenvolvimento do trabalho (no caso de um jornal, por exemplo, os assuntos que dever conter, como se organizaro para produzir as matrias, o que cada matria dever abordar etc.), assim como conheam e discutam a produo uns dos outros.
Ao final do projeto,  interessante que seu resultado seja exposto publicamente, na forma de alguma atividade de atuao no meio, isto , de uso no mbito coletivo (seja no interior da classe, no mbito da escola ou da comunidade) daquilo que foi produzido. Existem mltiplas possibilidades de projetos que visem resultados voltados para a vida comunitria, tais como os que envolvem a questo do lixo, o desperdcio, a necessidade de reciclagem e reaproveitamento de materiais, a qualidade ambiental da comunidade, o que fazer em casa, na escola, no bairro, e que podem ter resultados significativos na mudana de atitudes e prticas de todos os envolvidos, sendo o principal deles o fato de que os alunos se vejam como verdadeiros cidados.
Assim os alunos sabem claramente o que, por que e para que esto fazendo, aprendem tambm a formular questes e a transformar os conhecimentos em instrumento de ao. Para conduzir esse processo  necessrio que os professores tenham clareza dos objetivos que querem alcanar e formulem tambm claramente as etapas do trabalho.
A organizao das etapas do projeto dever ser previamente planejada de forma a comportar as atividades que se pretende realizar dentro do tempo e do espao que se dispe. Alm disso, devem ser includas no planejamento, sadas da escola para trabalho prtico, para contato com instituies e organizaes. Deve-se ter em conta que essa forma de organizao dos contedos no representa um aumento de carga horria ou uma atividade extra.
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PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS
TICA
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APRESENTAO
 ou no correTo roubar um remdio, cujo preo o torna inacessvel, para salvar algum que, sem ele, morreria? Colocado de outra forma: deve-se privilegiar o valor "vida" ou o valor "propriedade privada"? Seria um erro pensar que, desde sempre, os homens tm as mesmas respostas para questes desse tipo. Os valores so criados pelos seres humanos e tm um carter histrico  modificam-se, como se modificam as sociedades e os homens e as mulheres que as compem. Na Grcia antiga, por exemplo, a existncia de escravos era tida como perfeitamente legtima: as pessoas no eram consideradas iguais entre si, e o fato de umas no terem liberdade era considerado normal. Hoje em dia, ainda que nem sempre respeitados, os Direitos Humanos impedem que algum ouse defender, explicitamente, a escravido como algo legtimo.
O tema do documento de tica; portanto, no  novo, mas  novo ter um documento que possibilite abrir discusses sobre este assunto no contexto escolar, considerado como um espao privilegiado para uma educao em valores.
Na primeira parte, define-se o tema, descrevendo-o historicamente e referenciando-o aos valores que orientam o exerccio da cidadania numa sociedade democrtica. Aponta-se a importncia da formao tica das novas geraes, indicando-se possibilidades e limites da escola para realizar esse trabalho, no contexto das diversas influncias que a sociedade exerce sobre o desenvolvimento de crianas, adolescentes e jovens. Aps essas reflexes de cunho geral, so feitas consideraes sobre o desenvolvimento da moralidade nas pessoas, assinalando o papel da afetividade e da racionalidade nas diversas fases desse desenvolvimento, que se d sempre no interior do processo de socializao. Defende-se uma vivncia da tica no processo de ensino e aprendizagem, na perspectiva da transversalidade, apresentando-se, no final da primeira parte, os objetivos gerais da proposta de formao tica dos alunos.
A segunda parte do documento, voltada para os ciclos finais do ensino fundamental, trata dos contedos relacionados a respeito mtuo, justia, solidariedade e dilogo.
Secretaria de Educao Fundamental
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TICA
1 PARTE

TICA E SOCIEDADE

TICA e moral: o significado dos conceitos 
Os seres humanos convivem em sociedade e a aventura da convivncia desafa-os a enfrentar e procurar responder a todo momento a pergunta: "Como agir na relao com os outros?". Trata-se de uma pergunta fcil de ser formulada, mas difcil de ser respondida.Ora, esta  a questo central da Moral e da tica.
Moral e tica so palavras frequentemente empregadas como sinnimos: conjunto de princpios ou padres de conduta. A etimologia dos termos {mores, no latim, e ethos, no grego)  mesmo indicativa de um significado comum: ambos remetem  idia de costume.
Os costumes so o primeiro contedo da cultura, so maneiras de viver "inventadas" pelos seres humanos. O comportamento dos outros animais  determinado pela natureza  em qualquer tempo ou lugar, uma formiga, um castor, uma andorinha repetem os atos de formigas, castores e andorinhas que os precederam, atendendo s necessidades que a natureza lhes impe, de forma automtica, naturalmente condicionada. Com os seres humanos,  diferente, pois, para atender suas necessidades, criam formas de viver que se diferenciam em tempos e lugares diversos, constroem respostas diversificadas s necessidades inscritas na natureza, reformulando constantemente as respostas, inventando novas necessidades. Suas aes so mediadas tanto pela percepo do real como pela capacidade de formular diferentes respostas a um estimulo, uma necessidade.
Nos costumes, manifesta-se um aspecto fundamental da existncia humana: a criao de valores. Os diversos grupos e sociedades criam formas peculiares de viver e elaboram princpios e regras que regulam seu comportamento. Esses princpios e regras especficos, em seu conjunto, indicam direitos, obrigaes e deveres. No h valores em si, mas sim propriedades atribudas  realidade pelos seres humanos, a partir das relaes que estabelecem entre si e com a realidade, transformando-a e se transformando continuamente.
Valorizar significa relacionar-se com a natureza, atribuindo-lhe significados que variam de acordo com necessidades, desejos, condies e circunstncias em que se vive. Pela criao cultural, instala-se a referncia no apenas ao que , mas ao que deve ser. O que se deve fazer se traduz numa srie de prescries que as sociedades criam para orientar a conduta dos indivduos. Este  o campo da moral e da tica.
Embora as palavras que os designam tenham a mesma origem etimolgica, os conceitos de tica e moral incorporaram, em seu percurso histrico, significaes diferenciadas. No mbito da filosofia, hoje, faz-se uma distino entre eles, definindo a moral como o conjunto de princpios, crenas, regras que orientam o comportamento dos indivduos nas diversas sociedades, e a tica como a reflexo crtica sobre a moral.  importante ressaltar que, ao se estabelecer a distino, procura-se apontar de modo preciso 
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a estreita articulao que mantm e que diz respeito exatamente ao terreno dos valores, presentes na prtica e na reflexo terica de homens e mulheres nas sociedades.
 
A PRESENA DA MORALIDADE NA CULTURA
Definindo-se como o conjunto de crenas, princpios, regras que norteiam o comportamento humano, a moral  o campo em que dominam os valores relacionados ao bem e ao mal, como aquilo que deve ser buscado ou de que se deve afastar. O contedo dessas noes ganha concretude no interior de cada contexto social especfico e varia enormemente de sociedade para sociedade, de cultura para cultura, em cada situao concreta, intervm interesses, estabelecem-se poderes, emergem conflitos. O que  importante assinalar  que a moralidade  componente de todas as culturas e a dimenso moral est presente no comportamento de cada pessoa em relao com as outras, das culturas e dos povos entre si.
 na polis  espao organizado de vida e relao entre os indivduos, tomando-se como base o trabalho, a produo de bens e conhecimentos  que se configuram valores, se estabelecem direitos, se prescrevem normas, regras, leis. E tambm se contestam essas normas, regras, leis, discutem-se aqueles direitos, criam-se novos valores. Dessa maneira, se aponta a estreita relao que guarda a moral com a poltica, entendida como instncia de relaes de poder e definio de compromissos.
 importante salientar, tambm, o carter histrico da moral. No decorrer do tempo, as sociedades mudam e tambm mudam os homens e as mulheres que as compem. Ao longo da histria, as sociedades construram e modificaram seus sistemas morais, focalizando a cada momento diferentes questes e interpretando os princpios de forma s vezes surpreendente para o que se coloca hoje, e frequente mente paradoxal, como se pode verificar ainda nos sistemas contemporneos. 
Na Grcia antiga, por exemplo, os valores morais e polticos eram idnticos. As pessoas deveriam viver em conformidade com a natureza: csmica e com a ordem social, poltica e familiar, o que se conseguia comandando as paixes por meio da razo, que d normas e regras  vontade. Seguir os preceitos da moral significava ter sempre comportamentos virtuosos e o objetivo a se alcanar, vivendo moralmente, era a felicidade, naquele momento entendida como felicidade "pblica", isto , que se realizava no convvio dos cidados.
Embora considerada com um carter pblico, a felicidade ficava fora do alcance de boa parte da populao, como, por exemplo, dos escravos. A existncia de escravos era tida como perfeitamente legtima: as pessoas no eram consideradas iguais entre si e o fato de algumas no terem liberdade, e, portanto, direito  felicidade, era considerado normal.
A cultura judaico-crist trouxe a crena de que ser bom e alcanar a felicidade dependia da obedincia aos decretos e mandamentos divinos, superiores aos humanos. As virtudes passaram a ser a 
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virtudes passaram a ser a obedincia e o amor ao prximo. At a Idade Mdia, entretanto, a tortura era considerada prtica legtima, seja para a extorso de confisses, seja como castigo e expiao.
Com o advento da modernidade, a idia de um mundo regido por foras espirituais vai sendo abalada, questionada pela concepo de que o mundo  regido por leis naturais, racionais e impessoais. A racionalidade no parecia impedir, entretanto, que se mantivessem, no campo da moralidade, idias discutveis. Por exemplo, as mulheres ainda eram consideradas como seres inferiores aos homens e, portanto, no merecedoras de direitos iguais, devendo obedecer a seus maridos.
Na atualidade, discutem-se questes como a ateno  igualdade e a diferena entre os seres humanos, grupos culturais e classes sociais. Mas tambm encontra-se o paradoxo acima enunciado: enfrentam-se situaes em que se negam e desrespeitam os direitos dos seres humanos, em que dominam os preconceitos e a violncia, mas, nesse mesmo contexto, as diferenas aparecem como foras libertadoras da cultura e busca-se uma reflexo que permita a ampliao de um espao pblico de dilogo e de ao coletiva. 

A DIMENSO PESSOAL DA MORALIDADE
A dimenso moral das aes implica em um posicionamento em relao aos valores, aos deveres. Por se caracterizarem como seres livres, com capacidade de superar, de alguma maneira, o determinismo da natureza, os seres humanos tm possibilidade de escolha.
Escolher implica comparar e valorar. Assim, torna-se necessria a elaborao de critrios que classifiquem as aes como boas ou ms, correias ou inadequadas, e que orientem e justifiquem a escolha, que se configura como uma resposta diante das prescries da sociedade. A responsabilidade , portanto, o ncleo da ao moral, constitudo por vrios elementos que nele se cruzam. O primeiro deles  a liberdade, traduzida na possibilidade de fazer escolhas, de tomar partido. Se o indivduo no pode fazer sua escolha entre a obedincia e transgresso, no pode ser responsabilizado por sua ao. A liberdade associamse a conscincia e a vontade.
Cada um dos componentes da ao moral ganha sentido na articulao com os demais (no adianta querer realizar um gesto bom, se no se pode realiz-lo; no adianta poder, se no se tem conscincia do que  bom; no adianta ter conscincia e no empenhar a vontade etc.), e na afirmao de seu carter relacional. Em todas as sociedades humanas h razes para a obedincia e razes para a rebeldia. A responsabilidade implica o conhecimento dessas razes e a considerao daqueles a quem se dirige ou com quem se partilha a resposta.
Dizer que o indivduo faz escolhas morais no , entretanto, afirmar que existem morais individuais. Cada ser humano posiciona-se diante de um conjunto de valores que no foram criados por ele isoladamente, mas no contexto das relaes com outros seres humanos.  dentro do contexto social, dos grupos de que faz parte, que o indivduo
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desenvolve suas potencialidades, inclusive sua moralidade. A relao de responsabilidade envolve poder e interdependncia. Ela remete, assim, de certo modo,  noo de cuidado.Ser responsvel  ter cuidado com o poder que se exerce, ao realizar escolhas e definir caminhos para a ao. E preciso ter claro, portanto, que o que se verifica  um posicionamento de cada pessoa frente aos valores e princpios que so criados e que tm significao no mbito mais amplo de uma comunidade humana.

A TICA: REFLEXO CRTICA 
Todas as instncias da vida social tm uma dimenso moral.  preciso possuir critrios, valores e, mais ainda, estabelecer relaes e hierarquias entre esses valores para viver em sociedade. O cotidiano coloca clara e constantemente essa necessidade. Por exemplo,  ou no correto roubar um remdio, cujo preo  inacessvel, para salvar algum que, sem ele, morreria? Colocado de outra forma: deve-se privilegiar o valor "vida" (salvar algum da morte) ou o valor "propriedade privada" (no sentido de no roubar)? Obviamente este exemplo apela para extremos, no to frequentes no dia-a-dia das pessoas. Porm, conflitos menos extremados so comuns e, em ltima instncia, as respostas a eles passam pela deciso pessoal, influenciada pelas representaes sociais e pela insero cultural e poltica do indivduo.
Diante dos conflitos, das questes complexas, percebem-se os limites das respostas oferecidas pela moral e a necessidade de problematizar essas respostas, verificar a consistncia de seus fundamentos.  a que entra a tica.
A tica  a reflexo crtica sobre a moralidade. Ela no tem um carter normativo, pois, ao fazer uma uma reflexo tica, pergunta-se sobre a consistncia e a coerncia dos valores que norteiam as aes, busca-se esclarecer e questionar os princpios que orientam essas aes, para que elas tenham significado autntico nas relaes. H uma multiplicidade de doutrinas morais que, pelo fato de serem histricas, refletem as circunstncias em que so criadas ou em que ganham prestgio. Assim, so encontradas doutrinas morais cujos princpios procuram fundamentar-se na natureza, na religio, na cincia, na utilidade prtica.
As questes que se colocam a respeito das aes encontram resposta, de imediato, nas diversas doutrinas. Para a pergunta "por que devemos agir de determinada maneira?", encontram-se respostas diversas, como: "porque est escrito nos Mandamentos", "porque est demonstrado pela teoria x", "porque traz vantagens" etc. A pergunta crtica colocada pela tica  de natureza diferente, pois sua inteno  problematizar exatamente os fundamentos. Ela indagar: "que valores sustentam os Mandamentos?", "qual o suporte da teoria x?", "para quem tal ao traz vantagens?". A tica serve, portanto, para verificar a coerncia entre prticas e princpios, e questionar, reformular ou fundamentar os valores e as normas componentes de uma moral, sem ser em si mesma normativa. Entre a moral e a
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tica h um constante movimento, que vai da ao para a reflexo sobre seu sentido e seus fundamentos, e da reflexo retorna  ao, revigorada e transformada.
A tica trata de princpios e no de mandamentos. Supe que os seres humanos devam ser justos. Porm, como ser justo? Ou como agir de forma a garantir o bem de todos? No h resposta predefnida.  preciso entender as concepes relacionadas aos princpios que contribuem para a construo da moralidade do cidado, levando em considerao conhecimentos histricos e sociais que resgatem a gnese desses princpios na prtica social.
Os valores diferem de sociedade para sociedade. Numa mesma sociedade, valores diferentes fundamentam interesses diversos. No cotidiano esto sempre presentes valores diferenciados, e a diversidade pode levar, sem dvida, a situaes de conflito. Longe de querer dissolver esses conflitos, impondo uma harmonia postia,  importante que se instale a atitude problematizadora. O que  preciso considerar, sempre,  que no existem normas acabadas, regras definitivamente consagradas. A moral sofre transformaes, principalmente quando submetida  reflexo realizada pela tica.
A distino que se faz contemporaneamente entre tica e moral tem a inteno de salientar o carter crtico da reflexo, que permite um distanciamento da ao, para analis-la constantemente e reformul-la, sempre que necessrio. Por ser reflexiva, a tica tem, sem dvida, um carter terico. Isso no significa, entretanto, que seja abstraia, ou metafsica, descolada das aes concretas. No se realiza o gesto da reflexo por mera vontade de fazer um "exerccio de crtica". A crtica  provocada, estimulada, por problemas, questes-limites que se enfrentam no cotidiano das prticas. A reflexo tica s tem possibilidade de se realizar exatamente porque se encontra estreitamente articulada a essas aes, nos diversos contextos sociais. E nessa medida que se pode afirmar que a prtica cotidiana transita continuamente no terreno da moral, tendo seu caminho iluminado pelo recurso  tica.
Nas sociedades de todos os tempos, a educao, mesmo com um carter informal, tem tido o papel de socializao - conservao e transformao  da cultura, do conhecimento e dos valores. Tem, portanto, como todas as instncias da vida social, uma dimenso moral.
Ao se apresentar a tica na escola como um componente curricular transversal, h, sem dvida, uma inteno de se realizar uma educao moral, na perspectiva do desenvolvimento da capacidade de autonomia das crianas e jovens com quem se trabalha.
A moral j se encontra instalada na prtica educativa que se desenvolve nas escolas: o cotidiano escolar est encharcado de valores que se traduzem em princpios, regras, ordens, proibies. O que se quer  que a tica a encontre espao, a fim de que se reflita sobre esses princpios (em que se fundamentam?), essas regras (qual a sua finalidade?), essas ordens (a que interesses atendem?), essas proibies (que resultado pretendem?), para que se instalem aes/relaes eferivamente democrticas. A tica  um eterno pensar, refletir, construir. E, na escola, sua presena deve contribuir para que os alunos possam
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tomar parte nessa construo, serem livres e autnomos para pensar e julgar, para problematizar constantemente o viver pessoal e coletivo, fazendo o exerccio da cidadania. 
                                                     tica e cidadania:
os princpios fundamentais da vida democrtica
O CARTER POLTICO DA PARTICIPAO DOS INDIVDUOS NA SOCIEDADE
O carter social da vida dos seres humanos  um processo, uma construo, da qual participa cada indivduo na relao com os outros. As relaes entre as pessoas so mediadas pelas instituies em que elas convivem, pelas classes e categorias a que pertencem e pelos interesses e poderes que nelas circulam.  por essa razo que, mais do que se falar numa natureza humana, como um universal abstrato, vale referir-se  condio humana, forma concreta de existncia dos seres humanos na cultura e na histria. As vivncias particulares cruzam-se na construo coletiva das sociedades e culturas, e umas e outras ganham sua configurao especfica em funo das condies particulares dos seres humanos e dos ambientes  fsico-biolgicos e histrico-econmico-polticos  nos quais esses vivem.
A cidadania  tambm uma condio construda historicamente. Compreenses  diversas do conceito de cidadania so encontradas em contextos e situaes diferentes.
Seu sentido mais pleno aponta para a possibilidade de participao efetiva na produo e usufruto de valores e bens de um determinado contexto, na configurao que se d a esse contexto, e para o reconhecimento do direito de falar e ser ouvido pelos outros.
A vida poltica  forma da existncia humana em comum e diz respeito tanto s vivncias de carter privado, na instncia da intimidade dos indivduos ou dos grupos, quanto ao poder de participao na esfera pblica. Ser cidado  participar de uma sociedade, tendo direito a ter direitos, bem como construir novos direitos e rever os j existentes.
Participar  ser parte e fazer parte  com seu fazer, sua interferncia criativa na construo da sociedade, os indivduos configuram seu ser, sua especificidade, sua marca humana.
Admitir e defender direitos humanos significa reconhecer no apenas esta ou aquela propriedade de alguns sujeitos, mas que o direito de ser humano  um estatuto que todas as pessoas tm o dever moral de, consciente e voluntariamente, conceder-se
umas s outras.
A dimenso moral das aes humanas guarda uma perspectiva de intencionalidade.
Ao agir no mundo, construindo sua vida, na relao com os outros, o ser humano o faz com vistas  sua realizao. Essa realizao no tem o significado de cumprimento de algo j
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estabelecido de antemo, de uma natureza previamente dada, ou de um destino. Apresenta- se, sim, como a perspectiva de concretizar algo definido como bem, que vai ao encontro de necessidades e desejos das pessoas de uma determinada cultura, e tem, sempre, um carter histrico.
Um dos nomes do bem, como finalidade da vida humana,  felicidade, aqui entendida como concretizao de vida humana, que tem sempre um carter coletivo. Isso no quer dizer que no possa ou no deva haver a experincia particular de felicidade. Entretanto, o que se demanda numa sociedade, na perspectiva de sua dimenso poltica,  que se compartilhem as condies de felicidade.
O bem comum  bem coletivo, bem pblico. O pblico  "o pertencente ou destinado  coletividade, o que  de uso de todos, aberto a quaisquer pessoas"1. , ento, "o campo da democracia", como espao de realizao de direitos civis  liberdade de ir e vir, de pensamento e f, de propriedade; direitos sociais , de bem-estar econmico, de segurana; e de direitos polticos  de participao no exerccio do poder  de todos os homens e mulheres. Ao entender o poder como possibilidade de atuao, de interferncia e determinao de rumos na sociedade, verifica-se que, para haver uma sociedade realmente democrtica, o exerccio do poder deve se dar numa perspectiva de

1FERREIRA, A. B. H., 1986.
pluralidade.
Essa perspectiva de pluralidade est intimamente articulada  de alteridade, de considerao e valorizao da presena do outro como constituinte da identidade de cada indivduo. Cada pessoa , sem dvida, singular, distinta de todas as outras. Tal singularidade, entretanto, se constitui na relao, no contexto material e simblico da vida coletiva. Quando se ignora o outro, quando se age como se ele no existisse, deturpa-se esse sentido de singularidade, fazendo com que se instale o individualismo.
Cidadania  liberdade em companhia. A liberdade que se experimenta socialmente no significa apenas ausncia de constrangimentos, mas principalmente possibilidade de empreender uma ao, um gesto que tem, na relao com os outros em sociedade, um carter poltico. A experincia da liberdade se d num contexto social, coletivo e, portanto, ningum  livre sozinho. Isso significa que, para garantir a existncia da liberdade, os indivduos devem ser capazes de formular opes que levem em considerao sua satisfao, tendo conscincia da importncia de contemplar simultaneamente necessidades e desejos dos que esto  sua volta  este  um diferencial na noo de liberdade. A liberdade  compartilhada e, portanto, o  tambm a responsabilidade: co-responsabilidade, partilha de deveres e poderes, que pressupe a criao de um espao de superao do individualismo e de possibilidade de definio de regras e normas de comportamento com a participao de todos e levando-se em conta a felicidade de todos2.
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Pode-se compreender, assim, a estreita relao entre tica e poltica.  como cidados que as pessoas fazem suas escolhas, tomam partido diante das opes apresentadas socialmente. A reflexo crtica sobre os fundamentos e princpios democrticos de exerccio do poder favorece a ampliao da participao poltica e a afirmao da dignidade humana.

DIGNIDADE DA VIDA HUMANA
A vida humana ganha sua riqueza se  construda e experimentada tomando como referncia o princpio da dignidade. Segundo esse princpio, toda e qualquer pessoa  digna e merecedora do respeito de seus semelhantes, e tem direito a boas condies de vida e a oportunidades de realizar seus projetos. Caractersticas particulares  sexo, idade, etnia, religio, classe social, grau de instruo, necessidades ou talentos especiais, opo poltica e ideolgica etc.  no aumentam nem diminuem a dignidade de uma pessoa.
A sociedade  composta de pessoas diferentes entre si, no somente em funo de suas personalidades singulares, como tambm relativamente a categorias ou grupos. A diversidade tem como implicao uma multiplicidade de comportamentos e relaes, o que guarda a possibilidade de enriquecimento das pessoas envolvidas.
Entretanto, a par da riqueza decorrente da diversidade existem preconceitos e discriminaes, o que resulta frequentemente em conflitos e violncia. Assumindo a atitude preconceituosa, alguns acham que determinadas pessoas no merecem considerao, seja porque so mulheres, porque so negras, porque so pobres, doentes, portadores de necessidades especiais etc.
Do ponto de vista da tica, o preconceito pode traduzir-se de vrias formas. A mais freqente  o no reconhecimento da universalidade de alguns princpios morais universais. 
Por exemplo, algum pode considerar que deve respeitar as pessoas que 
2 Assim como no h moral individual, no h bem seno na relao com os outros. Compreende-se, ento, que, do ponto de vista da tica,  impossvel ser feliz sozinho. 
pertencem a seu grupo, ser honesto com elas, no engan-las, no violent-las etc., mas no ver o mesmo respeito como necessrio em relao s pessoas de outros grupos. Mais ainda: mentir para membros de seu grupo pode ser considerado desonroso, mas enganar os "estranhos", pelo contrrio, pode ser visto como um ato merecedor de admirao. Outra traduo dos preconceitos  a intolerncia: no se aceita a diferena e tenta-se, de toda forma, censurla, silenci-la. Finalmente,  preciso pensar na indiferena: o outro, por no ser do mesmo grupo,  ignorado e no merecedor da mnima ateno.
A atitude de preconceito est na direo oposta do que se requer para a existncia de uma sociedade democrtica, pluralista por definio. Para que o conceito de cidadania, como participao criativa na construo da cultura e da histria, possa ganhar eferivamente seu sentido, as relaes entre os indivduos devem estar sustentadas por atitudes de respeito mtuo, dilogo, solidariedade e justia. 
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A SOCIEDADE BRASILEIRA HOJE: DESAFIOS  REFLEXO TICA 
Se a escola deve ter como tarefa a formao da cidadania e se esta ganha seu sentido pleno num contexto democrtico,  fundamental verificar que situao existe hoje no Brasil. As leis que regem as aes do povo brasileiro apontam eferivamente na dreo da cidadania? Mais ainda, que atitude tm os indivduos diante delas? A educao que se oferece nas escolas capacita de fato os indivduos para atuar crtica e construtivamente?
Em busca de resposta,  imperativa a remisso  referncia nacional brasileira: a Constituio da Repblica Federativa do Brasil, promulgada em 1988, na qual se encontram os princpios ticos que devem reger a sociedade brasileira.
So diversos os trechos da Constituio que remetem a questes morais. Seu primeiro artigo, por exemplo, traz como fundamentos da Repblica Federativa do Brasil a dignidade da pessoa humana e o pluralismo poltico, entre outros. A idia segundo a qual todo ser humano, sem distino, merece tratamento digno, corresponde a um valor moral. Segundo esse valor, a pergunta de como agir perante os outros recebe uma reposta precisa: agir sempre de modo a respeitar a dignidade, sem humilhaes ou discriminaes. O pluralismo poltico tambm pressupe um valor moral: os homens tm direito de ter suas opinies, de express-las, de organizar-se em torno delas. No se deve, portanto, obrig-los a silenciar ou a esconder seus pontos de vista; vale dizer, so livres.
No artigo 3, l-se que constituem objetivos fundamentais da Repblica Federativa do Brasil, entre outros: "construir uma sociedade livre, justa e solidria"; "erradicar a pobreza e a marginalizao e reduzir as desigualdades sociais e regionais"; "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raa, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminao".
No  difcil identificar valores morais em tais objetivos, que falam em justia, igualdade, solidariedade. No artigo 5, v-se que  um princpio constitucional o repdio ao racismo, que limita aes e discursos.
 No ttulo II, artigo 5, mais  itens esclarecen as bases morais  escolhidas pela sociedade brasileira; "homens e  mulheres so iguais em direitos e obrigaos; ningum  ser submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante; inviolvel a liberdade de conscincia e de crena ;so inviolveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. 
A partir dessa anlise, dois pontos devem ser enfatizados.
O primeiro refere-se ao que se poderia chamar de ncleo moral de uma sociedade, ou seja, valores eleitos como necessrios ao convvio entre os membros dessa sociedade.
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Trata-se de um consenso mnimo, de um conjunto central de valores, indispensvel  organizao das sociedades: sem esse conjunto central, corre-se o risco de se cair numa total relativizao das regras e no ser possvel a convivncia democrtica, a construo e o fortalecimento do pas. Verifica-se, por exemplo, que, de acordo com as leis, na sociedade brasileira, no  permitido agir de forma preconceituosa, presumindo a inferioridade de alguns (em razo de etnia, sexo ou cor), sustentar e promover a desigualdade, humilhar etc.
O recurso  letra da lei verifica que se encontram contempladas as questes fundamentais que dizem respeito  perspectiva de realizao da cidadania em relao a uma formulao em princpios gerais. Porm, o prprio conjunto da legislao brasileira ainda guarda contradies com os princpios expressos na Constituio. Questes que dizem respeito  inadequao de algumas leis vigentes em relao  igualdade de direitos entre homens e mulheres, ao respaldo legal a algumas formas de associao civil e  necessidade de reforma de alguns cdigos e conjuntos de leis so alguns exemplos de contradies vistos quase que diariamente.
A necessidade de ajustes do conjunto de leis aos princpios expressos na Constituio brasileira  apenas um dentre os vrios exemplos de conflito de valores e regras que podem ser observados e ressalta que a democratizao de uma sociedade  um processo, uma construo na qual se colocam impasses, incoerncias e possibilidades de superao. Isso remete ao segundo ponto que deve ser enfatizado, o do carter democrtico da sociedade brasileira.
A democracia  um regime poltico e tambm um modo de sociabilidade que permite a expresso das diferenas, a expresso de conflitos, em uma palavra, a pluralidade. Portanto, no desdobramento do que se chama de conjunto central de valores, devem valer a liberdade, a tolerncia, a sabedoria de conviver com o diferente, com a diversidade, tanto do ponto de vista de valores quanto de costumes, crenas religiosas, expresses artsticas, capacidades e limitaes etc. Tal valorizao da liberdade no est em contradio com a presena de um conjunto central de valores. Ao contrrio, o conjunto garante, justamente, a possibilidade da liberdade humana, coloca-lhe fronteiras precisas para que todos possam usufruir dela, para que todos possam preserv-la.
No  isso o que se tem percebido no conjunto da sociedade brasileira, pois sua trajerria histrica no criou uma tradio democrtica, de prticas sociais efetivamente pautadas nesse princpio. Distribuio injusta de renda, desigualdade no acesso aos bens materiais e culturais, relaes autoritrias e at mesmo violentas, salpicadas por breves momentos de democratizao, tm marcado a sociedade brasileira e produziram formas especficas de relacionamento entre os indivduos, com as instituies e com as leis.
Assim, muitos tm se questionado se vivem de fato em uma sociedade democrtica. Os valores expressos na Constituio afirmam que sim. As prticas cotidianas concretas, recheadas de discriminaes, preconceitos, violncias, desconsideraes, parecem afirmar
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que no.  argumento corrente que essa contradio no  um problema apenas brasileiro, mas que se pode observar em quase todos os pases. Porm cabe a reflexo sobre a especificidade da sociedade brasileira.
E de extrema importncia que os princpios gerais que regem este pas j estejam formulados atualmente na direo da democracia, mas ao observar as atitudes e relaes que se desenvolvem nas diversas instncias da sociedade, pode-se perceber o fosso que separa a legislao e o comportamento dos indivduos, qualquer que seja sua classe social, sua categoria profissional ou sua localizao geogrfica. Se a lei maior brasileira preconiza a incluso e a equalizao de direitos, as prticas sociais, polticas e econmicas ainda produzem excluso e desigualdades, seja por meio da estrutura socioeconmica e pelo modelo de desenvolvimento, seja pelos valores, concepes e preconceitos produzidos e reproduzidos na cultura3.
Percebe-se uma mentalidade de "salve-se quem puder", um esforo em "levar vantagem", como sinnimo de "passar sobre os outros" para conseguir seus objetivos. Zomba-se da lei, na medida em que esta parece perder sua essncia, quando  desprezada ou interpretada de maneira equivocada, favorecendo interesses escusos e colocada, paradoxalmente, a servio dos privilgios e da discriminao. A atitude discutvel daqueles que deveriam fazer valer os preceitos e zelar por sua concretizao no contexto social revela, com frequncia, o cinismo, a indiferena diante dos valores.
Em decorrncia do cinismo e da indiferena diante da lei, instala-se um "relativismo moral", entendido como "cada um  livre para eleger todos os valores que quer". Tal atitude provoca uma desintegrao nas relaes de convivncia. Mais ainda, desemboca numa desesperana, numa negao da utopia. E sem esperana, sem uma viso utpica, que acredita que a sociedade do futuro est no presente, perde-se o sentido da construo conjunta da democracia. A esperana transita num espao em que se coloca aos homens o desafio de construir o possvel, criando uma sociedade na qual a questo da moralidade deve ser uma questo de todos e de cada um. 
 este o desafio maior que se apresenta  sociedade, mais particularmente,  escola, espao de socializao e criao de conhecimentos e valores. Trabalhar com crianas e adolescentes de maneira responsvel e comprometida, do ponto de vista tico, significa proporcionar as aprendizagens de contedos e desenvolvimento de capacidades para que possam intervir e transformar a comunidade de que fazem parte, fazendo valer o princpio da dignidade e criando espaos de possibilidade para a construo de projetos de felicidade. 
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A TICA NA EDUCAO ESCOLAR
As pessoas no nascem boas ou ms:  a sociedade, quer queira, quer no, que educa moralmente seus membros: a famlia, os meios de comunicao, o convvio com outras pessoas tm influncia marcante no comportamento de crianas, jovens e adolescentes. E, sem dvida, a escola tambm tem.  preciso deixar claro que ela no deve ser considerada onipotente, nica instituio social capaz de educar moralmente as novas geraes. Tambm no se pode pensar que a escola garanta total sucesso em seu trabalho de formao. Na verdade, seu poder  limitado. Todavia, tal diagnstico no justifica uma desero. Mesmo com limitaes, a escola participa da formao moral de seus alunos. Valores e regras so transmitidos pelos professores, pelos livros didticos, pela organizao institucional, pela forma de avaliao, pelos comportamentos dos prprios alunos. Assim, em vez de deix-las ocultas,  melhor que tais questes recebam tratamento explcito, que sejam assuntos de reflexo da escola como um todo, e no apenas de cada professor. Da a proposta da presena da tica na organizao curricular. 
Trazer a tica para o espao escolar significa enfrentar o desafio de instalar, no processo de ensino e aprendizagem que se realiza em cada uma das reas de conhecimento, uma constante atitude crtica, de reconhecimento dos limites e possibilidades dos sujeitos e das circunstncias, de problematizao das aes e relaes e dos valores e regras que os norteiam. Configura-se, assim, a proposta de realizao de uma educao moral que proporcione s crianas e adolescentes condies para o desenvolvimento de sua autonomia, entendida como capacidade de 

3 Para maior clareza do assunto, ver documentos de Apresentao dos Temas Transversais, Trabalho e Consumo, Pluralidade Cultural.
posicionar-se diante da realidade, fazendo escolhas, estabelecendo critrios, participando da gesto de aes coletivas. O desenvolvimento da autonomia  um objetivo de todas as reas e temas transversais e, para alcan-lo,  preciso que elas se articulem. A mediao representada pela tica estimula e favorece essa articulao.

A formao moral e o contexto escolar  
Todas as sociedades buscam desenvolver meios de preservar suas formas constitudas de viver coletivamente, criando mecanismos de transmisso de conhecimentos acumulados e de valores aos seus membros mais jovens. Entretanto, essa transmisso no se caracteriza pela mera reproduo de valores e conhecimentos. Ela se d, na verdade, na articulao contraditria de permanncia e mudana, manuteno e inovao. As diversas instituies sociais so responsveis por esse processo de formao e sua dimenso moral. A instituio escolar, que tem como tarefa especfica a socializao do conhecimento, tem sido alvo de discusses sobre a pertinncia ou necessidade de incumbir-se tambm da formao moral de seus membros. Na histria educacional brasileira, essa questo manifestou-se de diferentes maneiras em diferentes pocas.
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Em 1826, o primeiro projeto de ensino pblico apresentado  Cmara dos Deputados previa que o aluno deveria ter "conhecimentos morais, cvicos e econmicos". No se tratava de contedos, pois no havia ainda um currculo nacional com elenco de matrias. Quando tal elenco foi criado, em 1909, a educao moral no apareceu como contedo, mas havia essa preocupao quando se tratou das finalidades do ensino. Em 1942, a Lei Orgnica do Ensino Secundrio falava em "formao da personalidade integral do adolescente", e em acentuao e elevao da "formao espiritual, conscincia patritica e conscincia humanista" do aluno. Em 1961, a Lei de Diretrizes e Bases do Ensino Nacional colocava entre suas normas a "formao moral e cvica do aluno". Em 1971, por meio da Lei n 5.692/71, institui-se a Educao Moral e Cvica como rea da educao escolar no Brasil.
A atual Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (Lei n 9.394, de 20/12/96), em seu ttulo II, artigo 2, afirma que "a educao, dever da famlia e do Estado, inspirada nos princpios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exerccio da cidadania e sua qualificao para o trabalho".
Verifica-se, portanto, uma preocupao com a dimenso moral da educao e uma inteno de contempl-la nas propostas que se apresentam  sociedade. Como instituio especificamente destinada  educao, a escola deve empenhar-se na formao moral de seus alunos, embora no seja a nica instituio social que participa dessa formao. Assim, coloca-se em discusso o carter de sua participao.

POSSIBILIDADES E LIMITES DA ESCOLA NA FORMAO MORAL
Logo ao nascer, o ser humano se relaciona com regras e valores da sociedade em que est inserido. No interior do grupo familiar, h sempre uma ou mais pessoas que se responsabilizam pela sobrevivncia e pela formao do novo membro. A famlia , ento, o primeiro espao de convivncia da criana. Mas no o nico.
Ao lado da famlia, outras instituies sociais veiculam valores e desempenham um papel na formao moral e no desenvolvimento de atitudes. A presena constante dos meios de comunicao de massa (televiso, rdio, jornais, revistas, propagandas dos mais variados tipos etc.) nos espaos pblicos e privados, conferem a eles um grande poder de influncia e de veiculao de valores, de modelos de comportamento. A insero em alguma religio contribui da mesma forma. As vrias instituies sociais, motivadas por interesses diversos, de formao moral ou no, concorrem quando buscam desenvolver atitudes que expressam valores. Os indivduos transitam por algumas dessas instituies durante toda a sua vida; em outras, por perodos determinados; e em outras, ainda, nunca transitaro.
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O fato  que, inevitavelmente, os indivduos se constituem como tais convivendo simultaneamente com sistemas de valores que podem ser convergentes, complementares ou conflitantes, dentro do tecido complexo que  o social.
As influncias que as instituies e os meios sociais exercem so fortes, mas no assumem o carter de uma predeterminao. A constituio de identidades, a construo da singularidade de cada um, se d na histria pessoal, na relao com determinados meios sociais; configura-se como uma interao entre as presses sociais e os desejos, necessidades e possibilidades afetivo-cogntivas do sujeito vivida nos contextos socioeconmicos, culturais e polticos.
Os diversos valores, normas, modelos de comportamento que o indivduo compartilha nos diferentes meios sociais a que est integrado ou exposto colocam-se em jogo nas relaes cotidianas. A percepo de que determinadas atitudes so contraditrias entre si ou em relao a valores ou princpios expressos pelo prprio sujeito no  simples e nem bvia. Requer uma elaborao, implicando reconhecer os limites para a coexistncia de determinados valores e identificar os conflitos e a incompatibilidade entre outros.
A forma de operar com a diversidade de valores por vezes conflitantes tambm  dada culturalmente, ainda que do ponto de vista do sujeito dependa tambm do desenvolvimento biopsicolgico. Os preconceitos, discriminaes, o negar-se a dialogar com sistemas de valores diferentes daqueles do seu meio social, o agir de forma violenta com aqueles que possuam valores diferentes, so aprendidos.
A escola, como uma instituio pela qual espera-se que passem todos os membros da sociedade, coloca-se na posio de ser mais um meio social na vida desses indivduos. Tambm ela veicula valores que podem convergir ou conflitar com os que circulam nos outros meios sociais que os indivduos freqentam ou a que so expostos. Deve, portanto, assumir explicitamente o compromisso de educar os seus alunos dentro dos princpios democrticos.
Se entendida como apenas mais um meio social que veicula valores na vida das pessoas que por ela passam, a escola encontra seu limite na legitimidade que cada um dos indivduos e a prpria sociedade conferir a ela. Se entendida como espao de prticas sociais em que os alunos no apenas entram em contato com valores determinados, mas tambm aprendem a estabelecer hierarquia entre valores, ampliam sua capacidade de julgamento e a conscincia de como realizam escolhas, ampliam-se as possibilidades de atuao da escola na formao moral, j que se ocupa de uma formao tica, para formao de uma conscincia moral reflexiva cada vez mais autnoma, mais capaz de posicionar-se e atuar em situaes de conflito.
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EXPERINCIAS ESCOLARES DE EDUCAO MORAL
Para situar a presente proposta curricular,  preciso comear por comentar algumas experincias  aqui classificadas por tendncias  de formao moral que j foram tentadas, no Brasil e no exterior, buscando-se nelas os elementos positivos e as limitaes, de forma a tornar possvel uma discusso mais abrangente sobre quais elementos devem ser considerados na formao moral e quais as possibilidades didticas de tratamento dessas questes na escola.

 Tendncia filosfica
Essa tendncia manifesta-se na apresentao dos vrios sistemas ticos produzidos historicamente pela Filosofia (as idias dos antigos filsofos gregos, por exemplo, ou aquelas do sculo XVIII, dito da Ilustrao). No se procura fazer uma discusso sobre o que  o Bem e o que  o Mal, mas promover o conhecimento das vrias opes de pensamento tico, para que os alunos os conheam e reflitam sobre eles. E, se for o caso, que escolham o seu.

 Tendncia cognitivista
De maneira semelhante  tendncia filosfica, esta tendncia d importncia ao raciocnio e  reflexo sobre questes morais, e no  apresentao de um elenco de valores a serem "aprendidos" pelos alunos. Difere, entretanto, com relao ao contedo. Enquanto na primeira os alunos so convidados a pensar sobre os escritos de grandes autores dedicados ao tema, na segunda apresentam-se dilemas morais a serem discutidos em grupo. Um exemplo, j comentado anteriormente: pede-se aos alunos que discutam sobre a correo moral do gesto de um marido que, por no ter dinheiro suficiente, rouba um remdio para salvar a mulher, que sofre de cncer, pois o farmacutico, alm de cobrar um preo muito alto, no quer de forma alguma facilitar as formas de pagamento. Verifica-se que tal dilema ope dois valores: o respeito  lei ou  propriedade privada e  vida. A nfase do trabalho  dada na demonstrao do porqu uma ou outra opo  boa, e no na opo em si. Algum poder dizer que no se deve roubar porque seno vai para a cadeia; outro poder argumentar que as leis devem sempre ser seguidas, independentemente de haver ou no sanes. No primeiro caso, trata-se de medo da punio; no segundo, de um esprito "legalista". Ainda que a opo final seja a mesma  no roubar, o raciocnio  totalmente diferente. E  justamente esse raciocnio que a tendncia cognitivista quer trabalhar e desenvolver, do ponto de vista metodolgico.
A virtude das tendncias filosfica e cognitivista  sublinhar o papel decisivo da racionalidade. Seu defeito  justamente limitar-se ao objeto eleito. Conhecer a filosofia  edificante, raciocinar sobre dilemas  atividade inteligente. Mas no  suficiente para tornar desejveis as regras aprendidas e pensadas. Nem sempre excelentes argumentos racionais fazem vibrar a corda da sensibilidade afetiva.
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 Tendncia afetivista
Trata-se de procurar fazer os alunos encontrarem seu equilbrio pessoal e suas possibilidades de crescimento intelectual por meio de tcnicas psicolgicas. Procura-se fazer com que cada um tome conscincia de suas orientaes afetivas concretas, na esperana de que, de bem consigo mesmo, possam conviver de forma harmoniosa com seus semelhantes. Ao invs de se discutirem dilemas abstratos, como na proposta cognitivisca, apreciam-se questes concretas acontecidas na vida dos alunos e procura-se pensar sobre as reaes afetivas de cada um nas situaes relatadas.
O objetivo  sensibilizar de alguma forma para as questes morais. A tendncia afetivista faz isso e acerta ao levar em conta os sentimentos dos alunos, uma vez que as regras devem ser desejveis para serem legitimadas, e isso leva ao campo afetivo. Porm, tal tendncia apresenta trs problemas. Um deles , ao priorizar o trabalho com a afetividade, corre-se o risco de chegar a uma moral relativista: cada um tem seus prprios valores. Esse individualismo  incompatvel com a vida em sociedade. Deve-se,  evidente, respeitar as diversas individualidades, mas, em contrapartida, cada individualidade deve conviver com outras; portanto, devem haver regras comuns. O segundo problema diz respeito ao trabalho de sensibilizao em si:  essencialmente trabalho  delicado  de psiclogo; pede formao especfica que no  a do educador em geral. Terceiro problema: pode levar a invases da intimidade, os alunos sendo levados a falar de si em pblico, sem as devidas garantias de sigilo.

 Tendncia moralista
A grande diferena entre esta tendncia e as anteriores  que ela tem um objetivo claramente normatizador: ensinar valores e levar os alunos a atitudes consideradas corretas de antemo. Enquanto as propostas anteriores de certa forma esperam que os alunos cheguem a legitimar valores no claramente colocados pelos educadores, a tendncia moralista evidencia tais valores e os impe. Trata-se, portanto, de uma espcie de doutrinao. No Brasil, a proposta de Educao Moral e Cvica seguiu esse modelo.
A tendncia moralista tem a vantagem de ser explcita: os alunos ficam sabendo muito bem quais valores os educadores querem que sejam legitimados. Sabem o que se espera deles. Porm, dois graves problemas aparecem. Um de nvel tico: o esprito doutrinador dessa forma de se trabalhar. A autonomia dos alunos e suas possibilidades de pensar ficam descartadas, pois a moralidade tende a ser apresentada como conjunto de regras acabadas. Trata-se de um mtodo autoritrio, fato que, alis, explica as referncias negativas que se fazem s antigas aulas de Moral e Cvica, e que, por bastante tempo, desencorajou a educao moral nas escolas. Outro grave problema, consequncia desse autoritarismo,  de nvel pedaggico: o mtodo no surte efeito, pois ouvir discursos, por mais belos que sejam, no basta para se convencer de que so vlidos. A reflexo e a experincia so essenciais. O que acaba acontecendo frequentemente com os mtodos moralistas  que afastam os alunos dos valores a serem aprendidos. As aulas tornam-se
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maantes, no sensibilizam os alunos, no os convencem e podem desenvolver uma espcie de averso pelos valores morais. O verbalismo desse mtodo no d resultado, assim como no d resultado em disciplina alguma: os alunos ouvem, repetem e esquecem. O nico aspecto desse mtodo a ser resguardado  a explicicao dos valores. O educador no deve "fazer de conta" que no tem valores, escond-los. Deve torn-los claros, transparentes. Mas, para isso, no  necessrio elaborar belos discursos.

 Tendncia democrtica
Uma ltima tendncia a ser destacada  a da escola democrtica, que, contrariamente s anteriores, no pressupe espao de aula reservado aos temas morais. Trata-se de democratizar as relaes entre os membros da escola, cada um podendo participar da elaborao das regras, das discusses e das tomadas de deciso a respeito de problemas concretamente ocorridos na instituio.
A virtude da escola democrtica est em focalizar a qualidade das relaes entre os agentes da instituio. De fato, as relaes sociais efetivamente vividas, experienciadas, so os melhores e mais poderosos "mestres" em questo de moralidade. Para que servem, por exemplo, belos discursos sobre o Bem, se as relaes internas  escola so desrespeitosas? De que adianta raciocinar sobre a paz, se as relaes vividas so violentas? Assim, o cuidado com a qualidade das relaes interpessoais na escola  fundamental. Pesquisas psicolgicas levam a essa concluso. E mais ainda: relaes de cooperao, de dilogo, levam  autonomia, ou seja,  capacidade de pensar, sem a coero de alguma "autoridade" inquestionvel. Relaes de cooperao so relaes entre iguais, baseadas e reforadoras do respeito mtuo, condio necessria ao convvio democrtico. A democracia  um modo de convivncia humana e os alunos devem encontrar na escola a possibilidade de vivenci-la. Da a importncia de se promoverem, no seu interior, experincias de cooperao.
O recurso  histria  importante para o conhecimento das propostas que tm sido desenvolvidas, mas no  suficiente para justificar a necessidade da formao moral na escola. Esta se impe em funo da prpria finalidade da instituio escolar. Acrescente-se ainda que, se os valores morais que subjazem aos ideais da Constituio brasileira no forem intimamente legitimados  conhecidos, plenamente aceitos e considerados vlidos e necessrios  pelos indivduos que compem este pas, ser seriamente prejudicado, para no dizer impossvel, o prprio exerccio da cidadania.  tarefa de toda sociedade fazer com que esses valores vivam e se desenvolvam. E, portanto, tambm tarefa fundamental da escola. Se os educadores no ficarem atentos a esse fato, se no tiverem clareza das implicaes dessas questes no cotidiano, como intervir buscando legitimar regras de convvio que auxiliem a construo de uma sociedade mais justa?
O desafio dos professores  tomar posse de conhecimentos que possam ajudar a encaminhar, articuladas ao trabalho nas diferentes reas de conhecimento, reflexes sobre os princpios que fundamentam os valores, objetivando a construo da cidadania no espao escolar.
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O conhecimento requerido para a realizao do trabalho didtico na perspectiva da tica no se esgota na compreenso dos princpios ticos fundamentais ou das doutrinas morais, discutidos no mbito da filosofia. E importante tambm o recurso s cincias do comportamento, que, ao explicar o desenvolvimento da moralidade na criana e no adolescente, permitem verificar como se d o processo de legitimao de valores e regras morais, na articulao de uma vivncia pessoal e singular com a experincia mais ampla da socializao.

LEGITIMAO DE VALORES
Diz-se que uma pessoa possui um valor e legitima as normas dele decorrentes quando, sem controle externo, pauta sua conduta por elas, segue-as independentemente de ser observada, ou seja, est intimamente convicta de que essa regra representa um bem moral. Por exemplo, algum que no rouba por medo de ser preso no legitima a norma "no roubar", apenas a segue por medo do castigo. Na certeza da impunidade, no a seguir.
Mas o que leva algum a pautar suas condutas segundo certas regras? Como alguns valores tornam-se tradues de um ideal de Bem, gerando deveres?
Na verdade, falta consenso entre os especialistas a respeito do modo pelo qual um indivduo chega a legitimar determinadas regras e conduzir-se coerentemente com elas. Para uns, trata-se da fora do costume: o hbito de se comportar de determinada maneira leva os indivduos a considerar certa essa conduta. Para outros, a equao deveria ser invertida: determinadas condutas so consideradas boas, portanto, devem ser praticadas. Para outros ainda, processos inconscientes, portanto, ignorados pelo prprio sujeito, e, em geral, constitudos durante a infncia, seriam os determinantes da conduta moral. E h outras teorias mais.
O que se deve considerar para alm da diversidade de teorias ou interpretaes  que na legitimao de valores esto estreitamente articuladas uma perspectiva social e uma perspectiva individual, singular. De um lado, verifica-se que a formao moral se d processualmente, no contexto de socializao dos indivduos. De outro, constata-se que, inter-relacionadas, encontram-se presentes duas dimenses fundamentais do desenvolvimento individual: a afetividade e a racionalidade.

    Afetividade
Toda regra moral legitimada aparece sob forma de obrigao, de imperativo: deve-se fazer tal coisa, no se deve fazer tal outra. Como essa obrigatoriedade pode se instalar na conscincia? Ora,  preciso que os contedos desses imperativos toquem, em alguma medida, a sensibilidade da pessoa; vale dizer, que apaream como desejveis. Portanto, para que um indivduo se incline a legitimar determinado conjunto de regras,  necessrio
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que o veja como traduzindo algo de bom para si, como dizendo respeito ao seu bem-estar psicolgico, ao que se poderia chamar de seu "projeto de felicidade"4. Se vir nas regras aspectos contraditrios ou estranhos ao seu bem-estar psicolgico pessoal e ao seu projeto de felicidade, esse indivduo simplesmente no legitimar os valores subjacentes a elas e, por conseguinte, no legitimar as prprias regras.
Levando-se em considerao que os diferentes indivduos possuem, potencialmente, diferentes traos de personalidade, diferentes desejos, como  possvel despertar o sentimento de desejabilidade para determinadas regras e valores que, para serem morais, devem valer para todos?
Apesar de as noes de bem-estar e felicidade serem variadas h, no entanto, um desejo que parece valer para todos, possibilitar e estar presente nos diversos projetos de felicidade: o auto-respeito.
A idia bsica  bastante simples. Cada pessoa tem conscincia da prpria existncia, tem conscincia de si. Tal conscincia traduz-se, entre outras coisas, por uma imagem de si, ou melhor, imagens de si  no plural, uma vez que cada um tem vrias facetas e no se resume a uma s dimenso. As imagens que cada um tem de si esto intimamente associadas a valores e so vistas como positivas ou negativas. Vale dizer que  inevitvel cada um procurar ter imagens boas de si, ou seja, ver-se revestido de valor positivo, pois cada um procura se respeitar como pessoa que merece apreciao.  por essa razo que o auto-respeito, por ser um bem essencial, aparece como parte integrante dos projetos de bem-estar psicolgico e dos projetos de felicidade. Ningum se sente feliz se no merecer a mnima admirao, o mnimo respeito aos prprios olhos.
A busca e a construo do auto-respeito aparecem como um desejo e uma necessidade individuais. Porm, a constituio de uma imagem de si s  possvel na relao com outros, seja pelo reconhecimento da alteridade e da percepo da singularidade presente em cada ser humano  que ajuda a distinguir quais so as particularidades que definem o "eu" e o "outro" e o que identifica a todos como seres humanos , seja pelo uso de um referencial, de ideais constitudos socialmente. Esses aspectos so complementares e essenciais e trazem decorrncias para a discusso sobre a educao moral.
Seja qual for o projeto de vida escolhido por uma pessoa, do mais modesto ao mais ousado, o mnimo xito na sua execuo  essencial ao auto-respeito. Raramente se est "de bem consigo mesmo" quando h fracassos repetidos. A vergonha decorrente do fracasso, assim como a frustrao, pode levar  depresso ou  clera. A realizao do xito depende, alm do esforo pessoal, de condies presentes no contexto e nas relaes com os outros. Assim,  sensato pensar que as regras que organizam a convivncia social de forma justa, respeitosa e solidria tm grandes chances de serem seguidas. De fato, a justia permite
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que as oportunidades sejam iguais para todos, sem privilgios de alguns em detrimento de outros. Se, nas suas relaes com a sociedade, uma pessoa no encontrar a mnima possibilidade de xito em seus projetos, certamente no conseguir construir respeito e considerao por si mesmo, ou os construir de cerco modo  margem dessa sociedade na qual no se sentiu inserido.
Em ambos os casos, dificilmente uma pessoa ir legitimar as regras sociais e os valores que as sustentam. Seja porque, ao no considerar a si mesmo, a possibilidade de considerao ao outro  muito pequena e passa-se a viver na indiferena; seja porque o indivduo constri uma imagem positiva de si com base em valores puramente individuais ou de um grupo restrito, sem levar em conta a sociedade.
Um segundo aspecto do processo de construo do auto-respeito refere-se ao 
	4 Entende-se por "projeto de felicidade" um projeto de vida orientado pela busca da realizao de um estado afetivo satisfatrio, sentido como bom pela pessoa.
papel do juzo alheio na imagem que cada um tem de si. Pode-se afirmar que a imagem e o respeito que uma pessoa tem de si mesma esto referenciados em parte nos juzos que os outros fazem dela. Algumas podem ser extremamente dependentes dos juzos alheios para julgar a si prprias; outras menos. Porm, ningum  totalmente indiferente a esses juzos. So de extrema importncia, pois algum que nunca oua a crtica alheia  positiva ou negativa  corre o risco de enganar-se sobre si mesmo. H sempre uma dimenso moral nesses juzos:  o reconhecimento ou no do valor de qualquer pessoa, que no pode ser humilhada, violentada, espoliada etc. A humilhao  forma no rara de relao humana  pode levar a vtima a no legitimar qualquer outra pessoa como juiz e a agir sem considerao pelas pessoas em geral. E relevante considerar que a humilhao pode, tambm, levar a vtima a desenvolver um sentimento de inferioridade, passvel de promover uma pseudo legitimao que se traduz em submisso, inquestionvel, ao juzo alheio. As crianas, os adolescentes e os jovens freqentemente utilizam esse mecanismo psicolgico. Um deles, perguntado a respeito dos efeitos da humilhao, afirmou que um aluno submetido a um castigo humilhante teria mais chances de reincidir no erro, pois pensaria: "J estou danado mesmo, posso fazer o que eu quiser". Portanto, a possibilidade ou a forma de construo do respeito prprio depende tambm do fato de ser respeitado pelos outros.
Assim, a possibilidade de despertar um sentimento de desejabilidade pelas regras e valores morais nos diferentes projetos de felicidade est vinculada tanto ao desenvolvimento de uma imagem positiva de si por parte de cada indivduo como  forma como tal desenvolvimento ocorre. Uma pessoa que sinta dificuldades em estabelecer um sentimento de pertinncia e de insero em relao  sociedade em que vive pode interiorizar essa excluso e rejeio mediante uma imagem negativa de si, ou devolver essa rejeio excluindo a sociedade  com suas regras e valores  da construo de seu auto-respeito.
Um terceiro e ltimo aspecto a ser ressaltado na formao do auto-respeito  a contradio, presente no Brasil e tambm em outras sociedades contemporneas, entre os princpios anunciados e as aes efetivamente valorizadas na prtica. Referenciadas em princpios democrticos, algumas prticas sociais so incoerentes com esses princpios e so valorizadas em diversas instncias das sociedades. Um exemplo  a valorizao da realizao dos projetos de vida de forma puramente egosta. A valorizao do sucesso profissional, coroado com grandes benefcios financeiros, do status social elevado, da beleza fsica, da ateno da mdia etc., est baseada em princpios individualistas. Para uma minoria, podem ser 
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concretizados pela obteno de privilgios (por exemplo, conhecer as pessoas certas que oferecem emprego ou acesso a instituies importantes), pela manipulao de outras pessoas (por exemplo, mentir e trapacear para passar na frente dos outros) e pela completa indiferena aos outros membros da sociedade. Diz-se que se trata de uma minoria, pois se trata daqueles que podem ter carro importado, imagem veiculada na televiso, acesso aos corredores do poder poltico etc. Mas o fato  que a valorizao desse sucesso  trao marcante da sociedade atual e tende a fazer com que as pessoas o procurem mesmo que o preo a ser pago seja o de passar por cima dos outros, das formas mais desonestas e at mesmo violentas. Resultado prtico: a pessoa perder o respeito prprio se no for bem-sucedida nos seus planos pessoais, mas no se, por exemplo, mentir, roubar, desprezar o vizinho etc.
Portanto, para que as regras morais sejam efetivamente legitimadas  preciso que haja possibilidade de vivncia de um sentimento de pertinncia e incluso, de experienciar situaes em que a realizao pessoal seja compartilhada com a realizao de projetos coletivos; que a satisfao individual e a coletiva sejam interdependentes e mutuamente potencializadoras; que o auto-respeito dependa, alm dos diversos xitos na realizao dos projetos de vida, do respeito pelos valores e regras morais. Assim, o respeito pelas regras morais precisa ser parte integrante da identidade pessoal, da imagem positiva de si, para que a pessoa aja conforme tais regras.
A partir dessas consideraes, podem ser estabelecidas desde j duas decorrncias centrais para a educao moral. So elas:

 a escola deve ser um lugar onde cada aluno encontre a possibilidade de se instrumentalizar para a realizao de seus projetos; por isso, a qualidade do ensino  condio necessria  formao moral de seus alunos. Se no promove um ensino de boa qualidade, a escola condena seus alunos a srias dificuldades futuras na vida e, em decorrncia, a ver seus projetos de vida frustrados;
 a escola pode contrapor  satisfao individualista dos desejos a satisfao pessoal derivada da participao e da pertinncia ao coletivo. Alm do trabalho de ensino, o convvio na escola deve ser organizado de maneira que os conceitos de justia, respeito e solidariedade sejam vivificados e compreendidos pelos alunos como aliados  perspectiva de uma "vida boa". Assim, os alunos percebero que esses valores e as regras decorrentes so coerentes com seus projetos de felicidade e podero integr-los s suas personalidades: se respeitaro pelo fato de respeit-los.

 Racionalidade
Se  verdade que no h legitimao das regras morais sem investimento afetivo, 
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tambm verdade que tal legitimao no existe sem a racionalidade, sem o juzo e a reflexo sobre valores e regras.
A moral pressupe a responsabilidade, e esta pressupe a liberdade e o juzo. Somente h responsabilidade por atos se houver a liberdade de realiz-los ou no. Cabe, portanto, o pensamento, a reflexo, o julgamento para, ento, realizar-se a ao. Agir segundo critrios e regras morais implica fazer uma escolha. E como escolher implica, por sua vez, adotar critrios, a racionalidade  condio necessria  vida moral.
A racionalidade e o juzo tambm comparecem no processo de legitimao das regras, pois dificilmente tais valores ou regras sero legtimos se parecerem contraditrios entre si ou ilgicos, se no sensibilizarem a inteligncia.  por essa razo que a moral pode ser discutida, debatida, que argumentos podem ser empregados para justificar ou descartar certos valores. E, muitas vezes,  por falta dessa apreenso racional dos valores que alguns agem de forma impensada. Refletindo um pouco, teriam mudado de idia e agido diferentemente. Aps melhor juzo, arrependem-se do que fizeram.  preciso tambm sublinhar o fato de que pensar sobre a moralidade no  tarefa simples: so necessrias muita abstrao, muita generalizao e muita deduo. Por exemplo, poucas pessoas pensam de fao sobre o que  a mentira. A maioria limita-se a afirmar que ela corresponde a no dizer, intencionalmente, a verdade. Na realidade, mentir, no sentido tico, significa no dar uma informao a algum que tenha o direito de obt-la. Com esta definio, pode-se concluir que mentir por omisso no significa trair a verdade, mas no revel-la a quem tem direito de sab-la.
Portanto, pensar, apropriar-se dos valores morais com a mximo de racionalidade,  condio necessria canto para a legitimao das regras e o emprego justo e ponderado delas como para a construo de novas regras.
Valorizar a presena da racionalidade na esfera moral significa ter a capacidade de dialogar, essencial  convivncia democrtica. De fato, para viverem democracia  necessrio explicitar e, se possvel, resolver conflitos por meio da palavra, da comunicao, do dilogo. Significa trocar argumentos, negociar. Ora, para que o dilogo seja profcuo, para que possa gerar resultados, a racionalidade  uma das condies necessrias. Os interlocutores precisam expressar-se com clareza  o que pressupe a clareza de suas prprias convices  e serem capazes de entender os diferentes pontos de vista. Estas capacidades so essencialmente racionais, dependem do pleno exerccio da inteligncia.
So, portanto, consequncias centrais para a educao:

 a escola deve ser um lugar onde os valores morais so pensados, refletidos, e no meramente impostos ou frutos do hbito;
 a escola deve ser o lugar onde os alunos desenvolvam a arte do dilogo.
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 Desenvolvimento moral e socializao
Durante muito tempo pensou-se que educao moral ocorresse pela associao entre discursos normalizadores, modelos edificantes a serem copiados, represso, interdio e castigo. Essa perspectiva desconsiderou a legitimao de valores e normas, a constituio de atitudes por parte do indivduo como uma construo, um desenvolvimento sujeito a mediaes. Hoje, sabe-se que o desenvolvimento depende essencialmente de experincias de vida que o favoream e estimulem, e que a afetividade e a racionalidade esto intimamente relacionadas e se desenvolvem a partir das interaes sociais, desde a infncia e durante a vida toda.
A moral tambm se desenvolve. Durante o desenvolvimento moral, que se d sempre num determinado contexto social, a afetividade e a racionalidade esto sempre presentes, apesar de uma ou outra ganhar mais relevncia em determinados momentos.
Vrios estudos buscaram compreender como os indivduos apropriam-se dos valores e regras construdos socialmente, como constituem um juzo e uma conscincia moral, estabelecendo etapas de desenvolvimento.
Independentemente da quantidade de etapas e suas caractersticas mais especficas, varivel nos diversos estudos, elas apontam para um movimento que conduz de uma heteronomia relativa em direo a uma autonomia relativa. O termo "relativa" justifica-se pelo fato de que no se pode dizer que haja heteronomia ou autonomia absolutas, entendendo-se que cada indivduo partilha de situaes variadas e simultneas, manifestando uma atitude mais autnoma em determinadas instncias de sua vida social, ao mesmo tempo que revela atitudes mais heternomas em outras. Portanto, o movimento heteronomia/autonomia no  linear e constri-se na complexidade da inter-relao que envolve a maturao biolgica, o desenvolvimento cognitivo-afetivo e a qualidade das relaes que o indivduo estabelece com outros. O desenvolvimento moral , assim, um processo, que tem como elemento constituinte a contradio  simultaneidade de atitudes autnomas e heternomas no comportamento  e que apresenta momentos em que predomina uma ou outra atitude.
A heteronomia predomina na primeira infncia, fase em que a criana legitima as regras porque provm de pessoas com prestgio e fora: os pais (ou quem desempenha esse papel). Vale dizer que a criana no procura o valor intrnseco das regras: basta-lhe saber que quem as dita  uma pessoa "poderosa".  nesse sentido que se fala de moral heternoma: a validade das regras  exterior a elas, est associada  fonte de onde provm. Todas as caractersticas dessa primeira fase do desenvolvimento moral decorrem da no-apropriao racional dos valores e das regras, uma vez que so legitimadas pelo valor afetivo de quem as profere.
A autonomia moral refere-se  possibilidade de a pessoa pautar suas condutas predominantemente por valores e regras que assume conscientemente em funo da validade que atribui a elas e de sentir-se legtima para construir novas regras. A construo da autonomia comea, em mdia, por volta dos oito anos, quando a criana inicia um processo
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no qual pode cada vez mais julgar os atos, levando em conta essencialmente a intencionalidade que os motivou. Comea a compreender as regras pelo seu esprito e no mais ao p da letra, e legitim-las no mais porque provm de seres prestigiados e poderosos, mas porque se convence racionalmente de sua validade. Assim, a racionalidade comea a ganhar seu espao no desenvolvimento moral. O respeito que antes era unilateral  no sentido de respeitar as "autoridades", mas sem exigir a recproca  torna-se mtuo: respeitar e ser respeitado. O medo da punio e da perda do amor, que inspirava as condutas na fase heternoma,  substitudo pelo medo de perder o respeito e a estima dos outros, e de perder o respeito prprio, moralmente falando.
Com o incio das transformaes ocorridas na puberdade, novo salto qualitativo pode ser observado no desenvolvimento moral. Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, tal momento coincide com o incio da possibilidade de uma maior abstrao e, portanto, de uma ampliao qualitativa na formao do juzo e da conscincia moral. Porm, no  s em relao s novas possibilidades de raciocnio que est vinculado o salto qualitativo no desenvolvimento da moral. A afetividade sofre profundos desequilbrios e, conseqentemente, a auto-imagem  sucessivamente reelaborada.
O adolescente no consegue mais ver a si mesmo como uma criana, apesar da forte presena do ldico na sua relao com o mundo. Comea a projetar para si uma imagem adulta. Porm, seu corpo, que deixou de corresponder  imagem infantil, no ganhou ainda os contornos mais definidos de sua figura adulta (faz-se aqui a distino entre os gneros e as diferenas de amadurecimento fsico, j que as meninas ganham mais rapidamente a estatura e os contornos de mulher), e comea a manifestar novos desejos.
A relativa estabilidade na imagem de si durante a infncia  rompida e implica uma reestruturao na relao com o prprio corpo, de aceitao ou no. Portanto, a imagem positiva de si passa a basear-se em um ideal de homem ou mulher, no s em relao a traos de personalidade, mas a um ideal de corpo, de beleza, que se expressa e  valorizado a todo momento segundo os padres sociais vigentes. A falta de possibilidade de controle sobre as suas mudanas fsicas, a forma como elas ocorrem, causa insegurana na auto-imagem que o adolescente vai construindo.
Concomitante s mudanas fsicas da adolescncia, comea a aparecer o desejo e a possibilidade de experimentao da sexualidade adulta (no necessariamente j a experimentao de relaes sexuais), com a consequente necessidade de definio de papis e opes sexuais e que carrega consigo novas formas de sociabilidade e de relacionamentos. Esse despertar vincula com bastante fora o respeito prprio e a imagem de si  imagem que os outros tm dele. A necessidade de ser aceito e admirado pelos seus pares, seja do mesmo gnero ou do oposto, leva a escolhas  e a conflitos entre valores  que se revelam essenciais. A possibilidade que o adolescente tem de lidar com as mudanas e elabor-las continuamente  a experimentao. E  nesse sentido que ele busca vivenciar novas situaes e emoes, desafiar perigos, transgredir regras, testar limites e valores. Negar ao
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adolescente a possibilidade de experimentao  equivalente a dificultar seu processo de construo de uma auto-imagem positiva e de busca de autonomia moral. Abandon-lo, deix-lo sozinho nessa empreitada tambm. Muitas vezes adolescentes e jovens so postos em novas situaes, com as quais devem aprender a lidar e se situar, no por escolha sua, mas por necessidade, vivenciando diferentes formas de relao e responsabilidade vinculadas ao seu ingresso no mundo do trabalho profissional, constituio familiar etc.
Caracterizada como um momento de profundas transformaes, de elaborao de perdas e de reconstruo da auto-imagem, a adolescncia e juventude revelam-se, ento, em relao ao desenvolvimento moral, um momento bastante rico, fecundo e, de certa forma, definidor.
 tido como um fato quase consensual que adolescentes e jovens tm nos seus grupos ou "tribos" uma grande referncia, o que lhes confere legitimidade na formao de atitudes, consolidao de valores e regras. E inegvel a necessidade e busca de independncia que se apresenta nesse momento da vida e o questionamento da legitimidade que os adultos e instituies como a escola sofrem na relao com adolescentes e jovens. Mas h algo em que se pensar. No se trata s de buscar identificao com aqueles que vivenciam uma situao parecida, pois os adolescentes e jovens no se legitimam irrestritamente entre si. No raro, assiste-se a situaes violentas e de oposio clara entre os prprios grupos de jovens e adolescentes. A forma de insero que eles buscam dentro dos grupos, o tipo de relao mais cooperativa que buscam vivenciar na formao desses grupos  que se apresenta como elemento-chave na legitimao dos valores, regras e atitudes que esses grupos veiculam.
Sendo um momento especial na reelaborao de valores, legitimao de regras e formao de atitudes, a qualidade das relaes torna-se um elemento essencial, principalmente na escola, de criao de possibilidade de compartilhar, construir legitimidade e aproximao junto aos adolescentes e jovens.
E, portanto, fundamental para a escola, refletir sobre a especificidade dessa etapa da vida e sobre como adequar sua organizao, sua forma de interveno, de modo a contribuir para que os alunos possam refletir criticamente sobre os valores que possuem, os que procuram experimentar e os que esto  sua volta, buscando a tica nas suas relaes.
A concluso a que se retorna  que as relaes sociais efetivamente vividas, experienciadas, tm influncia decisiva no processo de legitimao dos valores, da formao tica. Se o objetivo  contribuir para a formao de indivduos que tenham respeito pelas diferenas entre pessoas, no bastam belos discursos sobre este valor:  necessrio que possam experienci-lo no seu cotidiano, ser cada um respeitado no que tem de peculiar em relao aos outros. Se o objetivo  a formao de algum que procure resolver conflitos pelo dilogo, deve-se proporcionar um ambiente social em que tal possibilidade exista, em que se possa, de fato, pratic-lo. Se o objetivo  um indivduo que se solidarize com os outros, ele dever poder experienciar o convvio organizado em funo desse valor.
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Se o objetivo  que os indivduos tornem-se democrticos,  necessrio proporcionar-lhes oportunidades de praticar a democracia falando o que pensam, submetendo suas idias e propostas ao juzo de outros, fazendo escolhas e assumindo responsabilidades sobre elas. Se o objetivo  que o respeito prprio seja conquistado pelo aluno, deve-se acolh-lo em um ambiente no qual sinta-se valorizado e respeitado. Se a possibilidade de julgamento e dilogo depende do desenvolvimento da racionalidade, deve-se acolh-lo em um ambiente em que tal faculdade seja estimulada. A escola pode ser esse lugar. Deve s-lo.

A vivncia da tica no processo de ensino e aprendizagem
No sentido clssico do termo,  impossvel ensinar a moralidade. No se quer dizer com isso que no haja nada a aprender, nesse campo, por parte do educando. O desafio de promover uma educao em valores consiste em desenvolver um trabalho pedaggico que auxilie o educando a tomar conscincia da presena dos valores em seu comportamento e em sua relao com os outros, participando do processo de construo e problematizao desses valores, num movimento de afirmao de autonomia. Como todo saber prtico, a moral no pode ser ensinada sem a participao plena e ativa de quem aprende. Em vez de impor valores, trata-se de afirm-los, de torn-los visveis e de tornar compreensvel o seu significado, na vida de todos e na participao de cada um no contexto social.
O espao escolar caracteriza-se como um espao de diversidade por princpio. O carter universal do ensino fundamental, definido em lei, torna a escola um ponto de convergncia de diversos meios sociais, traz para o seu seio os mais variados valores expressos na diversidade de atitudes e comportamentos das pessoas que a integram. Como instituio permanente, defronta-se com o desafio da constante mudana em seu interior. Geraes de alunos sucedem-se umas s outras, bem como se renova o seu quadro de funcionrios, sejam eles professores e professoras, corpo tcnico, de servio administrativo ou de apoio. Configura-se como um espao pblico por excelncia, orientado por um objetivo comum. Em virtude do nmero quase sempre grande de membros que rene, necessita de uma estrutura, de uma organizao, de regras e normas que estabeleam formas de convvio em seu interior, que garantam os princpios e objetivos a que se prope.
Para alm da prpria necessidade de que essa organizao se paute por princpios democrticos, coloca-se para a escola a questo de como enfrentar o conflito entre suas normas e regras como instituio e aqueles valores que cada um de seus membros traz consigo. Tal conflito traduz-se frequentemente em problemas que, se no so novos, tm se tornado cada vez mais relevantes no espao escolar, como, por exemplo, a indisciplina e a violncia. Coloca-se, portanto, a necessidade de problematiz-las na perspectiva de uma formao moral.
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A banalizao da vida humana e o aumento da violncia na sociedade so questes de carter mais amplo, da prpria sociedade, e que, inegavelmente, so trazidas para o espao escolar. Assim, refletem-se nas aes cotidianas, nas atitudes e comportamentos das pessoas, seja em relao s outras, seja em relao ao espao fsico. Definir com clareza e firmeza regras para se superar esse problema  tarefa da qual a escola no pode se esquivar. A colocao de limites a crianas, adolescentes e jovens tem a inteno de contribuir para uma convivncia efetivamente democrtica.
A disciplina pode ser entendida como uma observncia a preceitos e normas e, como tal,  esperada como atitude dos alunos, professores e funcionrios. Porm, tal observncia pode se traduzir ou em uma submisso, uma adaptao passiva a regras ou em uma internalizao delas, ou em uma compreenso e valorizao como veculo de um bem comum. Por isso h a necessidade de distino entre imposio e afirmao de valores e princpios, bem como entre disciplina e autoritarismo.
A perspectiva de manuteno de um controle externo dos comportamentos, aproxima-se mais da ideia de autoritarismo e de imposio de valores, enquanto que a perspectiva de um trabalho de formao de atitudes ganha proximidade com uma idia de disciplina como auto-regulao e afirmao conjunta de valores.
Essa distino traz duas implicaes para o convvio escolar: o reconhecimento dos valores e atitudes que os alunos trazem consigo e manifestam em diversas situaes na escola, e a considerao destes como ponto de partida para uma atuao educativa. Uma conseqncia disso  o estabelecimento de um princpio de ao, que poderamos chamar de um princpio didtico, e que se sustenta no dilogo e na co-responsabilidade e participao. Diante da manifestao de comportamentos inadequados ou at mesmo violentos por parte de alunos, impor valores traduz-se pela ao da punio e de discursos em nome da ordem. Afirmar valores traduz-se na ao de incluir os envolvidos numa situao de dilogo, identificando os valores e princpios postos em jogo na situao, contribuindo para que ambas as partes possam compreender melhor a situao e possam sentir que os princpios expressos em regras de convivncia tm um sentido concreto.
Conviver significa conhecer, participar, opinar, ousar e transformar. Cabe  escola, espao fundamental de convivncia, afirmar valores que esto de acordo com esses princpios.  preciso estimular o desejo da participao, que valoriza a ao e amplia a co-responsabilidade, fazendo com que se compartilhem os destinos da vida coletiva da instituio. Se o aluno precisa ser participante e ativo na construo de sua aprendizagem, e professor precisa trilhar esse caminho junto com ele, efetivando sua prpria participao no espao escolar.

A ATUAO DO PROFESSOR NO PROCESSO DE EDUCAO EM VALORES
Para realizar qualquer trabalho educativo que tenha como finalidade a contribuio para construo da cidadania,  necessria ao professor, como requisito primeiro e essencial,
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a participao efetiva na construo do projeto pedaggico da escola. Nessa participao esto implicados um conhecimento crtico da realidade na qual se desenvolve o trabalho, do grupo com o qual se vai intencionalmente estabelecer uma relao de aprendizagem, do conjunto dos profissionais da instituio, e de si prprio  dos limites e possibilidades que se criam para o exerccio de uma prtica pedaggica competente.
A funo docente exige do professor uma srie de condutas que o faro reconhecido como algum que utiliza o seu saber e o seu poder como um recurso para o bem da coletividade com quem trabalha, fazendo bem o que lhe compete. Exige, alm disso, determinadas virtudes, qualidades, que podero auxili-lo no dia-a-dia, como a humildade, a curiosidade, a coragem, a capacidade de decidir e de colocar limites, comprometendo-se na busca dos objetivos que se prope.
O conhecimento crtico da realidade em que desenvolve seu trabalho e dos valores que a se encontram e que o norteiam  ponto de partida para organizao do trabalho do professor na escola. Esse conhecimento envolve questes diretamente relacionadas ao trabalho em sala de aula e questes mais amplas, que extrapolam esse mbito. O professor assume ao mesmo tempo duas tarefas: uma delas  conhecer melhor os seus alunos, tanto no que diz respeito estritamente ao processo ensino e aprendizagem como a desejos, interesses, dificuldades, experimentados por eles em suas vidas; a outra  a ampliao do conhecimento de si mesmo.
A aprendizagem de atitudes pelos adolescentes e jovens requer o reconhecimento, por parte dos adultos, das caractersticas psicolgicas e sociais dessa fase. E um aprendizado longo, complexo, contnuo, no linear e s vezes difcil para o adolescente, exigindo do professor a criao de estratgias que possibilitem o desenvolvimento das atitudes desejveis.
Nessa etapa da vida os alunos ampliam a sua capacidade de analisar situaes complexas, considerar diferentes fatores envolvidos e construir critrios de justia. Porm, tendem a desacreditar nesses critrios quando percebem que neles no se deposita confiana alguma. Tanto as crianas como os adolescente e jovens apreciam muito os sinais de confiana que os adultos lhes do quando mostram que acreditam neles. E ficam tristes e infelizes quando incessantemente reparam olhares suspeitosos sobre eles, quando percebem que so, sem mais nem menos, considerados desonestos, sem palavra, sem carter. Sentem-se  e de fato so  injustiados num ambiente de suspeio. Precisam perceber que confiam neles e que sero cobrados por merecer tal crdito. Para algum ter e permanecer tendo confiana em si (elemento importante do respeito prprio), nada melhor do que sentir que os outros acreditam em sua palavra. Negar-lhes  de antemo  esse direito resulta em distanci-los de um convvio social enriquecedor.
A investigao sobre a realidade assume papel importante no processo de ensino e aprendizagem, na medida em que possibilita um conhecimento ampliado das caractersticas das famlias dos alunos, da estrutura de atendimento da regio em sade, cultura, esporte,
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lazer etc. Conhecendo criticamente essa realidade, o professor ter condies de pensar em contedos significativos que orientem a construo do plano de ao da rea de conhecimento com a qual trabalha e pensar em como adequar o contedo previamente estabelecido  realidade em que atua.
A busca de conhecimento de si mesmo  outro desafio para o professor. Ele  parte integrante da realidade que investiga.  importante pensar que ele tem como desafio fazer a leitura da realidade com o objetivo de coletar informaes para compreend-la, isto , buscar seu sentido, sua significao. Isso requer do professor discernimento para que o seu juzo de valor e suas crenas, ainda que influenciem, no determinem por princpio os rumos da investigao.
Do ponto de vista da tica,  fundamental que, ao planejar as atividades que sero trabalhadas com os alunos, os professores selecionem contedos que explicitem e despertem a curiosidade pelas diferentes formas de organizao social e culturas existentes no mundo e pelos diferentes valores que sustentam o convvio, na escola e fora dela.
O professor e os adultos que convivem com o aluno na escola precisam estar atentos, especialmente para os aspectos que envolvem as relaes pessoais no interior do processo de ensino e aprendizagem. A ateno, a afeio, a amizade, o distanciamento, a omisso, contribuem para a formao de atitudes desejveis ou no. Ao longo de sua vivncia na escola o aluno desenvolve uma srie de ideias sobre o papel dos adultos, posicionando-se frente a esse papel de acordo com as respostas que recebe nas diversas situaes. O comportamento dos adultos funciona, muitas vezes, como modelo, afirmado ou negado pelos alunos. Se o objetivo do trabalho com o tema transversal tica  a formao de atitudes de bem viver em comunidade,  importante que haja uma ateno especial com a qualidade das relaes que se pretende viver na escola.
A gesto democrtica da escola supe a participao de todos nas decises que ali se tomam. As decises tomadas entre quatro paredes, apenas por uma pessoa ou por um pequeno grupo, comprometem todo o convvio escolar, causando desagradveis situaes de revolta, desinteresse e omisso. A participao exige uma tomada de conscincia sobre os valores presentes no processo educacional e um posicionamento crtico em relao a eles. Quando juntas para decidir algo, mesmo com a inteno de colaborar para a melhoria da vida em comum, as pessoas deixam transparecer suas crenas, suas preferncias pessoais, e mostram s vezes resistncia a considerar posicionamentos diferentes ou opostos. A explicitao dos diferentes posicionamentos, o debate, a troca e a consulta a todos que fazem parte da instituio,  luz de princpios eleitos por seus membros como norteadores da ao, auxiliam as tomadas de deciso.
Nas instncias de participao em que esto presentes membros que representam os diferentes segmentos da escola, com frequncia surgem conflitos que exigem negociao, para que a escola realmente atenda os anseios da comunidade e ao mesmo tempo seja valorizada por ela.
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Um projeto pedaggico que inclua o trabalho com os temas transversais exige dos professores um redimensionamento de sua ao, uma vez que esse trabalho envolver, alm do contedo especfico de sua rea, a preocupao em trabalhar com valores. Todas as reas do conhecimento e temas transversais tm contribuies a oferecer no sentido de incentivar valores fundamentais para a formao do cidado.

TICA E CONVIVNCIA NA ESCOLA
Uma educao em valores se ocupar em promover entre os alunos a vivncia da cidadania e da participao, sustentadas pelo conhecimento de alguns importantes fundamentos, expostos a seguir.

 Existem regras e leis que definem direitos e deveres na sociedade.  importante conhecer seu carter histrico e sua relao com situaes presentes.

Viver em sociedade significa orientar seu comportamento por leis e regras, criadas por seus sujeitos, com o objetivo de tornar a convivncia adequada a necessidades, naturais e "inventadas", como j se afirmou. As regras e leis sustentam-se em princpios e so modificadas em virtude de novas necessidades e interesses que surgem no processo histrico. Conviver democraticamente significa ter conscincia de que o papel das pessoas no  apenas obedecer e repetir as leis, mas contribuir para sua reformulao, adequao e para a elaborao de novas leis.
Fazer parte de um grupo, de uma comunidade, exige do participante conhecer as normas que regem a conduta daqueles que a ele pertencem. O conhecimento da Constituio brasileira, de sua importncia como instrumento de direito e de busca de justia social, fundamenta o desenvolvimento da atitude de valorizao da justia para com todas as pessoas e o respeito aos direitos individuais, polticos, sociais e culturais.
Alm da Constituio, o Estatuto da Criana e do Adolescente e a Declarao Universal dos Direitos da Pessoa Humana podem ser lidos, analisados e confrontados com situaes reais vividas pela comunidade ou trazidas pela literatura e pela mdia em um trabalho que propricie o conhecimento da realidade brasileira, seus desafios e conquistas.
 muito importante, tambm, que os alunos aprendam sobre o processo histrico e poltico em que foram elaborados, sobre as lutas e os movimentos que os produziram, para que compreendam que so muitas vezes contraditrios e podem e devem ser modificados. Valoriza-se, assim, a democracia como sistema poltico que permite a criao de novos direitos e deveres, no qual o confronto poltico pode possibilitar o avano da justia social.

 As regras existentes na escola viabilizam a convivncia em seu interior e com a comunidade, e precisam ser claras e conhecidas por todos.

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As regras de conduta na comunidade escolar tm a finalidade de garantir que o processo de ensino e aprendizagem ocorra com sucesso e de promover o bem-estar de todos. Elas no devem ser vistas pelo alunos como imposies arbitrrias, mas como traduo do respeito mtuo e justia: estar atento  presena dos outros e cuidar do que  de todos. Fazer filas, esperar a sua vez de falar, jogar lixo no local apropriado, so atitudes que refletem esses princpios. Tal aprendizado ajudar o jovem a construir o conceito de pertinncia  comunidade e de respeito ao patrimnio pblico, coletivo, to importantes para o exerccio da cidadania.
Posicionar-se  algo que se aprende. O trabalho escolar avana quando o aluno aprende a posicionar-se diante dos valores que lhe so apresentados e aprende melhor quando os valores e as regras so apresentados a ele com clareza. Regras ambguas impedem as pessoas de saber exatamente o que delas se espera, o que lhes  cobrado e quais so os seus direitos. Tendo conscincia dessas regras e valores, ter oportunidade maior de assumi-los como seus e de problematiz-los, criando espao para sua transformao.

 A elaborao das regras deve ser vivenciada coletivamente, na busca de alternativas para problemas enfrentados no cotidiano escolar.

Para que o aluno participe do processo de elaborao de normas e regras da escola, ele precisa conhecer a legislao que orienta seu funcionamento e que determina deveres e direitos de todos os que ali convivem. E a vivncia das atituaes do cotidiano escolar e dos problemas que se enfrentam que oferece ocasio para avaliar criticamente o carter positivo ou negativo das determinaes e suscitar as transformaes que se apresentam como necessrias. Para que isso acontea,  preciso estimular o movimento de participao na construo de critrios justos de convivncia. O estudo da realidade e o desvelamento de dvidas e desejos sero orientadores da reformulao e da elaborao de regras que, iluminadas por princpios que valorizem a construo da autonomia moral e a busca do bem comum, favoream a participao de todos nas decises.
A participao na construo e no estabelecimento de regras possibilita o desenvolvimento do sentimento de pertinncia ao coletivo e da atitude de responsabilidade pessoal pela vida comunitria. Esse procedimento favorece tambm a compreenso de que as regras e normas de convvio democrtico necessitam ser estabelecidas como um contrato firmado pelas partes envolvidas, o que exige de todos respeito e compromisso com as posturas assumidas pelo grupo.
Qualquer contrato firmado entre partes  composto por direitos e deveres. A identificao de formas de ao diante de situaes em que os direitos no estejam sendo respeitados depende tanto do conhecimento do regimento interno da instituio como do envolvimento e compromisso de todos aqueles que participaram da sua elaborao e se comprometeram a coloc-lo em ao. Quem no cumpre com o combinado est deixando de cumprir acordos que foram mutuamente estabelecidos e est sujeito, portanto, s sanes da decorrentes.
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 indispensvel considerar que as sanes que fazem parte da cultura escolar devem, evidentemente, ser justas, punindo os que transgridem as regras e resguardando o respeito aos valores. Optar por castigar uma classe toda simplesmente porque no se conhece o autor de algum delito  uma atitude inadequada. As sanes devem ser tambm proporcionais aos delitos. Optar por sanes severas demais apenas para que sirvam de exemplo, alm do carter de injustia, incorre no risco de se ver o resultado oposto ao desejado.
As sanes mais justas e que promovem aprendizagem e desenvolvimento moral so as chamadas "sanes por reciprocidade": elas guardam alguma relao com a ao repreensvel do aluno. Um exemplo geral: como punir as pessoas que picham paredes e monumentos? Colocando-as na priso ou obrigando-as a limpar o que fizeram e at outras pichaes? A segunda soluo parece melhor: assim as pessoas tomam conscincia das dimenses e consequncias de seus atos e reparam o que fizeram. Quando os prprios alunos podem indicar e discutir provveis sanes, estabelece-se um ambiente de co-responsabilidade, fundamental para evitar privilgios e atitudes preconceituosas, em que se desprezam as competncias e esforos dos alunos, rotulam-se a priori alguns como incompetentes, desonestos etc.
Chamar os alunos envolvidos em situaes de conflito  participao cm uma soluo por intermdio do dilogo no significa que a instituio e os educadores abram mo de sua responsabilidade no processo pedaggico. Enfatizar as conseqncias de um comportamento inadequado, intervir no debate para garantir a preservao de algum princpio de convivncia, estabelecer sanes em parceria com os envolvidos quando for necessrio, extrair acordos das situaes, so aes necessrias  afirmao de valores ao mesmo tempo que estimulam a formao de atitudes, seja por favorecer o desenvolvimento de um juzo e compreenso, seja por estimular o envolvimento afetivo por meio da incluso.
Se os alunos forem sistematicamente submetidos a situaes de autoritarismo, a mandamentos no explicados racionalmente ou arbitrrios, no tero possibilidade de aprender a analisar as situaes e posicionar-se em relao a elas. Pelo contrrio, vivendo situaes nas quais os critrios de justia sejam aplicados, tomam conscincia deles, assimilam-nos e os tornam seus.
Qualquer um se sente injustiado ao reparar que certas pessoas usufruem de privilgios. Essa injustia se faz sentir tanto nos excludos como nos prprios privilegiados. Os excludos percebem bem a arbitrariedade que com eles  cometida  uma vez que, de direito, todos merecem o mesmo tratamento. E os privilegiados acabam por sofrer o desprezo de seus colegas, por se acharem excludos por eles. Acabam at se envergonhando da situao de destaque na qual o professores colocou. Kant, filsofo do sculo XVIII, escreveu que uma grande virtude da escola  justamente ser um lugar onde ningum tem privilgios, apenas direitos.
Qualquer pessoa tambm se sente injustiada se os outros no reconhecem sua
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competncia, seu valor, seus esforos. Esse raciocnio vale para alunos de qualquer idade. Todos sofrem ao sentir que os professores os desprezam, no apostam em sua capacidade de xito, ignoram suas tentativas de aprender. E tais injustias os levam, seja ao abandono da busca da aprendizagem, seja  revolta, seja aos dois juntos. E mais ainda: passa-lhes a idia de que a justia  impossvel, mero sonho; afasta-os deste valor moral.
O sentimento de confiana adquirido pelo aluno por meio do julgamento de que  capaz de resolver problemas relacionados  aprendizagem e s relaes humanas  um estmulo para a legitimao de valores pautados na justia e dilogo.

 A participao na elaborao e discusso das regras  parte de uma vivncia mais ampla de todos no contexto escolar e na comunidade.

A vivncia do trabalho em sala de aula, a criao e recriao constante do conhecimento na relao pedaggica que a se desenvolve , sem dvida, a maior oportunidade de participao efetiva no contexto escolar. Quando se procura trazer o foco para a organizao de normas e regras, o objetivo  procurar articular a dimenso moral do trabalho na instituio escolar com as demais dimenses  epistemolgica, psicolgica, histrica  desse trabalho.
Participar  ser e fazer parte. Logo, a participao  vivncia abrangente, que se espalha pelos diversos "terrenos" de atuao dos alunos na vida social e na escola  o Conselho de Escola, a Associao de Pais e Mestres, o Grmio, os Grupos de Estudo, os Corais so diferentes instncias de participao e convivncia.
Conhecer organizaes e movimentos sociais, aprender a organizar-se, promover abaixo-assinados e campanhas, criar fluxos de comunicao e socializar informaes (jornal, mural, seminrios), debater sobre reivindicaes coletivas, eleger, formular propostas coletivas, participar nos rgos de gesto escolar, so aprendizagens que podem ser concretizadas em diferentes mbitos, de acordo com as possibilidades dos alunos, da escola e dos professores e com a pertinncia ao trabalho das diferentes reas, com a finalidade de favorecer a compreenso de que a participao poltica  e precisa ser acessvel a todos os cidados.
Participar de aes com outras instituies e organizaes sociais em movimentos de carter comunitrio, da promoo de aes pblicas como o combate  violncia, a busca de melhoria das condies socioambientais, o repdio s injustias etc., favorece a participao dos alunos na vida comunitria e a construo da concepo de poltica como espao de realizao do bem comum, responsabilidade de todos.
Por tudo que vem sendo apresentado, poder-se-ia afirmar que a proposta de uma educao em valores aproxima-se do que tem sido chamado de uma formao integral, ou seja, articulao de corpo e esprito, de meios e fins, de teoria e prtica, com o objetivo de promover o bem coletivo.
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A tica como um tema transversal
Afirma-se que a verdadeira educao no s consiste em promover a apreenso da realidade e ensinar a pensar, mas tambm em aprender a pensar sobre o prprio processo de conhecimento, num constante movimento reflexivo. A compreenso, enquanto capacidade abrangente que permite uma relao criativa entre aprender sobre a realidade, na realidade e da realidade,  propsito fundamental da articulao das reas e temas transversais.
O tema tica segue os critrios de eleio dos outros temas transversais, guardando, entretanto, sua especificidade como um eixo norteador: as questes que se abordam nos demais temas reportam-se sempre s implicaes de valor presentes nas situaes sociais.
No campo da tica guarda-se a proposta de uma educao em valores. Valores de diversas ordens esto presentes na vida escolar, em todos os seus aspectos  ao promover a aprendizagem nas diversas reas, os professores esto, de alguma maneira, procurando despertar nos alunos o respeito por inmeros valores humanos, como a exatido, a preciso, a curiosidade, a verdade. Com esses valores articulam-se os valores morais, objetos da reflexo tica. Assim, a tica atravessa a proposta educacional da escola e o planejamento e execuo do trabalho de cada um dos professores e da relao de todos os que compem a comunidade escolar. Pode-se observar isso de vrias maneiras.
A prpria funo da escola  socializao do saber  levanta questes ticas. Para que e a quem servem o saber, os diversos conhecimentos cientficos, as vrias tecnologias?  necessrio refletir sobre essa pergunta. Alm do mais, sabe-se que um conhecimento totalmente neutro no existe. , portanto, necessrio pensar sobre sua produo e divulgao. O ato de estudar tambm envolve questes valorativas. Afinal, para que se estuda? Apenas na perspectiva de se garantir certo nvel material de vida? Tal objetivo realmente existe, porm, estudar tambm  exerccio da cidadania:  por meio dos diversos saberes que se participa do mundo do trabalho, das variadas instituies, da vida cotidiana, articulando-se o bem-estar prprio com o bem-estar de todos.
Questes relativas a valores humanos permeiam tambm os contedos curriculares.
Veja-se, por exemplo:

 nas chamadas Cincias Humanas, Histria e Geografia, trata-se essencialmente das relaes humanas, seja aquelas que se do nas instituies polticas, econmicas e sociais construdas pelos e entre os povos, seja as das sociedades com seu meio. O estudo das transformaes das diversas sociedades no tempo e na construo de seus espaos remete inevitavelmente  questo dos valores. Ainda que no sejam o elemento central ou explicativo das mudanas, nelas marcam sua presena. Explicitar esses valores que norteiam ou nortearam as diversas
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sociedades estudadas, a forma como foram gerados ou afirmados socialmente, os conflitos que se estabeleceram ou ainda se estabelecem entre valores diversos na trama social, revela-se de extrema importncia, pois, alm de permitir uma melhor compreenso dos valores e conflitos do mundo contemporneo, fornece referncias culturais necessrias para o trabalho reflexivo de formao moral autnoma;
 em Lngua Portuguesa e Lngua Estrangeira, deve-se considerar que a lngua  um dos veculos da cultura do pas onde  falada e que, portanto, carrega os valores dessa cultura. Por exemplo, em Lngua Portuguesa, comparar a chamada norma culta s outras formas de falar no  apenas comparar duas formas de se comunicar seguindo o critrio do "certo" e do "errado". , sobretudo, pensar sobre as diversas formas de o homem se apoderar da cultura, suas possibilidades objetivas de faz-lo. Mais ainda, a linguagem, oral ou escrita,  tambm uma situao de comunicao que aproxima pessoas, coloca-as em interao, define os lugares de onde se fala e de com quem se fala. Tomar a prpria lngua com objeto de estudo significa pensar tambm na qualidade dessa interao que a linguagem pode propiciar, tematizar os usos dessa lngua e de que forma tais usos refletem um respeito mtuo, uma considerao pelo outro, realizar procedimentos de um dilogo efetivo;
 em Matemtica, os usos que se fazem do seu conhecimento expressam valores. A traduo da realidade vivida em relaes numricas e em formas no  isenta de opes valorativas. Veja-se, por exemplo, a realidade econmica, na qual se busca invariavelmente amenizar escolhas de carter poltico ou moral pela suposta neutralidade dos nmeros, dos dados. A contestao desses dados se faz tambm com base no mesmo conhecimento matemtico. Assim, um ensino e aprendizagem que se faa de forma contextualizada, lanando mo de situaes concretas e problemticas dos seus usos, certamente trar consigo questes relativas a opes de valores. Alm disso, a prpria constituio da Matemtica como cincia ou rea do conhecimento traz consigo uma viso de mundo permeada por valores;
 em Arte, nas diversas formas de manifestao artstica da humanidade, revelam-se tambm vises de mundo e de
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valores. A produo artstica guarda um dilogo com a sociedade onde  produzida, com os seus valores inclusive. Portanto, ao lado das questes tcnicas da produo, apreciar ou realizar (ainda que com as caractersticas de uma produo escolar) uma produo artstica  um excelente espao de veiculao e reflexo sobre valores e sentimentos, de vivncia de Situaes cooperativas (no caso de produes coletivas). Cabe no esquecer tambm do momento de contextualizao das produes, o autor e a sociedade em que vive ou viveu, como um momento em que se est tratando de relaes e valores;
 em Educao Fsica, as questes relativas  competio e cooperao, ao conhecimento dos limites e possibilidades do prprio corpo e sua aceitao, a auto-disciplina, ao aprendizado e respeito a regras (no caso dos jogos),  participao na construo em comum acordo de novas regras (transformao ou adaptao de jogos), so questes que colocam em jogo os valores e as noes de sociabilidade que cada um carrega consigo, revelando-se tambm um excelente espao de formao moral;
 em Cincias Naturais, questes como a neutralidade ou no do conhecimento cientfico, as relaes entre esse conhecimento e as tcnicas e tecnologias, as transformaes sociais causadas pelas transformaes tecnolgicas, formam um "pano de fundo" no qual os contedos da rea se desenvolvem. No mbito da produo do conhecimento cientfico ou de novas tcnicas e tecnologias, questes ticas vm sendo debatidas. Para citar apenas alguns exemplos, debates sobre o uso da energia atmica ou subatmica no campo da Fsica, ou sobre a clonagem de seres humanos e a formulao de uma biotica no campo da Biologia, mostram como o tratamento das Cincias Naturais esto impregnados de questes valorativas e ticas. Obviamente os exemplos aqui citados no tm muita proximidade com os contedos propostos para esta etapa escolar, mas mostram como o uso e a produo do conhecimento cientfico esto indissociados de uma discusso e opes por valores. Tratar esse conhecimento de forma neutra ou absoluta, expressa valores. Contextualiz-lo e discutir seus usos contribui para uma formao moral e tica;
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 nos temas transversais, as questes referentes s relaes entre os seres humanos e seus valores tambm esto presentes. Ao se abordar, por exemplo, a sexualidade  tema que suscita discusses ticas, uma vez que se refere a relaes entre pessoas  e as doenas sexualmente transmissveis, como a Aids, pode-se levantar a questo do respeito pelo outro: preservar-se dessas doenas no se justifica apenas pelo zelo da prpria sade e sobrevivncia, mas tambm pelo respeito  vida alheia, uma vez que o parceiro pode ser contaminado. Em relao ao Meio Ambiente, temas como a preservao da natureza dizem respeito diretamente  vida humana, pois poluir rios causa problemas de doenas em quem depende de guas. Ou seja, desrespeitar a natureza significa desrespeitar as pessoas que dela dependem.
 As relaes sociais internas  escola so pautadas em valores morais. Como agir na relao com o aluno, com o professor, com o colega? Eis questes bsicas do cotidiano escolar. A prtica dessas relaes forma moralmente os alunos. Se as relaes forem respeitosas, equivalero a uma bela experincia de respeito mtuo. Se forem democrticas, se os alunos puderem participar de decises a serem tomadas pela escola, equivalero a uma bela experincia de como se convive democraticamente, de como se toma responsabilidade, de como se dialoga com aquele que tem idias diferentes. Do contrrio, corre-se o risco de transmitir aos alunos a idia de que as relaes sociais em geral so e devem ser violentas e autioritrias.
 As relaes da escola com a comunidade tambm levantam questes ticas. De fato, a escola no  uma ilha isolada do mundo, da cidade ou do bairro. Ela ocupa lugar importante nas diversas comunidades, pois envolve as famlias. Cada lugar tem especificidades que devem ser respeitadas e contempladas. Algumas das atividades de professores e alunos esto relacionadas com questes e problemas do lugar onde est a escola. Como participar da vida da comunidade? Como articular conhecimentos com as necessidades de um bairro ou de uma regio? Eis questes que envolvem decises pautadas em valores que devem ser explicitados e refletidos.

Por seu carter reflexivo, a tica implica sempre uma problematizao. Nessa medida, sua insero no currculo traz dois desafios: o de no aparecer de modo postio, como
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"adereo" da aprendizagem de uma rea, e o de no se identificar com a imposio autoritria de valores. Isso diz respeito  necessidade de se descobrirem e se criarem espaos no cotidiano da escola, da sala de aula, para a discusso sobre o significado dos conceitos, comportamentos e atitudes. Assim, no h razo para que sejam tratadas em paralelo, em horrio especfico de aula. Pelo contrrio, passar ao lado de tais questes seria, justamente, prestar um desservio  formao moral do aluno: induzi-lo a pensar que tica  uma "especialidade", quando, na verdade, ela diz respeito a todas as atividades humanas. Cumprimentar-se, dirigir-se aos outros, participar de uma discusso, organizar espacialmente a classe de uma determinada maneira, dividir os alunos em grupos, verificar o cumprimento das caretas, propor atividades, justificar a importncia da abordagem dos contedos especficos, so gestos, de professores e alunos, que guardam em si possibilidades de revelar valores e de refletir a seu respeito.
O trabalho com a tica tem como objetivo o reconhecimento de que as atitudes das pessoas precisam ser pautadas por princpios de respeito, justia, solidariedade e dilogo, que devem estar expressos na ao cotidiana da escola. A contribuio da escola, e principalmente do professor,  fundamental para que os alunos desenvolvam a capacidade de pautarem as suas atitudes naqueles princpios. Para tanto,  necessrio que o professor proponha situaes didticas que propiciem a todos os alunos o conhecimento e a discusso crtica sobre eles.
A organizao de situaes didticas para a efetivao da educao em valores implica na criao e seleo de situaes-problema, inspiradas nos contedos de tica e relacionadas aos contedos das reas e temas que se pretende trabalhar. Por exemplo, ao ensinar que para produzir e legitimar regras  preciso recorrer ao critrio de justia, pode-se propor a problematizao de uma situao na qual haja a supresso dos direitos de alguns alunos ou pessoas que representam os segmentos da sociedade. A ttulo de ilustrao, seria imaginar a seguinte situao: "Hoje faremos uma eleio com o objetivo de designar um representante da classe para participar de uma reunio na Secretaria de Educao. Antes da eleio, quero descrever as caractersticas necessrias para que o aluno possa participar desce processo. So: para se eleger, o jovem precisa ter estatura superior a um metro e sessenta centmetros, ser um aluno que nunca faltou s aulas, que no crie polmicas nas discusses. As garotas s podem se candidatar se no tiverem afazeres domsticos". A inteno  provocar uma discusso sobre o assunto. Notcias de jornais, acontecimentos da comunidade, programas de TV, novelas, dilemas da escola podem ser utilizados na problematizao.
A contextualizao, estabelecendo relaes entre os contedos selecionados e a realidade,  importante para que se garanta a possibilidade de os alunos compreenderem o significado do exerccio crtico e do dilogo, em que idias diversas se apresentam e so debatidas.
Alm disso, faz-se um importante trabalho educativo atuando nas situaes emergentes do cotidiano escolar, tanto dentro como fora das salas de aula.
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A interveno do professor  fundamental: abrir espao para a manifestao dos alunos e no se esquivar de apresentar seu ponto de vista, evitando, porm, que funcione como determinador dos encaminhamentos das discusses.  importante que os alunos percebam que no h neutralidade nos juzos de valor que se emitem, mas tambm que no so pontos de vista estritamente individuais que orientam a conduta em sociedade. E interessante que a interveno do professor sirva para estimular a reflexo, considerando os diferentes pontos de vista sobre as questes-problema, buscando evidenciar os princpios que os sustentam.
Um espao privilegiado para o estmulo  reflexo tica se encontra na avaliao que se realiza na escola. Avaliar  voltar-se criticamente para um objeto, apreci-lo segundo determinados critrios e finalidades. E uma forma de julgamento que deve ser justa. Para que ela possa ser percebida como justa pelos alunos,  necessrio que a escola, ao eleger os critrios de avaliao e seus indicadores, informe aos alunos quais so eles e explicite sua razo de ser.
Se se amplia aqui a noo de contedos, que no abrange apenas os conceitos,  preciso ampliar tambm a noo de avaliao. Se se pretende realizar uma formao integral,  preciso que a avaliao tambm o seja. Trata-se de olhar criticamente para todo o trabalho que se realiza na escola e no apenas o do aluno. E quando se voltar para o trabalho do aluno,  preciso que, numa relao de respeito e justia, o professor aponte aspectos positivos e negativos do trabalho, dando pistas para a superao de problemas e aprimoramento do processo. Avaliaes durante todo o processo de aprendizagem possibilitam que se diagnostiquem as dificuldades e que o aluno as conhea, para poder super-las. Nessa perspectiva, um trabalho srio com a auto-avaliao, envolvendo questes relacionadas a todas as experincias do aluno, contribuir para a construo da aprendizagem e da autoconfiana. Fichas descritivas, apreciaes orais e ou escritas, so aes que devem fazer parte do cotidiano da avaliao, propiciando assim a construo do conhecimento do aluno em um clima de respeito e justia.
O tratamento transversal tem o propsito de, alm de resgatar a importncia das experincias efetivamente vividas no ambiente escolar, levar em conta a necessidade de apresentar e explicitar os valores fundamentais como o respeito mtuo, a solidariedade, a justia e o dilogo A proposta de transversalidade  reforada, portanto, por trs razes  prticas.
A primeira: no refazer o erro da m experincia da disciplina de Moral e Cvica, que partia do pressuposto que a formao moral corresponde a uma "especialidade" e que deveria ser isolada no currculo em aulas especficas, e o fazia, alm do mais, com um carter negativo de "doutrinao".
A segunda: a problemtica moral est presente em todas as experincias humanas e, portanto, deve ser enfocada em cada uma dessas experincias que ocorrem tanto durante o convvio na escola como na articulao das diversas reas entre si.
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A terceira:  importante no levar o aluno a dividir a moral num duplo sistema de valores: aqueles que se apresentam no discurso e aqueles que, de fato, inspiram as aes. Infelizmente, tal duplo sistema existe, mas associar a educao moral a discursos sobre o Bem e Mal nada mais faz do que reforar o divrcio entre discurso e prtica. Ao ancorar a educao moral na vivncia social, reatam-se os laos entre pensar, falar e agir. E ao incentivar a reflexo e realiz-la de maneira contnua, incorporando-a  prtica cotidiana do trabalho na escola, se estar mais prximo da realizao do ideal de construo e afirmao da cidadania.
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OBJETIVOS GERAIS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL
Uma vez que os Parmetros Curriculares Nacionais para o ensino fundamental destinam-se a todos os brasileiros e objetivam alcanar e fortalecer a meta maior que  a formao do cidado, escolheram-se temas morais que necessariamente devem ser contemplados para que essa formao tenha xito. Os contedos apresentados esto referenciados ao princpio da dignidade do ser humano, um dos fundamentos da Constituio brasileira.
O trabalho com o tema tica visa o desenvolvimento da autonomia moral pelos alunos, fundamental para que possam compreender e atuar de maneira crtica diante dos valores e regras sociais, conhecendo e elegendo princpios e pautando-se por eles.
Articulados aos objetivos gerais do ensino fundamental, os objetivos de tica foram elencados visando orientar todo o trabalho pedaggico, que deve organizar-se de forma a possibilitar que os alunos sejam capazes de:
reconhecer a presena dos princpios que fundamentam normas e leis no contexto social;
refletir criticamente sobre as normas morais, buscando sua legitimidade na realizao do bem comum;
compreender a vida escolar como participao no espao pblico, utilizando os conhecimentos adquiridos na construo de uma sociedade justa e democrtica;
assumir posies segundo seu prprio juzo de valor, considerando diferentes pontos de vista e aspectos de cada situao;
construir uma imagem positiva de si, de respeito prprio e reconhecimento de sua capacidade de escolher e de realizar seu projeto de vida;
compreender o conceito de justia baseado na equidade, e empenhar-se em aes solidrias e cooperativas;
adotar atitudes de respeito pelas diferenas entre as pessoas, repudiando as injustias e discriminaes;
valorizar e empregar o dilogo como forma de esclarecer conflitos e tomar decises colerivas.
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TICA
2 PARTE

CONTEDOS DE TICA PARA TERCEIRO E QUARTO CICLOS
Os blocos de contedos abordam aquilo que os alunos precisam aprender para atuar autnoma e criticamente em uma sociedade democrtica. Como estimular a atitude de respeito mtuo? Como romper com a crena de que somente pessoas autoritrias so respeitadas? Como o conhecimento pode colaborar para melhoria das relaes na escola? Que contedos dentro das diferentes reas de conhecimento auxiliam os alunos a construir uma atitude de respeito? Quais os critrios que estabelecem o que  justo e injusto? Como sensibilizar o aluno para agir solidariamente? Qual a importncia do dilogo no estabelecimento de relaes de respeito, justia solidariedade entre as pessoas?
Os contedos detalhados a seguir tm a inteno de contemplar essas questes, compondo uma aprendizagem de convivncia democrtica.
Levando em considerao o fato de que as experincias escolares abrangem, de forma intrincada e complementar, a aprendizagem das diversas reas do conhecimento e o convvio escolar, os critrios que nortearam a escolha dos contedos foram: sua relevncia tanto para o ensino das diversas reas e temas quanto para a convivncia na escola, e a possibilidade de serem trabalhados de forma articulada com os outros temas, na sala de aula. Buscou-se contemplar a afirmao e a legitimao de valores relacionados ao princpio de dignidade humana e a construo de autonomia moral pelos alunos.
O conceito de dignidade do ser humano  demasiadamente abstrato, mas com experincias concretas, notadamente aquelas vivenciadas pelos alunos, a idia de dignidade poder, pouco a pouco, tornar-se significativa para eles. Portanto, trata-se de construir contextos pedaggicos em que possam vivenciar experincias de respeitar e ser respeitado, de realizar aes justas, de dialogar efetivamente com colegas e professores, de ser solidrios e receber solidariedade, de ter acesso a conhecimentos que alimentem sua compreenso e analisar criticamente situaes concretas dentro e fora da escola.
Os contedos se expressam, na verdade, nos contextos. O que se precisa ensinar e aprender, no que diz respeito  tica, tem caractersticas distintas de outras reas e temas, e est, ao mesmo tempo, presente em todas elas. Diz respeito, em thma instncia, ao reconhecimento da prpria organizao das relaes sociais e da necessidade da busca do viver e conviver bem, conhecendo, participando, opinando, ousando e transformando.
Os blocos de contedos, intimamente relacionados entre si, so:
 Respeito mtuo.
 Justia.
 Solidariedade.
 Dilogo.
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Respeito mtuo
O respeito se traduz pela valorizao de cada indivduo em sua singularidade, nas caractersticas que o constituem. Traz guardada, em sua significao, as idias de individualidade e de alteridade: na tomada de conscincia que cada pessoa faz de si prpria revela-se a presena do outro como constituinte de sua existncia social.
A reflexo sobre o respeito  bastante complexa. Entendendo que ele  uma atitude, os sentimentos nos quais se baseia podem conferir-lhe sentidos diferentes. Assim, a atitude de respeito pode estar associada  de submisso, derivada de sentimentos como o medo ou a inferioridade.  o caso de quem respeita algum por ser mais forte ou por ter mais poder. Pode-se observar, na sociedade brasileira, a presena desse tipo de respeito numa expresso popularmente freqente: "Voc sabe com quem est falando?". Essa expresso traduz uma exigncia de respeito unilateral: "Eu sou mais que voc, portanto, respeite-me".  a frase que muitas "autoridades" gostam de empregar para se verem prestigiadas, ou quando se sentem, de alguma forma, desacatadas no exerccio de seu poder. No faltam exemplos de pessoas que se submetem a esse tipo de atitude e mantm-se constantemente em volta do poder, aceitando vantagens pessoais em troca de submisso e humilhaes.
Por outro lado, a atitude de respeito pode estar associada  de venerao, de considerao. Respeita-se algum que possua atributos ou qualidades que so valorizadas, como a sabedoria, a ponderao, a coragem, em suma, traos de carter considerados positivos.
Alm de poder estar associado a uma atitude positiva ou negativa, o respeito pode se dar de maneira unilateral ou recproca. No universo das relaes espontneas,  possvel que algum nutra sentimentos de admirao e considerao por outro sem ser correspondido. Por outro lado,  tambm possvel, e mesmo desejvel, que duas pessoas sintam uma admirao e considerao recprocas.
As formas de respeito evidenciam valores presentes na socializao, na aprendizagem que se d no interior das instituies sociais. Educada de uma determinada maneira, num espao em que se valorizam as relaes assimtricas, uma criana pequena concebe o respeito como unilateral, portanto, dirigido a pessoas prestigiadas, apresentadas a ela como poderosas. Em outro contexto, pode aprender a valorizar e vivenciar a relao de reciprocidade: respeitar e ser respeitado.
O respeito ganha seu significado mais amplo, quando se realiza como respeito mtuo: ao dever de respeitar o outro, arcicula-se o direito, a exigncia de ser respeitado.
As atitudes de respeito mtuo encontram-se mais freqentemente no espao das relaes diretas, no convvio prximo e constante. Entretanto, o carter universal da dignidade humana e do ideal democrtico de convvio social supem uma base mais ampla do que aquela que o convvio direto entre as pessoas pode possibilitar. Com base na noo
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de humanidade, de comunidade humana, o respeito deve deixar de ser apenas uma atitude baseada nas emparias das relaes pessoais para tornar-se um princpio que norteie todas as condutas, inclusive as que envolvem contatos espordicos entre pessoas nas ruas ou locais pblicos, os juzos entre grupos de pessoas diferentes que no mantenham contato direto.
A idia de humanidade  importante na construo do princpio de respeito mtuo, articulando individualidade e diversidade, desvendando as inter-relaes nem sempre percebidas entre as pessoas. A percepo dos vrios nveis de sociabilidade que permeiam as relaes entre as pessoas  desde as menos formais, como as relaes pessoais e afetivas, em pequenos grupos, passando pelas mais formais como situaes de trabalho, de escola, convvio em lugares pblicos, e culminando nas mais abstraias, que envolvem o exerccio da cidadania, na participao poltica em movimentos sociais  permite reflexo e diferenciao de formas de conduta respeitosas. Assim  possvel refletir sobre quais condutas so devidas e podem ser exigidas tanto nas relaes de famlia ou entre amigos, mais permissivas e estabelecidas de comum acordo, quanto nas relaes formais, regulamentadas por normas de convvio social.
O princpio de que todas as pessoas merecem respeito, independentemente de sua origem social, etnia, religio, sexo, opinio, assim como as manifestaes socioculturais dos diferentes grupos sociais que constituem a sociedade, fundamenta a afirmao do respeito mtuo. Essa idia se desdobra em tpicos que indicam o que  necessrio que os alunos aprendam com relao a respeitar e ser respeitado.

 Compreenso de que todas as pessoas precisam sentir-se respeitadas e sentir que delas se exige respeito.

O convvio com respeito na escola  a melhor experincia que pode ser oferecida ao aluno. E vivendo experincias de respeito e refletindo sobre o respeito nas diferentes reas de conhecimento que se aprende a respeitar e a exigir respeito.
Na escola, tem-se oportunidade de conviver com pessoas diferentes. Uns so brancos, outros negros, outros mestios, h meninos e meninas, alguns com limitaes no desempenho, outros talentosos em algumas habilidades, pessoas de renda familiar desigual, oriundas de famlias de diversas religies e opinies polticas etc. Todos os alunos esto na sala de aula usufruindo do mesmo direito  educao. Chamando ateno para isso, ao trabalhar com os contedos de Histria, por exemplo, com as questes histricas que se referem aos contatos culturais, inter-relaes e confrontos entre grupos, as lutas sociais que reinvidicam respeito pelas diferenas e igualdades, bem como a defesa de seus territrios e de suas identidades, o professor pode criar excelente ocasio para discutir e refletir sobre as consequncias histricas das atitudes de discriminao e segregao, contribuindo para que os alunos aprendam a importncia de se posicionar com relao ao valor de que todos so merecedores de serem tratados com dignidade, cada um na sua
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singularidade. Essa aprendizagem inclui tambm o envolvimento dos alunos na definio das condutas desejveis nas relaes interpessoais, no cotidiano do trabalho na escola.

 Identificao de diferentes formas de se demonstrar respeito correspondentes a diferentes esferas de sociabilidade e convvio: relaes pessoais, relaes formais e relaes indiretas.

Na vida em sociedade, as pessoas assumem papis diferenciados, definidos a partir das relaes sociais vividas. Cada papel social guarda em seu interior uma indicao de comportamento nas diversas esferas de que se participa. Alm do papel de aluno, o estudante desempenha uma multiplicidade de outros papis:  filho,  irmo,  eventualmente profissional etc. Para cada um desses papis h uma expectativa de atuao, baseada no conjunto de valores do contexto social. Muitas vezes identifica-se o respeito com o aspecto formal do tratamento. Por exemplo, julga-se respeitoso dirigir-se a algum tratando-o por "senhor" ou "senhora". Isso vale, sem dvida, quando a relao se d entre desconhecidos, ou entre jovens e pessoas idosas. Mas o respeito est alm do tratamento formal. A discusso de questes-problema ou dilemas que se relacionam s responsabilidades assumidas nos diferentes papis, as diferentes atitudes que as pessoas tm ao assumir um papel, as normas que definem responsabilidade nos papeis sociais, tem a inteno de desencadear entre os alunos reflexes sobre as diferentes esferas de sociabilidade, as formas de expressar respeito aos colegas, professores e outros funcionrios da escola, autoridades de diferentes instituies, bem como das posturas pertinentes a diferentes situaes sociais.

 Reconhecimento dos limites e possibilidades pessoais e alheias.

Revelar os seus conhecimentos, expressar seus sentimentos e emoes, admitir suas dvidas sem ter medo de ser ridicularizado, exigir seus direitos, so aprendizagens que valorizadas contemplam o contedo do respeito mtuo.
Os alunos podem ser estimulados a conhecer melhor as suas potencialidades e a de seus colegas, por meio do auxlio que o professor pode oferecer. Por exemplo: mediante a seleo de atividades, intencionalmente armadas, a organizao dos grupos de trabalho provocados por uma boa questo problematizadora de pesquisa que mobilize o grupo na busca de solues, temperado com sugestes do professor sobre como as tarefas podem ser divididas e articuladas por todos os membros do grupo, auxiliam o aluno a perceber suas capacidades e as dos outros, valorizando assim os diferentes talentos, para que se instale na sala de aula uma postura de ajuda mtua e troca que enriquecer o aprendizado de todos. So muitas as escolas que tm apresentado resultados positivos com relao a aprendizagem da colaborao e compromisso com a aprendizagem de todos. A organizao das salas de aulas com essa inteno, alm de atender a um direito do aluno de no ser 
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discriminado, possibilitar de uma forma mais rica a construo do respeito mtuo por meio da cooperao.

 Identificao e repdio de situaes de desrespeito.

Existem situaes de preconceito, como aquelas em que se estigmatizam, em geral com apelidos pejorativos, aqueles cuja aparncia no corresponde a um "modelo" ocasionalmente valorizado, assim como discriminaes relacionadas a religies, etnia, sexo etc. E necessrio procurar impedir que essas atitudes se instalem e temariz-las em sala de aula, a fim de que se analisem os porqus das discriminaes e dos preconceitos que geram atitudes de desrespeito, caminhando para o rompimento das crenas que se perpetuam no tempo, demonstrando a total impossibilidade de se deduzir que alguma etnia e melhor do que outra, que determinada cultura  a nica vlida, que um sexo e superior ao outro, que atributos fsicos determinam personalidades e assim por diante. A atitude de indignao e a resposta que se espera das pessoas quando for constatado que elas mesmas ou outras pessoas esto sendo desrespeitadas na vida cotidiana.
Reconhecer que situaes de preconceito e desrespeito acontecem nas relaes interpessoais cotidianas e que no so s os adolescentes que passam por isso e muito importante para pensarem formas de interveno nessas situaes. As atitudes contraditrias so comuns nas relaes. Assumir que elas existem provoca a busca de respostas, a conhecer melhor aqueles com quem se convive. Essa busca encaminha o olhar para os porqus dos conflitos, podendo possibilitar a aproximao e superao deles. Explicitadas e negociadas as solues, tem-se a possibilidade de pensar em como reparar situaes a partir do reconhecimento de que pode existir a necessidade de se desculpar diante das atitudes tomadas se estas desrespeitam os outros.
No  apenas nas relaes pessoais, entretanto, que os desrespeitos acontecem. Podem acontecer formas de desrespeito mtuo entre pessoas e instituies, na prpria formulao de normas e regras de funcionamento destas. As normas e regras das instituies tem o objetivo de melhorar a convivncia entre as pessoas, porm h casos em que refletem uma concepo autoritria, estabelecendo obrigaes que impossibilitam a incluso de muitos. Quando as normas estabelecidas evidenciarem um carter de excluso,  importante que sejam revistas e reelaboradas.

Justia 
O tema da justia sempre atraiu todos aqueles que pensaram sobre a moralidade, desde a antiguidade, e encanta e inquieta todos aqueles que se preocupam com a pergunta "Como agir na relao com os outros?". A rigor, ela poderia ser assim formulada: "Como ser justo com os outros?", ou seja, "Como respeitar seus direitos? Quais so esses direitos? E os meus?".
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O conceito de justia pode remeter  obedincia s leis. Por exemplo, se a lei prev que os filhos so os herdeiros legais dos pais, deserd-los ser considerado injusto. Um juiz justo ser aquele que se atm  lei, sem feri-la. Ser considerado injusto se, por algum motivo, resolver ignor-la.
Porm, o conceito de justia vai muito alm da dimenso legal. As leis so comandos coercitivos, que podem ser sbios ou tolos, justos ou injustos. De fao, uma lei pode ser justa ou no. A prpria lei pode ser, ela mesma, julgada com base em critrios ticos. Por exemplo, no Brasil, existiu uma lei que proibia os analfabetos de votar. Cada um, intimamente ligado  sua conscincia, pode se perguntar se essa lei era justa ou no; se os analfabetos no tm o direito de participar da vida publica como qualquer cidado; ou se o fato de no saberem ler e escrever os torna desiguais em relao aos outros. Portanto, a tica pode julgar as leis como justas ou injustas.
As duas dimenses da definio de justia so importantes. A dimenso legal da justia deve ser contemplada pelos cidados. Muitos, por no conhecerem certas leis, no percebem que so alvo de injustias. No conhecem seus direitos; se os conhecessem, teriam melhores condies de lutar para que fossem respeitados. Porm, a dimenso tica  insubstituvel, precisamente para avaliar de forma crtica cercas leis, para perceber, como, por exemplo, privilegiam alguns em detrimento de outros. E os critrios essenciais para se pensar eticamente sobre a justia so igualdade e equidade.
A igualdade reza que todas as pessoas tm direitos iguais. No h razo para alguns serem "mais iguais que os outros". Se h um bolo a ser dividido entre vrias pessoas, afirma-se que dividir igualmente  dar partes iguais a cada uma delas. E dessa maneira que se ensina s crianas, desde cedo. Deve-se considerar, entretanto, que a igualdade que  essencial  justia  menos a igualdade entre objetos que se trocam ou repartem do que entre os sujeitos envolvidos na relao  igualdade de direitos articulada s diferenas que caracterizam os indivduos.
O conceito de igualdade deve ser, portanto, ampliado pelo de equidade. De fato, na grande maioria das vezes, as pessoas no se encontram em posio de igualdade. Nascem em diferentes condies sociais, econmicas, tm diferentes atributos fsicos etc. Seria injusto no levar em conca essas diferenas e, por exemplo, destinar a crianas e adultos os mesmos trabalhos, como acontece, infelizmente, no Brasil, no campo e em inmeras cidades.
As pessoas tambm no so iguais no que diz respeito a seus feitos e, da mesma forma, seria considerado injusto dar igual recompensa ou castigo a todas as aes  por exemplo, punir todo crime, da menor infrao ao assassinato, com pena de priso, ou atribuir a todos os alunos a mesma nota. Fazer justia  considerar a diversidade, pois o critrio da equidade restabelece a igualdade respeitando as diferenas. No  sem razo que o smbolo da justia , precisamente, uma balana.
A importncia da valorizao da justia para a formao do cidado  evidente. Em primeiro lugar, para o convvio social, sobretudo quando se detm algum nvel de poder
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que traz a responsabilidade de decises que afetam a vida de outras pessoas. Um pai ou uma me, que tm poder sobre os filhos e responsabilidade por eles, a todo momento devem se perguntar se suas decises so justas ou no. Numa escola, os professores tambm devem se fazer essa pergunta para julgar as atitudes de seus alunos.
Em segundo lugar, para a vida poltica: julgar as leis segundo critrios de justia, julgar a distribuio de renda de um pas segundo o mesmo critrio, avaliar se h igualdade de oportunidades oferecidas a todos, se h impunidade para alguns, se o poder poltico age segundo o critrio da equidade, se os direitos dos cidados so respeitados etc. A formao para o exerccio da cidadania passa necessariamente pela elaborao do conceito de justia e seu constante aprimoramento. Uma sociedade democrtica tem como principal objerivo ser justa, inspirada nos ideais de igualdade e equidade. Tarefa difcil, que pede de todos, governantes e governados, muito discernimento e muita sensibilidade. Se um regime no conseguir aproximai a sociedade do ideal de justia, se perdurarem as tiranias, nas quais o desejo de alguns so leis e os privilgios so normas, se os direitos de cada um, baseados na equidade, no forem respeitados, no se pode afirmar que h democracia.
Atuar com justia nas diferentes situaes que se apresentam na vida cotidiana escolar  um desafio muito grande: no existe um modelo de como ser justo, nem mtodos preconcebidos que garantam o aprendizado, uma vez que as situaes reais so sempre complexas. Como um princpio  isto , um valor maior que ultrapassa o limite da norma c do costume c se toma como orientador da anlise crtica, das prticas, dos julgamentos e dos comportamentos , sua legitimao envolve construo conceituai, desenvolvimento de atitudes e aprendizado de procedimentos.

 Identificao, formulao e discusso de critrios de justia para  analisar situaes na escola e na sociedade.

Quais devero ser os critrios, definidos coletivamente, para o estabelecimento do justo e do injusto?
A responsabilidade guardada nas decises aponta a necessidade de pensar em alternativas que vo alm das possibilidades j pensadas. Dilemas morais enfrentados diariamente nas relaes demonstram que as atitudes tomadas nos relacionamentos nem sempre so coerentes, consistentes. Pelo contrrio, s vezes so bastante contraditrias. Sendo assim, para fazer a melhor opo,  importante que sejam valorizadas as diferentes opinies e compartilhadas as decises.
A escola pode contribuir muito para que os alunos desenvolvam a capacidade de se pautarem pelo princpio da justia de modo autnomo, se torn-lo, ela prpria, como orientador de suas prticas. E claro que as intenes e as tentativas no eliminam a possibilidade de que aconteam situaes de injustia. Entretanto, estar atento a elas,avaliar as prticas escolares segundo esse princpio, promover as tranformaes necessrias para corrigi-las  p que de melhor se pode oferecer  formao tica dos alunos e ao desenvolvimento profissional e pessoal dos educadores.
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 importante levar em considerao que desde cedo as crianas so muito sensveis s manifestaes de justia e injustia, embora, at cerca de oito anos de idade em mdia, no saibam expressar verbalmente sua aceitao ou seu repdio. Por volta dessa idade, comeam a questionar as injustias e a revoltar-se contra elas e, a partir da adolescncia, ampliam a capacidade de analisar situaes complexas, considerar diferentes fatores envolvidos e construir critrios de justia. Porm, como sempre, tal desenvolvimento no depende do simples fator tempo. Se forem sistematicamente submetidas a situaes de autoritarismo, a mandamentos no explicados racionalmente ou arbitrrios, no tero possibilidade de aprender a analisar as situaes e posicionar-se em relao a elas. Pelo contrrio, vivendo situaes nas quais os critrios de justia sejam explicitados e aplicados, tomam conscincia deles, assimilam-nos e os tornam seus.
Posturas didticas que evidenciem para os alunos a importncia de garantir, a partir de acordos mtuos, o direito de todos, que proporcionem o reconhecimento dos esforos nas diferentes tentativas de avanos e que ampliem a possibilidade de incluso de todos nas diferentes atividades, permitem que os alunos percebam a confiana neles depositada por colegas e adultos da escola, certifiquem-se de que as pessoas possuem direitos que precisam ser garantidos e que  necessrio recusar que alguns tenham privilgios.

 Considerao de critrios de justia para compreender,      produzir e legitimar regras.

O princpio da justia traduz-se na busca da igualdade de direitos e de oportunidades, o que pressupe considerar as condies concretas das situaes e dos sujeitos envolvidos para o julgamento do que  justo ou injusto. Por outro lado, as situaes concretas so mutveis, o que significa dizer que no  possvel fixar as solues de justia. Por isso,  preciso aprender que nem sempre regras e leis formais garantem a justia, que  preciso saber com quais critrios se dever avaliar as situaes concretas e que a discusso sobre elas, de preferncia com a participao dos envolvidos,  a forma democrtica de se buscar a justia.
A identificao de vrias solues possveis para questes-problema ou dilemas discutidos, levando-se em conta as condies dos sujeitos envolvidos, favorece o desenvolvimento da capacidade de elaborar e analisar normas e regras e a necessidade de sua modificao ou manuteno em funo do atendimento do princpio de justia. Alm de ser um aprendizado fundamental para o desenvolvimento de uma "atitude democrtica", isso vale tanto para situaes da vida cotidiana como para analisar situaes distantes no tempo ou no espao, trazidas pelos meios de comunicao ou pelos contedos das reas de estudo.
Trazer  reflexo situaes em que a exigncia de igualdade se coloca como evidncia daquilo que  justo (como, por exemplo, regras que impedem a manuteno de privilgios
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no acesso  escola), e situaes em que as condies diferenciadas de uns e outros determinam a equidade como manifestao do que  justo (como, por exemplo, nas situaes que envolvem turmas de idades diferentes em uma mesma atividade: nessas situaes o que se define para os menores e maiores em geral no  igual em funo das capacidades diferenciadas),  uma forma de contribuir para que o aluno amplie a noo de justia que est construindo.

 Identificao e repdio de atitudes que violentam os direitos do ser humano.

Insistir em reivindicar integralmente os direitos do ser humano  uma empreitada poltica que no se pode ignorar. Situaes em que se desrespeitam os princpios de convivncia democrtica e formas de doutrinao, que colocam seres humanos uns contra os outros, necessitam ser tematizadas com o propsito de que os alunos entendam o que leva seres humanos a atitudes to graves, percebendo assim a importncia de repudi-las .
A valorizao da justia implica o posicionamento contrrio s situaes de injustia tanto na vida cotidiana como nos acontecimentos prximos e nas situaes distantes no tempo e no espao. O aprendizado desta atitude compreende a leitura dos subtextos e das intencionalidades dos discursos tericos, comunicativos, informativos etc., alm da anlise de diferentes posturas ou das diferentes leituras dos fatos.
Tanto nas reas como nos temas transversais encontram-se contedos que favorecem a discusso/reflexo que se pretende.
O problema muitas vezes apontado como o mais vergonhoso da civilizao humana, que  a fome, a falta de acesso aos alimentos por uma grande parte da populao brasileira e de demais pases pobres do mundo, por exemplo,  abordado na rea de Cincias Naturais para o terceiro ciclo.
Questes relacionadas com a violncia so abordadas em Histria, quando se analisam as consequncias histricas das atitudes de discriminao e segregao: os acordos ou desacordos que favorecem ou desfavorecem convivncias humanas mais igualitrias e pacficas e que podem auxiliar na concretizao da paz, do respeito pela vida. Tambm so abordadas na rea de Educao Fsica, na qual se aponta a importncia de questionar com os alunos o incentivo  violncia potencialmente presente na forma de comunicao utilizada nos cadernos esportivos, jogos televisionados e irradiados em que so usados termos como "inimigos", "guerra", "batalha de morte", para descrever atitudes de jogadores e torcidas.
Tambm no convvio escolar, inmeras situaes pedem e possibilitam a reflexo sobre as consequncias das decises para os diferentes sujeitos envolvidos nas situaes, o que  fundamental para o desenvolvimento da atitude de repdio s injustias e para a busca de alternativas para sua superao.
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Solidariedade
O respeito mtuo tem sua significao ampliada no conceito de solidariedade. Talvez se possa mesmo dizer que os gestos de solidariedade so, concretamente, expresso de respeito dos indivduos uns pelos outros. Ser solidrio , efetivamente, alm do respeito, partilhar de um sentimento de interdependncia, reconhecer a pertinncia a uma comunidade de interesses e afetos  tomar para si questes comuns, responsabilizar-se pessoal e coletivamente por elas. O que se deseja aqui  aproximar as idias de solidariedade e de doao, de ajuda desinteressada. A solidariedade no pode constituir-se em objeto de uma declarao, como os Direitos Humanos  no gesto solidrio, crata-se de agir, no em funo de determinado texto, de determinada lei, mas alm de qualquer texto, de qualquer lei. A rigor, se todos fossem solidrios nesse sentido, talvez nem se precisasse pensar em justia: cada um daria o melhor de si para os outros.
A fora da solidariedade dispensa que se demonstre sua relevncia para as relaes interpessoais. E importante, entretanto, estar atento para alguns equvocos, que se constatam em certas circunstncias. A palavra solidariedade pode ser enganosa. De fato, diz-se que os membros de uma quadrilha de ladres, por exemplo, so "solidrios" quando se ajudam e se protegem mutuamente. A mesma coisa pode acontecer com os membros de uma corporao profissional: alguns podem encobrir o erro de um colega para evitar que a imagem da profisso seja comprometida. Nesses casos, a "solidariedade" s ocorre em benefcio prprio: se a quadrilha ou a corporao correr perigo, cada membro em particular ser afetado. Portanto, ajuda-se o outro para salvar a si prprio.
 necessrio considerar, tambm, as diversas formas de ser solidrio. No se  solidrio apenas ajudando pessoas prximas ou engajando-se em campanhas de socorro de pessoas necessitadas, como, por exemplo, depois de um terremoto ou enchente. Essas formas so genuna traduo da solidariedade humana, mas h outras. Uma delas, que vale sublinhar aqui, diretamente relacionada com o exerccio da cidadania,  a da participao no espao pblico, na vida poltica. O exerccio da cidadania no se traduz apenas pela defesa dos prprios interesses e direitos, embora tal defesa seja legtima. Passa necessariamente pela solidariedade, por exemplo, pela atuao contra injustias ou injrias que outros estejam sofrendo. E pelo menos o que se espera para que a democracia seja um regime poltico humanizado e no mera mquina burocrtica.
A necessidade de comear a fazer parte do mundo adulto, o desejo de agir sobre a realidade e modific-la  marcante na adolescncia e na juventude. Na escola essa energia pode ser canalizada em prol de advidades que visem o bem-estar de todos, na perspectiva do desenvolvimento de atitudes solidrias. Entretanto, para que a solidariedade seja 
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concretizada,  necessrio que o ensino contemple tanto a valorizao de atitudes como o aprendizado de formas concretas de atuao. Assim, algumas observaes so pontuadas a seguir.

 Reconhecimento e valorizao da existncia de diversas formas de atuao solidria no mbito poltico e comunitrio.

 importante que o aluno perceba que pode ser solidrio tanto ao ajudar um amigo doente, que necessita momentaneamente de auxlio, como ao lutar por um ideal coletivo da sociedade. Ele precisa ter conhecimento das questes sociais mais urgentes, sensibilizar-se com elas, refletindo sobre os valores presentes nas sociedades e sobre os princpios que devem ser assumidos por todos para agir solidariamente. Um projeto pedaggico, no qual questes da realidade social que se encontram em debate sejam abordadas e discutidas, criar ocasio para que se pense em formas de colocar em prtica idias que concretizem aes solidrias. S conhecendo, vivenciando situaes e refletindo sobre elas o aluno pode construir uma postura solidria.
Organizar e participar de aes comunitrias, aprender cuidados especficos tais como primeiros socorros, responsabilizar-se pelo cuidado de bens coletivos, como uma biblioteca comunitria, ou um trabalho educativo em campanhas de sade, ou ambientais, so formas de envolvimento dos alunos em busca de alternativas para problemas reais da comunidade ou da sociedade em geral.
Analisar as campanhas que a mdia divulga periodicamente com a inteno de alertar as pessoas para questes que envolvem a necessidade da participao de todos em busca de uma sociedade mais justa, relacionar essa anlise aos problemas vivenciados na escola e na comunidade  um bom exerccio de sensibilizao para a ao solidria.  preciso que o aluno perceba-se considerado pela escola como algum que tem liberdade para optar, iniciativa para agir, compromisso e responsabilidade para ser cidado e que perceba tambm a importncia de sua participao em aes solidrias coletivas. 

 Atuao compreensiva nas situaes cotidianas.

Uma aprendizagem importante para o desenvolvimento da atitude de solidariedade est relacionada com a percepo das causas das dificuldades que os "outros" enfrentam.Conhecer as condies de vida das pessoas, aprender a buscar as causas das dificuldades enfrentadas pelo outro, refletindo sobre o direito de todos a uma vida digna, contribuir para que no sejam perpetuadas posturas equivocadas e preconceituosas e para que se modifiquem atitudes indiferentes diante de situaes injustas ou egostas, comumente 
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aceitas como naturais: "Isso sempre foi assim, no temos nada a fazer". Levar em conta os direitos do outro, buscar razes que expliquem a ausncia desses direitos em alguns contextos sociais, colocar-se no lugar do outro, significa lev-lo a srio, consider-lo real, compreend-lo. A atitude de compreenso indica no apenas uma apreenso racional de conceitos, mas tambm um envolvimento afetivo com a situao vivenciada.
Destaca-se aqui a importncia de o aluno aprender a ajudar os colegas que so portadores de necessidades especiais e perceber que tambm podem ser ajudados por eles. E  preciso romper com tabus, com a desinformao e a ignorncia, que levam a atitudes negativas em relao a essas pessoas. A informao e a preparao dos alunos para receb-los dever estar direcionada para a descoberta e aceitao de dificuldades, deficincias e necessidades que todo ser humano possui, e para a valorizao das diferenas e da cooperao.
O professor deve estimular para que sejam resgatadas atitudes que valorizem a prtica da solidariedade na sala de aula  a convivem ritmos de aprendizagem diferenciados, so expressos desejos e emoes distintos. O respeito aos colegas e a relao de cooperao precisam ser valorizadas e assumidas por todos. Os alunos precisam sentir que podem e necessitam ajudar e ser ajudados. Todos tm alguma coisa para partilhar: a valorizao do trabalho em duplas ou grupos, por exemplo,  muito importante para estimular a partilha. Aqueles que tm mais dificuldade em aprender podem ser auxiliados pelos colegas, se forem propostas na sala de aula parcerias e estratgias de colaborao, responsabilizando a todos pela aprendizagem de todos, numa relao solidria.
Isso no significa fazer pelo colega, mas fazer com ele. A solidariedade que se busca que o aluno aprenda deve aproximar-se da idia de generosidade, que no  caridade, atitude paternalista, mas compromisso e cidadania, caracterizando-se como oposio  qualquer forma de corporativismo que se coloque acima da busca da justia, ou que desconhea o bem comum e como a possibilidade de um sentimento de altrusmo: uma atitude de solidariedade com aqueles que necessitam ajuda, seja nas relaes cotidianas e interpessoais, seja pensando-se como parte da humanidade e, portanto, co-responsvel pela soluo dos problemas que afetam a todos. Essa  uma aprendizagem que requer, portanto, envolvimento de todos aqueles que fazem parte do contexto da escola.

 Conhecimento de aes necessrias em situaes ,especficas.

Ter a possibilidade de conhecer melhor o local em que mora por meio de pesquisas orientadas pela escola e aprender que a escola  uma instituio que faz parte da comunidade e precisa manter uma relao de intercmbio com as demais instituies  uma forma de 
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implementar a proposta de integrao da comunidade com a escola, pautada pela atuao solidria.
Conhecer melhor a comunidade, coletando informaes sobre as instituies que realizam trabalhos solidrios e atendem a populao, divulgar esses servios, avaliar sua proposta de atuao na comunidade, proporciona a criao de um vnculo de coresponsabilidade entre a escola e as instituies.
Os alunos necessitam aprender como, de fato, traduzir a solidariedade em aes. Um exemplo pode ser dado no tema Sade. Algum est passando mal ou teve um acidente. O mnimo sentimento de solidariedade exige que se o ajude. Porm, como fazer? O que fazer? Se for o caso, a quem chamar? Para onde transportar a pessoa? Sem esses conhecimentos bsicos, a solidariedade fica apenas na inteno. Portanto,  imperativo que a escola promova tais aprendizados. Estabelecer parcerias com instituies como o Corpo de Bombeiros, Postos de Sade e outras que possam dar informaes adequadas sobre como agir corretamente em situaes de emergncia, contribuir para a formao do jovem e a percepo das formas correias de ajuda.

 Repdio a atitudes desleais, de desrespeito, violncia e omisso.

Para que o jovem aprenda a repudiar atitudes violentas  preciso que saiba identific-las. O papel da escola  o de desvelar essa situao por meio de discusses que explicitem os diferentes tipos de violncia (fsica, moral, simblica) que jovens, adultos e crianas podem sofrer, auxiliando o aluno a reconhecer atitudes violentas, prevenir-se contra elas, conhecer instituies que auxiliem vtimas de violncia e a possibilidade de denunciar essas atitudes.
Faz-se necessrio chamar a ateno para atitudes de omisso que podem impedir a prtica da solidariedade:  fundamental trazer para sala de aula discusses que envolvam atitudes de omisso nos dias de hoje e em nossa histria, criando espaos para avaliao de atitudes que contribuem para que as pessoas no se mobilizem para uma ao solidria.
Ao mesmo tempo,  importante a valorizao de atitudes de solidariedade identificadas na escola e fora dela. No se pode deixar de marcar que, ao lado de atitudes de indiferena e descrdito, tem-se assistido tambm a uma revalorizao da solidariedade traduzida tanto em aes coletivas e de carter poltico (tal como o prprio movimento pelos direitos humanos, a Anistia Internacional etc.) como em aes individuais ou de pequenos grupos que se mobilizam para o enfrentamento de problemas especficos (tais como campanhas de ajuda, atendimento a pessoas necessitadas etc.). 
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Dilogo
Para no se estar s, no basta estar ao lado de algum,  preciso comunicar-se com ele.
A comunicao entre os seres humanos pode ser praticada em vrias dimenses, que vo desde a cultura como um todo, at a conversa entre duas pessoas. Ela pode ser fonte de riquezas e alegrias: o contato que o artista estabelece com seu pblico, a discusso cientfica sobre algum tema relevante, o debate caloroso sobre questes complexas, o silencioso dilogo de olhares entre amantes.
O dilogo  expresso fundamental da relao entre os seres humanos, doao mtua da palavra, sinal distintivo da humanidade. Ser humano  ser com os outros. O dado primordial da presena humana no mundo  o de se encontrar em companhia, enderear a palavra uns aos outros, na busca daquilo que constitui o encontro.
O encontro se d entre indivduos que se reconhecem. E reconhecer quer dizer tambm respeitar, saudar no outro um semelhante, que afirma sua liberdade e resiste a ser traado como objeto ou a ser negado. O outro no  igual seno sendo diferente.
Muitas vezes as pessoas afirmam que esto dialogando com algum, quando, na verdade, o que fazem  passar-lhe ordens, impor-lhe vises de mundo, fechar os ouvidos  sua palavra. Quando s um dos interlocutores tem "voz ativa", como se costuma dizer, rompe-se qualquer possibilidade de dilogo.  necessrio, portanto, lanar-se corajosamente  "aventura do dilogo". A exigncia da coragem se justifica na medida em que h um risco constante em expor-se aos outros e acolh-los em sua diferena, em sua especificidade. Mas  verdadeiramente uma aventura, uma ocasio de descoberta e fruio, que enriquece, dignifica e faz crescer as pessoas e, junto com elas, a sociedade a que pertencem.
O dilogo  uma arte a ser ensinada e cultivada, e a escola  o lugar privilegiado para que isso ocorra. No entanto, existem concepes diferenciadas a respeito do que  o dilogo no processo de ensino e aprendizagem. freqentemente o dilogo  visto apenas como o momento em que o aluno responde ao professor sobre assuntos abordados e discutidos. A expectativa  de que a conversa a respeito do que est sendo aprendido contemple aquilo que foi eleito como contedo necessrio para aprendizagem. Nessa perspectiva, o dilogo reduz-se  inteno de avaliar se os alunos realmente entenderam o que o professor ensinou. Por outro lado, pode-se pensar no dilogo como um "bate-papo" informal a respeito de assuntos variados ou de situaes cotidianas, desvinculadas do contedo da rea de conhecimento. Ao analisar essas duas formas de dilogo, v-se que ambas possuem
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preocupaes que no podem ser descartadas. Porm, o ideal  que se pense no dilogo como uma prtica cotidiana na sala de aula, que tem a preocupao de integrar as experincias de vida dos alunos e professor, e a relao viva com o contedo que ser sistematizado, tornando a aprendizagem significativa.
No h dvida de que um dos objetivos fundamentais da educao  fazer com que o aluno consiga participar do universo da comunicao humana, apreendendo por meio da escuta, da leitura, do olhar, as diversas mensagens  artsticas, cientficas, polticas e outras  emitidas de diversas fontes, fazer com que seja capaz de, por meio da fala, da escrita, da imagem, emitir suas prprias mensagens. Se a escola pretende exercer ao transformadora, deve eleger o dilogo como estratgia para desenvolver o processo de ensino e aprendizagem.

 Valorizao do dilogo nas relaes sociais. 

A linguagem  um fato social, e o dilogo s acontece se houver outro a quem se possa destinar a fala. No dilogo, revelam-se, explicitam-se e confrontam-se os valores fundamentais de uma sociedade.
Portanto, ao se pensar em um trabalho que valorize o dilogo como estratgia de aprendizagem  importante que se promova o debate de opinies, a formulao de situaes-problema, que se analisem as hipteses levantadas, as opinies diferentes. A socializao das opinies e o confronto de diferentes posicionamentos sobre os assuntos mais variados contribuiro para a construo do saber por meio de mltiplas vises. Desta forma, o dilogo partir da pluralidade de idias rumo  construo do conhecimento, contribuindo para a conquista da autonomia moral e intelectual dos alunos.
No  possvel separar questes de convivncia escolar daquelas relacionadas ao trabalho desenvolvido nas diferentes reas de conhecimento, pois elas esto interligadas. A ao dialgica do professor, desafiando o aluno a pensar sobre vrias questes relacionadas aos contedos trabalhados, o auxiliar a entender a importncia da sua ao, que envolve respeito, dedicao, busca, engajamento, pesquisa, troca, participao,descoberta. Assistidos pelo professor, os alunos tero a possibilidade de descobrir o prazer de aprender com o outro, que  seu igual no desejo e na curiosidade para investigar a realidade.
Um trabalho que se preocupe com o respeito  fala do aluno contribuir para que ele se sinta seguro ao colocar sua opinio a respeito dos diferentes assuntos tratados na escola e participe mais amplamente do universo da comunicao humana, aprendendo ao fazer junto com os outros leituras diversas da realidade em que vive e atua. 
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 Valorizao das prprias idias, disponibilidade para ouvir idias e argumentos do outro e reconhecimento da necessidade de rever pontos de vista.

Por meio da linguagem as pessoas organizam seus pensamentos e expressam seu posicionamento diante de diferentes situaes e, ao mesmo tempo, tm acesso ao mposicionamento do outro. A aprendizagem do respeito ao outro passa por esta questo: o conhecimento de que o outro expressa sua fala, sua opinio e que nem sempre  coincidente com a opinio pessoal. Por outro lado, ouvir o outro com atitude de respeito e considerar opinies divergentes so boas oportunidades de enriquecimento do prprio saber. Em situaes de confronto, a anlise mais aprofundada sobre o motivo das divergncias de pensamentos possibilitar ao aluno reforar ou reformular suas hipteses a respeito das idias ou posies colocadas e coordenar as prprias aes com as dos outros.
Algumas pessoas podem ter dificuldade para expressar suas idias, enquanto outras podem monopolizar a fala sem deixar espao para os demais colegas. Certos alunos tm muito medo de dar sua opinio diante dos colegas. E importante saber que ter coragem para apresentar uma questo ou dar uma resposta , s vezes, difcil.
Ningum melhor que o professor na sala de aula para ajudar o aluno a sentir-se seguro ao colocar suas opinies e, ao mesmo tempo, faz-lo perceber que o que est dizendo  importante para a construo de seu conhecimento e de seu grupo.
 possvel criar situaes que estimulem os alunos a pensar e a expressar suas idias por meio da leitura de fotos e gravuras, de pequenos textos, charges, trechos de filmes etc., rompendo com a idia de necessria unicidade a respeito do assunto tratado, propiciando um olhar amplo que possibilite o levantamento de diferentes hipteses dos alunos e o confronto entre elas, especialmente no momento da primeira aproximao do aluno com o tema. A opo por questes que correspondam a respostas j esperadas encerrar a possibilidade de que haja o dilogo.
O professor dever ficar atento a alguns itens que podem contribuir para que o trabalho com o desenvolvimento do dilogo tenha sucesso. Em primeiro lugar,  preciso lidar com a sua ansiedade em relao ao silncio dos alunos que s vezes se segue a uma pergunta. O caminho que o aluno percorre para selecionar a resposta, criar coragem para tomar a palavra e responder  longo. Muitas vezes a falta de pacincia do educador acaba sendo responsvel pela inibio do aluno.
Quando os alunos formulam suas explicaes podem ocorrer duas situaes: chegar-se a um consenso e todos concordarem com aquela opinio. Nesse caso, o professor poder 
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confrontar a unanimidade exercendo a funo de crtico e desafiando o grupo a rever seus posicionamentos diante da questo. Pode-se, tambm, chegar a um dissenso em que, mediante posies divergentes, uns questionam a explicao dos outros, obrigando todos a refletirem mais sobre a questo.
A atitude do professor  sempre fundamental. De um lado, quando fala aos alunos,ele deve mostrar-se claro, objetivo. De outro, deve cuidar para que seus alunos conquistem a mesma clareza, que no utilizem e recusem expresses vagas ou incorretas, que podem levar a interpretaes errneas.
Em seu papel de coordenador, o professor poder orientar o dilogo argumentarivo,fazendo com que cada um leve em conta as posies, argumentos e consideraes dos outros para construir seu raciocnio e buscar dar maior consistncia e clareza s suas colocaes.

 Utilizao do dilogo como instrumento de cooperao.

O aprendizado da cooperao  elemento fundamental do desenvolvimento moral. De fato, para se cooperar efetivamente,  preciso saber ouvir e saber expressar-se. Em uma palavra,  preciso saber dialogar.
O trabalho em grupo, entendido como a cooperao com o outro em busca de decises conjuntas, contribuir para que os alunos, orientados pelo professor, aprendam paulatinamente a fazer contratos, a honrar a palavra empenhada, a comprometer-se na elaborao de projetos coletivos, a estabelecer relaes de reciprocidade. Todas as reas de conhecimento podero utilizar essa estratgia cotidianamente. Trata-se de uma orientao geral, cujos efeitos so ricos do ponto de vista da aprendizagem dos diversos contedos, como tambm no desenvolvimento do respeito mtuo: somente h possibilidade de trabalho em grupo se cada um levar em conta o ponto de vista do outro e coorden-lo com o seu prprio.

 Transformao e enriquecimento do saber pessoal pelo dilogo.

 preciso que o jovem aprenda que, quando se expressa uma idia para outra pessoa por meio da fala, ela retorna modificada e contribui para a reformulao e melhor compreenso do que est sendo discutido. Compreender, nessa perspectiva, significa opor a prpria palavra  palavra do outro para a construo de um novo discurso, que envolve a ambos. O novo sentido construdo nessa compreenso passa a ser trao de unio entre os que participam do dilogo.
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Em situaes de conflito, o dilogo permite garantir o respeito mtuo e encontrar solues mais justas, ou seja, evitar que se imponha a lei do mais forte, fazendo com que os direitos de cada um sejam respeitados.
Tornar a sala de aula um espao de dilogo  o desafio para o professor no trabalho com alunos dos terceiro e quarto ciclos, pois muitas vezes os alunos passam anos juntos sem compartilhar idias, sem explicitar conflitos. Cabe ao professor propiciar momentos em que seja privilegiado o fazer coletivo, sem, contudo, eliminar os momentos de trabalho individual dos alunos. Momentos orientados e planejados em que os alunos coloquem suas opinies levantando hipteses, negociando diferentes solues, encaminhando novas e mais aprofundadas discusses sobre os contedos que esto sendo trabalhados ou sobre fatos do dia-a-dia. E importante que faa parte do projeto pedaggico da escola o planejamento de atividades que possam enriquecer o currculo escolar e, ao mesmo tempo, melhorar as relaes. Visitas a exposies, passeios, feiras culturais, feiras de cincias, festivais, teatros na escola, trabalhos de estudo do meio, so boas oportunidades para desenvolver a sociabilidade.
A aprendizagem em todas as reas de conhecimento contribui para que o aluno desenvolva a capacidade de dialogar. O conhecimento expande o horizonte do pensar, relativiza pontos de vista particulares. E tambm pode ser avaliado, discutido, trocado. No h nem reais descobertas, nem real aprendizagem se no forem fruto de rica comunicao entre indivduos.

 Participao dialgica na tomada de decises coletivas.

Deve-se criar na escola um ambiente estimulador de discusses coletivas, utilizando estratgias diversificadas de ao, abrindo canais de participao para proporcionar aos diferentes segmentos da escola a oportunidade de colocar a sua opinio. Painis interativos com boas questes podero cumprir esse papel. Discusses sobre assuntos variados, atuais, polmicos, ou mesmo sugestes para o que se deve comprar com as verbas que a escola recebe so boas oportunidades para implementar esse canal de participao e, ao mesmo tempo, para se fazer uma boa leitura da realidade da escola a partir do que todos os envolvidos pensam. Aqueles que participam dessa ao faro a leitura coletiva das opinies e todos tero oportunidade de confrontar suas opinies, entendendo que existem as iguais e as diferentes das suas.
 importante que as opinies sejam realmente levadas em conta e utilizadas em concluses ou decises tomadas na escola e amplamente divulgadas. Nessa forma de ao, revelam-se diferentes valores, explicitam-se conflitos e busca-se melhor convivncia. A discusso ampla na qual a opinio do outro  respeitada, em que h liberdade de colocar 
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opinies, em que  enfatizado o compromisso com o coletivo da escola e com o bem-estar de todos, possibilitar um novo olhar para o cotidiano, um olhar que tem como objetivo a participao na construo da cidadania.
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PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS 
PLURALIDADE CULTURAL 
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APRESENTAO
Para viver democraticamente em uma sociedade plural  preciso respeitar os diferentes grupos e culturas que a constituem. A sociedade brasileira  formada no s por diferentes etnias, como tambm por imigrantes de diferentes pases. Alm disso, as migraes colocam em contato grupos diferenciados. Sabe-se que as regies brasileiras tm caractersticas culturais bastante diversas e que a convivncia entre grupos diferenciados nos planos social e cultural muitas vezes  marcada pelo preconceito e pela discriminao.
O grande desafio da escola  reconhecer a diversidade como parte inseparvel da identidade nacional e dar a conhecer a riqueza representada por essa diversidade etnocultural que compe o patrimnio sociocultural brasileiro, investindo na superao de qualquer tipo de discriminao e valorizando a trajetria particular dos grupos que compem a sociedade.
Nesse sentido, a escola deve ser local de aprendizagem de que as regras do espao pblico permitem a coexistncia, em igualdade, dos diferentes. O trabalho com Pluralidade Cultural se d a cada instante, exige que a escola alimente uma "Cultura da Paz", baseada na tolerncia, no respeito aos direitos humanos e na noo de cidadania compartilhada por todos os brasileiros. O aprendizado no ocorrer por discursos, e sim num cotidiano em que uns no sejam "mais diferentes" do que os outros.
Secretaria de Educao Fundamental
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             PLURALIDADE CULTURAL
1 PARTE
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INTRODUO 
A temtica da Pluralidade Cultural diz respeito ao conhecimento e  valorizao de caractersticas tnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem no territrio nacional, s desigualdades socioeconmicas e  crtica s relaes sociais discriminatrias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno a possibilidade de conhecer o Brasil como um pas complexo, multifacetado e algumas vezes paradoxal.
Este tema prope uma concepo que busca explicitar a diversidade tnica e cultural que compe a sociedade brasileira, compreender suas relaes, marcadas por desigualdades socioeconmicas e apontar transformaes necessrias, oferecendo elementos para a compreenso de que valorizar as diferenas tnicas e culturais no significa aderir aos valores do outro, mas respeit-los como expresso da diversidade, respeito que , em si, devido a todo ser humano, por sua dignidade intrnseca, sem qualquer discriminao. A afirmao da diversidade  trao fundamental na construo de uma identidade nacional que se pe e repe permanentemente, tendo a tica como elemento definidor das relaes sociais e interpessoais.
Ao tratar este assunto,  importante distinguir diversidade cultural, a que o tema se refere, de desigualdade social.
As culturas so produzidas pelos grupos sociais ao longo das suas histrias, na construo de suas formas de subsistncia, na organizao da vida social e poltica, nas suas relaes com o meio e com outros grupos, na produo de conhecimentos etc. A diferena entre culturas  fruto da singularidade desses processos em cada grupo social.
A desigualdade social  uma diferena de outra natureza:  produzida na relao de dominao e explorao socioeconmica e poltica. Quando se prope o conhecimento e a valorizao da pluralidade cultural brasileira, no se pretende deixar de lado essa questo.
Ao contrrio, principalmente no que se refere  discriminao,  impossvel compreend-la sem recorrer ao contexto socioeconmico em que acontece e  estrutura autoritria que marca a sociedade. As produes culturais no ocorrem "fora" de relaes de poder: so constitudas e marcadas por ele, envolvendo um permanente processo de reformulao e resistncia.
Ambas, desigualdade social e discriminao, articulam-se no que se convencionou denominar "excluso social": impossibilidade de acesso aos bens materiais e culturais produzidos pela sociedade e de participao na gesto coletiva do espao pblico pressuposto da democracia.
Entretanto, apesar da discriminao, da injustia e do preconceito que contradizem os princpios da dignidade, do respeito mtuo e da justia, paradoxalmente o Brasil tem produzido cambem experincias de convvio, reelaborao das culturas de origem,
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constituindo algo intangvel que se tem chamado de brasilidade, que permite a cada um reconhecer-se como brasileiro.
Por isso, no cenrio mundial, o Brasil representa uma esperana de superao de fronteiras e de construo da relao de confiana na humanidade. A singularidade que permite essa esperana  dada por sua constituio histrica peculiar no campo cultural. O que se almeja, portanto, ao tratar de Pluralidade Cultural, no  a diviso ou o esquadrinhamento da sociedade em grupos culturais fechados, mas o enriquecimento propiciado a cada um e a todos pela pluralidade de formas de vida, pelo convvio e pelas opes pessoais, assim como o compromisso tico de contribuir com as transformaes necessrias  construo de uma sociedade mais justa.
Reconhecer e valorizar a diversidade cultural  atuar sobre um dos mecanismos de discriminao e excluso, entraves  plenitude da cidadania para todos e, portanto, para a prpria nao.

Justificativa
 sabido que, apresentando heterogeneidade notvel em sua composio populacional, o Brasil desconhece a si mesmo. Na relao do pas consigo mesmo,  comum prevalecerem vrios esteretipos, tanto regionais como em relao a grupos tnicos, sociais e culturais.
Historicamente, registra-se dificuldade para se lidar com a temtica do preconceito e da discriminao racial/tnica. Na escola, muitas vezes, h manifestaes de racismo, discriminao social e tnica, por parte de professores, de alunos, da equipe escolar, ainda que de maneira involuntria ou inconsciente. Essas atitudes representam violao dos direitos dos alunos, professores e funcionrios discriminados, trazendo consigo obstculos ao processo educacional pelo sofrimento e constrangimento a que essas pessoas se vem expostas.
Movimentos sociais, vinculados a diferentes comunidades tnicas, desenvolveram uma histria de resistncia a padres culturais que estabeleciam e sedimentavam injustias. Gradativamente conquistou-se uma legislao antidiscriminatria, culminando com o estabelecimento, na Constituio Federal de 19881, da discriminao racial como crime. Mais ainda, h mecanismos de proteo e de promoo de identidades tnicas, como a garantia, a todos, do pleno exerccio dos direitos culturais2, assim como apoio e incentivo  valorizao e difuso das manifestaes culturais.
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A aplicao e o aperfeioamento da legislao so decisivos mas insuficientes. Para construir uma sociedade justa, livre e fraterna, o processo educacional ter de tratar do campo tico, de como se desenvolvem no cotidiano atitudes e valores voltados para a formao de novos comportamentos, novos vnculos em relao queles que historicamente foram alvo de injustias.
Mesmo em regies onde no se apresente uma diversidade cultural to acentuada, o conhecimento dessa caracterstica plural do Brasil  extremamente relevante. Ao permitir o conhecimento mtuo entre regies, grupos e indivduos, ele forma a criana, o adolescente e o jovem3 para a responsabilidade social de cidado, consolidando o esprito democrtico.
Reconhecer essa complexidade que envolve a problemtica social, cultural e tnica  o primeiro passo. A escola tem um papel fundamental a desempenhar nesse processo. Em primeiro lugar, porque  um espao em que pode se dar a convivncia entre estudantes de diferentes origens, com costumes e dogmas religiosos diferentes daqueles que cada um conhece, com vises de mundo diversas daquela que compartilha em famlia. Nesse contexto, ao analisar os fatos e as relaes entre eles, a presena do passado no presente, no que se refere s diversas fontes de que se alimenta a identidade  ou as identidades, seria melhor dizer   imprescindvel esse recurso ao Outro, a valorizao da alteridade como elemento constitutivo do Eu, com a qual experimentamos melhor quem somos e quem podemos ser. Em segundo, porque  um dos lugares onde so ensinadas as regras do espao pblico para o convvio democrtico com a diferena. Em terceiro lugar, porque a escola apresenta  criana conhecimentos sistematizados sobre o pas e o mundo, e a a realidade plural de um pas como o Brasil fornece subsdios para debates e discusses em torno de questes sociais.
A criana na escola convive com a diversidade e poder aprender com ela. Singularidades presentes nas caractersticas de cultura, de etnias, de regies, de famlias, so de fato percebidas com mais clareza quando colocadas junto a outras. A percepo de cada um, individualmente, elabora-se com maior preciso graas ao Outro, que se coloca como limite e possibilidade. Limite, de quem efetivamente cada um . Possibilidade, de vnculos, realizaes de "vir-a-ser". Para tanto, h necessidade de a escola instrumentalizar-se para fornecer informaes mais precisas a questes que vm sendo indevidamente respondidas pelo senso comum, quando no ignoradas por um silencioso constrangimento. Esta proposta traz a necessidade imperiosa da formao de professores no tema da Pluralidade Cultural. Provocar essa demanda especfica na formao docente  exerccio de cidadania.  investimento importante e precisa ser um compromisso poltico-pedaggico de qualquer planejamento educacional/escolar para formao e/ou desenvolvimento profissional dos professores.
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1 Art. 5, pargrafo XLII: "a prtica do racismo constitui crime inafianvel e imprescritvel, sujeito  pena de recluso, nos termos da lei".
2 Art. 5, pargrafos VI e IX: " inviolvel a liberdade de conscincia e de crena...;  livre a expresso da atividade intelectual, artstica, cientfica e de comunicao". 
3 Sobre adolescncia e juventude, ver quarta parte do documento de Introduo aos Parmetros Curriculares Nacionais. 

Estado atual dos trabalhos com a temtica
Propostas da Organizao das Naes Unidas (ONU), por intermdio de suas agncias, tm procurado trazer contribuies para que se desenvolva uma "Cultura da Paz", no mbito da escola, baseada em trabalhos sobre tolerncia  conceito adotado pela ONU como marco referencial no processo de construo do entendimento, do respeito mtuo, da solidariedade. H um apelo da ONU para que se enviem novas propostas de trabalho nesse campo, tal o nvel incipiente em que educadores em geral ainda se encontram com relao  temtica.
No caso do Brasil, h estudos4 desenvolvidos acerca de escolas indgenas e pesquisas a respeito da situao dos afrodescendentes em escolas, bem como algumas experincias inovadoras em alguns estados vinculadas a movimentos de carter tnico. Entretanto, pouqussimo se discutiu sobre uma proposta que falasse do Brasil como um todo, em sua complexidade cultural, das relaes que se estabelecem entre diferentes culturas que convivem neste territrio.
 interessante, tambm, registrar que rarssimos estudos tratam das relaes entre crianas e intercmbio cultural, no seu contexto mais amplo, como fator relevante para o desenvolvimento psicolgico e cognitivo. H estudos, sobretudo no campo da lingstica e da antropologia, que tratam da apreenso e da elaborao cultural pela criana no interior de seu grupo de origem. Contudo, tem sido pouco usual propor  criana e ao adolescente uma abertura para culturas diferentes da sua, englobando contedos atitudinais. Nesse sentido, procurou-se fazer um levantamento do que estaria disponvel no plano internacional e no Brasil.
O trabalho com o tema,  medida que se prope como ponto de confluncia de estudos e movimentos sociais, em particular os etnoculturais e de outras foras socioculturais presentes e amantes, reveste-se de algumas dificuldades. Como exemplo, se pode citar a dinmica das elaboraes tericas a respeito, que so rapidamente substitudas, com posies divergentes e s vezes conflitantes entre si. Do mesmo modo, movimentos sociais estabelecem, a cada tempo, novas formas de lidar com a temtica, de acordo com avanos na conscincia do prprio movimento, com mudanas em campo social, com influncias internacionais com as quais dialogam, com a necessidade de novas estratgias que conduzam a objetivos voltados para o pleno exerccio de direitos civis, sociais, culturais, gerais da populao e especficos dos diferentes grupos.
 por isso que este documento enfatiza o intercmbio com movimentos sociais, universidades, imprensa como forma de a escola abrir-se  atualizao permanente tambm nas peculiaridades deste tema.
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Caracterizao do tema
Convivem hoje no territrio nacional cerca de 210 etnias indgenas5, cada uma com identidade prpria e representando riqussima diversidade sociocultural, junto a uma imensa populao formada pelos descendentes dos povos africanos6 e um grupo numeroso de imigrantes e descendentes de povos de vrios continentes, com diferentes tradies culturais e religiosas. A dificuldade para categorizar os grupos que vieram para o Brasil e formaram sua populao  indicativo da diversidade, seja o recorte continental, ou regional, nacional, religioso, cultural, lingustico, racial/tnico. Portugueses, espanhis, ingleses, franceses, italianos, alemes, poloneses, hngaros, lituanos, egpcios, srios, libaneses, armnios, indianos, japoneses, chineses, coreanos, ciganos, latino-americanos, catlicos, evanglicos, batistas, budistas, judeus, muulmanos, tradies

4 Ver bibliografia.
5 So povos como os kaingang, xokleng, guarani, no sul do pas; xavante, bororo, no Centro-Oeste; baniwa, tukano, piratapuia, no noroeste amaznico; xoc, fulni, kiri, no nordeste.
6 Daomeanos, iorubs, gegs, ktus, bantos, congoleses, angolanos e moambicanos. 
africanas, situam-se entre outras inumerveis categorias de identificao. Alm disso, um mesmo indivduo pode vincular-se a diferentes grupos ao mesmo tempo, reportando-se a cada um deles com igual sentido de pertinncia.
A diversidade marca a vida social brasileira. Diferentes caractersticas regionais e manifestaes de cosmologias ordenam de maneiras diferenciadas a apreenso do mundo, a organizao social nos grupos e regies, os modos de relao com a natureza, a vivncia do sagrado e sua relao com o profano. O campo e a cidade propiciam s suas populaes vivncias e respostas culturais diversas, que implicam ritmos de vida, ensinamentos de valores e formas de solidariedade distintas. Os processos migratrios colocam em contato grupos sociais com diferenas de fala, de costumes, de valores, de projetos de vida.
Freqentemente, porm, esse processo complexo presente na vida brasileira  ignorado e/ou descaracterizado. Na escola, onde a diversidade est presente diretamente naqueles que constituem a comunidade, essa presena tem sido ignorada, silenciada ou minimizada. So mltiplas as origens da omisso com relao  Pluralidade Cultural.
O nacionalismo exacerbado dos perodos autoritrios, em diferentes momentos da histria, valeu-se da ao homogeneizadora veiculada na escola. Na dcada de 30, quando a poltica oficial buscou "assimilar" a populao imigrada de diferentes origens, documentos de autoridades educacionais explicitavam grande preocupao com a nacionalizao do filho do imigrante, implicando a marginalizao do negro e a aculturao do ndio.
As aes oficiais buscavam interpretar o Brasil na perspectiva da homogeneidade cultural e do "mito da democracia racial brasileira". Essas interpretaes conduziram a atitudes de dissimulao do quadro de fato existente: um racismo difuso, porm efetivo, com repercusses diretas na vida cotidiana da populao discriminada.
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A idia veiculada na escola de um Brasil sem diferenas, formado originalmente pelas trs raas  o ndio, o branco e o negro  que se dissolveram, dando origem ao brasileiro, tambm tem sido difundida nos livros didticos, neutralizando as diferenas culturais e, s vezes, subordinando uma cultura  outra. Divulgou-se, ento, uma concepo de cultura uniforme, depreciando as diversas contribuies que compuseram e compem a identidade nacional.
Por outro lado, a perspectiva de um Brasil "de braos abertos" comps-se no "mito da democracia racial". Assim, na sociedade em geral, discriminaes praticadas com base em diferenas ficam ocultas sob o manto de uma igualdade que no se efetiva, empurrando para uma zona de sombra a vivncia do sofrimento e da excluso.
Essas influncias marcaram profundamente a histria da escola no Brasil, consolidando mentalidades e atitudes das quais freqentemente o educador no se d conta em seu cotidiano. Encontram-se manifestaes discriminatrias entre alunos, educadores e funcionrios administrativos. Um quadro perverso pelo que significa de desrespeito ao aluno na situao direta de sala de aula, criando expectativas preconceituosas em relao ao seu desempenho.
Em princpio, espera-se que a criana e o adolescente possam se enquadrar com justeza ao padro "aluno mdio", conforme abstrao contida nos documentos oficiais relativos  Reforma de Ensino de Primeiro e Segundo Graus, e disseminada nos cursos de formao de professores nas dcadas de 70 e 80. Essa expectativa  alterada ante cada aluno que apresente algum aspecto identificvel como "diferente" do padro.
 bastante comum a expectativa de desempenho baixo em relao ao aluno proveniente das camadas economicamente menos favorecidas e/ou de grupos tnicos socialmente discriminados. A situao de pobreza, manifesta na favelizao das reas urbanas e na precariedade da zona rural, ou na dificuldade de adaptao do filho do migrante, lamentavelmente tem sido um estigma para muitas crianas e adolescentes na escola.
Algumas doutrinas pedaggicas concorreram para acentuar atitudes equivocadas por parte de educadores na escola. Teorias que afirmam a carncia cultural, ainda que rejeitadas atualmente, deixaram marcas na prtica pedaggica justificando o fracasso escolar nica e exclusivamente pela "falta de condies" dos alunos.
Esse tipo de estigma "contagiou" professores e escolas. Por ocasio do processo de ampliao das oportunidades educacionais, sobretudo a partir da dcada de 70, tornou-se comum certa argumentao que vinculava, indevidamente, a queda da qualidade do ensino ao acesso das camadas populares a uma escola que fora, at ento, explicitamente seletiva.
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Portanto,  fato que a escola encontra-se marcada por prticas cultural e historicamente arraigadas, bem como por teorias que deslocaram a responsabilidade da escola para o aluno, alm de currculos e formao de professores insuficientes. Entre outras medidas estruturais, o estabelecimento de condies que revertam esse processo inclui, necessariamente, o reconhecimento e valorizao de caractersticas especficas e singulares de regies, etnias, escolas, professores e alunos.
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CONTRIBUIES PARA O ESTUDO DA PLURALIDADE CULTURAL NO MBITO DA ESCOLA
Para informar adequadamente a perspectiva de ensino e aprendizagem,  importante esclarecer o carter interdisciplinar que constitui o campo de estudos tericos da Pluralidade Cultural. A fundamentao tica, o entendimento de preceitos jurdicos, incluindo o campo internacional, conhecimentos acumulados no campo da Histria e da Geografia, noes e conceitos originrios da Antropologia, da Lingustica, da Sociologia, da Psicologia, aspectos referentes a Estudos Populacionais, alm do saber produzido no mbito de movimentos sociais e de suas organizaes comunitrias, constituem uma base sobre a qual se opera tal reflexo que, ao voltar-se para a atuao na escola, deve ter cunho eminentemente pedaggico.
A seguir so apresentadas algumas indicaes das diferentes contribuies, a ttulo de subsdios-chave, a fim de balizar o trabalho pedaggico deste tema, embora no o esgotem. So pistas que o professor poder seguir aprofundando e ampliando conforme as necessidades de seu planejamento. Visam, sobretudo, a explicitar que tratar do povo brasileiro, em seus desafios e conquistas do cotidiano e no processo histrico, exige estudo e preparo cuidadoso que no se confundem, em hiptese alguma, com o senso comum.

Fundamentos ticos
Uma proposta curricular voltada para a cidadania deve preocupar-se necessariamente com as diversidades existentes na sociedade, uma das bases concretas em que se praticam os preceitos ticos. E a tica que norteia e exige de todos  da escola e dos educadores em particular , propostas e iniciativas que visem  superao do preconceito e da discriminao. A contribuio da escola na construo da democracia  a de promover os princpios ticos de liberdade, dignidade, respeito mtuo, justia e equidade, solidariedade, dilogo no cotidiano;  a de encontrar formas de cumprir o princpio constitucional de igualdade, o que exige sensibilidade para a questo da diversidade cultural e aes decididas em relao aos problemas gerados pela injustia social.

Conhecimentos jurdicos
Explicitada no contexto dramtico do ps-guerra, a Declarao Universal dos Direitos Humanos surgiu como a ponte entre o medo e a esperana. Uma ponte apenas projetada ali. Seria preciso constru-la. Os direitos humanos assumiram, gradativamente, a importncia de tema global. Assim como a preservao do meio ambiente, os Direitos Humanos colocam-se como assunto de interesse de toda a humanidade.
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A ONU, preocupada com a conquista da paz mundial, promoveu conferncias que buscavam um programa de consenso para orientar os pases e os indivduos quanto  questo dos direitos humanos. A Conferncia de Viena de 1993, de cuja declarao o Brasil  signatrio, reafirmou a universalidade dos direitos humanos e apresentou as condies necessrias para os estados promoverem, controlarem e garantirem tais direitos.
A Constituio da Repblica Federativa do Brasil de 1988  uma das mais avanadas quanto aos temas do respeito  diferena e do combate  discriminao. O Brasil teve, por outro lado, participao ativa nas reunies mundiais sobre os direitos humanos e sobre minorias. Aqui no se trata,  claro, de exigir conhecimentos prprios do especialista em Direito, mas de saber como se define basicamente a cidadania.
No se trata,  claro, de mostrar um Brasil perfeito e irreal, mas as possibilidades que se abrem com trabalho, embates e entendimentos, mediante a colocao em prtica de instrumentos jurdicos j disponveis.

Conhecimentos histricos e geogrficos
Os aspectos histricos e geogrficos expem uma diversidade regional marcada pela desigualdade, do ponto de vista do atendimento pleno dos direitos de cidadania. A formao histrica do Brasil mostra os mecanismos de resistncia ao processo de dominao desenvolvidos pelos grupos sociais em diferentes momentos. Uma das formas de resistncia refere-se ao fato de que cada grupo  indgena, africano, europeu, asitico e do oriente mdio  encontrou maneiras de preservar sua identidade cultural, ainda que s vezes de forma clandestina e precria.
Assim sendo, tratar da presena do ndio pela incluso nos currculos de contedos que informem sobre a riqueza de suas culturas e a influncia delas sobre a sociedade, conforme disposto na Constituio de 1988 (art. 210, pargrafo 2),  valorizar essa presena e reafirmar os direitos dos ndios como povos nativos, de forma que corrija uma viso deturpada que os homogeneiza como se fossem de um nico grupo, devido  justaposio aleatria de traos retirados de diversas etnias.
Compreender a formao das sociedades europias e das relaes entre sua histria, viagens de conquista, entrelaamento de seus processos polticos com os do continente americano, em particular Amrica do Sul e Brasil, auxiliar professores e alunos a formarem referencial no s de contedos especficos, como tambm da estruturao de processos de influenciao recproca. Isso  especialmente importante para o momento atual, quando o quadro internacional interfere no cotidiano do cidado de muitas e variadas formas.
O estudo histrico do continente africano compreende enorme complexidade de temas do perodo pr-colonial, como arqueologia; grupos humanos; civilizaes antigas do Sudo, do sul e do norte da frica; o Egito como processo de civilizao africana a partir das
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migraes internas. Essa complexidade milenar  de extrema relevncia como fator de informao e de formao voltada para a valorizao dos descendentes daqueles povos. Significa resgatar a histria mais ampla, na qual os processos de mercantilizao da escravido foram um momento que no pode ser amplificado a ponto que se perca a rica construo histrica da frica. O conhecimento desse processo pode significar o dimensionamento correto do absurdo, do ponto de vista tico, da escravido, de sua mercantilizao e das repercusses que os povos africanos enfrentam por isso.
Da mesma forma, uma viso histrica da sia contribui para a compreenso da formao cultural brasileira, tanto no que se refere s tradies como aos processos histricos que levaram seus habitantes a imigrarem para as Amricas, e em particular para o Brasil, em diferentes momentos.  relevante, tambm, o estudo do Oriente Mdio, sua histria e suas influncias na constituio da civilizao ocidental.
Cada um desses desenvolvimentos poder estar presente conforme a necessidade e a oportunidade do trabalho em sala de aula.

Conhecimentos sociolgicos
Toda seleo curricular  marcada por determinantes e fatores culturais, sociais e polticos, que podem ser analisados de forma isolada, para efeito de estudo, mas que se encontram amalgamados no social. Conhecimentos sociolgicos so indispensveis na discusso da Pluralidade Cultural, pelas possibilidades que abrem de compreenso de processos complexos, onde se do interaes entre fenmenos de diferentes naturezas. A escola pode fortalecer sua atuao tanto mais quanto seja conhecedora dos problemas presentes na estrutura socioeconmica, de como se do as relaes de dominao, qual o papel desempenhado pelo universo cultural nesse processo.
Alm das diversas contribuies da Sociologia, aspectos particulares voltados para a discusso curricular tm sido desenvolvidos por autores que se ocupam da Sociologia da Educao, Sociologia do Currculo. Nesses estudos so analisados os vnculos entre escola e democracia, escola e cidadania, democracia e currculo, permitindo uma reflexo voltada especificamente para o interior da escola e da sala de aula.
Os conhecimentos sociolgicos permitem uma discusso acurada de como as diferenas tnicas, culturais e regionais no podem ser reduzidas  dimenso socioeconmica de classes sociais.

Conhecimentos antropolgicos
A Antropologia caracteriza-se como o estudo das alteridades, no qual se afirma o reconhecimento do valor inerente a cada cultura, por se tratar do que  exclusivamente
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humano, como criao, e prprio de certo grupo, em cerco momento, em certo lugar. Cada cultura tem sua histria, condicionantes, caractersticas, no cabendo qualquer classificao que sobreleve uma em detrimento de outra. Alguns temas, conceitos e termos da temtica da Pluralidade Cultural dependem intrinsecamente de conhecimentos antropolgicos, por se referirem diretamence  organizao humana, na qual se coloca a diversidade. Entre eles destacamos os conceitos de cultura, raa e etnia.
No sentido antropolgico do termo, afirma-se que todo e qualquer indivduo nasce no contexto de uma cultura e, ao longo de sua vida, ajuda a produzi-la. No existe homem sem cultura, mesmo que no saiba ler, escrever e fazer contas. E como se fosse possvel dizer que o homem  biologicamente incompleto: no sobreviveria sozinho sem a participao das pessoas e do grupo que o gerou. A cultura  o conjunto de cdigos simblicos reconhecveis pelo grupo a partir dos quais se produz conhecimento: neles o indivduo  formado desde o momento de sua concepo nesses mesmos cdigos e, durante a infncia, aprende os valores do grupo. Por intermdio deles  mais tarde introduzido nas obrigaes da vida adulta, da maneira como cada grupo social as concebe.
A cultura, como cdigo simblico, apresenta-se como dinmica viva. Todas as culturas esto em constante processo de reelaborao, introduzindo novos smbolos, atualizando valores, adaptando seu acervo tradicional s novas condies historicamente construdas pela sociedade. A cultura pode assumir sentido de sobrevivncia, estmulo e resistncia. Quando valorizada, reconhecida como parte indispensvel das identidades individuais e sociais, apresenta-se como componente do pluralismo prprio da vida democrtica. Por isso, fortalecer a cultura de cada grupo social, cultural e tnico que compe a sociedade brasileira, promover seu reconhecimento, valorizao e conhecimento mtuo,  fortalecer a igualdade, a justia, a liberdade, o dilogo e, portanto, a democracia.
O termo "raa", de uso corriqueiro e banal no cotidiano, vem sendo evitado cada vez mais pelas cincias sociais pelos maus usos a que se prestou. Nas cincias biolgicas, raa  a subdiviso de uma espcie, cujos membros mostram com freqncia certo nmero de atributos hereditrios. Refere-se ao conjunto de indivduos cujos caracteres somticos, tais como a cor da pele, o formato do crnio e do rosco, tipo de cabelo etc., so semelhantes e se transmitem por hereditariedade. O conceito de raa, portanto, assenta-se em contedo biolgico, e foi utilizado na tentativa de demonstrar uma pretensa relao de superioridade/inferioridade entre grupos humanos. Convm lembrar que o uso do termo "raa" no senso comum  ainda muito difundido, para reafirmao tnica, como  feito comumente por movimentos sociais, ou nos contextos ostensivamente pejorativos que alimentam o racismo e a discriminao.
Por sua vez, o conceito de etnia substitui com vantagens o termo "raa", j que tem base social e cultural. "Etnia" ou "grupo tnico" designa um grupo social que se diferencia de outros por sua especificidade cultural. Atualmente o conceito de etnia estende-se a todas as minorias que mantm modos de ser distintos e formaes que se distinguem da cultura dominante. Assim, os pertencentes a uma etnia partilham da mesma viso de mundo,
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de uma organizao social prpria, apresentam manifestaes culturais que lhe so caractersticas. "Etnicidade"  a condio de pertencer a um grupo tnico.  o carter ou a qualidade de um grupo tnico que freqentemente se autodenomina comunidade. J o "etnocentrismo"  tendncia de algum tomar a prpria cultura como centro exclusivo de tudo, e de pensar sobre o outro tambm apenas a partir de seus prprios valores e categorias  muitas vezes dificulta um dilogo intercultural, impedindo o acesso ao inesgotvel aprendizado que as diversas culturas oferecem.
Por isso  errado, conceitual e eticamente, sustentar argumentos de ordem racial/tnica para justificar desigualdades socioeconmicas, dominao, abuso, explorao de certos grupos humanos. Historicamente, no Brasil, tentou-se justificar, por essa via, injustias cometidas contra povos indgenas, contra africanos e seus descendentes, desde a barbrie da escravido a formas contemporneas de discriminao e excluso destes e de outros grupos tnicos e culturais, em diferentes graus e formas. A escola deve posicionar-se criticamente em relao a esses fatos, mediante informaes corretas, cooperando no esforo histrico de superao do racismo e da discriminao.

Linguagens e representaes
Conhecer a existncia do uso de outras lnguas diferentes da Lngua Portuguesa, idioma oficial, significa no s ampliao de horizontes, como tambm compreenso da complexidade do pas. A escola tem a possibilidade de trabalhar com esse panorama rico e complexo, referindo-se  existncia, estrutura e uso de centenas de lnguas. Pode, com isso, alm de oferecer informaes e possibilitar reflexes sobre a lngua materna, promover a compreenso de como se constituem identidades e singularidades de diferentes povos e etnias, considerando as diferentes lnguas (o bilingismo e o multilingismo) e linguagens7 presentes nas diversas regies do Brasil e de outros pases.
 necessrio considerar outros modos de comunicao, como a linguagem do corpo e a linguagem das artes em geral, permitindo transversalizar, em particular, com Educao Fsica e Arte. A msica, a dana, as artes em geral, vinculadas aos diferentes grupos tnicos e a composies regionais tpicas, so manifestaes culturais que a criana e o adolescente podero conhecer e vivenciar. Dessa forma enriquecero seu conhecimento sobre a diversidade presente no Brasil, enquanto desenvolvem seu prprio potencial expressivo.
Cabe ressaltar que povos culturalmente distintos privilegiam formas distintas de comunicao. A lngua falada  apenas uma delas; a escrita alfabtica  outra. O corpo  meio de comunicao por excelncia: a pintura corporal, de diferentes etnias, possui as caractersticas de um sistema de comunicao visual, rigidamente estruturado e capaz de
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simbolizar eventos como o nascimento de uma criana, o casamento ou outros estgios da vida de um indivduo. Como arte, a pintura corporal, a cermica, a escultura, a cestaria e outras formas de expressar o conhecimento e a comunicao, exprimem a experincia dos povos que as produziram, e s a partir da configurao cultural de cada um desses povos  que a arte pode ser entendida e apreciada.
A linguagem oral, por sua vez, pressupe a investigao das histrias orais em diferentes pocas e contextos, como transmissoras de uma determinada cultura, tendo em vista preservar e reinventar valores, normas e costumes no interior daquele grupo social. Da a sua relevncia para a configurao de nossa memria e identidade.

Conhecimentos populacionais
Dados estatsticos sobre a populao brasileira conforme distribuio regional, densidade demogrfica, em relao com dados como renda per capita, PIB per capita, fornecem um quadro informativo de como se vive no Brasil. Juntamente com informaes provenientes de levantamentos feitos pelos prprios alunos (via correspondncia, imprensa etc.), significaro a possibilidade de um conhecimento mais adequado sobre o Brasil e oportunidade, nas sries finais, de debates acerca de polticas pblicas alternativas que beneficiem a vida da populao.
Da mesma forma, Histria e Geografia, Cincias Naturais, assim como as questes colocadas por Orientao Sexual e Sade, possibilitam discutir dados referentes  mortalidade infantil, abortos e esterilizaes, com as conseqncias da advindas. Um tratamento enriquecedor da temtica dos direitos reprodutivos propicia tambm a anlise da relao com questes de raa/etnia.
Esses conhecimentos podero, assim, oferecer subsdios preliminares que permitam construir a compreenso do entrelaamento de componentes sociais, culturais e populacionais na definio da qualidade de vida, alm de possveis formas de ao voltadas para a melhoria dessa qualidade.

Conhecimentos psicolgicos e pedaggicos
Do ponto de vista psicopedaggico, a compreenso do fracasso e do sucesso como idcios de responsabilidade da escola e de sua atividade didtica, e no s dos alunos, envolve conhecimentos que levam  redefinio de procedimentos em sala de 
7 Usa-se o termo "lngua" para especificar o cdigo lingstico que est por trs do uso e funcionamento da linguagem oral e escrita, estas ultimas entendidas como processos de comunicao.
aula. Vrias contribuies apresentam-se nessa perspectiva, sendo, porm, a mais decisiva aquela que fervem nas situaes de discriminao, seja qual for o motivo.
Sabe-se que um dos fundamentos psicolgicos da discriminao  o medo. Falar sobre isso explicitamente permite que se possa tratar o medo como o que  de fato:
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manifestao da insegurana, muitas vezes plantada em cada um de maneira arcaica, que pode ser revertida apenas quando encarada e trabalhada.
 preciso esclarecer, tambm, que a discriminao ocorre como uma relao em que h dois plos. No plo que discrimina, o medo apresenta-se como reao ao desconhecido, visto como ameaador. Quem tem a cor da pele diferente, ou fala de tradies  tnicas, religiosas, culturais  desconhecidas, confronta seu interlocutor com sua prpria ignorncia de mundos diferentes do seu.  a figura do "estranho", do "estrangeiro" que, por escapar da apreenso comum, pode ser rotulado de "esquisito". No plo em que se encontra aquele que  discriminado, o medo apresenta-se como ameaa permanente diante da discriminao na sua forma extrema, que busca eliminar fisicamente o discriminado.
Esse medo alimenta-se de si mesmo, ou seja, quanto mais medo, mais se busca distncia do objeto do medo. H estudos que demonstram que nos conflitos inter-tnicos, quanto maior o medo, maior a violncia das reaes.
Uma forma de trabalhar e superar esse tipo de medo  com informao. Assim, trata-se de, potencializando ao mximo a prtica da transversalidade, oferecer informaes, nas diversas reas, que permitam esse conhecimento mtuo, tanto dos alunos entre si, quanto em relao a concidados, brasileiros de diferentes origens socioculturais. Trata-se tambm de recuperar, de forma no depreciativa, conhecimentos dos grupos tnicos e sociais, permitindo, ainda, que se evidencie o saber emergente, aquele que est em elaborao como parte do processo social de conscientizao e afirmao de identidades e singularidades.
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ENSINO E APRENDIZAGEM NA PERSPECTIVA
DA PLURALIDADE CULTURAL
O tema Pluralidade Cultural oferece aos alunos oportunidades de conhecimento de suas origens como brasileiros e como participantes de grupos culturais especficos. Ao valorizar as diversas culturas presentes no Brasil, propicia ao aluno a compreenso de seu prprio valor, promovendo sua auto-estima como ser humano pleno de dignidade, cooperando na formao de autodefesas a expectativas indevidas que lhe poderiam ser prejudiciais. Por meio do convvio escolar, possibilita conhecimentos e vivncias que cooperam para que se apure sua percepo de injustias e manifestaes de preconceito e discriminao que recaiam sobre si mesmo, ou que venha a testemunhar  e para que desenvolva atitudes de repdio a essas prticas.
Essa auto percepo mais elaborada coopera para o fortalecimento da auto-estima, abrindo-se assim para o dilogo com o Outro, para o trabalho de composio de memrias, identidades e projetos coletivos  de sua famlia, de seu grupo tnico, de seu bairro, de sua turma, de sua cidade, de seu estado, de sua regio, de seu pas.
Ao mostrar as diversas formas de organizao, como parentesco, grupos de idade, formas de governo, alianas poltico-econmicas, desenvolvidas por diferentes comunidades tnicas e diferentes grupos sociais, explicita-se que a pluralidade  fator de fortalecimento da democracia pelo adensamento do tecido social que se d, pelo fortalecimento das culturas e pelo entrelaamento das diversas formas de organizao social de diferentes grupos.
Esse tema necessita, portanto, que a escola, como instituio voltada para a constituio de sujeitos sociais e ao afirmar um compromisso com a cidadania, coloque em anlise suas relaes, suas prticas, as informaes e os valores que veicula.

Ensinar Pluralidade Cultural ou viver Pluralidade Cultural
Pela educao pode-se combater, no plano das atitudes, a discriminao manifestada em gestos, comportamentos e palavras, que afasta e estigmatiza grupos sociais. Contudo, ao mesmo tempo que no se aceita que permanea a atual situao, da qual a escola  cmplice ainda que s por omisso, no se pode esquecer que esses problemas no so essencialmente do mbito comportamental, individual, mas das relaes sociais, e que
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como elas tm histria e permanncia. O que se coloca para a escola  o desafio de criar outras formas de relao social e interpessoal, por meio da interao o trabalho educativo escolar e as questes sociais, posicionando-se crtica e responsavelmente diante delas.
O cotidiano oferece muitas manifestaes que permitem o trabalho sobre pluralidade: os fatos da comunidade ou comunidades do entorno escolar, questes tpicas de adolescncia e juventude, as notcias de jornal, rdio e TV, programas e suplementos destinados a essa faixa etria especfica, as festas locais. Alm disso, a prtica de intercmbio entre escolas de diferentes regies do Brasil e de diferentes municpios de um mesmo estado, e a consulta a rgos comunitrios e de imprensa, inclusive na prpria comunidade, so instrumentos pedaggicos privilegiados a servio da formao de crianas e adolescentes.
Partilhar um cotidiano em que o simples "olhar-se" permite a constatao de que todos  alunos, professores e demais auxiliares do trabalho escolar  so provenientes de diferentes famlias, diferentes origens e possuem, cada qual, diferentes histrias, permite desenvolver uma experincia de interao "entre diferentes", na qual cada um aprende e cada um ensina. Traz a conscincia de que cada pessoa  nica e, por essa singularidade, insubstituvel.
Aprender a posicionar-se de forma que compreenda a relatividade de opinies, preferncias, gostos, escolhas,  aprender o respeito ao outro. Ensinar suas prprias prticas, histrias, gestos, tradies,  fazer-se respeitar ao dar-se a conhecer. Esse respeito no  incompatvel com o respeito s normas institucionais embora possa, s vezes, exigir flexibilidade em sua aplicao (por exemplo, os feriados religiosos, os horrios de servio do adolescente trabalhador).
Trata-se de oferecer ao aluno, e construir junto com ele, um ambiente de respeito, pela aceitao; de interesse, pelo apoio  sua expresso; de valorizao, pela incorporao das contribuies que venha a trazer. Trata-se, tambm, de garantir espao para situaes especficas vividas pelo aluno em seu cotidiano fora da escola, como a situao do aluno-trabalhador, seja no campo, seja na cidade.
Esse tipo de atuao exige do professor a conscincia de que estar aprendendo, numa rea em que a prtica do acobertamento  muito mais freqente que a do desvelamento.
A prtica do acobertamento  a mais usual, pois o "mito da democracia racial" conduz  chamada "poltica de avestruz", na qual, por se fazer de conta que um problema no existe, tem-se a expectativa de que ele deixe, de fato, de existir. Mais ainda, muitas vezes a idia de aceitar que o preconceito existe gera tanto o medo de ser acusado de ser preconceituoso, como o medo de ser vtima de preconceito.
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Na escola, a prtica do acobertamento se d quando se procura diluir as evidncias de comportamento discriminatrio, com desculpas muitas vezes evasivas. Um professor pode ter tratado mal um aluno "porque estava nervoso", ou a ofensa de um aluno contra outro  tratada como se fosse um simples descuido, uma distrao.
A prtica do desvelamento  decisiva na superao da discriminao. Exige do professor discernimento, sensibilidade, intencionalidade e informao.
O discernimento  indispensvel, de maneira particular, quando ocorrem situaes de discriminao no cotidiano da escola. Enfrentar adequadamente o ocorrido significa tanto no escapar para evasivas quanto no resvalar para o tom de acusao. Se o professor se cala, ou trata do ocorrido de maneira ambgua, estar reforando o problema social; se acusa, pode criar sofrimento, rancor e ressentimento. Assim, discernir o ocorrido, no convvio,  tratar com firmeza a ao discriminatria, esclarecendo o que  o respeito mtuo, como se pratica a solidariedade, buscando alguma atividade que possa exemplificar o que diz, com algo que faa, junto com seus alunos. Um bom exemplo  a anlise dos livros didticos e outros materiais usados no ambiente escolar.
Aqui se coloca a sensibilidade em relao ao outro. Compreender que aquele que  alvo da discriminao sofre de fato, e profundamente,  condio para que o professor, em sala de aula, possa escutar at mesmo o que no foi dito. Como a histria do preconceito  muito antiga, muitos dos grupos vtimas de discriminao desenvolveram um medo profundo e uma cautela permanente como reao. O professor precisa saber que a dor do grito silenciado  mais forte do que a dor pronunciada. Poder expressar o que sentiu diante da discriminao significa a chance de ser resgatado da humilhao, e de partilhar seus sentimentos com colegas. Ou seja, trata-se de ensinar a dialogar sobre o respeito mtuo num gesto que pode transformar o significado do sofrimento, ao fazer do ocorrido ocasio de aprendizagem. A sensibilidade, aqui, exige a ateno para a reao do pr-adolescente e do adolescente, para sua maior ou menor disposio para tratar do assunto exatamente no momento ocorrido, ou em situao posterior.
A intencionalidade se faz necessria como produto de uma reflexo que permita ao professor perceber o papel que desempenha nessa questo.  tambm a capacidade de perceber que tem o que trabalhar em si mesmo, e isso no o impede de trilhar, junto com seus alunos, o caminho da superao do preconceito e da discriminao. Trata-se de ter a certeza de que cada um de seus gestos pode fazer a diferena entre o reforo de atitudes inadequadas e a chance de abrir novas possibilidades de dilogo, respeito e solidariedade.
A prtica do desvelamento exige perspiccia para responder adequadamente a diferentes situaes que sero, na maioria das vezes, imprevisveis. A forma de desenvolver
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tal perspiccia  se preparar com leituras, buscando informaes e vivncias, estar atento aos gestos do cotidiano, explicitar valores, refletindo coletivamente na equipe de professores. Desenvolve-se, assim, como uma forma de procurar entender a complexidade da vida e do comportamento humano.
Esse conhecimento recproco respeitoso  mais que verbal. Dever incluir linguagens diversificadas e envolver uma conduta organizada na forma de projetos que compatibilizem aspiraes individuais com os projetos dos demais, bem como a possibilidade de o aluno assumir o papel de educador naquilo que lhe seja prprio.
Compreender a elaborao de projetos que possibilitem experincias de vida e atuao no campo social, na escola ou a partir dela, ajudam o estudante a entender mecanismos de funcionamento do poder, seu sentido tico, e ampliar essa compreenso, paulatinamente, at a elaborao de leis, de planos de governo, negociaes intra e extrapartidrias, ou seja, do sistema poltico em que vive. Nesse sentido, o professor dever cooperar, ao mesmo tempo que aprende com o restante da classe. Observe-se que essa vivncia, em si, ser extremamente importante, por trazer para o aluno a possibilidade de constatar que a sociedade se apresenta, em sua complexidade, como um constante objeto de estudo e aprendizagem, em que todos sempre tm a aprender.
Portanto, o que se busca  a construo de um repertrio bsico referente  pluralidade tnica/cultural, suficiente tanto para identificar o que  relevante para a situao escolar como para buscar outras informaes que se faam necessrias. Essa informao dever tambm contribuir na constituio da memria coletiva do aluno, bem como na identidade nacional que se reconstri a cada dia.
De fato, pelo tratamento analtico e crtico de informaes referentes  memria coletiva, podem-se propiciar elementos que venham a suprir necessidades presentes na construo da identidade tanto individual, como sociocultural e nacional. Da mesma forma, essas informaes podero ser subsdios para a elaborao de projetos, igualmente situados nos diversos planos (individual e coletivo). A contribuio da Pluralidade Cultural ir na direo do entendimento da construo de identidade e da histria, pelo conhecimento das diferentes comunidades e grupos humanos que formam o Brasil em suas prprias identidades e histrias.
Assim, a problemtica que envolve a discriminao tnica, cultural e religiosa, em vez de se manter em uma zona de sombra que leva  proliferao da ambigidade nas falas e nas atitudes, alimentando com isso o preconceito, pode ser trazida  luz, como elemento de aprendizagem e crescimento do grupo escolar, extravasando para a compreenso de processos sociais complexos, nos quais ao ser humano cabe papel ativo como sujeito sociocultural.
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Ensinar a pluralidade ou viver a pluralidade?
Sem dvida, pluralidade vive-se, ensina-se e aprende-se.  trabalho de construo, no qual o envolvimento de todos se d pelo respeito e pela prpria constatao de que, sem o outro, nada se sabe sobre ele, a no ser o que a prpria imaginao fornece.
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OBJETIVOS GERAIS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL
O tema da Pluralidade Cultural busca contribuir para a construo da cidadania na sociedade pluritnica e pluricultural. Tendo esse objetivo maior em vista, prope o desenvolvimento das seguintes capacidades:

 conhecer a diversidade do patrimnio etnocultural brasileiro, cultivando atitude de respeito para com pessoas e grupos que a compem, reconhecendo a diversidade cultural como um direito dos povos e dos indivduos e elemento de fortalecimento da democracia;
 compreender a memria como construo conjunta, elaborada como tarefa de cada um e de todos, que contribui para a percepo do campo de possibilidades individuais, coletivas, comunitrias e nacionais;
 valorizar as diversas culturas presentes na constituio do Brasil como nao, reconhecendo sua contribuio no processo de constituio da identidade brasileira;
 reconhecer as qualidades da prpria cultura, valorando-as criticamente, enriquecendo a vivncia de cidadania;
 desenvolver uma atitude de empatia e solidariedade para com aqueles que sofrem discriminao;
 repudiar toda discriminao baseada em diferenas de raa/etnia, classe social, crena religiosa, sexo e outras caractersticas individuais ou sociais;
 exigir respeito para si e para o outro, denunciando qualquer atitude de discriminao que sofra, ou qualquer violao dos direitos de criana e cidado;
 valorizar o convvio pacfico e criativo dos diferentes componentes da diversidade cultural;
 compreender a desigualdade social como um problema de todos e como uma realidade passvel de mudanas;
 analisar com discernimento as atitudes e situaes fomentadoras de todo tipo de discriminao e injustia social.
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PLURALIDADE CULTURAL
2 PARTE
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CONTEDOS DE PLURALIDADE CULTURAL
PARA TERCEIRO E QUARTO CICLOS

Critrios de seleo
A amplitude do tema Pluralidade Cultural determinou a seleo dos contedos voltados para uma aproximao do conhecimento da realidade cultural brasileira, quanto  sua formao histrica e configurao atual. Espera-se que os contedos propostos sirvam de suporte para que o professor possa contemplar a abrangncia solicitada pelo tema, adequando-os, ao mesmo tempo, aos objetivos e  realidade do seu trabalho, assim como s possibilidades de seus alunos.
Os critrios utilizados para seleo dos contedos foram os seguintes:

 a relevncia sociocultural e poltica, considerando a necessidade e a importncia da atuao da escola ,ern fornecer informaes bsicas que permitam conhecer a ampla diversidade sociocultural brasileira, divulgar contribuies dessas diferentes culturas presentes em territrio nacional e eliminar conceitos errados, culturalmente disseminados, acerca de povos e grupos humanos que constituem  o Brasil;
 a possibilidade de desenvolvimenco de valores bsicos para o exerccio da cidadania, voltados para o respeito ao outro e a si mesmo, aos Direitos Universais da Pessoa Humana e aos direitos estabelecidos na Constituio Federal;
 a possibilidade de que os alunos compreendam, respeitem e valorizem a diversidade sociocultural e a convivncia solidria em uma sociedade democrtica;
 a adequao s caractersticas de organizao, limites e possibilidades do ensino fundamental.

Blocos de contedos
Os contedos aqui elencados apresentam-se de modo integrado na vida social, interagindo no contexto amplo da cultura. Para efeito didtico, esses contedos receberam tratamento por blocos. Propem-se, neles, ncleos temticos que se entrelaam e se aplicam reciprocamente. A seleao visa  oferta  criana de vivncias e informaes que propiciem a percepo de uma situao social e cultural mais ampla e complexa do que seu mundo imediato. Cabe ao professor, na criao de sua programao, e  escola, na deciso de seu
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projeto educativo, priorizarem tais contedos conforme a especificidade do trabalho a ser desenvolvido.  importante lembrar que o estreito vnculo entre os contedos selecionados e a realidade local, a partir mesmo das caractersticas culturais locais, faz com que este trabalho possa incluir e valorizar questes da comunidade imediata  escola. Contudo, a proposta levanta, tambm, a necessidade de referenciais culturais voltados para a pluralidade caracterstica do Brasil, como forma de compreender a complexidade do pas, bem como de ampliar horizontes para o trabalho da escola como um todo. Lembra-se, ainda, que os contedos aqui definidos destinam-se ao trabalho com o terceiro e o quarto ciclos do ensino fundamental.
Pelo fato de a temtica da Pluralidade Cultural ser muito abrangente e complexa, tanto do ponto de vista social como do terico, a definio dos contedos foi feita de maneira ampla e detalhada. Com isso, buscou-se oferecera possibilidade de que sejam selecionados e abordados em diferentes aproximaes e nveis de aprofundamento, conforme caractersticas e peculiaridades regionais, locais, da escola e da sala de aula. Assim, se num estado h prevalncia de determinado grupo na composio populacional, a organizao dos contedos refletir essa caracterstica, atendendo de forma mais adequada  realidade da escola, sem deixar de contemplar o conjunto dos contedos que se voltam para uma percepo do Brasil como um todo.
A temtica encontra-se colocada tambm de forma aberta, porque se prope a relevncia da integrao com a sociedade, com movimentos sociais, com organizaes que podem trazer uma contribuio de extrema importncia para a ampliao do universo escolar. De fato, contedos contemplados nessa temtica tm sido formulados e reformulados em ritmo intenso, estando presentes no cotidiano de forma muitas vezes decisiva. Participar desse processo  essencial para a escola, dentro dos objetivos que se prope.
Portanto, o que se apresenta aqui  uma referncia que incorpora avanos do conhecimento no tema, reivindicaes antigas de movimentos sociais vinculados  temtica racial/tnica, divulgao de direitos civis, sociais e culturais estabelecidos na Constituio Federal, pelos quais ainda h muito por trabalhar coletivamente, em prol de seu pleno atendimento, respeitadas as especificidades do trabalho escolar. Embora possam parecer numerosos, encontram-se transversalizados com contedos de reas, possibilitando diferentes aproximaes com um assunto que retornar inmeras vezes ao longo de sua vida de estudante e cidado.

PLURALIDADE CULTURAL E A VIDA DOS
ADOLESCENTES NO BRASIL
Este bloco trata da diversidade sociocultural brasileira, do ponto de vista educacional, a partir dos elementos presentes nos diferentes grupos culturais: vida sociofamiliar, temporalidade, espacialidade, organizao poltica, educao. Trata da singularidade do
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Brasil, na forma como aqui se apresenta uma populao de origem diversificada, portadora de culturas que se preservaram em suas especificidades, ao mesmo tempo que se amalgamaram em novas configuraes. Trata de estruturas comuns a todos, dos entrelaamentos socioculturais que permitem valorizar aquilo que  prprio da identidade de cada grupo, e aquilo que permite uma construo comum, em que cabe pronunciar o pronome "ns". O objetivo didtico, assim,  oferecer contedos que possibilitem aproximaes da noo de igualdade quanto aos direitos, quanto  dignidade e que embasem a valorizao da diversidade cultural.
Uma caracterstica marcante deste bloco ser a abordagem dos contedos, tomando como ncleo a vida do adolescente.

 Compreenso da organizao familiar como instituio em transformao no mundo contemporneo.

O reconhecimento de como se processa essa organizao em diferentes grupos tnicos, sociais e culturais tem de considerar referncias diversas, que no se restringem ao parentesco. Compreender a importncia das famlias em seus diferentes tipos de agregao, que abrangem no s a consanguinidade mas critrios de natureza econmica, poltica e sociocultural, fornecer elementos para o aluno compreender que existem laos "herdados", por assim dizer, e vnculos que expressam as necessidades do seu grupo social, a liberdade de conscincia e a liberdade de associao.

 Conhecimento e valorizao das relaes de cooperao e responsabilidade mtua na famlia. A importncia de partilhar responsabilidades.

Nas responsabilidades familiares  bsico o atendimento s necessidades da criana e do adolescente; o cuidado com os idosos; a compreenso da igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres; a cooperao entre todos na vida diria. O partilhar responsabilidades  no cotidiano da famlia, da escola, do trabalho e demais relaes intersociais  deve consolidar referncias atitudinais de respeito mtuo e valorizao, em particular nas relaes de gnero e nas relaes geracionais, no contexto das especificidades inerentes s diferenas etno culturais.
As diversidades culturais e socioeconmicas compreendem diferentes formas de cooperao do adolescente c nveis de responsabilidades. Recomenda-se que esses contedos sejam trabalhados por meio do intercmbio com outros adolescentes, tanto da mesma classe ou escola como de outras, e mesmo de diferentes cidades ou estados, por correspondncia, privilegiando a transversalizao nos contedos de Lngua Portuguesa, no que se refere  expresso, e em Histria e Geografia, na contextualizao dos contatos estabelecidos.
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 Conhecimento e anlise da vida comunitria como referncia afetiva e forma de organizao. Levantamento de indicadores da vida comunitria como base de relaes econmicas em diferentes regies.

Analisar situaes em que a vida comunitria traz  tona relaes de autoridade, ou a complexidade da temtica das relaes de gnero, por exemplo, ser subsdio para que o aluno perceba que convivncia e participao se do tambm a partir de certos critrios, valores e normas criadas e reconhecidas pela comunidade e pela sociedade.
Para os adolescentes e jovens freqentemente a relao comunitria mais imediata  a de seu grupo, de sua turma, de sua "tribo", como se popularizou chamar na linguagem urbana.
Entretanto, a discusso de outras situaes, como a de trabalho profissional dos adolescentes e jovens, poder ser de grande interesse e valia para o estudante. E possvel trabalhar com o aluno para que ele perceba essas relaes a partir de sua prpria biografia-trajetria, construindo sua memria (intencional), significando ou ressignifcando sua identidade na composio dessa memria com o projeto que pode elaborar (intencionalmente). Na elaborao da memria poder valer-se do que estar trabalhando em Histria, Geografia, Portugus, Educao Fsica, Arte, por exemplo, para compor sua auto percepo mais elaborada, com base nas diferentes "filiaes" que possa ter: filho de (caractersticas da famlia), morando em (caractersticas da regio, cidade, bairro, etc.), freqentador de tal clube, ou religio, ou associao, estudando na escola, trabalhando em... e assim por diante.
Mais uma vez, analisar a diversidade de experincias existentes em diferentes comunidades tnicas  relevante como contedo voltado para a valorizao da Pluralidade Cultural caracterstica do Brasil, assim como recurso que propicia compreender a diversidade de formas de organizao humana.
 Conhecimento, respeito e valorizao de diferentes formas de relao com o tempo estabelecidas pelas diferentes culturas.

A marcao do tempo no calendrio de diferentes grupos emoculturais, tais como ndios, judeus, muulmanos, asiticos de diferentes origens, afrodescendentes, considera fatos, festas, tradies e outros paradigmas diferentes daqueles dados pelo calendrio civil, ou pelos feriados oficiais. Esse conhecimento facilita a compreenso de outras perspectivas de temporalidades exigidas para a abordagem histrica dos seres humanos, pois inclui a noo de tempo social, como as cerimnias de iniciao e os ritos de passagem; o tempo biolgico, com suas implicaes de mudanas fsicas; o tempo cosmolgico, que remete s
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vises de mundo que se reportam a feitos ancestrais, geralmente associados  origem da humanidade, e elementos culturais como gua, fogo, comida, entre outros. A transversalizao em Cincias Naturais, Histria e Geografia  imediata, e o trabalho em Arte e Educao Fsica tambm  muito frtil nesse aspecto.
Ao tratar de diferentes vises de mundo,  possvel articular a concepo de tempo com mitos de gnese do universo, numa comparao que permite tambm a compreenso da estruturao e especificidade do pensamento cientfico. Aqui, portanto, a transversalizao se faz com Cincias Naturais.
Entrelaando-se internamente com a temtica da famlia, o estudo de vnculos geracionais permite a compreenso de como se processam permanncias, mudanas, transformaes. Trabalhar os ciclos da vida, tal como se apresentam em diferentes grupos tnicos, culturais e sociais, ser oportunidade de valorizao das diferentes etapas da vida. Se  verdade que o caminho da maturidade e envelhecimento biolgico  trilhado por todos  igualmente certo que povos culturalmente distintos classificam os estgios pelos quais passam cada indivduo, desde a concepo e o nascimento, at a velhice, a morte e a vida aps a morte, de maneiras muito diferentes. Esse contedo permite transversalizar em Lngua Portuguesa, com projetos voltados para biografia, autobiografia, presena de contadores de histrias e casos, depoimentos e formas diversas de conhecimentos significativos como memria e procedimentos de sobrevivncia de diferentes culturas.

 Levantamento de diferentes formas de relao com o espao, vividas por diferentes grupos humanos, criando solues alternativas para suas vidas.

Explorar a riqueza da relao dos povos indgenas com o meio ambiente, os problemas caractersticos de regies de intensa urbanizao, distintas formas de vivncia em zonas urbanas e zonas rurais, assim como a busca de acomodao mnima, so exemplos de assuntos que possibilitam transversalizar esse contedo em Geografia.
Levantar e analisar valores e cdigos do espao urbano e do espao rural  uma forma de trabalhar com processos constitutivos dos cdigos de representao coletiva, como construo humana. Aqui abrem-se muitas possibilidades de transversalizar esse contedo em Geografia, por exemplo, quanto a diferentes concepes de espao e quanto s relaes local/global, espao/tempo, espao/cenrio fsico.
Entender como esses cdigos se estruturam de forma diferenciada no espao pblico e no espao privado traz a necessidade do estudo da historicidade do conceito de espao pblico, assim como sua vinculao a diferentes culturas. Da mesma forma, propicia oportunidade de compreender que espaos esto sujeitos a regulamentao, jurdica ou por conveno entre seus usurios, caracterizando espaos de trabalho, lazer, festas, ritos etc. Nesse contedo, h um potencial de transversalizar em Histria, Geografia e Portugus.
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Considerando a composio populacional brasileira, o estudo da diversidade cultural  fortalecido pela compreenso das formas de mobilidade de indivduos e grupos no espao. Compreender alternativas como sedentarismo, nomadismo, imigraes, migraes, em particular com anlise de dados populacionais do Brasil,  indispensvel, e contedo que transversaliza em Geografia e Histria, entre outros.

 Conhecimento e valorizao de como se processa a educao em diferentes grupos humanos, quem desempenha o papel de educador, conforme a organizao social e da prpria escola.

Oferecer ao adolescente informaes bsicas sobre os diferentes tipos de escola existentes no Brasil permitir que ele se situe no universo em que vive ao mesmo tempo que valorize a escolarizao e a escola como instituio voltada para o bem comum. Permitir tambm, pela anlise de diferentes alternativas expressas em diversos grupos humanos, a compreenso de formas diversas de expresso do papel de educador, em diferentes culturas, valorizando-o.
Analisar possibilidades existentes de escolaridade, seja quanto a nveis, formao profissional, ensino superior nas diferentes regies do Brasil  importante para que o estudante possa compreender seu prprio contexto de estudante, tanto o atual como as chances futuras que poder buscar. Particularmente a compreenso de escolas voltadas para a formao profissional, assim como o papel do ensino superior, so elementos de ampliao do horizonte de compreenso do aluno.
Ter acesso a estatsticas de escolarizao, especficas do Brasil e comparativas com outros pases, permitir ao adolescente valorizar suas oportunidades educacionais, aproveitando-as ao mximo, ao mesmo tempo que poder perceber, como cidado, situaes de premncia no pas, que exigem mudana.
Esse contedo pode ser trabalhado em Lngua Portuguesa, Matemtica, Geografia, Histria, alm de entrecruzamento nos demais temas transversais, em particular tica e Trabalho e Consumo.

PLURALIDADE CULTURAL NA FORMAO DO BRASIL
Este contedo trata de como se constituiu, por sua permanente reelaborao, e se apresenta a face cultural complexa e cheia de potencial do pas, com sobreposio de tempos, no social, no cultural e no individual. Trata, tambm, de como se tm entrelaado, historicamente, caractersticas culturais, organizao poltica e insero econmica de diferentes grupos humanos presentes na formao do Brasil.
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Todos os grupos sociais e tnicos tm histrias. Essas histrias so distintas entre si e tambm distintas do que se convencionou como histria do Brasil, no singular. Embora as trajetrias das culturas e etnias no Brasil j faam parte dos contedos trabalhados pela escola, com referncia aos ndios, aos negros, aos imigrantes, o que se prope so novos contedos, que buscam narrar a histria do ponto de vista dos grupos sociais que a produziram.

 Conhecimento das origens continentais das diferentes populaes do Brasil.

Para conhecer a situao das diferentes populaes que aqui vivem, entender a dinmica de sua insero na Histria do Brasil e valoriz-las,  necessrio trabalhar, em relao a cada grupo, aspectos ligados  forma de sua organizao social desde suas origens continentais.
Ser indispensvel estudar dados sobre a presena e diferentes formas de organizao social dos indgenas, em sua diversidade, no continente e em territrio nacional anterior a chegada dos europeus, assim como a presena de outras culturas pr-colombianas na Amrica Latina. Da mesma forma, a vida culturalmente complexa presente na frica, com formas igualmente complexas de organizao socioeconmica interligadas a essa vida cultural. Com relao aos imigrantes, no bastar conhecer suas vidas nos respectivos continentes de origem  Europa, sia, Oriente Mdio, frica , mas tambm compreender como freqentemente caractersticas culturais moldaram critrios de escolha e colocao de mo-de-obra, ao longo da histria brasileira.

 Anlise das influncias histricas do mercado de trabalho na mobilidade dos diferentes grupos humanos que formam o Brasil e levantamento de dados populacionais.

A imigrao forada dos africanos escravizados no Brasil caracterizou-se sobretudo pelas situaes de distanciamento de seus membros do grupo de origem, pela disperso tnica e pelo desenraizamento das origens culturais. No caso dos indgenas, aldeias inteiras foram removidas de seus territrios tradicionais e as crianas submetidas  catequizao, desrespeitando-se a sua organizao sociocultural. Esse desmantelamento da estrutura familiar e dos vnculos comunitrios enfraqueceu o sentido de identidade dos africanos e dos indgenas. Entretanto, isso no impediu que se disseminasse, ainda que precariamente  e de forma frgil por todo o territrio, influncias de sua cultura, constituindo uma populao caracterizada pela diversidade.
No que se refere aos imigrantes, o processo de insero de sua mo-de-obra levou  criao de colnias, que historicamente foram identificadas como "guetos", condenados, por polticas oficiais, a ao homogeneizadora, nos momentos de exacerbao de certo nacionalismo. Com isso, criaram-se situaes de conflito entre comunidades/indivduos e
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orientao poltica nacional, em particular no que se referiu a propostas referentes a organizao escolar.
O estudo desse tpico permitir compreender certa estratificao de colocao no mercado de trabalho, orientada por esteretipos que fomentam preconceitos e discriminao. Em tais situaes, freqentemente a diversidade de raa, etnia e cultura  usada de forma perversa e errnea, para justificar  e at fundamentar  a desigualdade. Tambm favorece as anlises voltadas para as especificidades de cada uma das comunidades que vivem no Brasil, como se compem as caractersticas dos diferentes grupos de acordo com sua localizao regional e seus movimentos internos dentro do pas.

 Levantamento, anlise evalorizao da contribuio das diversas heranas etnoculturais, como mecanismos de resistncia ante as polticas explcitas de homogeneizao da populao havidas no passado.

Diante da busca de homogeneizao cultural que se tentou impor, diferentes grupos no Brasil tiveram de resistir, recolocar-se, recriar-se, de forma ativa em diferentes momentos da histria. O conhecimento desses mecanismos de resistncia permite entender, tambm, como a formao econmica do Brasil tem-se feito com a contribuio de diferentes grupos etnoculturais, em situaes muitas vezes adversas para tais comunidades.
Trata-se, tambm, de valorizar a ao de grupos, comunidades e movimentos como mediadores da ao do cidado na sociedade e na constituio do Estado, como se verifica na histria. A compreenso da sua diversidade, assim como a complexidade que envolve a imerao entre grupos, comunidades e movimentos, tal como expressa na formao do Brasil propicia a percepo da importncia da participao de cada cidado em diferentes momentos e processos da cidadania, seja diretamente, seja como partcipe de uma comunidade que media essa presena ativa.
Recuperar as origens das diversas influncias  valorizar os povos que as trouxeram e seus descendentes, reconhecendo suas lutas pela defesa da dignidade e da liberdade, atuando na construo cotidiana da democracia no Brasil, dando voz a um passado que se faz presente em seres humanos que afirmam e reafirmam sua dignidade na herana cultural que carregam.
Trata-se de ampliar o horizonte de referncia do aluno, despertando sua curiosidade para o mundo que o cerca. Ser a possibilidade de desenvolver um novo olhar sobre fatos e relaes que os meios de comunicao aproximam da criana, vinculando-os  sua realidade. Ser tambm a oportunidade de oferecer informaes que contribuam para a superao do preconceito e da estigmatizao, trabalhando a valorizao da histria de povos que, tendo construdo o Brasil, foram injustiados, como os ndios e negros.
Outros povos, de outras etnias, em outros continentes, sofreram a escravido como
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resultado de processos de guerra, conquista e submisso, em outros momentos da histria da humanidade. Nenhum processo, porm, representou tanto absurdo como a exacerbao do escravismo, com sua ampla mercantilizao no continente africano nos sculos XVII, XVIII e XIX. Para sustent-la, inmeras teorias e justificativas inaceitveis foram construdas e disseminadas como senso comum, consolidando-se ao gerar, ao trmino da escravido, racismo, discriminao e excluso. Esse processo significou o alerta para que se perceba que a escravido  sempre inaceitvel e que a liberdade  fundamental no estabelecimento da justia.

 Valorizao do ponto de vista dos grupos sociais para a compreenso dos processos culturais envolvidos na formao da populao brasileira.

H perguntas que podem direcionar o trabalho na escola para uma atitude de ateno ao ponto de vista dos grupos sociais. Assim, por exemplo, o que significou a experincia da escravido para a populao de ndios e negros? Como se desdobraram, e variadamente, as prticas de resistncia? O que motivou milhares de famlias a imigrarem? Qual o sentido do deslocamento interno vivido ainda hoje por uma parte considervel da populao, incorrendo no abandono de parentes, territrios, hbitos e culturas, de tcnicas de trabalho eficientes e tradicionais? Como famlias organizam-se, segundo suas caractersticas culturais, em termos econmicos de forma que garanta sua sobrevivncia?
Essas questes expressam-se em dados objetivos: escolaridade, profisso, habitao, permitindo uma anlise da relao entre aspectos econmicos e aspectos tnicos.
A atitude que a escola deve desenvolver, tomando como um de seus fundamentos esse conhecimento,  o compromisso com a justia como base para o desenvolvimento para todos.
Este bloco de contedos mantm grande afinidade com as reas de Histria e Geografia  medida que apresenta a dinmica das culturas que formaram historicamente o Brasil, e que o constituem. Relaciona-se, tambm, com os temas transversais Trabalho e Consumo e Meio Ambiente, ao tratar das inter-relaes entre o cultural, o econmico e o ambiental.

O SER HUMANO COMO AGENTE SOCIAL E
PRODUTOR DE CULTURA
Ao pressupormos o ser humano como agente social e produtor de cultura, evocamos a emergncia de suas histrias, delineadas no movimento do tempo em interao com o movimento no espao.
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Esse movimento, por sua vez,  mediado por diferentes linguagens, cujas expresses denotam traos de conhecimentos, valores e tradies de um povo, de uma etnia ou de um determinado grupo social. Nesse contexto, as imagens construdas pelos gestos, pelos sons, pela fala, pela plasticidade e pelo silncio implicam contedos relevantes para a construo da identidade, pois  nesse universo plural de significados e sentidos que as pessoas se reconhecem na sua singularidade.
 no interior desse amlgama que podemos articular os conceitos de agente social e produtor cultural. Os contedos apresentam-se numa relao de igualdade, na qual no cabem avaliaes preconceituosas e/ou pejorativas s diferenas de linguagens, tradies, crenas, valores e costumes, com o objetivo de valorizar os seres humanos como instncia primeira das histrias.

 Conhecimento, respeito e valorizao das diferentes linguagens pelas quais se expressa a pluralidade cultural.

Conhecer e respeitar diferentes linguagens  decisivo para que o trabalho com este tema possa desenvolver atitudes de dilogo e respeito para com culturas distintas daquela que a criana conhece, do grupo do qual participa.
Este bloco oferece muitas oportunidades de transversalidade em Arte, quando por exemplo o adolescente poder aprender sobre a cermica artesanal de certa populao, ou msicas e danas de certos grupos tnicos, como formas de linguagem. E muito importante que, ao propor a atividade, o professor contextualize seu significado para o grupo tnico ou cultural de onde se originou a proposta, para que o assunto no seja tratado como folclore, mas como elemento cheio de importncia para a estruturao e manifestao da vida simblica daquele grupo.

 Levantamento e valorizao das formas de produo cultural mediadas pela tradio oral.

As tradies culturais transmitidas oralmente num grupo social fundamentam-se na ancestralidade, uma vez que so transmitidas de uma gerao para outra, a partir de vivncias significativas para o grupo em atividades de sobrevivncia e/ou no exerccio do poder no mbito de sua organizao poltica, econmica e sociocultural. Os episdios so narrados por aqueles a quem o grupo delega autoridade para falar e reconhece a legitimidade da fala, respeitados pelas informaes que receberam dos antepassados e pelo testemunho do grupo de suas experincias e sabedoria.
A valorizao dessas vozes no cotidiano da escola implica pesquisas de cunho literrio e tambm junco  comunidade, por meio de depoimentos que muitas vezes no tm registros nas escritas de nossas histrias, como relatos de descendentes de escravos, indgenas, imigrantes, sacerdotes de diferentes cultos e religies. O contedo desse enfoque permite
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a emergncia da memria constitutiva das tradies, valores, normas e costumes, com marcas presentes na medicina, culinria, literatura, jogos, brincadeiras, festas religiosas, rituais, cerimnias de iniciao e outras atividades compartilhadas por crianas, adolescentes e adultos nas diversas comunidades.
Tratar da tradio oral de diferentes grupos tnicos e culturais ter, assim, tanto um sentido de explorao de linguagem quanto de conhecimento de elementos ligados a diferentes tradies culturais.

 Conhecimento de usos e costumes de diferentes grupos sociais em sua trajetria histrica.

Dentre usos e costumes que podem ser estudados, alguns so de particular interesse para o adolescente. Assim, o vesturio traz marcas de diferenciao de gnero, idade, posio social, profisso. Para o adolescente ser fcil compreender tal diferenciao por dados de sua vida cotidiana: modelos e tecidos que jovens usam so exemplos dessas marcas diferenciadoras.
Outro assunto de interesse nesse nvel escolar so as festas. Compreender que diferentes etnias desenvolvem diversas formas de organizao de festas e celebraes, envolvendo diferentes nveis de participao, tambm permite essa compreenso pela aproximao que o adolescente pode fazer de sua prpria vivncia.
Os objetos presentes na vida diria ou marcados por um uso distintivo recebem, nas diversas etnias, formas de preservao; modificaes quanto ao uso e/ou  tecnologia. Alguns so de uso pessoal, enquanto outros so marcado ou exclusivamente de uso coletivo. 
Aspectos de planejamento arquitetnico e decorao de moradias so tambm extremamente teis para o trabalho referente  diversidade cultural.
H exemplos de como se entrelaam, no decorrer desse processo, o ser humano como produtor e seus produtos: como determinado utenslio ou objeto de grande valor cultural, de cunho sagrado  guardado ou como se procede  sua limpeza e manuteno, quem  o encarregado; como o boiadeiro cuida da sela que usa em seu cavalo, ou do berrante que usa ao lidar com o gado.
O percurso dessa trajetria implica a reordenao de valores nas perspectivas individuais, intercmbio, ampliao do conceito de cultura escolar, acesso ao acervo cultural, direito de produzir a partir de diferentes cdigos e valores de diferentes culturas.

 Conhecimento e compreenso da produo artstica como expresso de identidade etnocultural.

E possvel encontrar diferentes formas de expresso das identidades tnicas. Na msica, h possibilidades de explorar essa expresso pela origem dos ritmos, pelas
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caractersticas meldicas e pelos instrumentos utilizados. Nos ritos, a representao  como na dana da colheita, da chuva, da guerra  e a esttica dos movimentos oferecem subsdios para a compreenso das identidades culturais.
Na escultura  possvel encontrar elementos para o trabalho escolar no uso de materiais conforme a tradio  pedra, barro, ferro, cobre, metal  e a criao da forma na relao do homem com os elementos da natureza. Na pintura o mesmo se d pelo efeito de sentido na interao das cores, traos, movimentos, figuras, expressando as relaes do ser humano com o outro e com a natureza.
No teatro, podem-se desenvolver estudos e atividades sobre o carter sacro-profano do espao teatral, com arenas, olimpos, plpitos, o que h de atrair a ateno do adolescente, em particular ao propiciar que integre suas vivncias nesse campo, com o que analisa na escola.
J na literatura, h um trabalho frtil a ser realizado sobre os movimentos e as escolas literrias, particularmente tendo em vista a constituio da identidade nacional, como obra constante e coletiva; a viso crtica dos valores de diferentes pocas; a denncia e/ou as reivindicaes de diversos grupos sociais, por intermdio de suas criaes literrias.
Cabe lembrar ainda a necessidade de trabalhar linguagens do mundo contemporneo, em sua interao na vida cotidiana.

 Conhecimento e compreenso da lngua como fator de identidade na interao sociopoltica e cultural.

Tratar de bilingismos e multilingismos  uma forma de mostrar a riqueza da diversidade que sabe desenvolver-se mantendo elementos comuns e elementos singulares. No multilingismo, ou plurilingismo, d-se a interao de lnguas diferentes numa mesma comunidade.
No bilingismo, pode-se trabalhar com o adolescente quais so os processos de aquisio de uma segunda lngua e o significado dessa aquisio do ponto de vista social, cultural e econmico, considerando o indivduo e o grupo social de que participa. E possvel trabalhar esses aspectos, por exemplo, ao tratar da estrutura e do uso das diferentes lnguas das etnias indgenas presentes no Brasil, ou da manuteno da lngua do pas de origem em colnias de imigrantes. Ao mesmo tempo, tratar do papel unificador da Lngua Portuguesa  oferecer  criana instrumentos para que entenda fatores determinantes da vida cultural, em termos nacionais.
O estudo de variantes lingusticas permite trabalhar com expresses tpicas de grupos tnicos, assim como com regionalismos. Aqui no se trata de bilingismo, mas de certas expresses que so usadas corriqueiramente por grupos tnicos em seu cotidiano no Brasil  "fazer a cabea", no candombl; "fazer Bar-Mitzv", no judasmo etc. , e cujo conhecimento pode facilitar a convivncia com outros que no partilham o sentido. Esse
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trabalho tambm deve ser desenvolvido como uma forma de abordar respeitosamente expresses desconhecidas, sem estranhamento e sem deboche. Isso pode ser feito com naturalidade ao se tratar de ritos, calendrios e sempre que surgir a oportunidade. Portanto, quando se trata de algo que  prprio de um determinado grupo tnico ou cultural, deve-se usar o nome adotado pelas pessoas desse grupo.
Devem ser abordados os regionalismos, especialmente no tocante aos acentos da lngua oral. Nesse sentido, ser importante trabalhar a percepo relativa do sotaque. Perguntas como: "Quem tem sotaque?, ou "Onde certo tipo de acento  sotaque, onde  prprio da regio?", podero ajudar a construir a compreenso de que "fora de casa todos so estrangeiros". Observe-se que, alm dos contedos que transversalizam com Lngua Portuguesa e Geografia, h contedos atitudinais relevantes que podem ser trabalhados, como o que se volta para a solidariedade, crucial para a vivncia de todos, em particular quando se tem essa perspectiva de que, de certa forma, se  sempre "estrangeiro".
O estudo de variantes lexicais pode cooperar para que o estudante compreenda que a valorizao das variantes lingusticas traz tambm a necessidade de certo cuidado com relao ao uso e adequao de vocabulrio.
Considerando, em particular, o contexto de contatos lingsticos,  possvel explorar contedos transversalizados em Histria e Geografia, trabalhando esses contatos: no contexto da conquista, entre o ndio, o portugus e o africano; no contexto dos movimentos de imigrao; no contexto dos movimentos de migrao interna; no contexto da Lngua Brasileira de Sinais usada pelos surdos.
Transversalizando, novamente, em Geografia e Lngua Portuguesa, ser possvel trabalhar expresses tpicas regionais. Essa abordagem ser importante tanto em relao  regio onde se localiza a escola quanto em relao a outras regies. Explorar os diferentes significados de uma mesma palavra ou expresso, principalmente trabalhando a partir da regio da escola, colaborar para a ampliao da percepo da pluralidade. Ser possvel, tambm, transversalizar com Histria, em contedos que possibilitem levantar expresses que se incorporaram ao cotidiano, e que so originrias de influncias de certas etnias, ou de certos grupos imigrantes, por exemplo.

 Conhecimento, anlise e valorizao de vises de mundo, relaes com a natureza e com o corpo, em diferentes culturas.

Apresentadas de diferentes formas em diferentes momentos, oferecem a possibilidade de explorar o potencial criativo e inovador caracterstico do ser humano, na criao de etnoconhecimentos.
Oferecer informaes para que a criana possa perceber que existem mltiplas formas de interpretao das origens do universo e da vida, diferentes sistemas de construo do
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saber que coexistem e podem ser, muitas vezes, complementares, auxiliar o desenvolvimento de atitudes de dilogo e respeito em relao a culturas distintas daquelas de origem.  uma forma tambm de trabalhar a mtua influenciao e os diferentes nveis de integrao que permeiam e entrelaam diferentes formas de organizao social e de expresses culturais.
A histria da humanidade apresenta dados de como essas contribuies, tipicamente fundadas em caractersticas etnoculturais, podem ser retransmitidas a outros grupos e acumuladas. Por exemplo, aqui ser possvel transversalizar em Matemtica, tratando de diferentes sistemas de numerao e medida, origens do sistema decimal, dos algarismos etc.
Na medicina, diferentes formas de prescries e curas adotadas por diferentes povos, tm resultado em interaes entre o tradicional e o cientfico.
Transversalizando em Portugus,  possvel tratar da expresso tnica na literatura, manifestada como criao de conhecimento sobre determinado povo, por intermdio de canes, lendas, contos, casos, ditados, fbulas.

DIREITOS HUMANOS, DIREITOS DE
CIDADANIA E PLURALIDADE
Em uma proposta curricular voltada para a cidadania, o tema da Pluralidade Cultural ganha especial significado ao propiciar elementos para que a criana estabelea relaes entre a democracia, a consolidao do pleno cumprimento de direitos, a coexistncia de diferentes grupos e comunidades tnicas e culturais, e sua prpria vida, no cotidiano.
A organizao social dos grupos humanos inclui organizaes polticas diversificadas, caracterizadas pela viso de mundo de cada grupo.
Estruturam-se, na organizao social dos diferentes grupos humanos, diferentes tipos de liderana e coordenao, diferentes mecanismos de participao e comunicao. A noo de que diferentes grupos tnicos e culturais tm organizaes polticas internas prprias, diferenciadas entre si,  contedo a transversalizar em Histria, ao traar, por exemplo, da vida nas aldeias indgenas, ou dos processos de chegada e integrao dos imigrantes em territrio nacional, assim como da formao de estruturas poltico-partidrias, entrelaadas com aspectos culturais na histria do Brasil.
Neste bloco, a dinamizao dos trabalhos entrelaa-se com a possibilidade de oferecer uma abordagem fundamentada eticamente. Trata-se de buscar informaes junto s organizaes de cada um dos grupos que se pretende conhecer, nos quais a voz a ser ouvida  a dos representantes dessas comunidades. Da mesma forma, o contato direto com rgos pblicos voltados para a defesa de direitos da cidadania  sejam aqueles que visam a combater a discriminao, sejam aqueles que tratam, por exemplo, dos direitos do
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consumidor  permitir ao aluno construir novas formas de relao e estabelecimento de vnculos. Tambm ser possvel transversalizar o tema com Lngua Portuguesa, propondo atividades de correspondncia, entrevistas etc.
Um ponto importante, ao tratar de organizao poltica,  o que se refere a instituies voltadas para o bem comum. Poder ser trabalhada de maneira frtil a percepo de como pluralismo poltico e pluralidade cultural se -entrelaam. Entender como se passa da organizao comunitria para a busca dos interesses gerais da sociedade, como se estrutura politicamente tal complexidade, cooperar para a compreenso do significado de Estado. Assim, ao tratar em Histria da organizao do Estado, esse contedo poder ser enfocado, mostrando como h instituies sociopolticas constitudas por representantes de diferentes grupos e comunidades, tendo em comum a prtica democrtica. Este trabalho permite mostrar como um mesmo indivduo participa de diferentes grupos sociais, polticos e culturais, o que propicia uma insero social pluridimensional.
Assim, tratar da relao entre organizao poltica e pluralidade propicia analisar diferentes formas de organizao poltica, em diferentes grupos humanos, em diferentes momentos da Histria, assim como a situao atual no Brasil dessa diversidade de organizaes.
Propicia, tambm, compreender diferentes papis que so desempenhados pelos adolescentes e jovens em diferentes grupos humanos, em diferentes momentos e, de maneira particular, a situao que vivem atualmente no Brasil. Um levantamento do papel histrico de organizaes estudantis, assim como daquelas existentes atualmente nos diversos nveis - escolar, local, estadual, nacional -,  uma forma interessante de analisar como pode se realizar a prtica de cidadania para o adolescente e estudantes em geral.

Prtica e valorizao da circulao de informaes para a 	organizao coletiva e como fundamento da liberdade de expresso e 	associao.

A circulao de informaes propicia a transparncia no exerccio do poder de que se encontram investidas as autoridades, ao mesmo tempo que se lembra que, no regime democrtico, esse poder deve ter o povo como referncia e como lastro. Trabalhar com jornais e desenvolver a iniciativa de dirigir-se, porcaria, a rgos de imprensa, em particular queles que oferecem suplementos voltados para adolescentes, poder colaborar para o adolescente compreender mecanismos de interveno social, a partir de iniciativas pessoais ou coletivas.
Trata-se, portanto, de abordar o papel dos meios de comunicao na organizao poltica, na valorizao da diversidade e no fortalecimento do pluralismo poltico. Da mesma forma, cabe enfatizar a insero dos adolescentes nos meios de comunicao, como pblico-alvo e como consumidores, de maneira especial pela produo de cadernos ou suplementos
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especiais, assim como por publicaes especializadas, transversalizando em Lngua Portuguesa e outras reas cujos contedos sejam objeto de matrias jornalsticas.
 importante tambm valorizar os recursos de comunicao disponveis na comunidade, seja como recurso material seja como produtores de informaes. Essa abordagem faz com que as produes jornalsticas, radiofnicas e audiovisuais locais  articuladas por associaes religiosas, recreativas, culturais, polticas e educacionais  constituam um canal de participao da comunidade propagador de seus interesses e da sua cultura.

 Compreenso da definio e do conhecimento de leis como princpios de cidadania.

A percepo da possibilidade de interao efetiva com o social e a vivncia de busca de subsdios permitir ao adolescente compreender os processos pelos quais se passa em sociedade  local, estadual, regional, nacional  para a definio de leis. Tal vivncia poder se dar com intercmbio direto com rgos legislativos nos diversos nveis, propiciando exerccio de cidadania.
Tendo tomado contato, nos ciclos anteriores, com a Constituio Federal de 1988, propondo direitos individuais e coletivos que representam conquistas histricas, alm de apresentar mecanismos de proteo e promoo desses direitos, assim como com o Estatuto da Criana e do Adolescente, o adolescente poder, no terceiro e quarto ciclos, fazer anlises de situaes noticiadas pela imprensa e meios de comunicao em geral, assim como situaes vividas diretamente em seu cotidiano, consultando esses instrumentos, entrevistando advogados de sua comunidade ou do entorno escolar, aprendendo a operacionalizar, em sua vida, o cumprimento de direitos e deveres. Em um pas cuja histria de opresso se fundou, entre outros elementos, no desconhecimento das bases do Estado Democrtico de Direito, essa ser uma contribuio para a consolidao democrtica.
 claro que, a exemplo da introduo  consulta a documentos jurdicos presente nos ciclos anteriores, no se trata de oferecer um curso de legislao ao pr-adolescente e ao adolescente, mas de colaborar para que aprendam que existem instrumentos jurdicos, reconhea-os, familiarizando-se com a possibilidade de consult-los, para invocar e defender seus direitos.
No terceiro e quarto ciclos,  interessante desenvolver anlises do papel desempenhado pelo Poder Legislativo e pelo Poder Judicirio na vida do cidado, o que pode ser integrado com a temtica da imprensa e o fortalecimento da cidadania, colecionando e examinando notcias pertinentes.

Prtica e valorizao dos Direitos Humanos.

Os Direitos Humanos Universais apresentam-se como uma necessidade assumida
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pela humanidade, aps muitos dramas e tragdias, que ceifaram as vidas de muitos, de maneira brutal.  tarefa de todos zelar pelo respeito aos Direitos Humanos e exigir seu cumprimento, cooperando para isso no cotidiano, de todas as formas possveis.
Trata-se de compreender o sentido de organizaes governamentais voltadas para as relaes internacionais, como a Organizao das Naes Unidas, criada com base na conscincia mundial da interdependncia mtua. Ao trabalhar a temtica planetria, pode-se fazer a transversalizao em Geografia e Histria, cooperando para a compreenso da insero de cada indivduo na dinmica da construo dos destinos humanos.
Nesse sentido, podem-se oferecer ao adolescente elementos de recentes conferncias internacionais, sejam aqueles ligados  organizao delas, sejam deliberaes e concluses temticas de cada reunio, destacando que se trata, em todos os casos, de documentos e tratados referentes aos direitos humanos, por princpio indivisveis e inseparveis. Trata-se de oferecer meios para o adolescente compreender que tem direito a ter direitos de cidadania, e que esses englobam diversas dimenses.
O entrelaamento com os demais temas transversais ser crucial no tratamento dos direitos individuais bsicos, nas relaes de gnero, no campo da sade, na questo ambiental, na temtica do trabalho e consumo, assim como a transversalidade com Histria, Geografia e Lngua Portuguesa. Ao mesmo tempo, o tema da Pluralidade Cultural oferece exemplos frequentemente imediatos de como o cumprimento de direitos  fundamental para todos. O adolescente poder, por exemplo, entrar em contato com os direitos culturais, os direitos dos povos indgenas e das minorias nacionais ou tnicas, lingusticas, culturais ou religiosas.
Podem-se entrelaar esses contedos vinculados  ordem internacional, com a prtica da cidadania no Brasil, pelo escudo do Programa Nacional de Direitos Humanos, assim como documentos complementares e subsdios a ele. Desenvolver atividades que permitam ao estudante entender que a definio de prioridades nesse campo depende de engajamento de todos, como prtica cotidiana,  uma forma de a escola cumprir seu prprio papel nesse processo.

 Valorizao da possibilidade de mudana como obra humana coletiva.

Situaes que exigem mudana urgente do quadro social frequentemente trazem a exigncia de mudanas jurdicas. Trata-se de abrir intencionalmente espao para que a escola trabalhe esses temas, conforme se apresentem a necessidade e/ou importncia. Aqui ser possvel articular com outros temas, como Sade, Trabalho e Consumo, Meio Ambiente, Orientao Sexual e tica. O sentido ser o de desenvolver a conscincia de que a situao social  passvel de transformao pela organizao democrtica e pela definio intencional de prioridades sociais, alm do cultivo de sentimentos de solidariedade ativa, de responsabilidade comum pelos destinos de todos.
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 importante que a definio de aspectos a serem enfatizados volte-se tanto para aqueles que so significativos para os alunos com que a escola trabalha diretamente, assim como para o conhecimento de outros, significativos para adolescentes que vivem situaes diversas daquela existente na comunidade da escola.
O que se busca  que o estudante possa conhecer demandas sociais existentes no Brasil e o tratamento legal j existente, em assuntos de grande importncia como preconceito, discriminao, excluso, relaes de trabalho e direito  educao.
Outros aspectos que envolvem a sociedade, em processos que ainda demandam tanto criao de legislao especfica, como o desenvolvimento de iniciativas por parte da prpria sociedade, vinculam-se  difcil e complexa temtica da violncia. Essa temtica comporta anlises especficas referentes a sua ocorrncia na zona urbana e na zona rural, devendo ser tratados, em especial, por sua proximidade com os interesses dos adolescentes, aspectos referentes  violncia sexual, explorao do trabalho, drogas, alcoolismo, criminalidade.
Cabe tambm tratar das situaes referentes ao atendimento  sade da populao, vinculando o tema aos direitos de cidadania. Pela abordagem aberta da Pluralidade Cultural, pode-se tratar de especificidades tnicas e de gnero, abrindo a possibilidade de entrelaamento com Sade e Orientao Sexual, oferecendo ao aluno contedos referentes aos direitos reprodutivos, assim como da urgncia de melhoria da oferta do atendimento de servios de sade da mulher. Nesse sentido, podem-se trabalhar relatrios internacionais que indicam a situao de gravidade que envolve abortos e esterilizaes de determinadas camadas da populao, indicando o recorte de classe e de raa presentes nas estatsticas.
Conhecimento dos instrumentos disponveis para o fortalecimento da cidadania.
Cidadania  prtica, e a escola tem meios de desenvolver essa prtica para trabalhar com o aluno no s a busca e acesso  informao relativa a seus direitos e deveres, como o seu exerccio. Assim, consultas a documentos jurdicos nacionais e tratados e declaraes internacionais poder ser feita em sala de aula, continuando trabalho desenvolvido nos ciclos anteriores.
Da mesma forma, identificar e desenvolver alternativas de cooperao na melhoria da vida cotidiana na escola, na comunidade, na famlia  uma forma de prtica de cidadania, no espao imediato de vivncia.
 importante tambm, entrelaando com o tratamento dado  importncia da imprensa, identificar situaes na vida da comunidade, localidade, estado, pas, que exigem ao reivindicatria, assim como ao de cooperao, entendendo a dinmica de direitos e deveres.
Em diferentes situaes que se apresentem na vida diria da escola, ser possvel
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desenvolver uma atitude de responsabilidade do aluno pelo seu ser, como adolescente, exigindo respeito para si, cuidado com sua sade, seus estudos, seus vnculos afetivos, sua capacidade de fazer escolhas e opes.
Da mesma forma,  importante enfatizar contedo j mencionado no primeiro bloco, referente  valorizao, pelo adolescente, das oportunidades educacionais de que dispe, como elemento de formao e consolidao de sua cidadania, potencializando-as o mximo possvel. Esse cuidado  particularmente importante, tanto para evitar o abandono dos estudos, como na percepo e atitude dos alunos em relao  escola como instituio voltada para o bem comum, a qual cabe valorizar, cuidar e proteger.
Entrelaando-se com tica,  importante tratar da cidadania a partir de atitude de valorizao da solidariedade como princpio tico e como fonte de fortalecimento recproco.
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PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS
MEIO AMBIENTE

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APRESENTAO
So grandes os desafios a enfrentar quando se procura direcionar as aes para a melhoria das condies de vida no mundo. Um deles  relativo  mudana de atitudes na interao com o patrimnio bsico para a vida humana: o meio ambiente.
Os alunos podem ter nota 10 nas provas, mas, ainda assim, jogar lixo na rua, pescar peixes-fmeas prontas para reproduzir, atear fogo no mato indiscriminadamente, ou realizar outro tipo de ao danosa, seja por no perceberem a extenso dessas aes ou por no se sentirem responsveis pelo mundo em que vivem.
Como  possvel, dentro das condies concretas da escola, contribuir para que os jovens e adolescentes de hoje percebam e entendam as conseqncias ambientais de suas aes nos locais onde trabalham, jogam bola, enfim, onde vivem?
Como eles podem estar contribuindo para a reconstruo e gesto coletiva de alternativas de produo da subsistncia de maneira que minimize os impactos negativos no meio ambiente? Quais os espaos que possibilitam essa participao? Enfim, essas e outras questes esto cada vez mais presentes nas reflexes sobre o trabalho docente.
A problemarizao e o entendimento das conseqncias de alteraes no ambiente permitem compreend-las como algo produzido pela mo humana, em determinados contextos histricos, e comportam diferentes caminhos de superao. Dessa forma, o debate na escola pode incluir a dimenso poltica e a perspectiva da busca de solues para situaes como a sobrevivncia de pescadores na poca da desova dos peixes, a falta de saneamento bsico adequado ou as enchentes que tantos danos trazem  populao.
A soluo dos problemas ambientais tem sido considerada cada vez mais urgente para garantir o futuro da humanidade e depende da relao que se estabelece entre sociedade/natureza, tanto na dimenso coletiva quanto na individual.
Essa conscincia j chegou  escola e muitas iniciativas tm sido tomadas em torno dessa questo, por educadores de todo o pas. Por essas razes, v-se a importncia de incluir Meio Ambiente nos currculos escolares como tema transversal, permeando toda prtica educacional. E fundamental, na sua abordagem, considerar os aspectos fsicos e biolgicos e, principalmente, os modo de interao do ser humano com a natureza, por meio de suas relaes sociais, do trabalho, da cincia, da arte e da tecnologia.
A primeira parte deste documento aborda a questo ambiental a partir de um breve histrico e discorre sobre o reconhecimento da existncia de uma crise ambiental que muito se confunde com um questionamento do prprio modelo civilizatrio atual, apontando para a necessidade da busca de novos valores e atitudes no relacionamento com o meio em que vivemos. Enfatiza, assim, a urgncia da implantao de um trabalho de Educao Ambiental que contemple as questes da vida cotidiana do cidado e discuta algumas  vises polmicas sobre essa temtica.
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Nesta primeira parte, ainda, so apresentadas algumas reflexes sobre o processo educacional propriamente dito, com destaque para a explicitao de indicadores para a construo do ensinar e do aprender em Educao Ambiental.
Na segunda parte, so apresentados os contedos, os critrios adotados para sua  seleo neste documento, e a forma como eles devem ser tratados para atingir os objetivos desejados.
Secretaria de Educao Fundamental
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MEIO AMBIENTE 
1 PARTE
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A QUESTO AMBIENTAL
A perspectiva ambiental consiste num modo de ver o mundo no qual se evidenciam as inter-relaes e a interdependncia dos diversos elementos na constituio e manuteno da vida.
 medida que a humanidade aumenta sua capacidade de intervir na natureza para satisfao de necessidades e desejos crescentes, surgem tenses e conflitos quanto ao uso do espao e dos recursos.
Nos ltimos sculos, um modelo de civilizao se imps, alicerado na industrializao, com sua forma de produo e organizao do trabalho, a mecanizao da agricultura, o uso intenso de agrotxicos e a concentrao populacional nas cidades.
Tornaram-se hegemnicas na civilizao ocidental as interaes sociedade/natureza adequadas s relaes de mercado. A explorao dos recursos naturais se intensificou muito e adquiriu outras caractersticas, a partir das revolues industriais e do desenvolvimento de novas tecnologias, associadas a um processo de formao de um mercado mundial que transforma desde a matria-prima at os mais sofisticados produtos em demandas mundiais.
Quando se trata de discutir a questo ambiental, nem sempre se explicita o peso que realmente tm essas relaes de mercado, de grupos de interesses, na determinao das condies do meio ambiente, o que d margem  interpretao dos principais danos ambientais como fruto de uma "maldade" intrnseca ao ser humano.
A demanda global dos recursos naturais deriva de uma formao econmica cuja base  a produo e o consumo em larga escala. A lgica, associada a essa formao, que rege o processo de explorao da natureza hoje,  responsvel por boa parte da destruio dos recursos naturais e  criadora de necessidades que exigem, para a sua prpria manuteno, um crescimento sem fim das demandas quantitativas e qualitativas desses recursos.
As relaes poltico-econmicas que permitem a continuidade dessa formao econmica e sua expanso resultam na explorao desenfreada de recursos naturais, especialmente pelas populaes carentes de pases subdesenvolvidos como o Brasil.  o caso, por exemplo, das populaes que comercializam madeira da Amaznia, nem sempre de forma legal, ou dos indgenas do sul da Bahia que queimam suas matas para vender carvo vegetal.
Os rpidos avanos tecnolgicos viabilizaram formas de produo de bens com conseqncias indesejveis que se agravam com igual rapidez. A explorao dos recursos naturais passou a ser feita de forma demasiadamente intensa, a ponto de pr em risco a sua renovabilidade. Sabe-se agora da necessidade de entender mais sobre os limites da renovabilidade de recursos to bsicos como a gua, por exemplo.
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Recursos no-renovveis, como o petrleo, ameaam escassear. De onde se retirava uma rvore, agora retiram-se centenas. Onde moravam algumas famlias, consumindo escassa quantidade de gua e produzindo poucos detritos, agora moram milhes de famlias, exigindo a manuteno de imensos mananciais e gerando milhares de toneladas de lixo por dia.
Essas diferenas so definitivas para a degradao do meio. Sistemas inteiros de vida vegetal e animal so tirados de seu equilbrio. E a riqueza, gerada num modelo econmico que propicia a concentrao da renda, no impede o aumento da misria e da fome. Algumas das conseqncias so, por exemplo, o esgotamento do solo, a contaminao da gua e a crescente violncia nos centros urbanos.
 medida que tal modelo de desenvolvimento provocou efeitos negativos mais graves, surgiram manifestaes e movimentos que refletiam a conscincia de parcelas da populao sobre o perigo que a humanidade corre ao afetar de forma to violenta o seu meio ambiente.
Em vrios pases, a preocupao com a preservao de espcies surgiu h muitos anos. No final do sculo passado, iniciaram-se manifestaes pela preservao de sistemas naturais que culminaram na criao de Parques Nacionais e em outras Unidades de Conservao.
Nas regies mais industrializadas, passou-se a constatar uma deteriorao na qualidade de vida, o que afeta tanto a sade fsica quanto a sade psicolgica das pessoas, especialmente das que habitam as grandes cidades. Por outro lado, os estudos ecolgicos comearam a tornar evidente que a destruio e at a simples alterao de um nico elemento pode ser nociva e mesmo fatal para todo o ecossistema2.
Grandes extenses de monocultura, por exemplo, podem determinar a extino regional de algumas espcies e a proliferao de outras. Vegetais e animais favorecidos pela plantao, ou cujos predadores foram exterminados, reproduzem-se de modo desequilibrado, prejudicando a prpria plantao. Eles passam a ser considerados ento uma "praga"!
A indstria qumica oferece como soluo o uso de praguicidas que acabam, muitas vezes, envenenando as plantas, o solo, a gua e colocam em risco a sade de trabalhadores rurais e consumidores.
Assim como em outros pases, no Brasil, a preocupao com a explorao descontrolada e depredatria de recursos naturais passou a existir em funo do rareamento do pau-brasil,
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	  nesse contexto que, no final do sculo passado, surgiu a rea do conhecimento que se chamou de Ecologia. O termo foi proposto cm 1866 pelo bilogo Haeckel, e deriva de duas palavras gregas: oikos, que quer dizer "morada", e logos, que significa "escudo". A Ecologia comeou como um novo ramo das Cincias Naturais, e seu estudo passa a sugerir novos campos do conhecimento como a ecologia humana e a economia ecolgica. Mas s na dcada de 1970 o termo passa a ser conhecido do grande pblico. Com frequncia, porm, ele  usado com outros senados e at como sinnimo de meio ambiente.
2 Entende-se por ecossistema o "conjunto de interaes desenvolvidas pelos componentes vivos (animais, vegetais, fungos, protozorios e bactrias) e no-vivos (gua, gases atmosfricos, sais minerais e radiao solar) de um determinado ambiente". SO PAULO (Estado), Secretaria do Meio Ambiente, 1992a.
h poucos sculos. Foi estabelecida uma regulamentao para a extrao de alguns tipos de madeira, que passaram a ser tratadas como "madeiras de lei". Hoje, alm de ser um dos maiores pases do mundo em extenso, o Brasil ainda possui inmeros recursos naturais de fundamental importncia para todo o planeta: desde ecossistemas como as florestas tropicais, o pantanal, o cerrado, os mangues e restingas, at uma grande parte da gua doce disponvel para o consumo humano. Dono de uma das maiores biodiversidades3 do mundo, este pas tem ainda uma riqueza cultural vinda da interao entre os diversos grupos tnicos  americanos, africanos, europeus, asiticos etc.  que traz contribuies singulares para a relao sociedade/natureza. Parte desse patrimnio cultural consiste no conhecimento importantssimo, mas ainda pouco divulgado, dos ecossistemas locais: seu funcionamento, sua dinmica e seus recursos. 
 preocupante, no entanto, a forma como os recursos naturais e culturais  brasileiros vm sendo tratados. Poucos produtores conhecem ou do valor a esse  conhecimento do ambiente em que atuam. Muitas vezes, para utilizar um recurso natural, 
perde-se outro de maior valor, como tem sido o caso da formao de pastos em certas reas da Amaznia. Com frequncia, tambm, a extrao de um bem (minrios, por exemplo) traz lucros somente para um pequeno grupo de pessoas, que muitas vezes no so habitantes da regio e levam a riqueza para longe e at para fora do pas. A falta de articulao entre aes sistemticas de fiscalizao, legislao e implantao de programas especficos que caracterizariam uma poltica ambiental adequada, alm da falta de valorizao por parte de todos, induz esses grupos a deixar essas reas devastadas, o que custar caro  sade da populao e aos cofres pblicos.
Alm disso, a degradao dos ambientes intensamente urbanizados nos quais se insere a maior parte da populao brasileira tambm  razo de ser deste tema. A fome, a misria, a injustia social, a violncia e a baixa qualidade de vida de grande parte da populao brasileira so fatores fortemente relacionados ao modelo de desenvolvimento e suas implicaes.
Problemas como esse vm confirmar a hiptese, que j se levantava, da possibilidade de srios riscos em se manter um alto ritmo de ocupao, com invaso e destruio da natureza sem conhecimento das implicaes para a vida no planeta.
Por volta da metade do sculo XX, ao conhecimento cientfico da Ecologia somou-se um movimento ambientalista voltado, no incio, principalmente para a preservao de grandes reas de ecossistemas "intocados" pelo ser humano, criando-se parques e reservas. Isso foi visto muitas vezes como uma preocupao potica de visionrios, uma vez que pregavam o afastamento do ser humano desses espaos, inviabilizando sua explorao econmica.
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Aps a Segunda Guerra Mundial, principalmente a partir da dcada de 60, intensificou-se a percepo de a humanidade caminhar aceleradamente para o esgotamento ou a inviabilizao de recursos indispensveis  sua prpria sobrevivncia. Assim sendo, algo deveria ser feito para alterar as formas de ocupao do planeta estabelecidas pela cultura dominante. Esse tipo de constatao gerou o movimento em defesa do ambiente, que luta para diminuir o acelerado ritmo de destruio dos recursos naturais ainda existentes e busca alternativas que conciliem, na prtica, a conservao da natureza com a qualidade de vida das populaes que dependem dessa natureza.
Toda essa situao colocou em xeque a idia desenvolvimentista de que a qualidade de vida dependia unicamente do avano da cincia e da tecnologia. Todos os problemas sociais e econmicos teriam, nessa viso, soluo com a otimizao da explorao dos recursos naturais. Diante dos problemas que emergiram desse sistema surgiu a necessidade de repensar o conceito de desenvolvimento.
3 A respeito do termo "biodiversidade" (bio = vida; diversidade = diferena), ver anexo III deste documento.
Do confronto inevitvel entre o modelo de desenvolvimento econmico vigente  que valoriza o aumento de riqueza em detrimento da conservao dos recursos naturais  e a necessidade vital de conservao do meio ambiente, surge a discusso sobre como viabilizar o crescimento econmico das naes, explorando os recursos naturais de forma racional, e no predatria. Estabelece-se, ento, uma discusso que est longe de chegar a um fim, a um consenso geral. Ser necessrio impor limites ao crescimento? Ser possvel o desenvolvimento sem o aumento da destruio? De que tipo de desenvolvimento se fala?
A interdependncia mundial se d tambm sob o ponto de vista ecolgico: o que se faz num local, num pas, pode afetar amplas regies e ultrapassar vrias fronteiras.  o que acontece, por exemplo, com as armas atmicas. Se um pas resolve fazer um experimento atmico, o mundo todo sofre, em maior ou menor grau, as conseqncias dessa ao. Um desastre numa usina nuclear atinge, num primeiro momento, apenas o que est mais prximo: pessoas, alimentos e todas as formas de vida. Num segundo momento, pelas correntes de gua, pelos ventos e pelas teias alimentares, dentre outros processos, o desastre pode chegara qualquer parte do mundo.
Com a constatao da inevitvel interferncia que uma nao exerce sobre outra por meio das aes relacionadas ao meio ambiente, a questo ambiental  isto , o conjunto de temticas relativas no s  proteo da vida selvagem no planeta, mas tambm  melhoria do meio ambiente4 e da qualidade de vida das comunidades  passa a compor a lista dos temas de relevncia internacional.
Em todos os espaos, os recursos naturais e o prprio meio ambiente tornam-se uma prioridade, um dos componentes mais importantes para o planejamento poltico e econmico dos governos, passando ento a ser analisados em seu potencial econmico e vistos como
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fatores estratgicos. O desnvel econmico entre grupos sociais e pases exerce importante presso sobre as polticas econmicas e ambientais em cada parte do mundo. Alm disso, o poderio dos grandes empreendimentos transnacionais torna os recursos naturais e o meio ambiente capazes de influir fortemente nas decises ambientais que governos e comunidades deveriam tomar, especialmente quando envolvem o uso dos recursos naturais.
 nesse contexto que se iniciam as grandes reunies mundiais sobre o tema5. Ao lado da chamada "globalizao econmica", assiste-se  globalizao dos problemas ambientais. Instituiu-se, assim, um frum internacional em que os pases, apesar de suas imensas divergncias, se vem politicamente obrigados a se posicionar quanto a decises ambientais de alcance mundial, a negociar e a legislar, de forma que os direitos e os interesses de cada nao possam ser minimamente equacionados em funo do interesse maior da humanidade e do planeta.
A tica entre as naes e os povos passa ento a incorporar novas exigncias com base numa percepo de mundo em que as aes sejam consideradas em suas conseqncias mais amplas, tanto no espao quanto no tempo. No  s o crime ou a guerra que ameaa a vida, mas tambm a forma como se gera, se distribui e se usa a riqueza, a forma como se trata a natureza.
De qualquer forma,  fundamental a sociedade impor regras ao crescimento,  explorao e  distribuio dos recursos de modo a garantir a qualidade de vida daqueles que deles dependam e dos que vivem no espao do entorno em que so extrados ou processados. Portanto, deve-se cuidar, para que o uso econmico dos bens da Terra
 
4 A respeito da conceituao de Meio Ambiente, ver anexo III deste documento.
5 A primeira conferncia internacional promovida pela Organizao das Naes Unidas (ONU) foi a de Estocolmo, em 1972. E a segunda foi no Rio de Janeiro, em 1992, a Rio/92.
pelos seres humanos tenha carter de conservao, isto , que gere o menor impacto possvel e respeite as condies de mxima renovabilidade dos recursos. Nos documentos assinados pela grande maioria dos pases do mundo, incluindo-se o Brasil, fala-se em garantir o acesso de todos aos bens econmicos e culturais necessrios ao desenvolvimento pessoal e a uma boa qualidade de vida, relacionando-o com o conceito de sustentabilidade6.
Sabe-se que o maior bem-estar das pessoas no  diretamente proporcional  maior quantidade de bens consumidos. Entretanto, o atual modelo econmico estimula um consumo crescente e irresponsvel condenando a vida na Terra a uma rpida destruio. Impe-se, assim, a necessidade de estabelecer um limite a esse consumo.
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De fato, o que se tem de questionar vai alm da simples ao de reciclar, reaproveitar, ou, ainda, reduzir o desperdcio de recursos, estratgias que no fogem, por si, da lgica desenvolvimentista.  preciso apontar para outras relaes sociais, outros modos de vida, ou seja, rediscutir os elementos que do embasamento a essa lgica.
A forma de organizao das sociedades modernas constitui-se no maior problema para a busca da sustentabilidade (e esto embutidas aqui as profundas diferenas entre pases centrais e perifricos do mundo). A crise ecolgica  a primeira grande crise planetria da histria da humanidade  tem dimenso tal que, a despeito das dificuldades, e at impossibilidade de promover o desenvolvimento sustentvel, essas sociedades se vem foradas a desenvolver pesquisas e efetivar aes, mesmo que em pequena escala, para garantir minimamente a qualidade de vida no planeta. No interior dessas relaes mundiais, porm, somente aes atenuantes tm sido possveis, pois a garantia efetiva da sustentabilidade exige uma profunda transformao da sociedade (e do sistema econmico do capitalismo industrial), substituindo radicalmente os modelos de produo da subsistncia, do saber, de desenvolvimento tecnolgico e da distribuio dos bens. 
Sustentabilidade, assim, implica o uso dos recursos renovveis de forma qualitativamente adequada e em quantidades compatveis com sua capacidade de renovao, em solues economicamente viveis de suprimento das necessidades, alm de relaes sociais que permitam qualidade adequada de vida para todos.
A prpria perspectiva das necessidades do mercado mundial dificultam muitas iniciativas nesse sentido. Um bom exemplo disso vem da II Conferncia das Naes Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento  a Rio/92  que estabeleceu uma srie de diretrizes para um mundo ambientalmente mais saudvel, incluindo metas e aes concretas. Entre outros documentos, aprovou-se a "Agenda 21", que rene propostas de ao para os pases e os povos em geral, bem como estratgias para que essas aes possam ser cumpridas. Os pases da Amrica Latina e do Caribe apresentaram a "Nossa Agenda", com suas prioridades. E os governos locais apresentaram a "Agenda Local".
Apesar da extrema importncia desses documentos, ainda no foi posta em prtica boa parte dessas diretrizes e metas, principalmente as de grande escala, pois a competio no mercado internacional no permite.
6 O debate em torno do conceito de desenvolvimento sustentvel, apresentado pelo Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) como sendo a "melhoria da qualidade da vida humana dentro dos limites da capacidade de suporte dos ecossistemas", trouxe  tona essa outra terminologia. Optou-se pelo termo "sustentabilidade", pois muitos consideram a idia de desenvolvimento sustentvel ambgua, permitindo interpretaes contraditrias. Desenvolvimento  uma noo associada  modernizao das sociedades no interior do modelo industrial. Um dos aspectos mais relevantes para a compreenso da discusso diz respeito a uma caracterstica fundamental dessa idia de desenvolvimento; a busca da expanso constante e, de certo modo, ilimitada. Neste sentido, a necessidade de garantir o desenvolvimento sustentvel, consenso nos pactos internacionais,  uma meta praticamente inatingvel numa sociedade organizada sob este modelo de produo. Para maiores esclarecimentos sobre tais conceitos, ver anexo III.
Crise ambiental ou crise civilizatria?
Para uns, a maior parte dos problemas atuais pode ser resolvida pela comunidade cientfica, pois confiam na capacidade de a humanidade produzir novas solues tecnolgicas e econmicas a cada etapa, em resposta aos problemas que surgem, permanecendo basicamente no mesmo paradigma civilizatrio dos ltimos sculos.
Para outros, a questo ambiental representa quase uma sntese dos impasses que o
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atual modelo de civilizao acarreta, pois consideram o que se assiste no final do sculo XX, no s como crise ambiental, mas civilizatria, e que a superao dos problemas exigir mudanas profundas na concepo de mundo, de natureza, de poder, de bem-estar, tendo por base novos valores. Faz parte dessa nova viso de mundo a percepo de que o ser humano no  o centro da natureza, e deveria se comportar no como seu dono mas, percebendo-se como parte dela, e resgatar a noo de sua sacralidade, respeitada e celebrada por diversas culturas tradicionais antigas e contemporneas.
Porm, a maioria reconhece que a forma clssica para estudar a realidade, subdividindo-a em aspectos a serem analisados isoladamente por diferentes reas do conhecimento, no  suficiente para a compreenso dos fenmenos ambientais.
Algumas das idias fundamentais para a estruturao do conhecimento a partir da Idade Moderna desvinculam-no de idais tico-flosfcos, afirmando e buscando a objetividade cientfica. Com isso os seres vivos e os elementos da natureza foram destitudos de qualquer outro tipo de valor mstico que podem ter tido em diversos momentos da histria e em vrias culturas. Tal concepo se estruturou dessa forma no contexto de possibilidades e necessidades criadas no interior de um novo ordenamento da produo econmica e organizao poltica da sociedade. Assim, acabou contribuindo para legitimar a manipulao irrestrita da natureza, uma das premissas dessas novas relaes de produo: desvendar os segredos dessa natureza significava tambm poder construir novas mquinas para aumentar a produo. Esse novo poder que o saber adquiria advinha do fato de possibilitar o ritmo de utilizao dos objetos e do prprio conhecimento necessrios  moderna organizao social do trabalho que ento se estruturava. Afinal, formava-se um extenso mercado consumidor...
Sem os estudos emprico-experimentais, fundamentais para a construo do conhecimento cientfico, certamente no seria possvel todo o saber que a civilizao ocidental acumulou. No encanto, boa parte do desenvolvimento cientfico, que se evidencia nos progressos tecnolgicos do sculo XX, est ligado a essa razo instrumental centrada na preocupao de desvendar, intervir, operar, servindo de suporte ao crescimento econmico, transcendendo, inclusive, a intencionalidade do cientista, em sua ao individual. Portanto, est inserido nas regras do mercado, na lgica desenvolvimentista e pouco preocupado com aspectos finalistas da vida humana.
Hoje, percebendo os limites e impasses dessa concepo est claro que a complexidade da natureza e da interao sociedade/natureza exigem um trabalho que explicite a correlao entre os diversos componentes. Na verdade, at a estrutura e o sentido de ser desses componentes parecem ser diferentes, quando estudados sob a tica dessas interaes.  preciso encontrar uma outra forma de adquirir conhecimentos que possibilite enxergar o objeto de estudo com seus vnculos e tambm com os contextos fsico, biolgico, histrico, social e poltico, apontando para a superao dos problemas ambientais.
Entretanto, a busca dessa abordagem no tem sido fcil, nem isenta de contradies.
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Mesmo a Ecologia, que em sua origem tinha como objeto de estudo os componentes de grandes sistemas, tendo em vista a compreenso de sua dinmica, foi adquirindo significados variados, nas ltimas dcadas, para diferentes grupos em diferentes contextos. Para alguns, trata-se de estudos mais tcnico-cientficos de "sistemas biolgicos" ou de "sistemas sociais". Para outros, a concepo de Ecologia inclui a atuao concreta na gesto e participao efetiva nas solues dos problemas ambientais, num compromisso com a manuteno do equilbrio de diversos ecossistemas e em aes coerentes com essas idias. Esta ltima est mais associada ao movimento ambientalista.
Tantos outros problemas de ordem de concepo, de ideologias, de modos de vida e de valores, ligados aos impasses concretos e materiais deste nosso final de sculo se impem  humanidade. Salienta-se a necessidade de trabalhar tambm os aspectos subjetivos das interaes individuais e coletivas. A problemtica ambiental exige mudanas de comportamentos, de discusso e construo de formas de pensar e agir na relao com a natureza. Isso torna fundamental uma reflexo mais abrangente sobre o processo de aprendizagem daquilo que se sabe ser importante, mas que no se consegue compreender suficientemente s com lgica intelectual. Hoje essa necessidade  clara. Vm da as "teorias" das inteligncias mltiplas, e tantas outras que, entretanto, acabam no transcendendo os velhos parmetros de validao de saberes hegemnicos na civilizao ocidental. Entre os grandes anseios atuais est a busca de uma forma de conhecimento que inclua energias, afetividade etc., que se traduzem nos "espaos cultos" como procura de novos paradigmas.
 a necessidade de validar a procura de novas explicaes e sadas que faz emergir novas possibilidades por intermdio de conceitos filosficos, como o holismo, ou simplesmente, do apego a idias religiosas.
Assim, a questo ambiental impe s sociedades a busca de novas formas de pensar e agir, individual e coletivamente, de novos caminhos e modelos de produo de bens, para suprir necessidades humanas, e relaes sociais que no perpetuem tantas desigualdades e excluso social, e, ao mesmo tempo, que garantam a sustentabilidade ecolgica. Isso implica um novo universo de valores no qual a educao tem um importante papel a desempenhar.

A educao como elemento indispensvel para a transformao da conscincia ambiental
Uma das principais concluses e proposies assumidas em reunies internacionais  a recomendao de investir numa mudana de mentalidade, conscientizando os grupos humanos da necessidade de adotar novos pontos de vista e novas posturas diante dos dilemas e das constataes feitas nessas reunies.
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Por ocasio da Conferncia Internacional Rio/92, cidados representando instituies de mais de 170 pases assinaram tratados nos quais se reconhece o papel central da educao para a "construo de um mundo socialmente justo e ecologicamente equilibrado", o que requer "responsabilidade individual e coleciva em nveis local, nacional e planetrio". E  isso o que se espera da Educao Ambiental no Brasil, assumida como obrigao nacional pela Constituio promulgada em 1988.
Todas as recomendaes, decises e tratados internacionais sobre o tema7 evidenciam a importncia atribuda por lideranas de todo o mundo para a Educao Ambiental como meio indispensvel para conseguir ciar e aplicar formas cada vez mais sustentveis de interao sociedade/natureza e solues para os problemas ambientais. Evidentemente, a educao sozinha no  suficiente para mudar os rumos do planeta, mas certamente  condio necessria para isso.
Nesse contexto fica evidente a importncia de educar os brasileiros para que 
7 Ver anexo I.
ajam de modo responsvel e com sensibilidade, conservando o ambiente saudvel no presente e para o futuro; saibam exigir e respeitar os direitos prprios e os de toda a comunidade, tanto local como internacional; e se modifiquem tanto interiormente, como pessoas, quanto nas suas relaes com o ambiente.
A preocupao em relacionar a educao com a vida do aluno  seu meio, sua comunidade  no  novidade. Ela vem crescendo especialmente desde a dcada de 60 no Brasil. Exemplo disso so atividades como os "estudos do meio". Porm, a partir da dcada de 70, com o crescimento dos movimentos ambientalistas, passou-se a adotar explicitamente a expresso "Educao Ambiental" para qualificar iniciativas de universidades, escolas, instituies governamentais e no-governamentais por meio das quais se busca conscientizar setores da sociedade para as questes ambientais. Um importante passo foi dado com a Constituio de 1988, quando a Educao Ambiental se tornou exigncia a ser garantida pelos governos federal, estaduais e municipais (artigo 225, 1,VI)8.
Neste final de sculo, de acordo com o depoimento de vrios especialistas que vm participando de encontros nacionais e internacionais, o Brasil  considerado um dos pases com maior variedade de experincias em Educao Ambiental, com iniciativas originais que, muitas vezes, se associam a intervenes na realidade local. Portanto, qualquer poltica nacional, regional ou local que se estabelea deve levar em considerao essa riqueza de experincias, investir nela, e no inibi-la ou descaracterizar sua diversidade9.
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 necessrio ainda ressaltar que, embora recomendada por todas as conferncias internacionais, exigida pela Constituio e declarada como prioritria por todas as instncias de poder, a Educao Ambiental est longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e desenvolvida, porque ela implica mobilizao por melhorias profundas do ambiente, e nada incuas. Ao contrrio, quando bem realizada, a Educao Ambiental leva a mudanas de comportamento pessoal e a atitudes e valores de cidadania que podem ter importantes conseqncias sociais.
O debate internacional de concepes e prticas em Educao Ambiental resultou na elaborao do "Tratado de Educao Ambiental para Sociedades Sustentveis e Responsabilidade Global", de carter no-oficial, durante o Frum das Organizaes No-Governamentais (ONGs), na Rio/92. Nele, foram delineados princpios e diretrizes gerais para o desenvolvimento de trabalhos com a temtica Meio Ambiente. Faz parte desse conjunto a idia de que no se trata de ensinar de forma acrtica os conceitos da cincia da ecologia ou simplesmente reduzir a Educao Ambiental a uma viso esotrico-existencial. Essa dualidade constitui uma extrema simplificao. Trata-se ento de desenvolver o processo educativo, contemplando tanto o conhecimento cientfico como os aspectos subjerivos da vida, que incluem as representaes sociais, assim como o imaginrio acerca da natureza e da relao do ser humano com ela. Isso significa trabalhar os vnculos de identidade com o entorno socioambiental. S quando se inclui tambm a sensibilidade, a emoo, sentimentos e energias se obtm mudanas significativas de comportamento. Nessa concepo, a educao ambiental  algo essencialmente oposto ao adestramento ou  simples transmisso de conhecimentos cientficos, constituindo-se num espao de troca desses conhecimentos, de experincias, de sentimentos e energia.  preciso ento lidar com algo que nem sempre  fcil, na

8 At meados da dcada de 90 no havia sido definida completamente uma poltica nacional de Educao Ambiental. As caractersticas e as responsabilidades do poder pblico e dos cidados com relao  Educao Ambiental fixaram-se por lei no Congresso Nacional. Cabe ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) definir os objetivos, as estratgias e os meios para a efetivao de uma poltica de Educao Ambiental no pas.
9 Para conhecer mais, ver bibliografia.
escola: o prazer. Entre outras coisas, o envolvimento e as relaes de poder entre os atores do processo educativo so modificados.
Alguns pontos polmicos no debate ambiental
O debate dos problemas ambientais nos diferentes meios e, em especial, nos meios de comunicao, tem levado, em muitos casos,  formao de alguns preconceitos e  veiculao de algumas imagens distorcidas sobre as questes relativas ao meio ambiente. s vezes isso ocorre por falta de conhecimento, o que se justifica diante da novidade da temtica. Mas, outras vezes, essas distores visam a minimizar os problemas e/ou banalizar princpios e valores ambientais, assim como depreciar os movimentos ambientalistas de maneira geral.
Alguns desses preconceitos, ou falsos dilemas, sero discutidos a seguir.
A questo ecolgica ou ambiental  deve se restringir  preservao dos ambientes naturais intocados e  ao combate da 
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Poluio; as demais questes  envolvendo saneamento, sade, cultura, decises sobre polticass de energia, de transporte, de educao, ou de desenvolvimento  so extrapolaes que no devem ser alada doa ambientalistas.

Com relao a isso, deve-se considerar que, como a realidade funciona de um modo complexo em que todos os fatores interagem, o ambiente deve ser compreendido com todos os seus inmeros problemas. Tratar a questo ambiental, portanto, abrange a complexidade das intervenes: a ao na esfera pblica s se consolida atuando no sistema como um todo, sendo afetada e afetando todos os setores, como educao, sade, saneamento, transportes, obras, alimentao, agricultura etc.

os que defendem o meio ambiente so pessoas radicais e priveligiadas, no necessitam trabalhar para sobreviver, mantm-se alienadas da realidade das exigncias impostas pela necessidade de desenvolvimento; defendem posio que s perturbam quem realmente produz  e deseja levar o pas para um nvel melhor de desenvolvimento.

Atualmente grande parte dos ambientalistas concorda com a necessidade de se construir uma sociedade mais sustentvel, socialmente justa e ecologicamente equilibrada. Isso significa que defender a qualidade do meio ambiente, hoje,  preocupar-se com a melhoria das condies econmicas, especialmente da grande maioria da populao mundial que, de acordo com dados da ONU, se encontra em situao de pobreza ou misria. O crescimento econmico deve ser tambm subordinado a uma explorao racional e responsvel dos recursos naturais, de forma a no inviabilizar a vida das geraes futuras. Todo cidado tem o direito a viver num ambiente saudvel e agradvel, respirar ar puro, beber gua potvel, passear em lugares com paisagens notveis, apreciar monumentos naturais e culturais etc. Defender esses direitos  um dever de cidadania, e no uma questo de privilgio.

 um luxo e  um despropsito defender, por exemplo, animais ameaados de extino, enquanto milhares de crianas morrem de fome ou de diarria na periferia das grandes cidades, no Norte ou no Nordeste.

Se para salvar crianas da fome e da morte bastasse deixar que se extinguissem algumas espcies, estaria criado um dilema. Mas, como isso no  verdade, trata-se, ento, de um falso dilema. A situao das crianas no Brasil no compete com a situao de qualquer espcie ameaada de extino. O problema da desnutrio e da misria no tem, de forma alguma, sua importncia diminuda por haver preocupaes com as espcies em extino. A falta de condio de vida adequada que vitima inmeras crianas no Brasil  um problema
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gravssimo e deve receber tratamento prioritrio nas aes governamentais, sem dvida. Como esse, existem muitos outros problemas com os quais se deve lidar, e a existncia de um problema (como a misria) no anula a existncia de outro (como a extino de espcies), tampouco justifica a omisso diante de qualquer um deles.
As pessoas que sofrem privaes econmicas so as maiores vtimas da mesma lgica que condena os animais  extino e que condenar cada vez mais as crianas das prximas geraes: a lgica da acumulao da riqueza a qualquer custo, com explorao irrestrita da natureza e o desrespeito ao prprio ser humano. Cada espcie extinta  uma perda para toda a sociedade presente e futura. Uma espcie ameaada  sinal de alerta para uma situao geral muito mais ampla, de grande perigo para todo um sistema do qual dependem os seres vivos.

Quem trabalha com questes relativas ao meio ambiente pensa de modo rmantico, ingnuo, acredita que a  natureza humana  intrisecamente boa e no percebe que antes de tudo vem a dura realidade das necessidades econmicas. Afinal, a pior poluio  a pobreza,e para haver progresso  normal algo ser destrudo ou poludo.
 
Os seres humanos no so intrinsecamente "bons" nem "maus", mas so capazes tanto de grandes gestos construtivos e de generosidade quanto de egosmo e de destruio. No entanto, a sociedade humana s  vivel quando o comportamento das pessoas se baseia na tica. Sem ela, no  possvel a convivncia. E, sem convivncia, sem vida em comum, no h possibilidade de existncia de qualquer sociedade humana, muito menos de uma sociedade saudvel. Um grande equvoco seria associar qualidade de vida somente com riqueza material. A qualidade de vida est diretamente vinculada  qualidade da gua que se bebe, do ar que se respira, dos alimentos que se consome e d sade que se obtm por meio desse conjunto. Sem isso, de nada adiantar toda a riqueza.
Sabe-se que a formao de um mercado  mundial instituiu relaes que induziram  deteriorao do ambiente e seria ingenuidade ignorar essa dimenso do problema. No entanto, a dura realidade econmica no justifica a destruio e a poluio, quando se sabe que h processos de produo mais adequados. Tambm no se justifica que. para poucos acumularem mais riquezas, muitos tenham de se submeter  destruio, ao dano  sade e  pobreza. De fato, poluio no implica progresso:  antes, na maior parte das vezes, sinal de ignorncia, ou egosmo e descaso, bastante caractersticos daqueles que, apesar de possurem conhecimento e conscincia  das implantaes das suas atividades produtoras, continuam poluindo. H que se considerar a questo ecolgica-econmica-social como um problema a ser equacionado pela sociedade moderna.
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Idealiza-se  a natureza, quando se fala daharmonia da natureza. Como se pode falar em harmonia, se na natureza os animais se atacam violentamente  e se devoram? Que armonia  essa?

Todo crescimento em princpio exige um movimento de energia, portanto um relativo desequilbrio, que se resolve em um novo estado de equilbrio provisrio. Quando se fala na harmonia da natureza, a referncia  a esse equilbrio dinmico. O impulso de sobrevivncia que leva um animal a matar outro faz parte dessa dinmica da natureza. Os animais matam para se defender ou para se alimentar. Matar e morrer, aqui, so conseqncias de disputas entre formas de vida, em que cada uma desempenha seu papel e para a qual tudo  importante, inclusive a morte. J a devastao e a explorao desenfreada que comprometem a existncia de diversidade gentica e ameaam de extino espcies inteiras geram grande desequilbrio. Aqui, a morte nem sempre est associada diretamente  sobrevivncia dos seres humanos, servindo, muitas vezes, ao suprimento de necessidades criadas por um modo de vida pautado pelo consumismo.
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ENSINAR E APRENDER EM EDUCAO AMBIENTAL
A principal funo do trabalho com o tema Meio Ambiente  contribuir para a formao de cidados conscientes, aptos a decidir e atuar na realidade socioambiental de um modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade, local e global. Para isso  necessrio que, mais do que informaes e conceitos, a escola se proponha a trabalhar com atitudes, com formao de valores, com o ensino e aprendizagem de procedimentos. E esse  um grande desafio para a educao. Gestos de solidariedade, hbitos de higiene pessoal e dos diversos ambientes, participao em pequenas negociaes so exemplos de aprendizagem que podem ocorrer na escola.
Assim, a grande tarefa da escola  proporcionar um ambiente escolar saudvel e coerente com aquilo que ela pretende que seus alunos apreendam, para que possa, de fato, contribuir para a formao da identidade como cidados conscientes de suas responsabilidades com o meio ambiente e capazes de atitudes de proteo e melhoria em relao a ele.
Por outro lado, cabe  escola tambm garantir situaes em que os alunos possam pr em prtica sua capacidade de atuao. O fornecimento das informaes, a explicitao e discusso das regras e normas da escola, a promoo de atividades que possibilitem uma participao concreta dos alunos, desde a definio do objetivo, dos caminhos a seguir para atingi-los, da opo pelos materiais didticos a serem usados, dentro das possibilidades da escola, so condies para a construo de um ambiente democrtico e para o desenvolvimento da capacidade de interveno na realidade.
Entretanto, no se pode esquecer que a escola no  o nico agente educativo e que os padres de comportamento da famlia e as informaes veiculadas pela mdia exercem especial influncia sobre os adolescentes e jovens.
No que se refere  rea ambiental, h muitas informaes, valores e procedimentos aprendidos pelo que se faz e se diz em casa. Esses conhecimentos podero ser trazidos e debatidos nos trabalhos da escola, para que se estabeleam as relaes entre esses dois universos no reconhecimento dos valores expressos por comportamentos, tcnicas, manifestaes artsticas e culturais.
Alm disso, o rdio, a TV e a imprensa constituem uma fonte de informaes sobre o Meio Ambiente para a maioria das pessoas, sendo, portanto, inegvel sua importncia no desencadeamento dos debates que podem gerar transformaes e solues efetivas dos problemas locais. No entanto, muitas vezes, as questes ambientais so abordadas de forma superficial ou equivocada pelos diferentes meios de comunicao. Notcias de TV e de rdio, de jornais e revistas, programas especiais tratando de questes relacionadas ao meio ambiente tm sido cada vez mais freqentes. Paralelamente, existe o discurso veiculado
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pelos mesmos meios de comunicao quando propem uma idia de desenvolvimento que no raro entra em conflito com a idia de respeito ao meio ambiente. So propostos e estimulados por meio do incentivo ao consumismo, desperdcio, violncia, egosmo, desrespeito, preconceito, irresponsabilidade e tantas outras atitudes questionveis dentro de uma perspectiva de melhoria de qualidade de vida. Por isso,  imprescindvel os educadores relativizarem essas mensagens, ao mostrar que elas traduzem um posicionamento diante da realidade e que  possvel haver outros.
Desenvolver essa postura crtica  muito importante para os alunos, pois isso lhes permite reavaliar essas mesmas informaes, percebendo os vrios determinantes da leitura, os valores a elas associados e aqueles trazidos de casa. Isso os ajuda a agir com viso mais ampla e, portanto, mais segura ante a realidade que vivem. Para tanto, os professores precisam conhecer o assunto e buscar com os alunos mais informaes, enquanto desenvolvem suas atividades: pesquisando em livros e levantando dados, conversando com os colegas das outras disciplinas, ou convidando pessoas da comunidade (professores especializados, tcnicos de governo, lideranas, mdicos, agrnomos, moradores tradicionais que conhecem a histria do lugar etc.) para fornecer informaes, dar pequenas entrevistas ou participar das aulas na escola. Ou melhor, deve-se recorrer s mais diversas fontes: dos livros, tradicionalmente utilizados, at a histria oral dos habitantes da regio10. Essa heterogeneidade de fontes  importante at como medida de checagem da preciso das informaes, mostrando ainda a diversidade de interpretaes dos fatos.
Temas da atualidade, em contnuo desenvolvimento, exigem uma permanente atualizao; e faz-lo junto com os alunos  uma excelente oportunidade para que eles vivenciem o desenvolvimento de procedimentos elementares de pesquisa e construam, na prtica, formas de sistematizao da informao, medidas, consideraes quantitativas, apresentao e discusso de resultados etc. O papel dos professores como orientadores desse processo  de fundamental importncia.
Essa vivncia permite aos alunos perceber que a construo e a produo dos conhecimentos so contnuas e que, para entender as questes ambientais, h necessidade de atualizao constante.
Como esse campo temtico  relativamente novo no ambiente escolar, os professores podem priorizar sua prpria formao/informao  medida que as necessidades se configurem. Pesquisar sozinho ou junto com os alunos, aprofundar seu conhecimento com relao  temtica ambiental ser necessrio aos professores, por, pelo menos, trs motivos:

para t-lo disponvel ao abordar assuntos gerais ou especficos de cada disciplina, vendo-os no s do modo analtico tradicional, parte por parte, mas nas inter-relaes com outras reas, compondo  um todo mais amplo;
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para ter maior facilidade em identificar e discutir os aspectos ticos (valores e atitudes envolvidos) e apreciar os estticos (percepo e reconhecimento do que agrada  viso,  audio, ao paladar, ao tato; de harmonias, simetrias e outros) presentes nos objetos ou paisagens observadas, nas formas de expresso cultural etc.
para obter novas informaes sobre a  dimenso local do ambiente, j que h transformaes constantes seja qual for  a  amplitude. Isso pode ser de extrema valia, se associado a informaes de outras localidades, puder compor informaes mais globais sobre  a regio.

O acesso a novas informaes permite repensar a prtica.  nesse fazer e refazer que  possvel enxergar a riqueza de informaes, conhecimentos e situaes de aprendizagem geradas por iniciativa dos prprios professores. Afinal, eles tambm esto em processo de construo de saberes e de aes no ambiente, como qualquer cidado. Sistematizar e problematizar suas vivncias, e prticas,  luz de novas informaes contribui para o reconhecimento da importncia do trabalho de cada um, permitindo assim 
10 Muitas vezes  possvel encontrar informaes valiosas em documentos oficiais. O anexo III deste documento  um exemplo de fonte de fonte de informao. 
a construo de um projeto consciente de educao ambiental.
Ou seja, as atividades de educao ambiental dos professores so aqui consideradas no mbito do aprimoramento de sua cidadania, e no como algo indito de que eles ainda no estejam participando. Afinal, a prpria insero do indivduo na sociedade implica algum tipo de participao, de direitos e deveres com relao ao ambiente.
Reconhece-se aqui a necessidade de capacitao permanente do quadro de professores, da melhoria das condies salariais e de trabalho, assim como a elaborao e divulgao de materiais de apoio. Sem essas medidas, a qualidade desejada fica apenas no campo das intenes.
Da mesma forma, a estrutura da escola, a ao dos outros integrantes do espao escolar devem contribuir na construo das condies necessrias  desejada formao mais atuante e participativa do cidado.

As esferas global e local
A perspectiva ambiental deve remeter os alunos  reflexo sobre os problemas que afetam a sua vida, a de sua comunidade, a de seu pas e a do planeta. Para que essas informaes os sensibilizem e provoquem o incio de um processo de mudana de  comportamento,  preciso que o aprendizado seja significativo, isto , os alunos possam
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estabelecer ligaes entre o que aprendem e a sua realidade cotidiana, e o que j conhecem.
Nesse sentido, o ensino deve ser organizado de forma a proporcionar oportunidades para que os alunos possam utilizar o conhecimento sobre Meio Ambiente para compreender a sua realidade e atuar nela, por meio do exerccio da participao em diferentes instncias: nas atividades dentro da prpria escola e nos movimentos da comunidade.  essencial resgatar os vnculos individuais e coletivos com o espao em que os alunos vivem para que se construam essas iniciativas, essa mobilizao e envolvimento para solucionar problemas.
 possvel promover o desenvolvimento da sensibilidade, chamando a ateno para as inmeras solues simples e engenhosas que as formas de vida encontram para sobreviver, inclusive para seus aspectos estticos, provocando um pouco o lado da curiosidade que todos tm; observando e valorizando as iniciativas dos alunos de interagir de modo criativo e construtivo com os elementos do meio ambiente. Isso acontece quando, por exemplo, os alunos descobrem sons nos objetos do ambiente, expressam sua emoo por meio da pintura, poesia, ou fabricam brinquedos com sucata, observam e interferem no caminho das formigas, descobrem marcos de paisagem entre a casa e a escola, ou ainda utilizam/inventam receitas para aproveitamento de sobras de alimentos.
Alm disso, os professores podem ensinar os alunos a valorizar "produes" de seus colegas e respeit-los em sua criao, suas peculiaridades de qualquer natureza (fsica ou intelectual), suas razes culturais, tnicas ou religiosas.
Grande parte dos assuntos significativos para os alunos  relativa  realidade mais prxima, ou seja, sua comunidade, sua regio. Por ser um universo acessvel e familiar, a localidade pode ser um campo de prticas, nas quais o conhecimento adquire significado, o que  essencial para o exerccio da participao. No entanto, por mais localizadas que sejam, as questes ambientais dizem respeito direta ou indiretamente ao interesse de todo o planeta.
Para que os alunos possam compreender a complexidade e a amplitude das questes ambientais,  fundamental oferecer-lhes a maior diversidade possvel de experincias, e contato com diferentes realidades.
Assim,  relevante os professores levarem em conta a importncia tanto de trabalhar com a realidade imediata dos alunos como de valorizar e incentivar o interesse pelo que a transcende, amplia e at mesmo pode explic-la, num contexto mais amplo, como o mercado mundial.
Alm do mais, no  necessrio os alunos conhecerem primeiro aquilo que est em sua realidade mais prxima, e depois o que est alm dela.  desastre de uma usina nuclear do outro lado do mundo, os encantos das ilhas de corais em mares distantes e outras questes como essas podem ser de interesse para o trabalho na sala de aula.
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Em geral, os alunos demonstram curiosidade e vontade de conhecer mais sobre, por exemplo, os costumes do povo esquim ou a existncia de dinossauros no perodo pr-histrico, ou, ainda, o buraco na camada de oznio e o aquecimento do planeta; na verdade, em todas as idades pode-se perceber o interesse, a curiosidade por aquilo que no pertence  realidade imediata. Por meio dessas informaes, os alunos podem ampliar seu universo de conhecimentos e formar a noo de quo amplo  esse universo. Isso evidencia tambm a dimenso planetria que ganhou a questo ambiental, na sociedade moderna. Os veculos de comunicao de massa tm papel decisivo para mostrar essa dimenso.
Na escala local esses problemas ganham significado prtico para os alunos, e a seleo dos contedos deve considerar esse fato. Aspectos regionais de relevncia devem ser discutidos com profundidade, pois assim eles podero, participando de momentos de trocas de conhecimentos e se envolvendo diretamente com aspectos da realidade local e com a construo coletiva de projetos atribuir-se o papel de participante e co-responsvel. Essa vivncia possibilitar o afloramento de pontos de vista coincidentes e divergentes, desvendando afinidades e permitindo o debate e o aprendizado do dilogo.
Independentemente da abrangncia com que se abordaro as questes, local ou global,  preciso reforar a existncia de alternativas ambientalmente equilibradas, saudveis, diversificadas e desejveis, diante do degradado ou poludo, para que a constatao de algum mal no seja seguida de desnimo ou desmobilizao, mas da potencializao das pequenas e importantes contribuies que a escola (entendida como docentes, alunos e comunidade) pode dar para tornar o ambiente cada vez melhor e os alunos cada vez mais comprometidos com a vida, a natureza, a melhoria dos ambientes com os quais convivem.

A relao entre a comunidade e a escola
De modo geral, o trabalho com esse tema transversal pode, dependendo de como  tratado, se constituir num espao revigorador da vida escolar, da prtica pedaggica. Ele pode reavivar o debate entre alunos de vrias idades e classes, entre toda a comunidade escolar, entre escola e bairro e ainda entre instncias maiores da administrao pblica. 
 desejvel a comunidade escolar reflerir conjuntamente sobre o trabalho com o tema Meio Ambiente, sobre os objetivos que se pretende atingir e sobre as formas de conseguir isso, esclarecendo o papel de cada um nessa tarefa. O convvio escolar  decisivo na aprendizagem de valores sociais e o ambiente escolar  o espao de acuao mais imediato para os alunos. Assim,  preciso salientar a sua importncia nesse trabalho.
Para que esses trabalhos possam atingir essa amplitude,  necessrio que toda a comunidade escolar (professores, funcionrios, alunos e pais) assuma esses objetivos, pois eles se concretizaro em diversas aes que envolvero todos, cada um na sua funo.
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Esse  um ponto muito importante e delicado. J se observaram trabalhos tidos como ambientais na escola, em que houve, de fato, um movimento contrrio: as questes ambientais foram tratadas de maneira assptica, fragmentada, que, como todo o saber tratado dessa maneira, se cristaliza, no servindo mais como referncia para soluo de problemas ambientais, mas apenas como um conceito a mais, eventualmente servindo para embasar outros saberes desse tipo.  restringir a limites muito estreitos, por exemplo, definir corretamente o lixo, sem estabelecer relao com a situao real de limpeza da escola, do bairro, de estado, ou ainda, com o contexto concreto das relaes sociais que engendraram a problemtica do lixo.
Outro ponto importante a ser considerado  a relao da escola com o ambiente em que est inserida. Por ser uma instituio social que exerce interveno na realidade, ela deve estar conectada com as questes mais amplas da sociedade, e com os movimentos amplos de defesa da qualidade do ambiente, incorporando-os s suas prticas, relacionando-os aos seus objetivos.  tambm desejvel a sada dos alunos para passeios e visitas a locais de interesse dos trabalhos em Educao Ambiental. Assim,  importante que se faa um levantamento de locais como parques, empresas, unidades de conservao, servios pblicos, lugares histricos e centros culturais, e se estabelea um contato para fins educativos.
Porm, nem sempre  possvel sair da escola ou pedir que os alunos o faam, principalmente no incio do terceiro ciclo. Assim,  importante, promover situaes no interior da escola que promovam a articulao com os problemas locais, e, se possvel, estimular a participao de pessoas da comunidade ou de outras instituies nessas situaes.
O trabalho desenvolvido pelas universidades, organizaes governamentais e no governamentais na rea ambiental  um valioso instrumento para o ensino e a aprendizagem do tema Meio Ambiente. A relao com as instituies prximas  escola pode resultar em simples colaborao, ou em significativas parcerias para a execuo de aes conjuntas. Para os terceiro e quarto ciclos, esse pode ser um outro espao privilegiado para a articulao e a construo do coletivo do grupo envolvido.
Essa dinmica de trocas permite a ampliao da construo de conhecimentos na escola, assim como de solues para a comunidade. Um exemplo de trabalho iniciado dentro dela, que desencadeou uma ao na comunidade,  o de um bairro perifrico de uma cidade brasileira, onde os alunos comearam a levar para suas mes propostas e receitas de aproveitamento de folhas, talos e cascas habitualmente jogados fora. Houve disseminao dessa idia no bairro, para satisfao das famlias com a economia resultante e a melhoria na qualidade alimentar dos alunos. Assim tambm, h inmeras outras experincias, como hortas comunitrias, viveiros de mudas, escolas de artesanatos e pesca, agricultura orgnica, que comearam no espao escolar.
O tema Meio Ambiente pode ser mais amplamente trabalhado, quanto mais se diversificarem e intensificarem a pesquisa de conhecimentos e a construo do caminho coletivo de trabalho, se possvel, com interaes diversas dentro da escola e desta com outros setores da sociedade.
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Superar a fragmentao do saber nas situaes de ensino
Nos terceiro e quarto ciclos,  grande a dificuldade de obter uma viso mais global da realidade, uma vez que geralmente o conhecimento  apresentado para os alunos de forma fragmentada pelas disciplinas que compem a grade curricular. Entretanto, a formulao do projeto educacional da escola, por meio da discusso, deciso e encaminhamentos conjuntos, com atribuio de responsabilidades, possibilita superar o fracionamento do saber: as divergncias de interesses, as vrias formaes profissionais e as diferentes escalas de valores, por terem que se articular na efetivao de um projeto pedaggico, podem contribuir para a construo desse espao coletivo. Alm disso, viabiliza-se o dilogo entre docentes, e a atuao conjunta (professores entre si, professores com alunos e com a comunidade), em que ser possvel a construo de atitudes e valores. Atividades como a realizao de excurses, criao de viveiros de muda e hortas comunitrias, participao em debates etc., possibilitam um trabalho mais integrado, com maior envolvimento dos alunos, e a participao no espao social mais amplo, no que se refere  soluo dos problemas ambientais.
Para que os alunos construam a viso da globalidade das questes ambientais  necessrio que cada profissional de ensino, mesmo especialista em determinada rea do conhecimento, seja um dos agentes da interdisciplinaridade que o tema exige. A riqueza do trabalho ser maior se os professores de todas as disciplinas discutirem e, apesar de todo o tipo de dificuldades, encontrarem elos para desenvolver um trabalho conjunto. Essa interdisciplinaridade pode ser buscada por meio de uma estruturao institucional da escola, ou da organizao curricular, mas requer, necessariamente, a procura da superao da viso fragmentada do conhecimento pelos professores especialistas.

A necessidade de transversalizao do tema nas reas
Nos Parmetros Curriculares Nacionais os contedos de Meio Ambiente foram integrados s reas, numa relao de transversalidade, de modo que impregne toda a prtica educativa e, ao mesmo tempo, crie uma viso global e abrangente da questo ambiental, visualizando os aspectos fsicos e histrico-sociais, assim como as articulaes entre a escala local e planetria desses problemas.
Trabalhar de forma transversal significa buscar a transformao dos conceitos, a explicitao de valores e a incluso de procedimentos, sempre vinculados  realidade cotidiana da sociedade, de modo que obtenha cidados mais participantes. Cada professor, dentro da especificidade de sua rea, deve adequar o tratamento dos contedos para contemplar o Tema Meio Ambiente, assim como os demais Temas Transversais. Essa
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adequao pressupe um compromisso com as relaes interpessoais no mbito da escola, para haver explicitao dos valores que se quer transmitir e coerncia entre estes e os experimentados na vivncia escolar, buscando desenvolver a capacidade de todos para intervir na realidade e transform-la, tendo essa capacidade relao direta com o acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade.
A organizao do territrio depende da formao social, de fatores de ordem poltica, econmica e cultural e, portanto, pode sempre ser transformada a fim de, por exemplo, buscar a idia de justia e de um ambiente saudvel. Essa preocupao  central na formao de cidados que procuram a equidade na melhoria das condies de vida.
Para isso, a preocupao ambiental inserida nas vrias reas do saber  decisiva. Na elaborao dos Parmetros Curriculares Nacionais, essas reas apontaram a relao de seus contedos com o tema Meio Ambiente e algumas destacaram um bloco de contedos ou eixo temtico que trata diretamente da relao sociedade/natureza ou vida e ambiente. Isso retrata a dimenso do trabalho que se deseja com essa questo, diante das necessidades impostas pela realidade socioambiental.
As reas de Cincias Naturais, Histria e Geografia so as tradicionais parceiras para o desenvolvimento dos contedos aqui relacionados, pela prpria natureza dos seus objetos de estudo. Mas as demais reas ganham importncia fundamental, pois, cada uma, dentro da sua especificidade, pode contribuir para que o aluno tenha uma viso mais integrada do ambiente: Lngua Portuguesa, trabalhando as inmeras "leituras" possveis de textos orais e escritos, explicitando os vnculos culturais, as intencionalidades, as posies valorativas e as possveis ideologias sobre meio ambiente embutidas nos textos; Educao Fsica, que tanto ajuda na compreenso da expresso e autoconhecimento corporal, da relao do corpo com ambiente e o desenvolvimento das sensaes; Arte, com suas diversas formas de expresso e diferentes releituras do ambiente, atribuindo-lhe novos significados, desenvolvendo a sensibilidade por meio da apreciao e possibilitando o repensar dos vnculos do indivduo com o espao; alm do pensamento Matemtico, que se constitui numa forma especfica de leitura e expresso. So todas fundamentais, no s por se constiturem em instrumentos bsicos para os alunos poderem conduzir o seu processo de construo do conhecimento sobre meio ambiente, mas tambm como formas de manifestao de pensamento e sensaes. Elas ajudam os alunos a trabalhar seus vnculos subjetivos com o ambiente, permitindo-lhes express-los.
 interessante, ainda, que se destaque o ambiente como parte do contexto geral das relaes ser humano/ser humano e ser humano/natureza, em todas as reas de ensino, na abordagem dos diferentes contedos: seja no estudo das variadas formas de organizao social e cultural, com seus mais diversos conflitos, ou no trabalho com as vrias formas de comunicao, expresso e interao, seja no estudo dos fenmenos e caractersticas da natureza ou na discusso das tecnologias que mediam as vrias dimenses da vida atual.
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Cada professor pode contribuir decisivamente ao conseguir explicar os vnculos de sua rea com as questes ambientais, por meio de uma forma prpria de compreenso dessa temtica, de exemplos abordados sobre a tica de seu universo de conhecimento e pelo apoio nterico-instrumental des suas tcnicas pedaggicas.
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OBJETIVOS GERAIS PARAO ENSINO FUNDAMENTAL
Considerando a importncia da temtica ambiental, a escola dever, ao longo das oito sries do ensino fundamental, oferecer meios efetivos para cada aluno compreender os fatos naturais e humanos referentes a essa temtica, desenvolver suas potencialidades e adotar posturas pessoais e comportamentos sociais que lhe permitam viver numa relao construtiva consigo mesmo e com seu meio, colaborando para que a sociedade seja ambientalmente sustentvel e socialmente justa; protegendo, preservando todas as manifestaes de vida no planeta; e garantindo as condies para que ela prospere em toda a sua fora, abundncia e diversidade.
Para tanto prope-se que o trabalho com o tema Meio Ambiente contribua para que os alunos, ao final do ensino fundamental, sejam capazes de:

identificar-se como parte integrante da natureza e sentir-se afetivamente ligados a ela, percebendo os processos pessoais como elementos fundamentais para uma atuao criativa, responsvel e respeitosa em relao ao meio ambiente;
perceber, apreciar e valorizar a diversidade natural e sociocultural, adotando posturas de respeito aos diferentes aspectos e formas do patrimnio natural, tnico e cultural;
observar e analisar fatos e situaes do ponto de vista ambiental, de modo crtico, reconhecendo a necessidade e as oportudades de atuar de modo propositivo, para garantir um meio ambiente saudvel e a boa qualidade de vida;
adotar posturas na escola, em casa e em sua comunidade que os levem a interaes construtivas, justas e ambientalmente sustentveis;
compreender que os problemas ambientais interferem na qualidade de vida das pessoas, tanto local quanto globalmente;
conhecer e compreender, de modo integrado, as noes bsicas relacionadas ao meio ambiente;
perceber, em diversos fenmenos naturais, encadeamentos e relaes de causa/efeito que condicionam a vida no espao (geogrfico) e no tempo (histrico), utilizando essa percepo para posicionar-se criticamente diante das condies ambientais de seu meio;
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	compreender a necessidade e dominar alguns procedimentos de conservao e manejo dos recursos naturais com os quais interagem, aplicando-os no dia-a-dia.
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MEIO AMBIENTE
2 PARTE
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CONTEDOS DE MEIO AMBIENTE
PARA TERCEIRO E QUARTO CICLOS
O trabalho pedaggico com a questo ambiental centra-se no desenvolvimento de atitudes e posturas ticas, e no domnio de procedimentos, mais do que na aprendizagem estrita de conceitos.
A eleio desses contedos pode ajudar o educador a trabalhar de maneira a contribuir para a atuao mais consequente diante da problemtica ambiental, por meio da compreenso e indicao de formas de proceder.  diferente encarar os problemas ambientais, como o do agrotxico, apenas como objeto de estudo da cincia ou como uma questo social cuja soluo exige compromisso real. Os conceitos que explicam os vrios aspectos dessa realidade se encontram interligados entre si e com as questes de natureza valorativa, exigindo, portanto, trat-los tambm nesse mbito.
No entanto, valores e compreenso s no bastam.  preciso que as pessoas saibam como atuar, como adequar prtica e valores, uma vez que o ambiente  tambm uma construo humana, sujeito a determinaes de ordem no apenas naturais, mas tambm sociais.
As diferentes reas trazem contedos fundamentais  compreenso das temticas ambientais. O que se prope aqui , antes de mais nada, uma abordagem desses contedos que permita atuar na realidade, considerando a forma dela se apresentar: extremamente complexa.
No  rara a necessidade de buscar trocas de informaes ou mesmo o auxlio direto de colegas de outras reas para entender mais satisfatoriamente a questo ambiental. Quando, numa situao de sala de aula, um aluno remete o debate a um problema concreto ou a uma situao vivida na realidade,  "natural" que no se tenha a resposta. Quando se parte diretamente do problema,  necessria essa integrao de trabalhos entre as reas. Muitas vezes, somente dessa forma  possvel enxergar a extenso real que eles tm, o vnculo com a organizao e as questes sociais, ou seja, enxergar as diferentes "facetas" e implicaes dos conhecimentos e dos problemas, possibilitando aes mais conseqentes. Essa  outra maneira de tratar a questo ambiental na escola.
A aprendizagem de procedimentos adequados e acessveis  indispensvel para o desenvolvimento das capacidades ligadas  participao,  co-responsabilidade e  solidariedade, porque configuram situaes reais em que podem ser experimentadas pelos alunos. Assim, fazem parte dos contedos desde formas de manuteno da limpeza do ambiente escolar (jogar lixo nos cestos, cuidar das plantas da escola, manter o banheiro limpo), prticas orgnicas na agricultura, formas de evitar o desperdcio, at como elaborar e participar de uma campanha ou saber dispor dos servios existentes 
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relacionados com as questes ambientais (por exemplo, os rgos ligados  prefeitura ou as organizaes no-governamentais que desenvolvem trabalhos, exposies oferecem servios  populao, possuem material e informaes de interesse da escola, dos alunos e das famlias etc.).
Portanto, deve-se possibilitar aos alunos o reconhecimento de fatores que produzam bem-estar ao conjunto da populao; ajud-lo a desenvolver um esprito de crtica s indues ao consumismo e o senso de responsabilidade e solidariedade no uso dos bens comuns e recursos naturais, de modo que respeite o ambiente e as pessoas de sua comunidade11.

Critrios de seleo e organizao dos contedos
Dois fatores tornam difcil a seleo de contedos de forma satisfatria: a complexidade da temtica ambiental e a diversidade da realidade brasileira. Entretanto, alm de um elenco de contedos, o tema Meio Ambiente prope que se garanta aos alunos aprendizagem que lhes possibilite posicionar-se em relao s questes ambientais nas suas diferentes realidades particulares e atuar na melhoria de sua qualidade.
Assim sendo, a seleo dos contedos foi realizada com a preocupao de elencar questes amplas e tambm de possibilitar a valorizao e a ateno s especificidades regionais.
Seguindo essas preocupaes, foram selecionados os contedos que:

contribuam com a conscientizao de que os problemas ambientais dizem respeito a todos os cidados e s podem ser solucionados mediante uma postura participativa;
11 Essa questo est discutida no documento do Tema Transversal "Trabalho e Consumo".
proporcionem possibilidades de sensibilizao e motivao para um envolvimento afetivo;
possibilitem o desenvolvimento de atitudes e a aprendizagem de procedimentos e valores fundamentais para o exerccio pleno da cidadania, ressaltando-se a participao no gerenciamento do ambiente;
contribuam para uma viso integrada da realidade, desvendando as interdependncias entre a dinmica ambiental local e a planetria, desnudando as implicaes e causas dos problemas ambientais;
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sejam relevantes na problemtica ambiental do Brasil;
sejam compatveis com os contedos trabalhados pelas reas nesses ciclos, possibilitando a transversalizao;
sejam condizentes com a expectativa de aprendizagem nesse nvel de escolaridade.

A partir desses critrios, foram eleitos contedos suficientemente abrangentes para possibilitar aos professores trabalh-los de acordo com a especificidade local, sem perder de vista as questes globais e a ampliao de conhecimento sobre outras realidades.
A realidade de uma escola em regio metropolitana, por exemplo, implica exigncias diferentes daquelas de uma escola da zona rural. Da mesma forma, escolas inseridas em locais mais saudveis, sob o ponto de vista ambiental, ou naqueles muito poludos devero priorizar objetivos e contedos que permitam abordar esses aspectos. Tambm a cultura, a histria e os costumes iro determinar diferenas no trabalho com o tema Meio Ambiente em cada escola.
Os contedos foram reunidos em crs blocos:

 A natureza "cclica" da Natureza
 Sociedade e meio ambiente
 Manejo e conservao ambiental

O primeiro bloco apresenta contedos que possibilitam ampliar e aprofundar o conhecimento da dinmica das interaes ocorridas na natureza. Essa fundamentao d consistncia  argumentao em defesa e proteo daquilo que as pessoas amam e valorizam.
O segundo bloco trata de aspectos mais abrangentes da relao sociedade/natureza, enfatizando as diferentes formas e conseqncias ambientais da organizao dos espaos pelos seres humanos.
Tendo como base as caractersticas integradas da natureza, e de como ela se altera segundo as diferentes formas de organizao socioculturais, este bloco inclui desde a preocupao do mundo com as questes ecolgicas at os direitos e responsabilidades dos alunos e sua comunidade com relao  qualidade do ambiente em que vivem, e as possibilidades de atuao individual e coletiva.
O ltimo bloco trata mais especificamente das possibilidades, positivas e negativas, de interferncias dos seres humanos sobre o ambiente, apontando suas conseqncias.
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Busca discutir algumas formas adequadas de interveno humana para equacionar melhor os seus impactos.
Estes so trs aspectos das questes ambientais: os blocos no so estanques, nem seqenciais, mas aglutinam contedos relativos aos diferentes aspectos que configuram a problemtica ambiental. Eles possibilitam enxergar de maneira mais 
consistente esses determinantes dos vrios ambientes, como eles se configuraram e como poderiam ser modificados.
Entre outros fatores, alguns dos que mais mobilizam canto os adolescentes e jovens quanto os adultos a respeitar e conservar o meio ambiente so o vnculo afetivo, o desafio de conhecer as caractersticas, as qualidades da natureza; o perceber o quanto ela  interessante, rica e prdiga, podendo ser ao mesmo tempo muito forte e muito frgil; o perceber e valorizar, no dia-a-dia, a identificao pessoal com o ambiente local; o saber-se parte dela, como os demais seres habitantes da Terra, dependendo todos  inclusive sua descendncia  da manuteno de condies que permitam a continuidade do fenmeno da vida, em toda a sua grandiosidade.
Entre os contedos, os procedimentos merecem ateno especial. Os contedos dessa natureza so aprendidos em atividades prticas. So um "como fazer" que se aprende fazendo, com orientao organizada e sistemtica dos professores. A atuao nessas atividades favorece tanto as construes conceituals quanto o aprendizado da participao social. Alm disso, constituem situaes didticas em que o desenvolvimento de atitudes pode ser trabalhado por meio da vivncia concreta e da reflexo sobre ela.
Dentre esses contedos destacam-se:

alternativas variadas de expresso e divulgao de idias e sistematizao de informaes como realizao de: cartazes, jornais, boletins, revistas, fotos, filmes, dramatizao;
tcnicas de pesquisa em fontes variadas de informao (bibliogrficas, cartogrficas, memria oral, etc.);
anlise crtica das informaes veiculadas pelos diferentes canais de comunicao (TV, jornais, revistas, vdeos, filmes comerciais etc.);
identificao das competncias, no poder local, para solucionar os problemas ambientais especficos;
identificao das instituies pblicas e organizaes da sociedade civil em que se obtm informaes sobre a legislao
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ambiental (nos nveis municipal, estadual e federal) e possibilidades de ao com relao ao meio ambiente;
formas de acesso aos rgos locais e s instncias pblicas de participao, tais como Conselhos Estaduais, Conselhos Municipais, Consrcios Intermunicipais etc., onde so debatidos e deliberados os encaminhamentos das questes ambientais;
acompanhamento das atividades das ONG's (Organizaes No-Governamentais) ou de outros tipos de organizaes da sociedade que atuam ativamente no debate e encaminhamento das questes ambientais.

Blocos de contedos
A NATUREZA "CCLICA" DA NATUREZA
Dormir e acordar, alimentar-se, ver as rvores florescer e os pssaros se reproduzir constituem vivncias de todo ser humano. A experincia dos ciclos da vida  algo introjetado em qualquer indivduo; resta-lhes a tomada de conscincia desses ciclos, a reflexo sobre sua dinmica de funcionamento.
 importante, por exemplo, que, ao observar a gua de um riacho ou a que sai de uma torneira, os alunos se perguntem de onde ela vem, por onde passou e onde chegar e reflitam sobre as conseqncias desse fluxo a curto e longo prazos, na sua vida e na natureza, e, acima de tudo, saibam que a qualidade dessa gua est diretamente relacionada com as aes do ser humano.
O desenvolvimento de atitudes pessoais e de processos coletivos coerentes com a perspectiva de sustentabilidade ecolgica requer, alm de outras coisas, essa compreenso.
No se trata, pois, de uma compreenso qualquer, mas de uma forma de construo de conhecimento que no dissocia os contedos conceituals das aes cotidianas.
O mesmo potencial criativo dos seres humanos que possibilitou o atual padro de alterao ambiental permite a ele construir novas relaes com a natureza, recomp-la onde for necessrio, desfazer onde for preciso e, ainda, mudar radicalmente as relaes de produo que engendraram a situao ambiental atual.
Para isso acontecer,  de fundamental importncia que todos os cidados conheam e valorizem a dinmica da natureza. A prpria idia de ciclo, apesar de didaticamente
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consagrada, no  suficiente para explicar a dinmica da natureza, pois nela nunca se volta exatamente ao ponto de partida. H, ainda, uma srie de transformaes e eventos, como o movimento das placas tectnicas, que esto longe de apresentar comportamento cclico, cujas regras ainda fogem da estrutura das explicaes de outros fenmenos, e para os quais no h possibilidade de antever regularidade ou previsibilidade.
A finalidade dos contedos deste bloco, portanto,  permitir ao aluno compreender que os processos na natureza no so estanques, nem no tempo nem no espao. Pelo contrrio, h sempre vrios fluxos de transformaes, com a reincorporao de materiais a novos seres vivos, com a modificao de energias nas suas diferentes formas, enfim, com interaes que engendram mudanas no mundo que, a partir de praticamente os mesmos materiais, tanto se transformou nesses 3,5 bilhes de anos de vida na Terra.
A construo da concepo dessa dinmica, de atitudes e valores a ela associados, implica a aprendizagem de alguns contedos, tais como os elencados a seguir.
Compreenso da vida, nas escalas geolgicas de tempo e de espao.

As relaes entre os seres vivos esto intimamente ligadas s condies de relevo, de solo, de clima e de interferncia do ser humano que se transformaram ao longo do tempo. As atuais formas de vida no planeta foram criadas por meio de um processo de evoluo natural articulada, a partir de um determinado perodo geolgico,  histria da humanidade. As escalas mais amplas de tempo e de espao, de mais difcil compreenso, referem-se a interaes que vo alm das envolvidas no suprimento imediato da sobrevivncia, nvel mais corriqueiro de preocupao, bem como da prpria histria da humanidade. Pensar numa escala de milhes de anos, numa perspectiva de compreenso que engloba todo o planeta, no  tarefa simples, principalmente para os alunos do incio do terceiro ciclo. Porm,  importante que se trabalhe, desde ento, algumas aproximaes com essas escalas. Isso vai permitindo aos alunos a construo de noes mais amplas das dimenses dos problemas ambientais.
O aparecimento dos seres vivos e a diversidade atual dos ecossistemas terrestres so resultado de bilhes de anos de interaes. Alguns deles, como as vegetaes ralas de arbustos e gramneas, demoraram milhares de anos para se estabelecer cm regies onde, inicialmente, havia somente rochas de lava vulcnica. Com relao s florestas tropicais, o processo foi mais lento ainda.
Em Cincias Naturais, este  o campo frtil para o desenvolvimento da idia de evoluo dos seres vivos, apontando para a lentido do processo e o tempo que foi necessrio para a constituio da natureza como a conhecemos hoje.
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S foi possvel a presena dos tipos de vida hoje, nas diferentes localidades da Terra, pela existncia do processo complexo de alteraes das comunidades biolgicas e das condies fsicas, que se configuraram em transformao e substituio de comunidades biticas, num mesmo espao, processo denominado sucesso ecolgica (outro conceito importante da rea de cincias).
A ampliao da escala espacial permite compreender melhor processos importantes para a dinmica ambiental, como a distribuio das espcies no planeta. Aqui, a rea de Geografia pode contribuir de forma decisiva, apontando as relaes entre os elementos fsicos do ambiente e sua influncia na distribuio espacial dos seres vivos.
As interaes do ser humano com a natureza, vistas nessas dimenses, mostram-se diferentes de quando observadas somente das escalas temporal e espacial dos prprios seres humanos.
O trabalho com essa escala temporal na rea de Histria  possvel quando se debatem as questes pertinentes s explicaes sobre a origem do mundo e do ser humano, as vrias organizaes socioculturais criadas pelos seres humanos e sua relao com os ciclos naturais.

Compreenso da gravidade da extino de espcies e da alterao irreversvel  de ecossistemas.

Quando analisada da perspectiva da sucesso ecolgica, a ao humana no ambiente pode ser reavaliada, com critrios embasados em outros referenciais de tempo. Nossa espcie, relativamente recente na Terra, consegue em to curto espao de existncia provocar alteraes para as quais a reconstituio natural pode demorar tanto, que ela prpria corre o risco de ser extinta.
O que possibilita a sobrevivncia ou no de um conjunto de populaes so as diferentes formas de interao entre os seres vivos.
Para entender melhor as possveis conseqncias ecolgicas de aes como a utilizao de determinados inseticidas, ou praguicidas, ou tcnicas pesqueiras de grande porte que eliminam grande nmero de peixes ou at espcies, alterando drasticamente o ecossistema,  importante compreender em que condies biolgicas a vida ocorre. Em qualquer ecossistema a sobrevivncia depende do equilbrio entre os diferentes grupos que nele convivem, assim como das alteraes fsicas produzidas por esses grupos nesse espao.  esse conjunto de interaes que vai possibilitar a preservao ou a extino de determinada espcie, ou, ainda, que essa bagagem gentica seja transmitida ou no.

Anlise de alteraes nos fluxos naturais em situaes concretas.

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 possvel melhorar a percepo do nvel das intervenes, quando se verifica que o ritmo natural dos fluxos no ambiente foi mudado, em funo de necessidades humanas. A intensa utilizao de matria-prima, de fontes de energia, enfim, dos vrios recursos naturais muitas vezes implica o seu esgotamento, comprometendo toda a dinmica natural, impedindo inclusive a manuteno dos diversos ciclos.
A contextualizao dessas situaes concretas, que envolvem diferentes fatores, como clima, solo, relevo e as prprias formas de alterao causadas pelo ser humano, em meio a conflitos de interesses, num perodo definido da histria,  essencial para a formao da conscincia crtica que permite aos alunos se posicionarem favoravelmente  sustentabilidade ecolgica.
A observao de elementos que evidenciem ciclos e fluxos na natureza, situados no espao e no tempo,  importante porque eles so diferentes numa rea mais conservada, onde h maior umidade e maior atividade fotossinttica, pela maior presena de vegetais, do que numa rea urbana, onde, normalmente, a condio de cobertura vegetal, o microclima, as demais condies fsicas e as atividades humanas so outras.
Alm disso, o comportamento de certos fenmenos da natureza est condicionado por mltiplas variveis, o que dificulta o conhecimento acerca do funcionamento dos diversos ambientes. Dois locais diferentes, por exemplo, com mesmo tipo de solo e com mesmo clima, podem apresentar cobertura vegetal distinta, e as explicaes que servem para um no servem para o outro.
Compreend-los implica a aprendizagem de contedos de vrias reas, abordados sob diferentes prismas. A aprendizagem, por exemplo, das relaes alimentares, seja em Cincias Naturais, em Histria, em Geografia ou outras reas, deve incluir os vnculos entre elas e os fluxos da gua, do oxignio e do carbono, a gerao do lixo, o uso de insumos agrcolas artificiais, o aproveitamento, o desperdcio, o tratamento e a distribuio da gua etc.
Dentre as movimentaes das substncias na natureza, uma das mais importantes do ponto de vista ambiental  a da gua.
O conhecimento de formas de aproveitamento e utilizao da gua pelos diferentes grupos humanos; a compreenso da interferncia dos fatores fsicos e socioeconmicos nas relaes entre ecossistemas, a construo da noo de bacia hidrogrfica e a identificao de como se situa a escola, o bairro e a regio com relao ao sistema de drenagem, condies de relevo e reas verdes, o conhecimento das condies de vida nos oceanos e sua relao com a qualidade da gua dos rios permitem aos alunos o entendimento da complexidade da questo da gua e sua historicidade, a necessidade desse recurso para a vida em geral e os processo vitais mais importantes dos quais ela faz parte.
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A ao antrpica e a conseqente tendncia de escassez de gua em quantidade e qualidade suficientes para os objetivos do uso humano merece destaque.  preciso favorecer a aprendizagem de que a dimenso das alteraes provocadas pode prejudicar a reciclagem natural por processos irreversveis de degradao, tanto na agricultura como nos espaos urbanos. Isso afeta a vida das sociedades que utilizam os recursos dos rios, do mar e dos ecossistemas relacionados a eles.
Informaes a respeito de possibilidades de uso diferente da gua em outras culturas, da viabilidade de sua reutilizao e da reduo de desperdcio na sociedade industrial do aos alunos subsdios para defender transformaes no gerenciamento desse recurso natural, apontando para a sustentabilidade e para o desenvolvimento de atitudes pessoais coerentes. Esse contedo reaparece no bloco Manejo e Conservao Ambiental, que  interessante trabalhar em conjunto.
As relaes alimentares so o elo mais elementar entre os seres vivos e, por isso, so de fundamental importncia para a dinmica de qualquer ambiente. No entanto,  preciso ampliar a viso, predominante, de que elas acontecem da maneira idealizada dos esquemas explicativos das "cadeias alimentares". Tais esquemas ocultam as complexas relaes sociais de produo e consumo12 de alimentos que ocorrem no mundo atual. A alimentao do ser humano, se abordada numa escala planetria, assume uma dimenso assustadora, quando comparada aos esquemas didticos que simplificam ao extremo as teias alimentares reais.
O estudo do convvio das sociedades com a natureza, na rea de Histria, permite identificar "relaes alimentares" concretas no ambiente, uma das possibilidades  fazer um levantamento com os alunos sobre os seus alimentos cotidianos, identificando os que so naturais, os industrializados, onde foram produzidos, de onde so originrios, como so preparados etc. Como os alimentos atuais tm uma histria,  possvel estudar quais eram consumidos pela populaes indgenas, na poca da chegada dos europeus no Brasil; como eram obtidos e servidos; as diferenas e semelhanas dos alimentos consumidos em geral pelos europeus, distinguindo quais eram, como eram produzidos, adquiridos, preparados, comercializados, se houve adaptao  nova terra, se trouxeram alimentos de outras partes do mundo; e se havia diferena entre a alimentao do mais pobres, dos senhores, dos escravos, por regio etc. E o mesmo pode ser feito em relao s outras pocas histricas.
O conhecimento das prticas utilizadas na produo dos alimentos que comem, ajuda os alunos a se posicionarem contra o uso inadequado de substncias artificiais que acabam
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entrando na alimentao dos seres vivos e na cadeia alimentar, que inclui o ser humano, prejudicando a sade dos seus vrios componentes.
 fundamental para a promoo da sustentabilidade ecolgica, que os alunos (e os demais cidados) conheam tambm alternativas tecnolgicas diversas de reincorporao de resduos slidos  da cidade ou do campo na forma de composto orgnico, aos seres vivos no ambiente (ver o bloco Manejo e Conservao Ambiental).
A ateno a essas questes no trabalho das diferentes reas pode permitir a compreenso da transferncia da matria orgnica de um ser vivo para outro, de sua ciclagem nos ecossistemas e da importncia desse processo para a manuteno do equilbrio ambiental. A rea de Cincias Naturais, por exemplo, pode dar nfase ao estudo das teias alimentares que ocorrem nas situaes onde h mnima interferncia humana, apontando para o delicado equilbrio dessas relaes no controle das populaes de presas e predadores.
Hoje, diante do potencial de alterao dos ambientes naturais pelo ser humano,  preciso enxergar a extenso que podem assumir as aes, at pouco tempo consideradas muito reduzidas, como a mudana de populao de um determinado local. Um exemplo "clssico" foi a introduo de populaes de coelhos na Austrlia, onde antes no havia esse tipo de roedor, com conseqncias para todo o equilbrio entre as outras populaes, j que no havia predador suficiente, impedindo um controle natural de expanso da espcie.
12 Este assunto est presente tambm no documento de Trabalho e Consumo.
Das interaes nas cidades, temos o exemplo de um grande centro urbano, onde, devido ao acmulo de dejetos em alguns ncleos favelados, houve inicialmente um crescimento muito grande do nmero de ratos. Pouco tempo depois, os habitantes desses ncleos reclamaram do aparecimento de cobras... Infelizmente, h inmeros exemplos desse tipo de alterao ambiental.
A abordagem desses aspectos pelas vrias reas permite a compreenso da qualidade ambiental. Ao mesmo tempo, evidencia as possveis conseqncias das alteraes de qualquer um desses fluxos pelo ser humano, para a qualidade do ambiente, a dinmica em geral, a ciclagem propriamente dita e a qualidade de vida dele prprio.
Entretanto, atitudes no se desenvolvem apenas com informao.  preciso que a escola se organize para que em seu ambiente essas atitudes possam ser praticadas. Seja na forma de situaes didticas intencionalmente planejadas, seja no dia-a-dia escolar.

Avaliao das alteraes na realidade local a partir do conhecimento 	  da dinmica dos ecossistemas mais prximos.

Os conceitos podem ser mais significativos se os alunos puderem fazer, individual ou coletivamente, observaes da dinmica do ambiente local. O debate e a anlise dessas 
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observaes sero mais ricos com sua sistematizao de forma coletiva. Nessa condio,  possvel discutir tanto a dinmica, em si, quanto as diferentes leituras individuais desses fatos-eventos.
A observao das especificidades dos ecossistemas prximos aos estudantes, (utilizando-se de tcnicas apropriadas para cada caso), facilitar a comparao com os demais. Esse passo  fundamental para a avaliao de alternativas de interveno, e para a definio de solues mais adequadas para problemas de desequilbrio ambiental. Para avaliar alteraes em seu ambiente, os alunos necessitam conhecer, ao menos cm parte, a diversidade de elementos existentes no local em que vivem, perceber a dinmica das interaes desses elementos e o papel de cada um na determinao da qualidade ambiental.
As relaes entre os seres vivos e as condies fsicas do ambiente assumem determinadas caractersticas cujo estudo possibilita entender e, algumas vezes, at fazer previses diante de determinadas intervenes propostas para esse espao. Por exemplo, ao se realizarem cortes de morros ou aterros, o conhecimento da dinmica desse ecossistema especfico permite aos alunos inferir alguns desdobramentos, como o acmulo de gua localizado, o aparecimento de musgos e fungos, o desaparecimento de uma parte da fauna local, as implicaes para a estabilidade das encostas e dos ecossistemas de rios e crregos locais etc.
Os alunos se sensibilizam e reconhecem as mudanas do ambiente local, com maior facilidade, quando so estimulados a perceber seus vnculos com a paisagem. Atividades para desenvolver a capacidade de localizao podem contribuir para isso. O trabalho com os pontos cardinais ou a identificao de elementos marcantes da paisagem, como montanhas, rvores, prdios, torres, rios etc., constituem importantes problematizadores desses vnculos. Esses referenciais permitem aos alunos acompanhar, opinar e intervir nas alteraes provocadas no seu entorno com mais propriedade, reforando, ainda, os laos afetivos com os elementos da paisagem, fazendo com que esta adquira um novo valor.
Quando se lidar com a memria, em qualquer dos contedos,  possvel resgatar as caractersticas do ambiente onde ocorreram vrios fatos e de que maneira os personagens se relacionavam com elas ou, ainda, quais as transformaes ambientais, ocorridas aps esses fatos, e quais ambientes se observam hoje no lugar onde se vive.
O posicionamento crtico diante de alteraes no ambiente depende tambm da possibilidade de previso dos seus desdobramentos.
O conhecimento dos ciclos da natureza e da complexa trama de relaes que os possibilitam permite aos alunos compreender a importncia da recomposio dos elementos necessrios  permanncia da vida no planeta. A viabilizao desse tipo de ao  de extrema importncia, diante da amplitude, rapidez e intensidade das aes predatrias, que poder at mesmo inviabilizar a continuidade da vida.
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 Conhecimento de outras interpretaes das transformaes na natureza.

Para alguns povos, no entanto, at mesmo a leitura, ou seja, o entendimento dos  ciclos  completamente diferente. Assim, para algumas tribos indgenas brasileiras, as relaes alimentares, por exemplo, so mais do que simples obteno de alimentos. Interaes na natureza interpretadas pela cincia ocidental contempornea apenas como relao alimentar incluem inteno, gosto, explicaes mticas e interaes com o prprio ser humano. A flora e a fauna adquirem alma, pensam e reagem s intervenes humanas. Essa outra forma de se relacionar com a natureza acontece das mais variadas formas nas diferentes culturas, associadas  organizao social, a valores, representao social e imaginrio sobre o ser humano e sobre todo o universo.
A interpretao dos fenmenos naturais vem associada  utilizao de recursos na agricultura, nos cuidados com a sade, permeando solues para todo o tipo de problemas. Tudo isso se materializa em prticas diferenciadas de produo da subsistncia. Em conseqncia, as alteraes dos fluxos da natureza so de outra dimenso, tanto qualitativa quanto quantitativa. Esse dado  de extrema importncia, na relativizao do pensamento, mais marcante em nossa sociedade, de que, alm de sermos os senhores do Universo, detemos tambm a nica interpretao possvel do mundo atual.
 importante que os alunos tenham espao para expor e criar suas interpretaes. A riqueza de idias que normalmente surge desse debate em geral contribui muito para a construo coletiva de solues locais. As reas de Histria, Geografia, Educao Fsica e Arte, quando forem trabalhar as diferentes culturas, podem, para enriquecer a discusso, incluir as diferentes formas de interpretar os fenmenos naturais.

SOCIEDADE E MEIO AMBIENTE
As questes apontadas neste bloco de contedo dizem respeito s sociedades industriais e  importante que o aluno compreenda que existem sociedades em que essas questes so de outra ordem. Diferentes culturas se relacionam com a natureza explorando ou no determinados recursos presentes em seu espao segundo sua viso de mundo. Como exemplo disso, pode-se destacar a dieta sem carne de vaca dos hindus, mesmo sabendo que o rebanho bovino faz parte do ambiente natural da ndia. Os hindus no elegeram o rebanho bovino como recurso, mas como referencial religioso.
O contato com outras formas de organizao social, de culturas e suas formas respectivas de relao com a natureza pode, ento, contribuir para relativizar a idia de que estrutura social predominante na civilizao ocidental  a nica possvel, ou a melhor, ou natural.
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Entretanto, a prioridade da discusso das relaes da sociedade industrial com a natureza deve-se ao fato de que esse  o modelo hegemnico, determinante das principais questes ambientais vividas no pas.
As principais caractersticas da regio em que se vive, as relaes dos alunos e de sua comunidade com os elementos dessa paisagem, as singularidades de cada uma dessas reas e as condies histricas em que se organizou esse espao so a base concreta para o debate sobre a vida, a gesto do espao, os diferentes problemas nas vrias localidades, quais os conflitos atuais e as perspectivas para enfrent-los.
Ao problemarizar as relaes sociais e da sociedade com a natureza, ressalta-se a importncia de que os alunos venham a entender a dimenso local como uma materializao dessas relaes. Por exemplo, ao estudar as transformaes da paisagem, como cortes de taludes, construo de usinas, desmatamentos, entre outras,  interessante interpretar suas conseqncias para a dinmica ambiental local. Porm, ao incluir, nesse estudo, os interesses de grupos, os conflitos sociais e os aspectos econmicos no interior dos quais foram definidas e implementadas essas atuaes, possibilita-se aos alunos ampliar seu universo de compreenso sobre cada forma especfica de interveno ambiental. Esse  o contexto das questes ambientais cuja compreenso  imprescindvel para construir futuras formas de atuao com relao  natureza, tendo em vista a superao dos problemas atuais.

Reconhecimento dos tipos de uso e ocupao do solo na localidade. 

Esse reconhecimento visa a que os alunos aprendam que o uso e a ocupao do solo acontecem de maneira diferenciada, nas diversas localidades, nos vrios perodos da histria, influindo diretamente na dinmica ambiental. Do ponto de vista das conseqncias ambientais, h uma enorme diferena entre o uso que se faz das grandes reas rurais, na agricultura de pequeno porte, e do uso e ocupao do solo que se do nos centros urbanos.
 importante reconhecer as caractersticas da organizao do espao, as tecnologias associadas a essa organizao e suas conseqncias ambientais. Por meio da Geografia, por exemplo, os alunos podem compreender melhor como so estruturadas as pequenas propriedades rurais (com agricultura de subsistncia) e os tipos e amplitudes mais comuns de poluio nessas reas. Analogamente,  possvel pesquisar como se d essa organizao nos grandes latifndios. Tanto em Geografia quanto em Histria,  possvel, alm de explorar os aspectos tcnicos, buscar que o aluno entenda quais as relaes histrico-sociais em que se d a interveno humana na natureza, aquelas que garantem, por exemplo, a manuteno dos latifndios e como isso ocorre no caso das pastagens e da monocultura. Associado a isso,  interessante que os alunos conheam tanto as implicaes ambientais fsicas quanto as relativas  qualidade de vida.
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Com relao aos espaos da cidade, reconhecer o relevo original, por meio da consulta a vrias fontes, e, principalmente, pela anlise em campo, pode possibilitar a visualizao de transformaes locais que contribuam para a melhoria ambiental. A construo do conceito de relevo, nessa situao, estar associada  dinmica ambiental,  necessidade de interao do ser humano com a natureza, para garantia da subsistncia. Ela se d diferentemente daquela em que o relevo acaba se tornando um conceito esttico, que muito pouco esclarece sobre a vida, permanecendo distante dos alunos e da dinmica ambiental.
Para isso tambm pode ajudar o contato com experincias de reformulao de ocupao do solo, em outros lugares, principalmente aqueles com semelhana de caractersticas fsicas, econmicas e sociais. Conhecer um pouco das caractersticas que os diferenciam, implica tambm entender um pouco do estgio de desenvolvimento cientfico e tecnolgico, dos limites impostos pelas condies fsicas de cada localidade e da cultura dos seus povos.
O que se v hoje, na maioria das organizaes societrias,  a aglomerao em centros urbanos e a organizao da rea rural, incluindo as reas naturais conservadas, em funo dessa direo do desenvolvimento, que se apia exatamente nessa concentrao urbana, como centro produtor e consumidor.
Nas diferentes formas de ocupao dos espaos, h problemas que saltam aos olhos pela gravidade, e, portanto, os alunos devem conhec-los para que possam se posicionar criticamente e participar de forma atuante e responsvel no encaminhamento das solues. Porm, nem sempre a sua multicausalidade  transparente.
Nas cidades, o adensamento populacional impe determinadas formas de organizao do espao, a criao da infra-estrutura, que, por sua vez, requer um determinado traado das ruas para instalao das redes de gua e de esgoto, do sistema de drenagem com ou sem interveno fsica nos crregos, e sistemas de transporte. H, tambm, a necessidade de definio de reas para atividade industrial, para implantao de comrcio e servios, de reas de preservao de matas, parques e mananciais.
Dentre os problemas socioambientais, o mais agudo, que tem adquirido enormes dimenses nas grandes cidades, so os ncleos favelados que se adensam tanto mais quanto maior a crise econmica e social. Esse problema  tambm conseqncia da inexistncia de polticas habitacionais que apontem solues de moradia para essa parcela da populao. Sem alternativa, ela acaba ocupando encostas de morros e fundos de vales, sofrendo desabamentos e enchentes; deixando a cu aberto o esgoto, o lixo, enfim, aquilo que para a parcela mais abastada fica escondida, nastubulaes ou, pelo menos, longe de casa. Essa situao se agrava proporcionalmente  excluso social, ou seja, os problemas ambientais atingem diferentemente cada parcela da sociedade. Essa  uma situao insustentvel
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pela gravidade da degradao, que no; proporciona condies sanitrias minimamente satisfatrias para a vida humana.

Compreenso da influncia entre os vrios espaos.

Nas relaes concretas, os limites entre os ambientes no existem.
A organizao de espaos aparentemente sem vnculo com as cidades acontece, muitas vezes, em funo de suprir as novas necessidades que demandam desses centros. Um exemplo muito marcante disso, no Brasil, foi a transformao de vastas reas rurais para plantio de cana-de-acar, em funo das necessidades de lcool combustvel, quando da implantao do Prolcool.
Os conceitos e as representaes mais veiculados tanto na mdia quanto nas escolas tm impedido a compreenso de que, nas relaes concretas, os limites entre os ambientes no existem.
Em geral, a alterao ambiental no campo  maior quanto maior o adensamento urbano com o qual se relaciona diretamente. Saem do campo para a cidade argila para tijolo, cal, cimento, areia dos rios, alimentos, gua potvel que vem das nascentes etc. Se o consumo de um determinado tipo de alimento  muito intenso, seu plantio acaba sendo uma alternativa econmica para as reas rurais e para a que o vende. Dependendo da forma de cultivo no campo, chegam  cidade alimentos com alto grau de contaminao por agrotxicos que, por sua vez, exigem avanos nas pesquisas sobre sade etc..
Por outro lado, da cidade emanam produtos que vo influir diretamente na vida do campo, como bens materiais industrializados, ou, ainda, os saberes voltados para a produo de novas tecnologias, modificando o trabalho do ser humano na rea rural. Alm disso, saem outros materiais da cidade, como gua poluda, lixo, ar contendo produtos que podem causar chuva cida, entre outros.
Mas as influncias recprocas entre diferentes ambientes vo alm daquelas entre as reas urbanas e rurais.
As relaes econmicas globais ficam cada vez mais intensas, forjando novos conflitos e, muitas vezes, agudizando os j existentes. Por outro lado, a intensificao das trocas de tecnologias facilita o acesso s experincias positivas de soluo de problemas, ou simplesmente de outros modos de vida.
Podem-se explicitar as estreitas relaes entre diferentes localidades, analisando, por exemplo, a existncia de uma garrafa plstica na margem de um rio, ao lado de uma reserva de mata em regio inabitada, durante uma excurso com os alunos. A problematizao dessa situao especfica pode levar os alunos a se sentirem motivados a
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pesquisar mais sobre a amplitude dos pequenos eventos locais e cotidianos. Exemplos de questes que esse fato suscita so: qual o caminho percorrido por essa garrafa, ou seja, como  esse rio; quem comprou e tomou o lquido dessa garrafa; quais as relaes de mercado que a trouxeram para o lugar onde o consumidor a comprou, e assim por diante. Alm disso, as alteraes ambientais de onde foram retirados os recursos naturais que constituram sua matria-prima, aquelas provocadas durante o processo de produo, de transporte e de comercializao de sua embalagem e a destinao final dos resduos implicam conseqncias ambientais tanto para zonas urbanas quanto para as rurais.
Para entender melhor essa dinmica, os alunos podem, por exemplo, pesquisar quais so os insumos principais para a vida na cidade (origem de alimentos, materiais usados na construo, tipo de energia etc.) e os produtos e sobras que saem da cidade.
O conhecimento das principais atividades econmicas da cidade, dando nfase quelas cuja alterao ambiental  maior, possibilitar aos alunos interagir com esse processo. Para isso,  preciso ter contato com as diferentes fases do processo de produo dessas atividades econmicas, identificando a matria-prima, o gasto de energia, os subprodutos intermedirios, os efluentes e rejeitos finais, o transporte, o armazenamento e o consumo do produto.

Conhecimento e valorizao do planejamento dos espaos como instrumento de promoo da melhoria da qualidade de vida.

A vida na cidade pode ter muitas vantagens, se comparada a outros lugares. Nela, em geral se tm mais alternativas de servios de sade, educao, se tem acesso mais fcil a bens materiais, como eletrodomsticos, que facilitam o servio de casa etc. A falta dessas alternativas e as dificuldades da estrutura do trabalho no campo fazem da vida na cidade o grande objetivo de muitas famlias.
Mas o que se vive, na realidade, tem sido a deteriorao cada vez maior da vida nesses centros urbanos.  o ritmo do trabalho, o "corre-corre" para dar conta de tudo o que se tem de fazer,  o preo do aluguel, da comida, da gua, da luz, a falta de emprego, o congestionamento no trnsito, a falta de nibus, a poluio do ar, provocando asma e pneumonia, a falta de umidade do ar, as enchentes, a falta de reas verdes, enfim todos esses motivos que acabam provocando vrios problemas de sade, fsicos e psicolgicos, como o mais frequente deles, o estresse.
Alm disso, assistimos ao aumento da violncia em todos os centro urbanos de mdio e grande porte. Entretanto,  importante que os alunos que moram nas cidades conheam no s os problemas dos ambientes degradados, mais freqentes nessas reas urbanas, mas tambm ambientes ecologicamente equilibrados para que, com essa experincia, aprendam
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a defender as melhorias necessrias na cidade e a conservao dos ambientes mais equilibrados.
Para adolescentes e jovens que vivem em reas ecologicamente mais conservadas,  importante entrar em contato com informaes sobre ambientes mais degradados, para problematizar o futuro da localidade onde moram.
O contato com essas diferentes reas pode ser instigante para que os alunos busquem informaes sobre o planejamento dessas reas, sobre os atores que participam das definies e de aes importantes na dinmica desses locais.
Conhecer quem formula a srie de regras de uso e ocupao do espao na rea urbana, explcitas na legislao de parcelamento do solo, na lei de zoneamento e cdigo de posturas do municpio, saber quem fiscaliza e quem implanta programas de recuperao ambiental e, por fim, saber a histria da cidade, quais os conflitos de grupos de interesse que influram na regulamentao existente  da maior importncia no aprendizado da participao na gesto desse espao.
 muito importante para os alunos aprender a relacionar as informaes sobre os determinantes, como a existncia ou no de planejamento adequado, de infra-estrutura como esgotamento sanitrio etc., na dinmica urbana, com a vida e com os eventos ambientais. Por exemplo, a relao direta entre os problemas respiratrios e o zoneamento urbano, a no-fiscalizao ou qualquer outra causa da existncia de indstrias em reas onde as pessoas moram. E, nessa circunstncia, como se pode atuar para melhorar efetivamente essa condio.
Para que haja envolvimento dos alunos com a questo ambiental e para assegurar espaos democrticos de participao, a informao sobre o movimento ambientalista, as reformas urbana e agrria, as minorias e os outros setores - cientistas, polticos, educadores, artistas, organizaes no-governamentais, associaes de consumidores, entidades de classe, cooperativas, associaes diversas e tantas outras formas de aglutinao de pessoas em torno de questes comuns - contribuem para a construo do esprito coletivo, componente fundamental para a soluo de inmeros problemas.
Os movimentos devem ser entendidos em sua histria, no percurso de sua formao, seus principais representantes e interlocutores, enfim, em seus princpios e aes concretas na dinmica social.  sabida a importncia, por exemplo, das ONG's, para pressionar diversos setores da indstria cuja poluio j  conhecida e, no entanto, continuam em atividade, com a fora do poder econmico, tornando incuas ou simplesmente impedindo medidas imprescindveis para a melhoria da qualidade de vida.

Anlise crtica de atividades de produo e prticas de consumo.

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Os estudos a serem feitos nas diferentes reas devem deixar claro, para os alunos, as causas e conseqncias  da degradao ou conservao  para a qualidade de vida das comunidades.  preciso que eles aprendam tambm que mesmo as pequenas aes, se consideradas em seu conjunto, tm conseqncias para o entorno imediato, para a regio e para o planeta, podendo afetar, inclusive, as geraes futuras.
As relaes ser humano/natureza e ser humano/ser humano se concretizam no cotidiano da vida pessoal e das prticas sociais.  no tipo de alimento a que se tem acesso ou no, remetendo s suas formas de produo;  no preparo da comida e no transporte, que inclui a problemtica da energia (desde as alternativas mais rudimentares, como o moinho de vento, at a mais discutida hoje, a atmica; passando pela energia eltrica produzida com alagamentos extensos e inundao de cidades e campos. Essas relaes se concretizam tambm nos utenslios, no material usado na construo das habitaes, nas sobras que se acumulam na beira de estradas e ruas ou na beira de crregos, causando enchentes.
 preciso pensar no que nos cerca: sua origem, o desenvolvimento cientfico e tecnolgico que permitiram sua confeco, seu papel na vida das pessoas e sua destinao final.
Deve fazer parte dos debates na escola o questionamento de valores e hbitos negativos, do ponto de vista da conservao ambiental, como o consumismo e o desperdcio, que fazem parte do cotidiano.

Valorizao da diversidade cultural na busca de alternativas de    relao entre sociedade e natureza.

A troca de idias e o acesso a mais informaes sobre solues encontradas por outras comunidades e povos podem desencadear um processo muito rico de participao, levantando solues inovadoras para velhos problemas regionais. Sempre  bom lembrar que, ao final do ensino fundamental, os alunos, em conjunto com sua gerao, estaro, em breve, participando, ao menos pelo voto, das definies dos rumos do pas e de sua localidade. Alm disso, em todas as profisses  importante que se tenha clara a perspectiva da sustentabilidade.
H um aspecto positivo na simples veiculao das diferentes formas de pensar e agir sobre o mundo para o reconhecimento da existncia de outras possibilidades de relaes humanas, de organizao social, no que se refere a valores, smbolos, linguagens, representaes sociais, relacionamentos, assim como a interao com o ambiente, mediada por diferentes tcnicas e segundo outros valores.
Essa diversidade pode chegar at as localidades mais afastadas e isoladas dos centros
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urbanos, por meio das mdias, principalmente rdio e televiso. Para os alunos, o espao escolar pode ser de fundamental importncia, para problematizar essa informaes, sistematiz-las, quando for o caso, e compar-las com o que se pensa na localidade. As vrias formas de comunicao e expresso, objeto de estudo das reas de Lngua Portuguesa, Lngua Estrangeira e Arte, possibilitam trabalhar os conceitos mais importantes que esto internalizados nas mais diferentes linguagens das quais a mdia faz uso para veicular as questes ambientais.

MANEJO E CONSERVAO AMBIENTAL
O ser humano sempre criou formas de manejo da natureza para suprir suas necessidades. No  impossvel recriar tcnicas que possibilitem aes mais conservativas.
A formas de manejo do meio ambiente historicamente estabelecidas pelos diferentes povos do mundo comportam diversos conjuntos de tcnicas que vm sendo praticadas gerao aps gerao desde que o ser humano descobriu o fogo, aprendeu a construir e a utilizar instrumentos e passou a domesticar animais e a cultivar plantas, criando a agricultura e a pecuria.
Enquanto a populao humana era proporcionalmente pequena, as alteraes ambientais provocadas por tcnicas inadequadas de manejo tinham dimenso regional e, na maioria das vezes, provocavam danos reversveis. Entretanto, o crescimento populacional e a industrializao multiplicaram em muitas vezes o poder de ao humana. Mesmo assim, o critrio de sustentabilidade no tem sido suficientemente utilizado. Como conseqncia, a grande maioria das interferncias tm se mostrado extremamente danosa para a manuteno do equilbrio ambiental e para a sobrevivncia dos seres humanos.
Dentre as diversas aes dessa natureza, podem-se citar as atividades industriais poluidoras, a minerao, as atividades agropecurias que praticam o uso intensivo de adubos qumicos e agrotxicos etc. e suas conseqncias para o ambiente, como as formas perceptveis e imperceptveis de poluio do ar, do solo, da gua e sonora.
Algumas das tcnicas tradicionais mais comuns no campo tm sido as diferentes formas de desmatamentos, as queimadas e as alteraes inadequadas de relevo. Essas tcnicas, sua dimenso e potencial de desestabilizao dos ciclos naturais precisam ser compreendidas no contexto das polticas governamentais, do passado e do presente, que enfatizam a rpida extrao de madeira para exportao ou o desflorestamento para o aumento das reas de cultivo de alimentos e criao de animais, e no estimulam o uso sustentvel.
Para implementar e fazer avanar a concepo de sustentabilidade ecolgica na
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orientao das prticas de interveno e manejo,  preciso ter presente as idias de preservao e de conservao, que partem do princpio de que a natureza no pode ser pensada apenas como recurso para avaliar e escolher corretamente as tcnicas a serem utilizadas13.

Valorizao do manejo sustentvel como busca de uma nova relao sociedade/natureza.

A sustentabilidade pressupe um comprometimento com a qualidade ambiental e com a gesto adequada do desenvolvimento econmico; a compreenso de que 
13 Os termos "sustentabilidade", "conservao" e "preservao" so discutidos no anexo III.
desgastes ambientais interligam-se uns aos outros e de que problemas econmicos e ambientais esto relacionados a muitos fatores polticos e sociais. Esses so, portanto, os princpios norteadores da problematizao a ser feita pelas diferentes reas de modo que torne mais visvel e concreta a questo ambiental.
 fundamental que os professores se perguntem que concepo de relao ser humano/natureza esto ajudando seus alunos a construir.
A compatibilizao entre a utilizao dos recursos naturais e a conservao do meio ambiente, apesar de hoje ainda parecer somente uma utopia, deve ser um compromisso da humanidade. Isso pode se concretizar por meio de formas de produo que satisfaam s necessidades do ser humano, sem destruir os recursos que sero necessrios s futuras geraes.
A sustentabilidade tem sido discutida em todos os encontros e debates sobre a questo ambiental, uma vez que se impe atualmente como um grande desafio  humanidade, baseando-se em um planejamento a longo prazo e no reconhecimento de que devemos admitir os limites dos recursos naturais que utilizamos para tornar nossa vida diria possvel.
Avanar na perspectiva de um sociedade sustentvel, implica, entre muitas outras coisas, utilizar novos mtodos na agricultura, viabilizando-a economicamente; tornar as indstrias mais eficientes, diminuindo o desperdcio e reduzindo a produo de lixo txico ou no-txico; controlar a poluio das guas; realizar o manejo florestal; reciclar materiais; aprimorar o saneamento bsico dos centros urbanos.
Confrontando-se as tcnicas inadequadas de manejo com a sustentabilidade desejada, algumas solues se evidenciam. Dentro dessa perspectiva  possvel conceber-se, por exemplo, um sistema capaz de aumentar a produo de alimentos para a humanidade sem necessariamente estar ampliando as atuais fronteiras agrcolas.
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A melhoria da eficincia agrcola, por meio do uso mais adequado dos insumos, do controle biolgico de pragas, de melhores sistemas de irrigao, de produo orgnica e outras medidas, aliadas a um zoneamento que restrinja o uso das terras mais frteis para a agricultura, com preservao das reas marginais, permite uma diminuio dos impactos decorrentes das prticas atuais.
Para os alunos das reas rurais, um procedimento fundamental  saber manusear corretamente os agrotxicos, de forma controlada, e conhecer tcnicas bsicas de agricultura orgnica.

Crtica ao uso de tcnicas incompatveis com a sustentabilidade.

Nos tempos atuais, a agricultura, a extrao de madeira, a criao de animais e outros projetos de desenvolvimento em larga escala so os principais responsveis pelas queimadas, desmatamentos e mesmo por cortes e alteraes radicais do relevo. Poderamos citar tambm, como causas indiretas, o crescimento da humanidade, o aumento da demanda por produtos florestais, a distribuio desigual de terras e riquezas nos pases do Terceiro Mundo, aliados a sua crescente dvida externa, a pobreza e a realizao de objetivos militares.
O debate dos problemas decorrentes dessas prticas  como: a extino de plantas e animais, a degradao dos solos, o assoreamento dos cursos de gua, as mudanas climticas locais e regionais, a perda de biodiversidade etc.  pode contribuir para um posicionamento mais crtico do aluno, diante dessas tcnicas to difundidas e ainda constantes em diversas regies do pas.
Dentro do espao escolar,  possvel aprender pequenas aes que contribuam para o desencadeamento do desejo de participao, a despeito da amplitude que possam ter esses problemas. Entre eles, esto as tcnicas bsicas para reposio de cobertura vegetal nativa, manuteno e germinao de sementes, transporte e/ou plantio ou replicao de mudas e principais cuidados para sua manuteno.
Essas tcnicas tambm podem ser utilizadas no reflorestamento de reas s quais os alunos tm acesso.

Levantamento de construes inadequadas em reas urbanas e 	rurais.

Dentre os problemas mais comuns, podemos citar a construo inadequada em reas de grande declividade, as terraplanagens, os aterros, a retificao de leitos de rios, as barragens, etc. Algumas conseqncias dessas alteraes so a eroso do solo, a desertifcao, as enchentes, a perda de terras agricultveis, a alterao do equilbrio dos ecossistemas, dentre outras.
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O crescimento urbano desordenado, que obriga a populao mais carente a utilizar reas de risco para a construo de favelas e a ocupao de mananciais, exemplifica o contexto real de uma das formas inadequadas de alterao do relevo, e deve ser tratado quando da discusso das forma de manipulao do ambiente fsico. Pequenas aes podem ser desenvolvidas pelos alunos, a fim de minimizar problemas na comunidade local, tais como alternativas para conteno de encostas por meio da colocao de sacos de areia.

Conhecimento dos problemas causados pelas queimadas nos ecosistemas brasileiros

Devido a boa parte do territrio nacional ser coberta pelos maiores ecossistemas tropicais do planeta, torna-se indispensvel a discusso do problema das queimadas na Amaznia, no cerrado, na zona costeira, que tem se tornado um assunto de interesse internacional, pela importncia desses sistemas para o equilbrio climtico mundial.
Essas queimadas so comprovadamente danosas para o solo, que perde microorganismos importantes para a reciclagem de materiais, nutrientes volteis e a umidade natural. Alm disso, aumentam a poluio atmosfrica, contribuem para o efeito-estufa e so responsveis diretas pelo desaparecimento de ecossistemas e extino de espcies, contribuindo para a diminuio da biodiversidade.
Incluir a participao da comunidade na escola, quando tais prticas ocorrem na localidade, pode trazer  tona tcnicas alternativas mais coerentes com a sustentabilidade ecolgica desejada. Alm disso, muito provavelmente elas sejam mais facilmente exequveis do que aquelas produzidas por especialistas de outras regies.

Conhecimento e valorizao de alternativas para a utilizao dos recursos naturais

Um trabalho educativo pode contribuir para incorporar novas tcnicas aos comportamentos culturalmente cristalizados e trazer mudanas significativas na utilizao dos recursos.
Tais alternativas podem ser muito criativas, pouco dispendiosas e, na escola, algumas delas podem ser discutidas e implementadas, como as formas de evitar o desperdcio de gua e energia eltrica etc.
A mudana de atitude passa por reverter a perspectiva de que as fontes de gua, assim como o solo frtil e os outros recursos naturais, so renovveis. Isso trar aos alunos a noo da importncia do cuidado que devemos ter com eles, uma vez que so fundamentais para a sobrevivncia dos seres humanos, das demais formas de vida e para outros usos da sociedade moderna.
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Conhecimento e  valorizao de tcnicas de saneamento bsico.

As estratgias para planejar o uso de recursos e implantar formas de disposio final de rejeitos constituem o saneamento bsico.
Como esse assunto  bastante amplo e complexo e pode ser abordado nos seus diferentes aspectos (cientfico, social, poltico, comportamental), sugere-se priorizar: noes sobre captao da gua, tratamento e distribuio para o consumo; os hbitos de utilizao em casa e na escola adequados s condies locais; a necessidade e as formas de tratamento dos detritos humanos; coleta, destinao e tratamento de esgoto com procedimentos possveis adequados s condies locais (esgotamento sanitrio, fossas e outros); as prticas que evitam desperdcios no uso cotidiano de recursos com a gua, energia e alimentos; a minimizao da contaminao das guas na agricultura pelo uso de mtodos mais eficientes de irrigao e os cuidados com a utilizao de insumos e escoamento dos restos produzidos com a criao de animais.
Os alunos precisam ser capazes de diagnosticar situaes inadequadas de saneamento bsico para se sentirem sensibilizados e motivados a ajudar a resolv-las.

Conhecimento e valorizao de prticas que possibilitem a redup na gerao e a  destinao de lixo.

O trabalho pedaggico de valorizao da sustentabilidade deve, tambm, incluir a preocupao com os subprodutos do sistema produtivo, j que na maior parte das vezes suas atividades acabam gerando poluio.  necessrio discutir as alternativas regionais e globais de administrao dos problemas de poluio e produo de lixo, por serem alguns dos mais graves provocados pela ao do ser humano no meio ambiente.
Vale aqui, mais uma vez, um apanhado histrico sobre a produo de poluentes pelo ser humano, desde a antiguidade at os dias de hoje, tentando associar cada etapa com o modelo de civilizao preponderante, alm de apontar para os problemas  sade humana e ambiental que a poluio e o lixo ocasionam. Reduzir a produo do lixo  tarefa pessoal dos consumidores, do poder pblico e obrigao dos fabricantes.
Para administrar a problemtica do lixo,  necessria uma combinao de mtodos, que vo da reduo dos rejeitos durante a produo (o mtodo mais eficiente e que pode contar com a participao direta dos alunos) at as solues tcnicas de destinao, como a reciclagem, a compostagem, o uso de depsitos e incineradores.
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A capacidade atual de descarga, insuficiente para dar destinao adequada para a excessiva quantidade de resduos slidos gerados nos centros urbanos, provocou uma grande discusso sobre o problema. Afinal, tal situao acaba provocando o acmulo do lixo no ambiente, transformado-o em agente poluidor poderoso e foco de uma sries de males  sade.
Na escola, podem-se criar formas adequadas de coleta e destino do lixo, reciclagem e reaproveitamento de materiais.  possvel tambm discutir comportamentos responsveis de "produo" e "acondicionamento" em casa, e nos espaos de uso comum; o tipo de embalagens utilizado nos produtos industrializados e as diversas formas de desperdcio; o prejuzo causado por produtos descartveis no-biodegradveis; formas de pressionar os produtores para mudanas no sistema de produo e materiais empregado. Deve-se, tambm, propiciar contato com estratgias de destinao utilizadas por outras localidades, numa perspectiva de busca de solues.

Conhecimento de algumas reas tomadas como Unidades de Conservao.

Para que possam valorizar e mesmo participar mais diretamente na    reformulao
do uso do espao e da definio e tombamento de novas reas de preservao ambiental,  importante que eles aprendam noes sobre procedimentos adequados com plantas e animais; cuidados com a sade ambiental; a necessidade e as principais formas de preservao, conservao, recuperao e reabilitao ambientais, se possvel a partir de um parque ou mesmo uma praa de sua regio.  interessante que os alunos conheam tambm, mesmo que superficialmente, algumas regras brasileiras de restrio do uso de elementos do patrimnio histrico e cultural; de reas de Preservao Permanente, como as matas ciliares, as cavernas, os mangues; e de reas definidas legalmente como Unidades de Conservao.
Procedimentos adequados com plantas e animais e cuidados com a sade ambiental podem ser aprendidos por meio de pequenas aes em praas, jardins da escola, parques ou mesmo em alguma Unidade de Conservao prxima. Se houver esta ltima opo, tanto melhor, pois, nesse caso, provavelmente ser possvel entrevistar os responsveis pela manuteno dessa rea e aprender com eles.
No concato com reas de preservao os alunos podem visualizar possibilidades de sobrevivncia das comunidades locais nessas reas (se as regras estipuladas assim o permitirem) tendo em vista sua conservao. O contato com experincias e/ou informaes sobre reas de conservao de outros lugares  fundamental para enriquecer o universo de alternativas para a localidade.
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Reconhecimento das instncias do poder pblico responsvel pelo gerenciamento das questes ambientais.

Conhecer seus direitos e deveres como cidado e saber a quem e como recorrer em caso de denncias de danos ambientais contribui para tornar o aluno sujeito participante da sociedade.
A falta de implementao de polticas pblicas pode inviabilizar as prticas alternativas de sobrevivncia de minorias, como pescadores, pequenos agricultores, comunidades indgenas, inviabilizando a construo de uma dinmica de vida e interaes comunidade/natureza compatveis com a perspectiva de sustentabilidade idealizadas pela legislao.
A compreenso da organizao administrativa do poder pblico (ministrios, secretarias, diretorias, departamentos) tambm auxilia os alunos a se posicionarem como cidados participativos. Afinal, apesar de o Brasil possuir um dos mais bem elaborados sistemas de leis de preservao ambiental, nossa realidade  extremamente problemtica, pois essas leis no so cumpridas, pelo desconhecimento da populao, por descaso das autoridades ou por diversos outros fatores.
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ANEXOS
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ANEXO I
Debate sobre Educao Ambiental: encontros internacionais

Para que a idia de incorporar a abordagem das questes ambientais e a valorizao da vida na prtica educacional se transformasse numa realidade, vrias iniciativas foram tomadas por organizaes governamentais e no-governamentais sensibilizadas pelo tema.
Em 1968, a Unesco realizou um estudo comparativo, respondido por 79 pases, sobre o trabalho desenvolvido pelas escolas com relao ao meio ambiente. Nesse estudo, formularam-se proposies que depois seriam aceitas internacionalmente, tais como: 
a Educao Ambiental no deve se constituir numa disciplina;
por "ambiente" entende-se no apenas o entorno fsico, mas tambm os aspectos sociais, culturais, econmicos e polticos inter-relacionados.
Em 1972, na Conferncia das Naes Unidas para o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, estabeleceram-se o "Plano de Ao Mundial" e a "Declarao sobre o Ambiente Humano" (orientao aos governos). Foi nessa conferncia que se definiu, pela primeira vez, a importncia da ao educativa nas questes ambientais, o que gerou o primeiro "Programa Internacional de Educao Ambiental", consolidado em 1975 pela Conferncia de Belgrado.
Em 1977, na Conferncia Intergovernamental de Educao Ambiental de Tbilisi (na CEI, Gergia), definiram-se os objetivos da Educao Ambiental e o ensino formal foi indicado como um dos eixos fundamentais para conseguir atingi-los. Nessa conferncia definiu-se a Educao Ambiental como "uma dimenso dada ao contedo e  prtica da educao, orientada para a resoluo dos problemas concretos do meio ambiente por intermdio de enfoques interdisciplinares e de uma participao ativa e responsvel de cada indivduo e da coletividade".
Em 1987, na Conferncia Internacional sobre Educao e Formao Ambiental, convocada pela UNESCO e realizada em Moscou, concluiu-se pela necessidade de introduzir a Educao Ambiental nos sistemas educativos dos pases.
Na Conferncia Rio/92 aprovou-se, entre outros documentos, a "Agenda 21", que rene propostas de ao para os pases e os povos em geral, bem como estratgias para que essas aes possam ser cumpridas. Em complementao a essa agenda, os pases da Amrica Latina e do Caribe apresentaram a "Nossa Agenda", com as prioridades para seus pases. E os governos locais apresentaram a "Agenda Local". Em todos esses documentos 
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importantes referncias para governantes e educadores nesse final de sculo  tanto a Educao Ambiental quanto as aes educativas, de informao e comunicao em geral, foram das mais requeridas.
Durante a Conferncia Rio/92, reuniu-se o Frum Global do qual participaram os representantes no-governamentais (das ONG's, de movimentos sociais, sindicatos etc.). Um dos resultados do Frum Global foram os Tratados, um para cada esfera de atuao, discutidos e firmados pelos milhares de representantes presentes, das mais variadas regies do mundo. Todos eles mencionavam, dentre seus objetivos ou estratgias mais importantes, a conscientizao e a Educao Ambiental dirigidas desde aos tcnicos, profissionais e polticos, at o cidado comum, especialmente os jovens. Um dos tratados foi exclusivamente sobre Educao Ambiental: o "Tratado de Educao Ambiental para Sociedades Sustentveis e Responsabilidade Global".
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ANEXO II
Princpios da Educao Ambiental:
Tbilis / 1977
A Conferncia intergovernamental de Educao Ambiental de Tbilisi definiu, em 1977, como princpios da Educao Ambiental a ser desenvolvida nas escolas14:
considerar o meio ambiente em sua totalidade: em seus aspectos natural e construdo, tecnolgicos e sociais (econmico, poltico, histrico, cultural, tcnico, moral e esttico);

14 Esses itens resumem as resolues da referida conferncia que, por serem muito extensos, no poderiam ser citados na ntegra. Para maiores informaes, ver Dias, G. F., 1992.
constituir um processo permanente e  continuo durante todas as fases do ensino formal;
aplicar um enfoque interdisciplinar, aproveitando o contedo especfico de cada rea, de modo que se consiga uma perspectiva global da questo ambiental;
examinar as principais questes ambientais do ponto de vista local, regional, nacional e internacional;
concentrar-se nas questes ambientais atuais e naquelas que podem surgir, levando em conta uma perspectiva histrica;
insistir no valor e na necessidade da cooperao local, nacional e internacional para prevenir os problemas ambientais;
considerar de maneira explcita os problemas ambientais nos planos de desenvolvimento e crescimento;
promover a participao dos alunos na organizao de suas experincias de aprendizagem, dando-lhes a oportunidade de tomar decises e aceitar suas conseqncias;
estabelecer, para os alunos de todas as idades, uma relao entre a sensibilizao ao meio ambiente, a aquisio de conhecimentos, a atitude para resolver os problemas e a clarificao de valores, procurando, principalmente, sensibilizar os mais jovens para os problemas ambientais existentes na sua prpria comunidade;                     
ajudar os alunos a descobrir os sintomas e as causas reais dos problemas  ambientais (tanto as locais quanto as mais amplas,
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de acordo com as possibilidades de compreenso em cada fase ou ciclo de   ensino);
ressaltar a complexidade dos problemas ambientais e, em conseqncia, a necessidade de devolver o sentido crtico e as atitudes necessrias para resolv-los;
utilizar diversos ambientes com a finalidade educativa  e uma ampla gama de mtodos para transmitir e adquirir conhecimento sobre o meio ambiente, ressaltado principalmente as atividades prticas e as experincias pessoais.
Esses princpios, adotados aqui, serviro para definir alguns pontos importantes do trabalho relativo ao tema Meio Ambiente.
Pg. 232

ANEXO III

Conceitos fundamentais na problemtica ambiental

NOES BSICAS PARA AUXILIAR O PROFESSOR NA QUESTO AMBIENTAL
O conhecimento sistemtico relacionado ao meio ambiente e ao movimento ambiental  bastante recente. A prpria base conceitual  definies como a de meio ambiente e de desenvolvimento sustentvel, por exemplo  est em plena construo. De fato, no existe consenso sobre esses termos nem mesmo na comunidade cientfica; com igual razo, pode-se admitir que o mesmo ocorra fora dela.
No entanto, existe uma terminologia prpria de elementos que formam as bases gerais do que se pode chamar de pensamento ecolgico. Justamente pelo fato de estar em pleno processo de construo, a definio de muitos desses elementos  controvertida. Assim, considerou-se importante a apresentao, como uma referncia, de trs noes centrais: a de Meio Ambiente, a de Sustentabilidade e a de Diversidade.

O MEIO AMBIENTE E SEUS ELEMENTOS
O termo "meio ambiente" tem sido utilizado para indicar um "espao" (com seus componentes biticos e abiticos15 e suas interaes) em que um ser vive e se desenvolve, trocando energia e interagindo com ele, sendo transformado e transformando-o. No caso dos seres humanos, ao espao fsico e biolgico soma-se o "espao" sociocultural. Interagindo com os elementos do seu ambiente, a humanidade provoca tipos de modificao que se transformam com o passar da histria. E, ao transformar o ambiente, os seres humanos tambm mudam sua prpria viso a respeito da natureza e do meio em que vive.
De fato, quando se trata de decidir e agir com relao  qualidade de vida das pessoas,  fundamental trabalhar a partir da viso que cada grupo social tem do significado do termo "meio ambiente" e, principalmente, de como cada grupo percebe o seu ambiente e os ambientes mais abrangentes em que est inserido. So fundamentais, na formao de opinies e no estabelecimento de atitudes individuais, as representaes coletivas dos
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grupos sociais aos quais os indivduos pertencem. E essas representaes sociais so dinmicas, evoluindo rapidamente. Da a importncia de identificar qual representao social cada parcela da sociedade tem do meio ambiente, para trabalhar tanto com os alunos como nas relaes escola/comunidade.
Uma estratgia didtica para melhor estudar o meio ambiente consiste em identificar seus subsistemas ou partes deles. Assim se distinguem, por exemplo, os elementos naturais e construdos, urbanos e rurais ou fsicos e sociais do meio ambiente. No entanto, o professor deve ter em vista o fato de que a prpria abordagem ambiental implica ver que no existem tais categorias como realidades estanques, mas que h gradaes. As classificaes so simplificaes que permitem perceber certas propriedades do que se quer estudar ou enfatizar. Mas so sempre simplificaes.
Esse tema dever ser trabalhado de forma que permita uma viso ampla sobre o Meio Ambiente, cuja dinmica e caractersticas envolvem no s os elementos naturais, 
15 Componentes biticos e abiticos so os componentes de um ecossistema. Componentes biticos so os seres vivos: animais (inclusive o ser humano), vegetais, fungos, protozorios e bactrias, bem como as substncias que os compem ou so geradas por eles. Componentes abiticos so aqueles no-vivos: gua, gases atmosfricos, sais minerais e todos os tipos de radiao (Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo, 1992).
fsicos e biolgicos, mas tambm os elementos construdos e todos os aspectos sociais da relao dos seres humanos com e nesse Meio Ambiente nessa construo.
Essa abordagem implica entender o ser humano como um elemento a mais; porm, com extraordinria capacidade de atuar sobre o meio e modific-lo, imprimindo ritmos definidos pelo aprimoramento tecnolgico, muitas vezes impedindo qualquer forma natural de reconstituio das condies forjadas sem a sua ao, durante um longo perodo, constitudas pelas mais diferentes formas de interao entre seres vivos e condies fsicas. E possvel, hoje, ver os limites dessa forma humana de atuao e a possibilidade de ela poder, s vezes, voltar-se contra ele prprio.
Hoje, quando se fala em meio ambiente, a tendncia  pensar nos inmeros problemas do mundo atual, com relao  questo ambiental. Lixo, poluio, desmatamentos, espcies em extino e testes nucleares so, dentre outros, exemplos de situaes lembradas. A mdia veicula uma enorme quantidade de informaes sobre os problemas ambientais. A vantagem disso seria ainda maior para todos, se estas fossem contextualizadas nas questes mais globais que regem as relaes humanas, nas quais se inserem aquelas com  a natureza, sem atribuio de valores ao ser humano na sua origem.  muito frequente  aparecerem, na mdia, abordagens que remetam ora  idia do grande vilo, ora  do bom selvagem. Na verdade, o ser humano constri, histrica e socialmente, sua relao com o meio ambiente,  com todos os conflitos e lutas 
de interesses, diante dos quais, a problemtica ambiental passa a ter importncia somente quando:
h o risco de esgotar os recursos naturais;
trata-se de um problema de marketing, j que a interferncia devastadora no ambiente passou a ser um problema tico (ela  desabonadora para quaquer atividade econmica);
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sua ao se constitui em problema de amplitude tal que a prpria continuidade da espcie humana est em jogo, ou h, felizmente, um envolvimento psicolgico e afetivo com a natureza.

Elementos naturais do meio ambiente e os manipulados pelos seres humanos
De um lado, distinguem-se aqueles elementos que so "como a natureza os fez", sem a interveno direta dos seres humanos: desde cada recurso natural presente num sistema, at conjuntos de plantas e animais nativos, silvestres; paisagens mantidas quase sem nenhuma interveno; nascentes, rios e lagos no atingidos pela ao humana etc. Esses elementos so predominantes nas matas, nas praias afastadas, nas cavernas no-descaracterizadas. Mas, de fato, no existe uma natureza intocada pelos seres humanos, uma vez que a espcie humana faz parte da trama toda da vida no planeta e vem habitando e interagindo com os mais diferentes ecossistemas h milhes de anos.
Por isso, a maior parte dos elementos considerados naturais ou so produto de  uma interao direta com a cultura humana (uma cenoura ou uma alface, por exemplo, so na realidade produtos de manejo gentico por centenas de anos), ou provm de ambientes em que a atuao dos seres humanos no parece evidente porque foi conservativa e no destrutiva, ou ainda consistem em sistemas em que j houve regenerao, aps um tempo suficiente.
De outro lado, consideram-se os elementos produzidos ou transformados pela ao humana, que se pode chamar de elementos construdos do meio ambiente: desde matrias-primas processadas, at objetos de uso, construes ou cultivos. Em determinados sistemas prevalecem os elementos adaptados pela sociedade humana, como cidades e reas industriais, praias urbanizadas, plantaes, pastos, jardins, praas e bosques plantados etc.
Esse tipo de diferenciao  til principalmente para chamar a ateno sobre a forma como se realiza a ao dos seres humanos na natureza e sobre como se constri um patrimnio cultural. Permite discutir a necessidade, de um lado, de preservar e cuidar do patrimnio natural para garantir a sobrevivncia das espcies, a biodiversidade, conservar saudveis os recursos naturais, como a gua, o ar e o solo; e, de outro lado, preservar e cuidar do patrimnio cultural, construdo pelas sociedades em diferentes lugares e pocas. Tudo isso  importante para garantir a qualidade de vida da populao.

 reas urbana e rural
Em geral se usa essa diferenciao para distinguir as reas da concentrao
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populacional, em que o ambiente  mais fortemente modificado pela ao antrpica16  rea urbana , da rea rural, fora dos "limites" da cidade, onde se localizam desde intervenes muito fortes como as monoculturas, at as reas mais intocadas como as Unidades de Conservao (parques, reservas, estaes ecolgicas etc.).
Esse tipo de classificao  til especialmente quando se pensa em intervir em decises relativas a polticas pblicas: determinadas questes ambientais so consideradas de carter urbano, como saneamento, trnsito, reas verdes, patrimnio histrico; e outras so consideradas questes rurais, como as relacionadas aos recursos hdricos, conservao de reas com vegetao nativa, eroso, uso de agrotxicos.
Pelas regras da legislao no Brasil, muitas decises podem ser tomadas localmente quando dizem respeito ao municpio, especialmente  rea urbana. Por isso ser til para os alunos, e principalmente para a escola como instituio, conhecer os limites definidos pela prefeitura para a rea urbana. E tambm conhecer minimamente as leis, as restries, as regras que deveriam ser obedecidas em cada parte do municpio, especialmente na comunidade com a qual interagem diretamente.
Isso certamente proporcionar boas ocasies para trabalhar a participao e a cidadania com os alunos, oferecer exemplos do exerccio de valores em tomadas de deciso individuais, coletivas e institucionais.

Fatores fsicos e sociais do meio ambiente
Nesse caso estar em evidncia que, de um lado, destacam-se os fatores fsicos do ambiente, quando se vai tratar das relaes de trocas de energia e do uso dos recursos minerais, vegetais ou animais entre os elementos naturais ou construdos; e, de outro, destacam-se os fatores sociais do ambiente quando se quer tratar das relaes econmicas, culturais, polticas  de respeito ou dominao, de destruio ou preservao, de consumismo ou conservao, por exemplo que podem abranger os nveis local, regional e internacional.

Formas de interveno no meio ambiente
Muitas vezes, nas aes, nos estudos e mesmo nas leis ambientais, empregam-se termos que indicam formas cuidadosas de se lidar com o meio ambiente como proteo, conservao, preservao, recuperao e reabilitao. Em oposio atestes, emprega-se especialmente o termo "degradao ambiental", que engloba uma ou vrias formas de 

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	16 Ao antrpica  toda ao provinda do seres humanos. As conseqncias da ao antrpica, como geradora de impacto ambiental incluem fatores como  a dinamica populacional (aglomeraes, crescimento populacional, deslocamentos, fluxos migratrios), o uso e a ocupao do solo (expanso urbana, paisagismo, instalaes de infra-estrtura, rede viria etc.), a produo cultural e tambm as aes de proteo e recuperao de reas especficas (Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo, 1992).
destruio, poluio ou contaminao do meio ambiente. O que eles querem dizer? Qual a diferena entre eles?
Conhecer o significado mais preciso desses termos e as leis de proteo ambiental que incidem sobre a regio em que a escola se insere  importante para os professores. Por sua funo mesma de oferecer oportunidades para que os alunos se exercitem no desempenho da cidadania e, mais ainda, para que a escola saiba como assumir sua responsabilidade como instituio do bairro, do municpio, como parte da sociedade local instituda. Para tanto, esses termos so apresentados a seguir. Para os que so empregados pela legislao ambiental, procurou-se manter, aqui, a definio dada pela lei ou por rgos nacionais e internacionais de Meio Ambiente e de Sade17.

Proteo
Significa o ato de proteger.  a dedicao pessoal quele ou quilo que dela precisa;  a defesa daquele ou daquilo que  ameaado. O termo "proteo" tem   sido utilizado por vrios especialistas para englobar os demais: preservao, conservao, recuperao etc. Para eles, essas so formas de proteo. No Brasil h vrias leis estabelecendo reas de Proteo Ambiental (APAs), que so espaos do territrio brasileiro, assim definidos e delimitados pelo poder pblico (Unio, estado  ou municpio), 
cuja proteo se faz necessria para garantir o bem-estar das populaes presentes e futuras e o meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Nas APAs declaradas pelos estados e municpios podero ser estabelecidos critrios e normas complementares (de restrio ao uso de seus recursos naturais), levando-se em considerao a realidade local, em especial a situao das comunidades tradicionais que porventura habitem tais regies. O uso dos recursos naturais nas APAs s pode se dar desde que "no comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteo" (Constituio Federal, art; 225,  1, III);

Preservao
Preservao  a ao de proteger, contra a destruio e qualquer forma de dano ou degradao, um ecossistema, uma rea geogrfica ou espcies animais e vegetais ameaadas de extino, adotando-se as medidas preventivas legalmente necessrias e as medidas de vigilncia adequadas.
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O Cdigo Florestal estabelece reas de preservao permanente, ao longo dos cursos d'gua (margens de rios, lagos, nascentes e mananciais em geral), que ficam impedidas de qualquer uso. Essas reas se destinam, em princpio,  vegetao ou mata ciliar18 especialmente importante para garantir a qualidade e a quantidade das guas, prevenindo assoreamento e contaminao.
A Constituio brasileira impe, tambm, a preservao do meio ambiente da Serra do Mar, da Floresta Amaznica, da Mata Atlntica, do Pantanal Mato-Grossense e da Zona Costeira (Constituio Federal, art. 225,  4).

Conservao
Conservao  a utilizao racional de um recurso qualquer, para se obter um 

17 Definies extradas de Organizao Mundial da Sade (OMS) (ver Teixeira, P. F., 1996); Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo; Fundao Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema, RJ); Cdigo Florestal, Lei n 4.771 de 15/09/1965; Resolues do Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente) e Constituio Federal, artigo 225.
18 Mata ciliar  a faixa de vegetao nativa s margens de rios. lagos, nascentes e mananciais em geral, especialmente importante para garantir a qualidade e a quantidade das guas, prevenindo assoreamento e contaminao (Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo, 1992).

rendimento considerado bom, garantido-se, entretanto, sua renovao ou sua auto-sustentao. Analogamente, conservao ambiental quer dizer o uso apropriado do meio ambiente dentro dos limites capazes de manter sua qualidade e seu equilbrio em nveis aceitveis.
Para a legislao brasileira, "conservar" implica manejar, usar com cuidado, manter; enquanto "preservar"  mais restritivo: significa no usar ou no permitir qualquer interveno humana significativa.

Recuperao
Recuperao, no vocabulrio comum,  o ato de recobrar o perdido, de adquiri-lo novamente. O termo "recuperao ambiental" aplicado a uma rea degradada pressupe que nela se restabeleam as caractersticas do ambiente original. Nem sempre isso  vivel e s vezes pode no ser necessrio, recomendando-se ento uma reabilitao.
Uma rea degradada pode ser reabilitada (tornar-se novamente habilitada) para diversas funes, como a cobertura por vegetao nativa local ou destinada a novos usos, semelhantes ou diferentes do uso anterior  degradao. A lei prev, na maioria dos casos, que o investimento necessrio  recuperao ou reabilitao seja assumido pelo agente degradador.
Alm disso, o agente responsvel pelo dano ambiental deve reparar esse dano. Reparao  o ressarcimento, para efeito de consertar ou atenuar dano causado a pessoa ou patrimnio, e, no caso de dano ambiental, alm de provvel pagamento de multa, pode envolver a obrigao de recuperar ou reabilitar a rea degradada.
Degradao
Degradao ambiental consiste em alteraes e desequilbrios provocados no meio
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ambiente que prejudicam os seres vivos ou impedem os processos vitais existentes. Embora possa ser causada por efeitos naturais, a forma de degradao que mais preocupa governos e sociedades  aquela causada pela ao antrpica, que pode e deve ser regulamentada.
A atividade humana gera impactos ambientais que repercutem nos meios fsico-biolgicos e socioeconmicos, afetando os recursos naturais e a sade humana, podendo causar desequilbrios ambientais no ar, nas guas, no solo e no meio sociocultural. Algumas das formas mais conhecidas de degradao ambiental so: a desestruturao fsica (eroso, no caso de solos), a poluio e a contaminao.
Para a Fundao Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, poluio  a "introduo, no meio, de elementos tais como organismos patognicos, substncias txicas ou radioativas, em concentraes nocivas  sade humana". Fala-se tambm em contaminao, "muitas vezes como sinnimo de poluio, porm quase sempre em relao direta sobre a sade humana". De fato, para a Organizao Mundial da Sade  rgo da ONU , "poluio ou contaminao ambiental  uma alterao do meio ambiente que pode afetar a sade e a integridade dos seres vivos".

SUSTENTABILIDADE
O Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), com o apoio da ONU e de diversas organizaes no-governamentais, props, em 1991, princpios, aes e estratgias para a construo de uma sociedade sustentvel19. Na formulao dessa proposta emprega-se a palavra "sustentvel" em diversas expresses: desenvolvimento sustentvel, economia sustentvel, sociedade sustentvel e uso sustentvel. Parte-se do princpio de que "se uma atividade  sustentvel, para todos os fins prticos ela pode continuar indefinidamente. Contudo, no pode haver garantia de 
19 Organizao das Naes Unidas, 1991.
sustentabilidade a longo prazo porque muitos fatores so desconhecidos ou imprevisveis".
Diante disso, prope-se que as aes humanas ocorram dentro das tcnicas e princpios conhecidos de conservao, estudando seus efeitos para que se aprenda rapidamente com os erros. Esse processo exige monitorizao das decises, avaliao e redirecionamento da ao. E muito escudo. Portanto, traz implicaes para o trabalho dos professores e responsabilidades para a escola como uma das instncias da sociedade que pode contribuir para o mesmo processo.
Uma sociedade sustentvel, segundo o mesmo Programa,  aquela que vive em harmonia com nove princpios interligados apresentados a seguir:

Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos (princpio fundamental). Trata-se de um princpio tico que "reflete o dever de nos preocuparmos com as outras pessoas e outras formas de vida, agora e no futuro".
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Melhorar a qualidade da vida humana (critrio de sustentabilidade). Esse  o verdadeiro objetivo do desenvolvimento, ao qual o crescimento econmico deve  estar sujeito: permitir aos seres humanos "perceber o seu potencial, obter autoconfiana e uma vida plena de dignidade e satisfao".

Conservar a vitalidade e a diversidade do Planeta Terra (critrio de sustentabilidade). O desenvolvimento deve serial que garanta a proteo "da estrutura, das funes e da diversidade dos sistemas naturais do Planeta, dos quais temos absoluta dependncia".

Minimizar o esgotamento de recursos no-renovveis (critrio de sustentabilidade). So recursos como os minrios, petrleo, gs, carvo mineral. No podem ser usados de maneira "sustentvel" porque no so renovveis, pelo menos na escala de tempo humana. Mas podem ser retirados de modo a reduzir perdas e principalmente minimizar o impacto ambiental. Devem ser usados de modo a "ter sua vida prolongada como, por exemplo, por meio de reciclagem, pela utilizao de menor quantidade na obteno de produtos, ou pela substituio por recursos renovveis, quando possvel".

 Permanecer nos limites de capacidade de suporte do planeta Terra (critrio de sustentabilidade). No se pode ter uma definio exata, por enquanto, mas sem dvida h limites para os impactos que os ecossistemas e a biosfera como um todo podem suportar sem provocar uma destruio arriscada. Isso varia de regio para regio. Poucas pessoas consumindo muito podem causar tanta destruio quanto muitas pessoas consumindo pouco. Devem-se adqtar polticas que desenvolvam tcnicas adequadas e tragam equilbrio entre a capacidade da natureza e as necessidades de uso pelas pessoas.

Modificar atitudes e prticas pessoais (meio para se chegar  sustentabilidade). "Para adotar a tica de se viver sustentavelmente, as pessoas devem reexaminar os seus valores e alterar o seu comportamento. A sociedade deve promover atitudes que apoiem a  nova tica e desfavoream aqueles que no se coadunem com o modo de vida sustentvel.
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Permitir que as comunidades cuidem de seu prprio ambiente (meio para se chegar  sustentabilidade).  nas comunidades que os indivduos desenvolvem a maioria das atividades produtivas e criativas. E constituem o meio mais acessvel para a manifestao de opinies e tomadas de decises sobre iniciativas e situaes que afetam.

Gerar  uma estrutura nacional para  a integrao de desenvolvimento e conservao ( meio para se chegar  sustentabilidade). A estrutura  deve garantir uma base de informao e conhecimento, leis e  instituies, polticas econmicas e sociais  coerentes. A estrutura deve ser flexvel e regionalizvel, considerando cada regio de modo integrado, centrado nas pessoas e nos fatores sociais, econmicos, tcnicos e  polticos que influem na sustentabilidade dos processos de gerao e distribuio de riqueza e bem estar.  

Contruir uma aliana global (meio para se chegar  sustentabilidade). Hoje, mais do que antes, a sustentabilidade do planeta depende da confluncia das aes de todos os pases, de todos os povos. As grandes desigualdades entre ricos e pobres so prejudiciais a  todos. Atica do cuidado com a Terra aplica-se em todos os nveis, internacional, nacional e individual. Todas as naes s tm a ganhar com  a sustentabilidade mundial e todas esto ameaadas caso no consigamos essa sustentabilidade.
DIVERSIDADE
Um dos valores que passa a ser reconhecido como essencial para a sustentabilidade da vida na Terra  o da conservao da diversidade biolgica (biodiversidade). E, para a sustentabilidade social, reconhece-se a importncia da diversidade dos tipos de sociedades, de culturas (sociodiversidade).
Os seres vivos evoluram por milhes de anos, chegando o mundo  forma como est hoje, num equilbrio qumico e climtico que permitiu o aparecimento das espcies atuais, entre elas a espcie humana. A diversidade biolgica ou biodiversidade consiste no conjunto total de disponibilidade gentica de diferentes espcies e variedades, de diferentes ecossistemas. Por lentos processos evolutivos, surgem novas variedades, novas espcies, constituem-se novos sistemas. E por mudanas nas condies ecolgicas, outras variedades, espcies e ecossistemas desaparecem. Mas as atividades humanas esto agora acelerando
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muito as mudanas nas condies ecolgicas, levando a rpidas mudanas climticas e  extino de espcies e variedades, o que tem uma gravidade considervel.
Pouco se sabe ainda do papel relativo de cada espcie e de cada ecossistema na manuteno desse equilbrio em condies viveis para a sobrevivncia. Mas sabe-se que todas as espcies so componentes do sistema de sustentao da vida, que a conservao da biodiversidade  estratgica para a qualidade de vida. Cada vez mais descobrem-se substncias de grande valor para a sade, alimentao, obteno de tinturas, fibras e outros usos, no grande laboratrio representado pelas diferentes espcies de plantas e animais, muitas at pouco tempo desconhecidas ou desprezadas pela cultura oficial. A diversidade biolgica deve ser conservada no s por sua importncia conhecida e presumvel para a humanidade, mas por uma questo de princpio: todas as espcies merecem respeito, pertencemos todos  mesma e nica trama da vida neste planeta.
Quanto  diversidade das formas de sociedade e cultura, em poucas palavras,  importante reconhecer a imensa variedade de modos de vida, de relaes sociais, de construes culturais que a humanidade chegou a desenvolver. Essa variedade, embora tenha uma relao com os ambientes em que as diferentes sociedades evoluram, no foi condicionada univocamente por essas condies, j que a imaginao e a criatividade humana so ilimitadas: em circunstncias semelhantes, muitas formas diferentes de vida e de expresso cultural so propostas por diferentes grupos, muitas solues diferentes podem ser encontradas para problemas semelhantes.
Toda a riqueza de solues, de expresses culturais, de concepes de mundo, de vida em sociedade presentes nos milhares de povos contemporneos, bem como em suas histrias, constitui-se igualmente num patrimnio que interessa a toda a humanidade conservar. No no sentido de congelar, estancar. Mas no sentido de valorizar, respeitar e permitir a continuidade do processo histrico-cultural de cada povo, em vez de acultur-lo, impondo-lhe condies de vida que exijam o abandono dos meios de subsistncia e de produo cultural que lhe so prprios. Tanto os povos indgenas quanto as culturas regionais, todos os grupos de diferentes procedncias que enriquecem a formao tnica e cultural, devem ter seu espao de manifestao garantido e sua dignidade e seu amor prprio resgatados quando em situao de desapreo ou discriminao. 
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PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS
SADE
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APRESENTAO
O ensino de Sade cem sido um desafio para a educao no que se refere possibilidade de garantir uma aprendizagem efeciva e transformadora de atitudes e hbito de vida. As experincias mostram que transmitir informaes a respeito do funcionamento do corpo e das caractersticas das doenas, bem como de um elenco de hbitos de higiene, no  suficiente para que os alunos desenvolvam atitudes de vida saudvel.
 preciso educar para a sade levando em conta todos os aspectos envolvidos na formao de hbitos e atitudes que acontecem no dia-a-dia da escola. Por esta razo, a educao para a Sade ser tratada como tema transversal, permeando todas as reas que compem o currculo escolar.
O presente texto situa a questo na realidade brasileira, indicando possibilidades de ao e transformao dos atuais padres existentes na rea de Sade.
Na primeira parte, o texto trata de uma concepo dinmica da Sade, entendida como direito universal e como algo que as pessoas constrem ao longo de suas vidas, em suas relaes sociais e culturais. Na abordagem apresentada, a educao  considerada um dos fatores mais significativos para a promoo da sade. Ao educar para a sade, de forma concextualizada e sistemtica, o professor e a comunidade escolar contribuem de maneira decisiva na formao de cidados capazes de acuar em favor da melhoria dos nveis de sade pessoais e da coletividade.
Na segunda parte do documento so apresentadas as possibilidades de trabalho com as quatro ltimas sries do ensino fundamental.
Secretaria de Educao Fundamental
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SADE
1 PARTE
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O QUE  SADE?
Consideraes iniciais
O processo sade/doena  inerente  vida. Conhecimentos, dores e perplexidades associados s enfermidades, bem como recomendaes para a conquista da longevidade e do vigor fsico e mental, foram sendo transmitidos de gerao a gerao ao longo da histria humana. As interpretaes sobre as circunstncias nas quais as pessoas se protegem das doenas, sobre suas causas, o relato de sua repercusso na histria de cada indivduo e/ou grupo social foram elementos sempre presentes nas diferentes formaes culturais.
Mas a palavra de origem latina salute  salvao, conservao da vida  vem assumindo significados muito diversos, pois a concepo de sade que permeia as relaes humanas no pode ser compreendida de maneira abstraa ou isolada. Os valores, recursos e estilos de vida que contextualizam e compem a situao de sade de pessoas e grupos em diferentes pocas e formaes sociais se expressam por meio de seus recursos para a valorizao da vida, de seus sistemas de cura, assim como das polticas pblicas que revelam as prioridades estabelecidas.
Na atualidade, convive-se com uma diversidade considervel de concepes de sade, entre as quais algumas bastante conhecidas que funcionam como referncias mundiais e/ ou nacionais.  o caso, por exemplo, do conceito de sade assumido em 1948 pela Organizao Mundial de Sade: "Sade  o estado de completo bem-estar fsico, mental e social e no apenas a ausncia de doena". Esse conceito nos remete  utopia  e por que no?  de "sade tima", embora no nos fornea muitas indicaes concretas sobre o que seria essa situao de "completo bem-estar".
Se sade no  apenas ausncia de doena, quais so as outras caractersticas que nos permitem concluir que um indivduo no doente seja saudvel de fato? Com uma razovel facilidade, compreende-se o que  uma pessoa doente tomando como referncia o ponto de vista biolgico; no entanto, essa mesma pessoa pode estar perfeitamente bem integrada a seu grupo de relaes e inserida nos processos de produo, sendo, do ponto de vista social, uma pessoa considerada saudvel, a despeito de seu reconhecido comprometimento fsico. Pode-se lembrar de pessoas portadoras de deficincias ou limitaes temporrias em funo da ocorrncia de acidentes. So condies que transformam mas no interrompem o processo de desenvolvimento humano e tampouco eliminam os aspectos saudveis da vida. E o que dizer daqueles que usam culos ou prteses dentrias? O enfermo que est no leito mas que ainda assim continua se comunicando com outras pessoas, se alimentando, produzindo idias, pode ser considerado cem por cento doente? Seria justo excluir a sade e o direito  sade da vida das pessoas com sofrimentos 
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O fato  que sade e doena no so valores abscratos ou situaes absolutas, entre os quais se possa interpor uma clara linha divisria; da mesma maneira, no so condies estticas, j que a mudana, e no a estabilidade,  predominante na vida, tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista social.
O que se entende por sade depende da viso que se tenha do ser humano e de sua relao com o ambiente, e este entendimento pode variar de um indivduo para outro, de uma cultura para outra e ao longo do tempo. A diversidade de expresses idiomticas e artsticas relacionadas ao assunto pode ilustrar a enorme variedade de maneiras de sentir, viver e explicitar valores e padres de sade ou doena.  necessrio reconhecer que a  compreenso de sade tem alto grau de subjetividade e determinao histrica, na medida em que indivduos e coletividades consideram ter mais ou menos sade dependendo do momento, do referencial e dos valores que atribuam a uma situao.
Quando, por exemplo, as relaes mais amplas entre o organismo vivo e o meio ambiente so ignoradas ou minimizadas, a doena  entendida como uma disfuno orgnica que afeta um indivduo (ou parte de seu corpo), causada por um agente qumico, fsico ou biolgico, capaz de provocar alteraes nesse organismo. Diz-se, nesse caso, que se tem uma viso reducionista de sade, pois a sua interpretao se restringe  relao entre um provvel candidato a doente  o ser humano  e um vrus, bactria ou outro agente qualquer que pode causar a doena.
Ao se ampliar o entendimento das relaes entre o indivduo e o meio ambiente, a condio de sade ou doena passa a ser interpretada de maneira mais complexa: parte-se de uma circunstncia biolgica conhecida  no caso, a doena  para a especificao das condies mais favorveis  sua instalao. Ainda assim, permanece a possibilidade de tratar sade e doena como estados independentes que resultam de relaes mecnicas dos indivduos com o ambiente.
Um modelo mais abrangente de anlise do fenmeno sade/doena considera-o como emergente das prprias formas de organizao da sociedade. Esse modelo no nega a existncia e/ou a relevncia do fenmeno biolgico, muito menos o processo de interao que se estabelece entre o agente causador da doena, o indivduo suscetvel e o ambiente.
No entanto, prioriza o entendimento de sade como um valor colenvo, de determinao social. Esta concepo traz em seu bojo a proposio de que a sociedade se organize em defesa da vida e da qualidade de vida.
Na realidade, para pensar e acuar sobre a sade  preciso romper com enfoques que dividem a questo, ou seja, colocar todo o peso da conquista da sade no indivduo, em sua herana gentica e empenho pessoal  to limitado quanto considerar que a sade  determinada apenas pela realidade social ou pela ao do poder pblico. Interferir sobre o processo sade/doena est ao alcance de todos e no  uma tarefa a ser delegada, deixando ao cidado ou  sociedade o papel de objeto da interveno "da natureza", do poder pblico, dos profissionais de sade ou, eventualmente, de vtima do resultado de suas aes. 
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Acreditar que cidadania  exerccio de sujeitos do processo sade/doena  a motivao essencial da educao para a sade. Esta  a concepo de sade que fundamenta os Parmetros Curriculares Nacionais de Educao para a Sade.

Em busca de um conceito dinmico de sade
A despeito das diferentes possibilidades de encarar o processo sade/doena, no se pode compreender ou transformar a situao de sade de indivduos e coletividades sem levar em conta que ela  produzida nas relaes com o meio fsico, social e cultural.
Intrincados mecanismos determinam as condies de vida das pessoas e a maneira como nascem, vivem e morrem, bem como suas vivncias em sade e doena. Entre os inmeros facores determinantes da condio de sade, incluem-se os condicionantes biolgicos (sexo, idade, caractersticas pessoais eventualmente determinadas pela herana gentica), o meio fsico (que abrange condies geogrficas, caractersticas da ocupao humana, fontes de gua para consumo, disponibilidade e qualidade dos alimentos, condies de habitao), assim como o meio socioeconmico e cultural, que expressa os nveis de ocupao e renda, o acesso  educao formal e ao lazer, os graus de liberdade, hbitos e formas de relacionamento interpessoal, as possibilidades de acesso aos servios voltados para a promoo e recuperao da sade e a qualidade da ateno por eles prestada.
Falar de sade, portanto, envolve componentes aparentemente to dspares como a qualidade da gua que se consome e do ar que se respira, as condies de fabricao e uso de equipamentos nucleares ou blicos, o consumismo desenfreado e  misria, a degradao social e a desnutrio, os estilos de vida pessoais e as formas de insero das diferentes parcelas da populao no mundo do trabalho. Implica, ainda, na considerao dos aspectos ticos relacionados ao direito  vida e  sade, aos direitos e deveres, s aes e omisses de indivduos e grupos sociais, dos servios privados e do poder pblico.
A humanidade j dispe de conhecimentos e de tecnologias que podem melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas. No entanto, alm de no serem aplicados em benefcio de todos por falta de priorizao de polticas sociais, h uma srie de enfermidades relacionadas ao potencial gentico de indivduos ou etnias ou ao risco pura e simplesmente de viver. Por melhores que sejam as condies de vida, necessariamente convive-se com doenas e deficincias, problemas de sade e com a morte.
A busca do entendimento do processo sade/doena e seus mltiplos determinantes leva a concluir que nenhum ser humano (ou populao) pode ser considerado totalmente saudvel ou totalmente doente: ao longo de sua existncia, vive condies de sade/doena de acordo com suas pocencialidades, suas condies de vida e sua interao com elas.
A sade deixa de ser avesso ou imagem complementar da doena, expressando-se na luta pela ampliao do uso das potencialidades de cada pessoa e da sociedade, reflorindo 
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sua capacidade de defender a vida. E a vitalidade fsica, mental e social para a atuao frente s permanentes transformaes pessoais e sociais, frente aos desafios e conflitos, expressa esse potencial. Sade , portanto, produto e parte do estilo de vida e das condies de existncia, sendo a vivncia do processo sade/doena uma forma de representao da insero humana no mundo.

Brasil:  onde  necessrio prevenir e remediar
No Brasil, na ltima dcada, vem se incorporando progressivamente  cultura e  legislao a concepo de que sade  direito de todos e dever do Estado. Um passo importante foi dado ao se promulgar a Constituio de 1988, que legitima o direito de todos, sem qualquer discriminao, s aes de sade, assim como explicita o dever do poder pblico em prover pleno gozo desse direito.
A concepo abrangente de sade assumida no texto constitucional aponta para "uma mudana progressiva dos servios, passando de um modelo assistencial, centrado na doena e baseado no atendimento a quem procura, para um modelo de ateno integral  sade, no qual haja incorporao progressiva de aes de promoo e de proteo, ao lado daquelas propriamente ditas de recuperao"1.
A Constituio de 1988 prev, ainda, a implantao do Sistema nico de Sade  SUS. O SUS tem carter pblico, deve compreender uma rede de servios regionalizada, hierarquizada e descentralizada, com direo nica em cada esfera de governo (municipal, estadual e federal) e sob controle dos usurios por meio da participao popular nas Conferncias e Conselhos de Sade.
A despeito de que a legislao estabelea um modelo de ateno integral  sade o que inclui a prtica de aes de promoo, proteo e recuperao , as polticas pblicas e privadas para o setor favorecem, em muitos casos, a disseminao da ideia 
1Ministrio da Sade, 1990. 
que a sade se concretiza exclusiva ou prioritariamente mediante o acesso a servios, em especial ao tratamento mdico.
A implementao de modelos centrados em hospitais, em exames laboratoriais e consultas mdicas e no incentivo ao consumo abusivo de medicamentos vem resultando, historicamente, na assistncia baseada em aes curativas, desencadeadas apenas quando a doena j est instalada e o indivduo precisa de socorro. Para reverter essa tendncia, os servios de sade devem desempenhar papel importante na preveno, na cura ou na reabilitao e na minimizao do sofrimento de pessoas portadoras de enfermidades ou deficincias. Devem funcionar como guardies da sade individual e coletiva, at mesmo para reduzir a dependncia da populao em relao a esses servios, ou seja, devem ampliar a capacidade de autocuidado das pessoas e da sociedade. 
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Caminhar para a implantao plena do SUS, na forma como  definido em lei,  hoje uma estratgia para a conquista da cidadania. Seus princpios doutrinrios de universalidade, equidade e integralidade so referncias para o planejamento e implementao de aes de promoo, proteo e recuperao da sade.
Mas a enorme distncia a ser percorrida entre a vida real e as possibilidades apontadas pela lei faz com que os brasileiros vivam uma realidade de contrastes.  heterogeneidade inter e intra-regional de um pas de enormes dimenses sobrepe-se a ineqidade que marca a sociedade brasileira.
A maior parte dos casos de doena e morte prematura tem, ainda hoje, como causa direta, condies desfavorveis de vida: as elevadas taxas de desnutrio infantil e anemia e a prevalncia inaceitvel de hansenase (conhecida ainda como lepra) decorrem da falta de condies mnimas de alimentao, saneamento e moradia para a vida humana.
Paradoxalmente, as doenas cardiovasculares, tpicas de pases desenvolvidos, vm ganhando crescente importncia entre as causas de morte, associadas principalmente ao estresse, a hbitos alimentares imprprios, ao tabagismo compulsivo,  vida sedentria e  ampliao da expectativa de vida.
Entretanto, doenas associadas aos estilos de vida, que se impem de forma global neste fim de sculo, distribuem-se entre pessoas de diferentes faixas de renda e posies socioeconmicas de forma mais igualitria do que aquelas associadas  pobreza, de forma que a maioria da populao brasileira, submetida a precrios padres de vida, fica sujeita a um espectro mais amplo de riscos.
Em suma, convivem no Brasil a antiga necessidade de implantao efetiva de aes bsicas para a proteo da sade coletiva e a exigncia crescente de acendimento voltado para as chamadas doenas modernas. Primeiro e Terceiro Mundo, com todas as suas diferenas e disparidades, esto presentes no territrio brasileiro, tanto nas macros como nas microrregies. Isso se expressa, como no poderia deixar de ser, em nveis extremamente diferenciados de qualidade de vida e sade. 

Assumindo compromissos para a ao
Os impasses vivenciados na rea da sade podem sugerir que o desafio que se impe  grande demais para ser enfrentado ou caro demais para ser custeado.
O relatrio do Fundo das Naes Unidas para a Infncia (Unicef), "Situao Mundial da Infncia  1993", combate com nfase essa idia. Demonstra que o atendimento universal de necessidades humanas elementaresentre as quais destacam-se alimentao, habitao adequada, acesso  gua limpa, aos cuidados primrios de sade e  educao bsica   vivel em uma dcada, a um custo extra de US$ 25 bilhes anuais. Cita, para fins de comparao, que essa cifra  inferior ao gasto anual da populao dos Estados Unidos
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com o consumo de cerveja. O relatrio reporta-se, ainda, ao sucesso obtido no cumprimento de metas, como a da vacinao de 80% das crianas do mundo at 1990. Bangladesh, por exemplo, ampliou a cobertura vacinai de suas crianas de 2 para 62% em apenas cinco anos, entre 1985 e 1990.  interessante lembrar que, neste sculo, uma doena milenar como a varola foi eliminada e que a paralisia infantil est prestes a ser erradicada.
"(...) o fato  que, apesar de todos os recuos, houve maiores progressos durante os
ltimos 50 anos do que nos 2.000 anos anteriores. Desde o final da Segunda Guerra Mundial
(...) as taxas de mortalidade entre recm-nascidos e crianas caiu para menos da metade; a expectativa de vida mdia aumentou em cerca de 1/3; a proporo do nmero de crianas no mundo em desenvolvimento que entraram na escola subiu mais de 3/4; e a porcentagem de famlias rurais com acesso  gua limpa subiu de menos de 10% para quase 60%. Na prxima dcada, existe uma clara possibilidade de romper com aquilo que pode ser chamado de ltima grande obscenidade: a desnutrio, as doenas e o analfabetismo desnecessrios, que ainda obscurecem a vida e o futuro da quarta parte mais pobre das crianas de todo o mundo."2
O que se deseja enfatizar  que grandes saltos na condio de vida e sade da maioria da populao brasileira e mundial so possveis por meio de medidas j conhecidas, de baixo custo e eficazes, sensveis j  prxima gerao. So desafios grandiosos mas exequveis. Numerosos exemplos podem ser encontrados em experincias locais, especialmente nos municpios brasileiros que ousaram cumprir a lei e caminhar para a implantao do SUS, produzindo impacto expressivo nas taxas de mortalidade infantil e de desnutrio, prevenindo a ocorrncia de doena bucal ou ampliando o controle da disseminao de doenas transmissveis.
Alm das possibilidades j apontadas, o conceito de "Cidade Saudvel", originado no Canad na dcada de 80, vem norteando a implementao de projetos em favor da qualidade de vida em diversas regies do mundo, a partir de sua incorporao pela Organizao Mundial de Sade. Considera-se que uma "Cidade Saudvel" deva ter:
uma comunidade de forte, solidaria e constituida sobre base de justia social, na qual ocorre alto grau de participao da populao nas decises do poder pblico;
ambiemte favorvel ao estilo de vida e a sade, limpo e seguro satisfao das necessidades bsicas dos cidados, includos a alimentao, a moradia, o trabalho, o acesso a servios de qualidade em sade, educao e assistncia social;
vida cultural ativa, sendo provido o contato com a herana cultural e a paraticipao numa grande variedade de experincias;
economia forte, diversificada e inovadora. 
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A promoo da sade ocorre, portanto, quando so asseguradas as condies para a vida digna dos cidados, e, especificamente, por meio da educao, da adoo de estilos de vida saudveis, do desenvolvimento de aptides e capacidades individuais, da produo de um ambiente saudvel, da eficcia da sociedade na garantia de implantao de polticas pblicas voltadas para a qualidade da vida e dos servios de sade. Entre as                            2 Unicef, 1993. 
aes de natureza eminentemente protetoras da sade, encontram-se tambm as medidas de vigilncia epidemiolgica (identificao, registro e controle da ocorrncia de doenas), saneamento bsico, vigilncia sanitria de alimentos, do meio ambiente e de medicamentos, adequao do ambiente de trabalho ou aconselhamentos especficos como os de cunho gentico ou sexual. Protege-se a sade por meio da vacinao, da realizao de exames mdicos e odontolgicos peridicos, da fluoretao das guas para prevenir a crie dental e, principalmente, conhecendo em cada momento o estado de sade da comunidade e desencadeando, quando necessrio, medidas dirigidas  preveno e ao controle de agravos, mediante a identificao de riscos potenciais. A grande maioria das causas de doenas e deficincias poderiam ser evitadas por meio de aes preventivas. As medidas curativas e assistenciais, voltadas para a recuperao da sade individual, complementam a ateno integral  sade. 
	Sem dvida, a melhoria das condies de vida e sade no  automtica nem est garantida pelo passar do tempo, assim como o progresso e o desenvolvimento no trazem necessariamente em seu bojo a sade e a longevidade. A compreenso ampla dos fatores intervenientes e dos compromissos polticos necessrios so exigncias para sua efetivao. 
Neste cenrio, a educao para a Sade pode cumprir papel destacado: favorece o processo de conscientizao quanto ao direito  sade e instrumentaliza para a interveno individual e coletiva sobre os condicionantes do processo sade/doena  Pg.255
EDUCAO PARA A SADE CONSOLIDABDO POSIES, ESTABELECENDO LIMITES E POSSUBILIDADES
Tambm no interior da escola, as questes sobre a sade encontraram espao para diferentes abordagens, segundo as inflexes socioeconmicas, polticas e ideolgicas de cada momento histrico. Em outras palavras, o que a sociedade entende por sade est sempre presente na sala de aula e no ambiente escolar. 
UM pouco da histria da abordagem da sade no currculo das escolas brasileiras: Ensino de sade ou Educao para a sade?
Desde o sculo passado, ainda que no se tivesse destinado um espao especfico para abordar a questo, os contedos relativos a sade e doena foram sendo incorporados ao currculo escolar brasileiro de uma maneira que refletia as mesmas vicissitudes e perspectivas com as quais essas questes eram socialmente tratadas. Assim, por exemplo, disciplinas como Higiene, Puericultura, Nutrio e Diettica ou Educao Fsica, e, mais recentemente, Cincias Naturais e Biologia, divulgaram conhecimentos relativos aos mecanismos pelos quais os indivduos adoecem ou asseguram sua sade.
Em suas prticas pedaggicas, a escola adotou sistematicamente uma viso reducionista de sade, enfatizando os seus aspectos biolgicos. Mesmo ao considerar a importncia das condies ambientais mais favorveis  instalao da doena, a relao entre o "doente" e o "agente causal" continuou  e continua at hoje  a ser priorizada. 
Nessa linha, por exemplo, o grande vilo da tuberculose  o bacilo de Koch e ainda que a doena seja causada de fato por esse microrganismo, a viso que comea e termina nos processos biolgicos no estimula a discusso de questes como:
 por que nem todas as pessoas infectadas com o bacilo de Koch - ficam doentes?
 por que a tuberculose  praticamente ausente de certos grupos  sociais?  
 quais as condies e/ou caractersticas de vida daqueles que apresentam o bacilo e adoecem?
 por que a incidncia dessa doena voltou  crescer em anos "recentes? 
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Apesar dessa longa tradio, apenas em 1971, a Lei n 5.692 veio introduzir formalmente no currculo escolar a temtica da sade, sob a designao genrica de Programas de Sade, com o objetivo de "levar a criana e o adolescente ao desenvolvimento de hbitos saudveis quanto  higiene pessoal, alimentao, prtica desportiva, ao trabalho e ao lazer, permitindo-lhes a sua utilizao imediata no sentido de preservar a sade pessoal e a dos outros"3.
A lei estabeleceu, igualmente, que os Programas de Sade fossem trabalhados no como disciplina, mas sim "de modo pragmtico e contnuo, por meio de atividades (segundo um) tipo de ensino que deve contribuir para a formao de atitudes e aquisio de conhecimentos, de valores que condicionem os comportamentos dos alunos, estimulando-os a aprender e capacitando-os a tomar atitudes acertadas nesse campo".
Essas diretrizes gerais foram implantadas de forma heterognea pelos governos estaduais, segundo a linha de atuao que j vinham assumindo mais do que respondendo ao novo referencial que pretendia ampliar o entendimento da educao para a sade.
Em 1977, o Conselho Federal de Educao reafirma a posio de que os Programas de Sade no devem ser encarados como uma matria ou disciplina, mas como uma "preocupao geral do processo formativo, intrnseca  prpria finalidade da escola", devendo ser trabalhados "por meio de uma correlao dos diversos componentes curriculares, especialmente Cincias, Estudos Sociais e Educao Fsica"4. 
Na dcada de 80, diversos estados brasileiros j haviam desencadeado processos de reformulao de seus currculos, buscando a incorporao de tendncias mais progressistas na rea da educao. No entanto, inmeros estudos sobre a incorporao dos temas da sade nos currculos fornecem indicaes de que, na prtica, pouco se caminhou para romper com a tendncia de restringir essa abordagem aos aspectos informativos e exclusivamente biolgicos. Com efeito,  em Cincias Naturais que a temtica continua sendo prioritariamente abordada, ainda que as propostas curriculares de muitos estados tenham procurado romper com essa situao.
Logo, respeitadas as possveis excees, o que se tem, ainda hoje,  o ensino de sade centrado basicamente na transmisso de informaes sobre como as pessoas adoecem, os ciclos das doenas, os seus sintomas e as formas de profilaxia.
Quando a escola prioriza a dimenso biolgica, as aulas sobre sade tm como temas predominantes as doenas. E apesar de receber informaes sobre formas especficas de proteo contra cada doena que "estuda", o aluno tem dificuldade em aplic-las s situaes concretas de sua vida cotidiana. Da mesma maneira, quando a nfase recai sobre a doena e a valorizao dos comportamentos individuais capazes de evit-la, abre-se pouco espao para que se construa com o aluno a convico de que as condies de vida que favorecem 
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a instalao de doenas tambm podem ser modificadas. Limitam-se as possibilidades de desenvolver novos esquemas de proteo, pois o "biologismo"  que valoriza a anatomia e a fisiologia para explicar a sade e a doena  no d conta dessa tarefa. 
Se essa opo no se tem revelado suficiente para que o aluno adote comportamentos e desenvolva atitudes necessrias  promoo da sade, como deveria a escola redirecionar suas aes nessa rea?

A  inter-relao entre Educao e Educao para a Sade 
 evidente a associao entre acesso  educao e melhores nveis de sade e de bem-estar. Verifica-se, por exemplo, que as taxas de mortalidade infantil so inversamente proporcionais ao nmero de anos de escolaridade da me no ensino bsico, em diferentes pases e realidades. Essa associao  to significativa que continua vlida mesmo quando so isolados fatores to importantes quanto a renda familiar. O desenvolvimento da comunicao verbal e escrita, por exemplo, prioritrio no ensino fundamental,  elemento essencial na luta pela sade: quando se decifra mensagens dos programas educativos e da mdia em geral, quando se l uma prescrio mdica ou uma bula de remdio, na compreenso da sade como um direito, ou quando se busca a melhoria da qualidade na prestao de servios.
Ao falar de educao, fala-se de articular conhecimentos, atitudes, aptides, comportamentos e prticas pessoais que possam ser aplicados e compartilhados com a sociedade em geral. Nessa perspectiva, o processo educativo favorece o desenvolvimento da autonomia, ao mesmo tempo em que atende a objetivos sociais.
Naturalmente, a educao para a Sade no cumpre o papel de substituir as mudanas estruturais da sociedade, necessrias para a garantia da qualidade de vida e sade, mas pode contribuir decisivamente para sua eferivao. Educao e sade esto intimamente relacionadas e, em especial, a educao para a Sade  resultante da confluncia desses dois fenmenos. A despeito de que educar para a sade seja responsabilidade de muitas outras instncias, em especial dos prprios servios de sade, a escola ainda  a instituio que, privilegiadamente, pode se transformar num espao genuno de promoo da sade Muitas iniciativas locais vm sendo tomadas para implementar a educao para a Sade, e o desafio, no momento,  construir referenciais que contemplem esse direito para todos os alunos do ensino fundamental.
Segundo a Organizao Mundial da Sade, as escolas que fazem diferena e contribuem para a promoo da sade so aquelas que conseguem assegurar as seguintes condies: 
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 tm uma viso ampla de todos os aspectos da escola, provendo um ambiente saudvel e que favorece a aprendizagem, no s nas salas de aula, mas tambm nas reas destinadas ao recreio, nos banheiros, nos espaos em que se prepara e  servida a merenda, enfim, em todo o prdio escolar;
 concedem importncia  esttica do entorno fsico da escola, assim como ao efeito psicolgico direto que ele tem sobre professores e alunos;                      .
 esto fundamentadas num modelo  de sade que inclui a interao dos aspectos fsicos, psquicos, socioculturais e ambientais;
 promovem a participao ativa de alunos e alunas;     
. reconhecem que os contedos de sade devem ser necessariamente includos nas diferentes reas curriculares;
.entendem que o desenvolvimento da auto-estima e da autonomia pessoal so fundamentais para a promoo da sade;
 valorizam a promoo da sade na escola para todos os que nela estudam e trabalham;
 tm uma viso ampla dos servios de sade voltados para o escolar; 
 reforam o desenvolvimento de estilos saudveis de vida e oferecem opes viveis e atraentes para a prtica de aes que promovem a sade;
 favorecem a participao ativa dos educadores na elaborao do projeto pedaggico da educao para a Sade;
 buscam estabelecer inter-relaes na elaborao do projeto escolar.

Para muitos, essa perspectiva pode parecer ambiciosa e levantar a polmica j conhecida dos educadores:  responsabilidade da escola tambm trabalhar com a educao para a Sade?
A resposta  simples: queira ou no assumir a tarefa da educao para a Sade, a escola est continuadamente submetendo os alunos a situaes que lhes permitem valorizar conhecimentos, princpios, prticas ou comportamentos saudveis ou no.
Quando no inclui, nas vrias reas do currculo, os diferentes contedos relativos ao
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fenmeno sade/doena, ou lida com eles como se no tivessem relao direta com as situaes da vida cotidiana, ou ainda, quando os alunos convivem com salas de aula, banheiros, quadras de esporte, espaos de recreio, entorno escolar que lhes oferecem referncias que nada tm a ver com o que  saudvel, a escola est optando por um tipo de educao que afasta as crianas e os adolescentes de uma tarefa de cidadania. Ou seja, afasta-os da discusso e da prtica de aes individuais e coletivas de cuidados em sade.
Ao iniciar sua vida escolar, a criana traz consigo a valorao de comportamentos relativos  sade oriundos da famlia, de outros grupos de relao mais direta ou da mdia. Durante a infncia e a adolescncia, pocas decisivas na construo de condutas, a escola passa a assumir papel destacado por sua potencialidade para o desenvolvimento de um trabalho sistematizado e contnuo. Precisa, por isso, assumir explicitamente a responsabilidade pela educao para a sade, j que a conformao de atitudes estar fortemente associada a valores que o professor e toda a comunidade escolar transmitiro inevitavelmente aos alunos durante o convvio cotidiano.
No se deseja afirmar com isso que cabe ao professor ditar regras de comportamento ou exercer a funo de modelo a ser seguido. No seria coerente com a possibilidade de construo de caminhos prprios. Em um mundo em rpidas, contnuas e profundas transformaes, a discusso sobre um modelo de "comportamento correto"  muito menos significativa do que o desenvolvimento progressivo da capacidade de identificar problemas e buscar respostas originais e criativas, pois "educamos, hoje, crianas e jovens que iro viver a maior parte de suas vidas em um mundo que  desconhecido para ns"5.
Nos primeiros ciclos do ensino fundamental, as normas e a reproduo de padres tendem a encontrar mais eco entre os escolares. J os alunos dos ltimos ciclos mostram-se pouco submissos s convenes sociais e s regras preestabelecidas. Na educao para a Sade o papel mais importante do professor  o de motivador que introduz os problemas presentes, busca informao e materiais de apoio, problematiza e facilita as discusses por meio da formulao de estratgias para o trabalho escolar.
A transformao do papel psicossocial do adolescente deve ser considerada nas diversas instncias do convvio escolar como elemento contextual da educao para a Sade nessas faixas etrias. A adolescncia representa uma ampliao importante dos graus de autonomia e diferenciao em relao  famlia e a vivncia entre os pares ganha especial dimenso. Ocorrem, de forma simultnea e aparentemente contraditria, a busca de afirmao da identidade pessoal e uma intensa padronizao de comportamentos que simboliza a "pertinncia" ao grupo, com normas de convivncia, costumes, valores e interesses compartidos.
As intensas modificaes corporais e emocionais prprias da puberdade e da
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adolescncia compem, no terceiro e quarto ciclos, o momento da aprendizagem. Do ponto de vista social, so perodos nos quais ocorre uma significativa ampliao da liberdade de ao, com a diminuio do controle e proteo exercidos durante a infncia por parte dos adultos, especialmente dos pais. Ao mesmo tempo, a curiosidade, a 

5 Ministrio da Sade. Coordenao Nacional de DST e Aids, 1997.
ansiedade, a busca de novas experincias, a presso do grupo de iguais e os prprios mecanismos de afirmao caractersticos desse momento do desenvolvimento humano compem um pano de fundo favorvel  exposio a diferentes comportamentos de risco. E cada vez mais a educao, elemento favorecedor da construo da autonomia para a tomada de decises, revela-se essencial para a adoo de comportamentos de valorizao da vida.
Na adolescncia, a referncia grupal torna-se progressivamente mais importante na formulao de conceitos, atitudes e comportamentos. H maior identificao com valores observados em modelos externos  famlia, ocorrendo, habitualmente, uma "padronizao" de comportamentos e atitudes valoradas como positivas pelo grupo de referncia. Por isso, a discusso sobre comportamentos saudveis passa necessariamente pela formulao e explicitao, pelos prprios grupos, de suas concepes de vida. A identificao das idias, hbitos e atitudes dos alunos com relao
a cada tpico do trabalho permite checar concepes sobre a sade para discuti-las, contrast-las e refletir em grupo sobre elas.
A liberdade necessria ao desenvolvimento psicossocial  complementar  necessidade do estabelecimento de acordos e limites. Cabe, na escola, a definio de normas prprias do ambiente escolar, o estabelecimento e o cumprimento de regras coletivas, pautas de comportamento e normas bsicas de convivncia, preferencialmente com participao dos alunos. Com isso, eles, protagonistas de sua prpria aprendizagem, podem incorporar uma dinmica mais ativa, com maior tendncia a aprender significativamente.
Deve-se considerar tambm que, nas ltimas dcadas, alm dos temas tradicionalmente trabalhados sobre sade e nutrio, as questes biopsicossociais adquiriram maior visibilidade, e a escola foi compelida  pelas circunstncias e pelo reclamo da prpria sociedade  a lidar com problemas emergentes, como a contaminao crescente do meio ambiente, a Aids, o consumo abusivo do lcool e outras drogas, a violncia social e as diferentes formas de preconceito. E no h como lidar com esses temas por meio da mera informao ou da prescrio de regras de comportamento.
Sem dvida, a informao ocupa um lugar importante na aprendizagem, mas a educao para a Sade s ser efetivamente contemplada se puder mobilizar para as necessrias mudanas na busca de uma vida saudvel. Para isso, os valores e a aquisio de hbitos e atitudes constituem as dimenses mais importantes. A experincia dos profissionais de sade vem comprovando, de longa data, que a informao, isoladamente, tem pouco ou nenhum reflexo nos comportamentos.
A escola precisa enfrentar o desafio de permitir que seus alunos reelaborem
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conhecimentos de maneira a conformar valores, habilidades e prticas favorveis  sade. Nesse processo, espera-se que possam estruturar e fortalecer comportamentos e hbitos saudveis, tornando-se sujeitos capazes de influenciar mudanas que tenham repercusso em sua vida pessoal e na qualidade de vida da coletividade.
Para isso,  necessria a adoo de abordagens metodolgicas que permitam ao aluno identificar problemas, levantar hipteses, reunir dados, refletir sobre situaes, descobrir e desenvolver solues comprometidas com a promoo e a proteo da sade pessoal e coletiva, e, principalmente, aplicar os conhecimentos adquiridos.
Na perspectiva da projeo social da aprendizagem, na escola, na famlia e na comunidade, deve ser estimulada a gerao de alternativas para a difuso dos estudos e trabalhos realizados. A produo de mensagens educativas em sade pelos prprios alunos pode ser uma forma importante de permitir que se sintam e se tornem, de fato, protagonistas em Sade.
Um ponto fica bastante evidente: quando a escola deseja comprometer-se com a educao para a Sade de seus alunos, alm de funcionar como um espao que oferece fortes referncias para a prtica e desenvolvimento de estilos de vida saudveis, tambm inclui a abordagem da temtica da sade nos diferentes componentes curriculares.

A EDUCAO PARA A SADE COMO UM TEMA TRANSVERSAL
Sob o ponto de vista do processo sade/doena, as suas mltiplas dimenses, por si s, justificam a opo de caracterizar a educao para a Sade como um tema transversal do currculo. Com efeito, somente a participao das diferentes reas, cada qual enfocando conhecimentos especficos  sua competncia, pode garantir que os alunos construam uma viso ampla do que  sade. Como contraponto, a transversalidade requer ateno para a consistncia na concepo do tema, que no pode se diluir, levando a perder de vista os objetivos que se pretende atingir.
A proposta de permear o conjunto dos componentes curriculares com a dimenso de sade que lhes  inerente permite, na realidade, a recomposio de um conhecimento que vem sendo progressivamente fragmentado nas diferentes reas do saber e no interior de cada uma delas. Assim, se os padres de sade e os diferentes conceitos de sade so construes sociais e histricas, resgatar o componente sade/doena da vida nos diferentes momentos e sociedades permite recompor a histria, tradicionalmente reduzida a uma seqncia cronolgica de fatos. Mais do que isso, ao se tomar em conta a diversidade cultural e, em especial, a pluralidade intrnseca  cultura brasileira, gera-se uma excelente oportunidade para a discusso sobre a situao de sade de diferentes grupos, suas
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percepes diferenciadas quanto  questo, como resolvem seus problemas cotidianos e como tm se mobilizado para transformar sua realidade.
Isso demonstra que a transversalidade tambm pressupe uma inter-relao permanente entre educao para a Sade e os demais temas transversais, pois a prpria natureza desses temas faz com que entre eles haja sempre uma grande afinidade, dado que compem, em seu conjunto, uma viso tica do mundo e das relaes humanas.
Pode-se dizer, por exemplo, que Orientao Sexual e Sade so componentes de um mesmo conjunto temtico. Ganham dimenses prprias em funo de sua amplitude e complexidade, evidenciadas por meio das dificuldades vividas no s pela escola, mas pela sociedade em geral, no tratamento de ambas as questes. A abordagem desses tpicos em diferentes documentos visa favorecer o entendimento das diferentes maneiras como valores e prticas relativos  sade em geral, ou especificamente, no mbito da sexualidade humana, compem e refletem-se nas vivncias biolgicas, afetivas e sociais. Na realidade, todos os blocos de contedo dos dois temas se permeiam e se entrelaam, no sendo possvel trabalh-los de forma desconectada.
O mesmo se pode afirmar para a educao ambiental, que envolve necessariamente a noo de qualidade de vida e o estudo de componentes essenciais  produo de sade e doena. Alm da coincidncia ou interseco de contedos, tambm a perspectiva pedaggica prev, em ambos os casos, que os alunos lidem com conhecimentos, valores e atitudes que devero, em ltima anlise, resultarem atitudes e comportamentos concretos.
O mesmo raciocnio pode ser aplicado s diferentes reas e temas transversais. Os exemplos que se apresentam ao longo do texto devem ser tomados apenas como referncias para que no sejam restritivos para o professor, mas, pelo contrrio, se constituam num estmulo  criatividade e  construo de um projeto pedaggico coerente com sua realidade.
O desenvolvimento de concepes e atitudes, o aprendizado de procedimentos e valores positivos com relao  sade vo alm das reas e temas do currculo. Realiza-se nas diferentes atividades escolares, em todos os espaos da escola e do entorno escolar, por meio da construo gradual de uma dinmica que permita a vivncia de situaes favorveis ao fortalecimento de compromissos para a busca da sade.
Por isso, a educao para a Sade desenvolve-se, com igual importncia, em situaes de convivncia que se criam e no atendimento oportuno de interesses dos alunos, tanto quanto no ensino de seus contedos nas diferentes reas, de forma regular e contextualizada. Muitas vezes ocorrem manifestaes afetivas, conflitos ou casos de doena entre os colegas. So momentos em que o tema j se encontra presente entre os alunos e o interesse do grupo est previamente estabelecido.
A transversalidade no exclui a possibilidade de organizao de projetos de trabalho em torno de questes da sade. O desenvolvimento do tema tambm se d pela organizao
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de campanhas, seminrios, trabalhos artsticos, mobilizando diversas classes, divulgando informaes, ou utilizando materiais educativos produzidos pelos servios de sade. Espera-se, nessas situaes, que os alunos aprendam a lanar mo de conhecimentos de Lngua Portuguesa, Matemtica, Cincias Naturais, Histria, Geografia etc., na busca de compreenso do assunto e na formulao de proposies para questes reais.
Assim, a educao para a Sade precisa ser assumida como uma responsabilidade e um projeto de toda a escola e de cada um dos educadores, para que no se corra o risco de transform-la em um projeto vazio.
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SADE
2 PARTE
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OBJETIVOS E CONTEDOS DE SADE PARA TERCEIRO E QUARTO CICLOS

Objetivos
A educao para a Sade cumprir seus objetivos ao promover a conscientizao dos alunos para o direito  sade, sensibiliz-los para a busca permanente da compreenso de seus condicionantes e capacit-los para a utilizao de medidas prticas de promoo, proteo e recuperao da sade ao seu alcance. Espera-se, portanto, que ao final do ensino fundamental os alunos sejam capazes de:

compreender sade como direito de cidadania, valorizando as aes 	  voltadas para sua promoo, proteo e recuperao;
compreender a sade nos seus aspectos fsico, psquico e social como 	 uma dimenso essencial do crescimento e desenvolvimento do ser humano;
compreender que a sade  produzida nas relaes com o meio fsico, 	  econmico e sociocultural, identificando fatores de risco  sade pessoal e 	  coletiva presentes no meio em que vive;
conhecer e utilizar  formas de interveno sobre os fatores desfavorveis  	  sade presentes na realidade em que vive, agindo com responsabilidade 	  em relao  sua sade e  sade coletiva;
conhecer os recursos da comunidade voltados para a promoo, proteo 	  e recuperao da sade, em especial os servios de sade;
responsabilizar-se pessoalmente pela prpria sade, adotando hbitos de 	  autocuidado, respeitando as possibilidades e limites do prprio corpo.

Contedos
Selecionados no intuito de atender s demandas da prtica social, segundo critrios de relevncia e atualidade, os contedos de Sade esto organizados de maneira a dar sentido s suas dimenses conceitual, procedimental e atitudinal profundamente interconectadas. Essencialmente, devem subsidiar prticas para a vida saudvel.
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CRITRIOS DE SELEO
Na busca de atingir os objetivos elencados de modo coerente com a concepo de sade anteriormente exposta, os contedos foram selecionados levando-se em conta os seguintes critrios:
a relevncia no processo de crescimento e desenvolvimento em quaisquer 	  condies de vida e sade particulares  criana e ao adolescente em sua 	  realidade social;
os fatores de risco mais significativos na realidade brasileira e na faixa 	  etria dos alunos do ensino fundamental;
a possibilidade de prestar-se  reflexo conjunta sobre as medidas de 	  promoo, proteo e recuperao da sade;
a possibilidade de traduo da aprendizagem em prticas de cuidado em 	  sade e exerccio da cidadania ao alcance do aluno. 

A identificao dos principais riscos em sade encontrados na realidade brasileira para definir e organizar os contedos do trabalho educativo pertinente s faixas etrias dos alunos permite o desenvolvimento do tema na perspectiva do exerccio de atuar e cuidar da aprendizagem na "vivenciao".
Segundo dados do Ministrio da Sade, os principais agravos  sade associados s faixas etrias mdias dos alunos de terceiro e quarto ciclos so as chamadas causas externas, especialmente os acidentes extradomiciliares e os riscos decorrentes da violncia social. Entre as primeiras causas de morte aparecem os acidentes de trnsito, homicdios e suicdios, responsveis por aproximadamente 75% dos bitos de adolescentes do sexo masculino. Chamam a ateno, para o sexo feminino, os casos de morte associados  gravidez, parto ou puerprio. Em 1993, cerca de 15% das mortes maternas documentadas atingiram meninas entre 10 e 19 anos. A gravidez na adolescncia vem crescendo bastante no Brasil e no mundo todo: em 1995, quase 25% dos partos registrados no sistema pblico de sade do pas foram de mes com at 19 anos de idade e os riscos se mostraram muito mais acentuados do que aqueles associados  gravidez em idades posteriores. Aparentemente, esses riscos no so inerentes  gravidez na adolescncia, pois as gestantes jovens que recebem ateno e cuidados adequados no contribuem na mesma proporo para esses dados estatsticos.
Os registros disponveis mostram ainda que a crie dentria  o principal motivo de atendimento dos adolescentes na rede pblica ambulatorial de sade. Esse fato, parcialmente associado  extrema limitao da oferta de outros servios pblicos para essa faixa etria, decorre tambm do desconforto agudo causado pela doena bucal quando de sua instalao, assim como das limitaes da ao preventiva na rea, em nvel nacional.
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Comparativamente, na rede particular, a procura de acendimento  motivada principalmente por distrbios psicolgicos e sexuais6.
E sabido que o ingresso precoce no mundo do trabalho, muitas vezes sem a garantia mnima de direitos legais, com uso de equipamentos inadequados, em condies insalubres e de falta de segurana, leva  ocorrncia de inmeras doenas ocupacionais e de acidentes, embora no exista uma dimenso exata do problema, por falta de registro sistematizado desses dados.
6 Ministrio da Sade. Programa de Sade do Adolescente, 1996.
Na preveno de riscos, o uso indevido de drogas constitui um captulo  parte. As dimenses da demanda social para o tratamento do tema fazem com que seja necessrio enfoc-lo de maneira diferenciada, e as dificuldades em lidar com o assunto levam a colocar a esperana nos educadores e muita expectativa nas instituies de ensino.  inegvel que a escola seja um espao privilegiado para o tratamento do assunto, pois o discernimento no uso de drogas est diretamente relacionado  formao e s vivncias afetivas e sociais de crianas e jovens, inclusive no mbito escolar. Alm disso, a vulnerabilidade do adolescente e o fato de ser esta a fase da vida na qual os comportamentos grupais tm enorme poder sobre as escolhas individuais fazem da escola palco para o estabelecimento de muitos dos vnculos decisivos para a formao das condutas dos alunos frente aos riscos. Mas no  possvel trabalhar a questo na escola como se ela fosse uma ilha. O reconhecimento dos fatos e mitos a respeito do assunto, da situao real de uso e abuso de drogas em diferentes realidades, assim como as idias e sentimentos dos alunos, da comunidade escolar e dos pais a respeito do assunto precisam ser considerados.

Drogas; situando o problema em suas reais dimenses
O alarde da mdia, os gastos vultosos nas aes de "guerra s drogas" e de represso  comercializao e ao consumo no tm produzido impactos sensveis, a no ser o de situar a questo como caso de polcia.  necessrio reconhecer que o fenmeno moderno das drogas  produto da prpria vida em sociedade, das rupturas nas relaes afetivas e sociais e da desproteo de seus membros. Atualmente, as drogas so distribudas segundo regras financeiras e comerciais do mercado, como todas as demais mercadorias, ocupando um lugar altamente lucrativo na economia e uma posio prpria no modo de organizao social.
Na verdade, o uso de drogas no  algo novo para a humanidade e no existem evidncias de que deixar de acontecer. O consumo de diferentes substncias psicoativas no trabalho, no lazer ou em rituais c festas, com papel agregador de comunidades,  comum a todas as culturas, e o uso social e religioso de drogas prazerosas, capazes de modificar o humor, as percepes e sensaes, tem sido uma constante ao longo da histria humana.
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Entretanto, neste final de sculo, o acesso a diferentes drogas vem fugindo cada vez mais ao controle da coletividade, tendo passado a caracterizar-se, tambm, como um problema sanitrio. Isso ocorre em funo de inmeros fatores, entre eles o aumento considervel da oferta como resultado da produo em massa, os crescentes graus de consumo e dependncia, as condies psicossociais desagregadoras que geram e se amplificam com o abuso das drogas atualmente oferecidas no mercado e com o crescimento da epidemia da Aids.
De que "drogas" estamos falando? O que chamamos habitualmente de "drogas" corresponde s drogas psicoativas, que tm atrao por atuar no crebro, modificando a sensibilidade, o modo de pensar e, muitas vezes, de agir. Isso inclui, alm de produtos ilegais como maconha, crack e cocana, os medicamentos para emagrecer que contm anfetaminas, a nicotina, o lcool e a cafena. Por isso, ao se discutir "drogas",  necessrio diferenci-las. As drogas no so todas iguais. So distintas do ponto de vista do risco orgnico, dos efeitos e da dependncia que podem provocar, da aceitao legal e cultural que desfrutam, implicando distintas situaes de risco. E no necessariamente os riscos decorrentes das convenes sociais, que estabelecem em cada momento e sociedade se cada droga  lcita ou ilcita, correspondem aos riscos orgnicos decorrentes de seu uso ou abuso.
O fato  que, no Brasil, as drogas legais representam mais de 90% dos abusos freqentes praticados pela populao em geral7. Os estudos disponveis mostram que, 
7 Bucher, 1992.
entre os escolares, destaca-se tambm o uso de drogas lcitas: em primeiro lugar aparece o lcool, seguido pelo tabaco, por inalantes e tranqilizantes. Todos esses produtos podem ser obtidos em mercados e farmcias. Fala-se em "drogas" genericamente, sem se levar em considerao as relaes cotidianas que se estabelecem com diferentes substncias qumicas. No so feitas distines entre medicao e automedicao, atendendo, inclusive, aos chamados da propaganda de remdios, comercializados como quaisquer outros produtos. Em contradio com as prticas visveis aos jovens e que permeiam o cotidiano de sua vivncia social, os discursos de combate s drogas sugerem que elas so produtos ilegais e misteriosos e seus consumidores so os outros, marginais e traficantes, a serem excludos do convvio social. "No s drogas", neste caso, pode constituir-se em um discurso alarmante mas vazio, que no leva em conta os sentidos sociais do fenmeno, nem repercute sobre a capacidade de discernimento dos verdadeiros riscos.
, indiscutvel, no Brasil, o consumo abusivo de medicamentos de forma no teraputica, estando os remdios muitas vezes disponveis  criana e ao adolescente no prprio domiclio. Considerando os problemas de sade e as internaes hospitalares decorrentes do consumo abusivo de produtos psicoativos na populao em geral e entre adolescentes, novamente, o lcool, acessvel com facilidade pelo seu baixo custo, oferta generalizada e propaganda ostensiva, ocupa, de longe, o primeiro lugar. Da mesma forma,
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o consumo excessivo de tabaco, embora seja um fator de risco importante para a morte prematura, por aumentar as probabilidades de ocorrncia de problemas pulmonares, cardiovasculares e cncer, entre outros, no resultou at hoje na proibio da propaganda de cigarros em funo de poderosos interesses econmicos envolvidos. Note-se que a experimentao ou mesmo o uso freqente de maconha aparecem em quinto lugar nas pesquisas realizadas entre estudantes do ensino fundamental, em nvel nacional8.
Por outro lado, a iniciao no consumo de diferentes drogas psicotrpicas vem se intensificando entre crianas e jovens. Relatrio apresentado pela Organizao Pan-Americana de Sade aponta que o hbito de fumar, considerado pela entidade uma epidemia internacional, tem incio, em 90% dos casos, na adolescncia. Dados relativos  Aids tambm sugerem que a contaminao pelo HIV ocorre precocemente, associada no s  iniciao sexual desprotegida, como ao uso compartilhado de seringas para a administrao de drogas injetveis. Esta  tambm a fase em que a sociedade estimula o adolescente para o consumo, eventualmente abusivo, de lcool, como indicador simblico de que se atravessou a linha divisria entre a infncia e a vida adulta. E, certamente, as drogas psicoativas podem assumir um papel importante na vida do adolescente como recursos facilitadores da comunicao, da busca do prazer ou na lida com os novos desafios que se apresentam.
Mas  necessrio deixar claro que todos os dados disponveis no apontam para uma epidemia das drogas no Brasil; o seu consumo no pas no  privilgio de jovens nem se caracteriza principalmente pelo abuso de drogas ilegais. Ao contrrio, as drogas legais e banalizadas pela sociedade associam-se aos riscos mais significativos9. Superar o alarmismo e a sensao de "catstrofe iminente" s pode ajudar na abordagem sensata da questo.

TRATAMENTO DIDTICO
A apresentao da concepo do tema e da organizao de seus contedos atendem ao objetivo de compor a viso geral a partir da qual esta temtica pode permear, 
8 Cebrid, 1990.
9 Cotrim, 1998
de maneira consistente, as diferentes reas do conhecimento e da vivncia escolar. Mas, ao mesmo tempo, considera-se que a flexibilidade  necessria na abordagem dos tpicos indicados  e de outros que venham a ganhar importncia na escola , para que se leve em conta as experincias e necessidades sentidas e expressas pelos prprios alunos a fim de que os contedos ganhem significado e potencialidade de aplicao.
O desenvolvimento dos contedos precisa considerar as particularidades da faixa de crescimento e desenvolvimento da classe, que pode ser bastante heterognea, para que o professor possa trabalhar os procedimentos, as atitudes e os conceitos de interesse para a maioria do grupo. A correspondncia com a fase do crescimento e desenvolvimento dos alunos deve ser avaliada para que os contedos e o tratamento dado aos temas tenha a maior relao possvel com questes presentes na vida dos alunos.
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	Alm disso, procedimentos e atitudes no concretizados, embora com desenvolvimento previsto em momento anterior, podero ganhar prioridade dependentemente da etapa formal (srie ou ciclo) da escolarizao.
Na abordagem dos diversos componentes dos blocos de contedo, o enfoque principal deve estar na sade e no na doena. Os detalhes relativos a processos fisiolgicos ou atolgicos ganharo sentido no processo de aprendizagem na medida em que contriburem ara a compreenso dos cuidados em sade a eles associados. No  pressuposto da educao para a Sade a existncia do professor "especialista" ou a formao de alunos capazes de discorrer sobre conceitos complexos, nem o aprendizado exaustivo dos aspectos funcionais orgnicos do corpo humano. O que se pretende  um trabalho pedaggico no qual as condies que se fazem necessrias para a sade, sua valorizao e a realizao de procedimentos que a favorecem sejam o foco principal.
Os contedos e sua abordagem se aprofundam em conceituao ao longo dos ciclos do ensino fundamental para permitir a ampliao do espectro de anlise e de formulao de alternativas frente aos diferentes desafios que se apresentam, inclusive na dimenso afetiva que necessariamente trazem consigo. O aumento progressivo da profundidade dos contedos informativos e conceituals est correlacionado, portanto,  ampliao do espao de atuao e formao de opinio. Deve se ampliar progressivamente a gerao de oportunidades para o posicionamento diante de situaes, inclusive do ponto de vista terico e conceitual.
No terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental, o enfoque da educao para a Sade traz, com maior intensidade, a contextualizao do processo sade/doena. Busca-se a identificao dos seus determinantes no nvel individual e das coletividades, para possibilitar o reconhecimento progressivamente mais amplo das correlaes sobre as quais se pode interferir para a promoo da vida saudvel.
A realizao de estudos de reconhecimento da regio em que se insere a escola e das concepes e necessidades de sade que lhe so caractersticas  um instrumento essencial para montar e desenvolver o projeto educativo. A fluidez das relaes entre a escola, a famlia e demais instituies, grupos organizados e entidades cujas aes repercutem sobre a sade,  condio para contextualizar a educao para a Sade e, ao mesmo tempo, um componente amplificador da ao educativa.

BLOCOS DE CONTEDOS
O conjunto de contedos apresentados a seguir destina-se ao trabalho pedaggico do terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. O aprofundamento da temtica ao longo
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dos ciclos articula-se com o prprio processo de crescimento e desenvolvimento dos alunos. Caminha-se progressivamente para a ampliao da rede de relaes espaciais e sociais, da relevncia da dimenso conceitual e da responsabilizao autnoma e solidria pela sade pessoal e coletiva.
Os contedos selecionados foram organizados em eixos temticos que cumprem a funo de indicar as dimenses pessoal e coletiva da sade: Autoconhecimento para o autocuidado e Vida coletiva.  importante que fique clara a especificidade e o papel motor de cada ser humano na sua sade, ao mesmo tempo em que  essencial a compreenso de que os mltiplos fatores condicionantes do processo sade/doena se estabelecem no contexto mais amplo da vida em sociedade. Por isso,  possvel, desejvel e necessrio que sejam estabelecidas conexes entre essas dimenses profundamente inter-relacionadas.
Autoconhecimento para o autocuidado
A finalidade deste bloco de contedos  possibilitar aos alunos o entendimento de que sade tem uma dimenso pessoal que se expressa, no espao e no tempo de uma vida, pelos meios de que cada ser humano dispe para trilhar seu caminho em direo ao bem-estar fsico, mental e social. Isso requer sujeitos com autonomia, liberdade e capacidade para regular as variaes que aparecem no organismo e que se apropriem dos meios para tomar medidas prticas de autocuidado em geral e, especificamente, diante de situaes de risco.
Para atender a essa meta,  necessrio que o trabalho educativo tenha como referncia as transformaes prprias do crescimento e desenvolvimento e promova o desenvolvimento da conscincia crtica em relao aos fatores que intervm positiva ou negativamente. Esses pressupostos levam  definio de alguns contedos essenciais: a construo da identidade e da auto-estima, o cuidado do corpo, a nutrio, a valorizao dos vnculos afetivos e a negociao de comportamentos para o convvio social.
 importante que os alunos possam aprofundar, progressivamente, os conhecimentos sobre o funcionamento do corpo humano  e do seu prprio  para permitir a ampliao das possibilidades de se conhecer para se cuidar, valorizando o corpo como sistema integrado, as questes ligadas  construo de identidade e as caractersticas pessoais, num enfoque desenvolvido durante todo o ensino fundamental. A rea de Cincias Naturais, em especial, contempla contedos essenciais para a compreenso dos mecanismos biolgicos que sustentam o fenmeno sade/doena e exerce liderana na determinao do enfoque dado para a abordagem da vida humana.
No contexto das intensas e contnuas transformaes prprias do amadurecimento sexual, trabalhar a construo positiva da imagem corporal pode ter significado importante para a auto-estima e autoconfiana, com conseqncias para toda a vida futura.
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O estudo da anatomia e fisiologia do aparelho reprodutor masculino e feminino, e de fenmenos como menarca, menstruao e ciclo menstrual, fecundao, gravidez, parto e puerprio, em suas implicaes fisiolgicas mas tambm psicossociais, ganha agora maior destaque, at por sua relao com a preparao para a vida sexual com parceiros. Mesmo consideradas as particularidades de cada classe, o trabalho precoce para favorecer o estabelecimento de vnculos fluidos de relao e para discernir fatos e preconceitos pode ser decisivo para o cuidado de si e de parceiros, em situaes presentes e futuras.
A puberdade e a adolescncia exigem especial ateno dos jovens para o controle do corpo  incluindo respirao, repouso e relaxamento. Forja-se nessa fase uma nova viso de si e do mundo ao se reeditar todo o desenvolvimento infantil em busca de definies de carter social, sexual, ideolgico e vocacional. A elaborao desse momento evolutivo se faz dentro de um tempo individual e de uma forma pessoal, por meio de reformulaes contnuas da imagem corporal e do exerccio de situar-se constantemente na famlia e na sociedade. As diferentes modalidades da arte so recursos para a ampliao das possibilidades motoras e expressivas do corpo e dos movimentos na ao e na comunicao de sentimentos, emoes e necessidades.
O professor pode recolher e elaborar, junto com os alunos, informaes sobre diferentes formas, usos e costumes de cuidado corporal para permitir a construo de explicaes e justificativas para as rotinas, normas e atividades voltadas para o cuidado em sade, situando-as no seu contexto sociocultural.
A continuidade do trabalho voltado para o reconhecimento e aceitao da diversidade humana, alm de destinar-se  formao para o combate de discriminaes e preconceitos, torna-se importante para permitir a valorizao esttica de diferentes tipos fsicos, alm dos padres estticos "ideais" apregoados por revistas, pelo cinema ou pela televiso.
A higiene corporal  tratada como condio para a vida saudvel. A aquisio de hbitos de higiene corporal tem incio na infncia, no sendo mais o enfoque principal no terceiro e quarto ciclos, pois espera-se que a prtica autnoma desses cuidados j tenha sido incorporada ao cotidiano, na forma de rotinas, normas e atividades. Mas, eventualmente, a discusso de questes relativas  higiene corporal deve ser retomada sempre que for sentida a necessidade. Busca-se, por meio do trabalho pedaggico, mobilizar os alunos para estabelecer relaes entre as decises pessoais de autocuidado e a qualidade do convvio social.
A associao direta entre higiene e alimentao precisa ser enfatizada, tanto no que diz respeito  gua para consumo humano quanto aos processos de produo e manuseio de alimentos.
No terceiro e quarto ciclos, a alimentao adequada continua recebendo destaque como fator essencial no crescimento e desenvolvimento, no desempenho das atividades cotidianas, na promoo e na recuperao da sade. Abordada nos primeiros ciclos do ponto de vista das necessidades humanas bsicas, volta-se agora para a investigao de hbitos 
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alimentares em diferentes realidades e culturas, como instrumento de identificao das relaes entre dieta, rituais da alimentao e vivncia social. O foco agora est posto nas finalidades da alimentao, includas as necessidades corporais, socioculturais e emocionais. O conceito de uma dieta universal "correta" deve ser evitado, sob pena de desestimular a construo de um padro alimentar desejvel e compatvel com a cultura local, composto a partir dos alimentos ricos em nutrientes prprios de cada realidade.
Do ponto de vista orgnico, aprofunda-se o estudo do processo completo de nutrio, desde a ingesto de alimentos, digesto, absoro, anabolismo, catabolismo e excreo. Avaliam-se as necessidades bsicas de nutrientes por pessoa, a contribuio dos diferentes alimentos para o crescimento e desenvolvimento e as tabelas de ingesto recomendadas, associando-as  presena dos diferentes nutrientes nos alimentos  gua, oxignio, protenas, hidratos de carbono, gorduras, sais minerais, vitaminas  e suas funes no organismo.
Recomenda-se um trabalho conjunto com os alunos para a reconsrituio do caminho seguido pelos alimentos desde a sua produo at o consumidor, a identificao do trabalho humano envolvido, do uso de aditivos e agrotxicos em sua produo e seus efeitos sobre a sade dos produtores e consumidores. Busca-se elaborar, coletivamente, propostas sobre diferentes formas de melhorar os recursos alimentares.
Hbitos alimentares precisam ser criticamente debatidos em grupos como forma de avaliar a gerao artificial de "necessidades" pela mdia e os efeitos da publicidade no incentivo ao consumo de produtos energticos, vitaminas e alimentos industrializados. Em especial,  preciso reconhecer a possibilidade de ocorrncia simultnea de obesidade  problema de dimenses orgnicas e afetivas  e carncias nutricionais, decorrentes principalmente do consumo habitual de alimentos altamente calricos oferecidos pelo mercado, desprovidos de nutrientes adequados ao consumo humano. Sua contrapartida  o consumo de medicamentos emagrecedores. O uso excessivo de acar na dieta  destacado como um hbito alimentar a ser transformado, no se justificando o grau de consumo (em todo o pas) por necessidades calricas e sim por fatores culturais, o que causa prejuzos comprovados, particularmente  sade bucal, contribuindo tambm para a obesidade precoce, importante fator de risco para doenas crnico-degenerativas.
Muitos adultos recorrem a mdicos apenas para ouvir deles que tm problemas de sade facilmente identificados numa auto-anlise elementar, como, por exemplo, para tomar conscincia de que esto com estafa. Para transformar essa situao,  fundamental exercitar com os alunos o diagnstico em sade. Isso no implica automedicao, mas observar sinais e sintomas relacionados aos fatores de risco mais comuns e a capacidade de identificao e expresso de sensaes de desconforto, dor e necessidades pessoais no atendidas.
O conhecimento dos recursos disponveis para o adolescente (atividades e servios) para a promoo, proteo e recuperao da sade e as possibilidades de uso que oferecem
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so contedos desta aprendizagem. A valorizao do exame de sade peridico  um tpico a ser desenvolvido, preferencialmente, em conjunto com os servios que possam ser, na prtica, referncia para adolescentes.  raro, em nossa realidade, que o jovem possa contar com atendimento por falta de acolhimento dos servios para estas faixas etrias, embora existam programas recomendados pelo Ministrio da Sade voltados para a sade do escolar e para a assistncia integral ao adolescente. Os jovens hesitam em recorrer aos profissionais de sade por receio de quebra de privacidade e sigilo, especialmente quando seus problemas e dvidas so relacionados  atividade sexual.
O aprendizado das relaes entre a prtica correia e habitual de exerccio fsico e a melhora da sade deve incluir os benefcios, riscos, indicaes e contra-indicaes de diferentes modalidades esportivas, alm das medidas de segurana na prtica de atividades fsicas. A moda de "malhar" torna necessrio o debate em torno do equilbrio e dosagem do esforo, da identificao e busca da correo de problemas posturais, especialmente no estiro do crescimento.
A prtica regular de atividades fsicas na puberdade e na adolescncia, componente essencial do crescimento e desenvolvimento saudveis, favorece a identificao das possibilidades expressivas e de uso da fora e dos movimentos, desempenhando papel importante no s do ponto de vista orgnico como psquico, e contribuindo na reelaborao das transformaes corporais e das relaes em grupo.
O fato das causas internas no serem estatisticamente importantes nesta faixa etria como fatores de risco no deve motivar a excluso da abordagem preventiva das doenas crnico-degenerativas. Em muitos casos, essas doenas podero estar atingindo os pais ou demais familiares dos alunos dessas faixas etrias e o debate em torno de seus fatores predisponentes e desencadeantes poder ser desenvolvido em conjunto com as famlias, tornando os alunos agentes multiplicadores em sade. Um problema muito presente na atualidade  o aumento da incidncia de cncer de pele, favorecido pela exposio desprotegida aos raios ultravioleta. Nesse caso, como em muitos outros, as medidas de preveno implicam o estabelecimento precoce de hbitos cuja alterao futura, na idade adulta, acarretar sofrimento por despertar sentimentos de privao. Exames preventivos de cncer de mama e colo do tero so exemplos tpicos de cuidados efetivos no diagnstico precoce e controle ou cura da doena em seus estgios iniciais. Em ambos os casos, o hbito de realiz-los periodicamente  a chave para a preveno.
Um instrumento metodolgico integrador de contedos bastante rico  o exerccio de construo da histria de sade individual com a introduo peridica de elementos que ganhem importncia em funo do crescimento e desenvolvimento e do processo de aprendizagem, incluindo a cada momento novos dados e acontecimentos significativos para a apropriao da histria de vida.
A negociao de atitudes saudveis ganha cada vez mais significado na medida em que o comportamento grupai e as regras e modas estabelecidas pela turma ganhem status 
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de lei. Mas no se trata de tentar substituir uma lei pela outra, dando  escola o papel de assumir linhas prescritivas, pois seu objetivo no  normalizar a vida privada do aluno ou padronizar condutas. Se a ampliao da capacidade de refletir e agir com autonomia  o resultado esperado, ento a metodologia de trabalho deve efetiv-las j no processo de aprendizagem.
Vida coletiva
 nos espaos coletivos que se produz a condio de sade da comunidade e, em grande parte, de cada um de seus componentes. Nas relaes sociais se afirma a concepo hegemnica de sade e, portanto,  nesse campo que se pode avanar no entendimento da sade como valor, na luta pela vida e pela qualidade de vida.
Os contedos que compem este bloco para o terceiro e quarto ciclos esto referenciados nas correlaes entre organizao sociopoltica e padres de sade coletiva. Destacam-se pontos especficos como indicadores de qualidade de vida e sade, correlaes entre meio ambiente e sade, doenas transmissveis, riscos por acidentes c uso indevido de drogas, assim como relaes sociais, acordos e limites.
A anlise das condies de vida de populaes a partir de informaes como nveis de renda, taxa de escolarizao, taxas de cobertura por gua tratada e rede de esgoto, diversidade no acesso ao lazer e aos servios de sade  uma forma de verificao das associaes entre qualidade de vida e sade.
 ilustrativo trabalhar, especificamente, com indicadores vitais, entre eles as taxas de natalidade e mortalidade nas diferentes faixas etrias, regies e grupos sociais. Pode-se realizar levantamentos da prevalncia de doenas nutricionais ou dos padres de ocorrncia de epidemias e endemias por meio de estudos comparativos, analisando as formas de produo social do fenmeno sade/doena nos indivduos e populaes.
Mas deve-se tomar especial cuidado para que o estudo dos agravos sociais  sade das populaes no se limite  comparao entre taxas e nmeros. Eles podem, ao contrrio do que se quer, escamotear as pessoas e os conflitos, dependendo da forma como so colhidos e organizados. Coletividades so constitudas por pessoas e elas no se remodelam a partir de valores estatsticos mdios. Nesse sentido, a matemtica  uma ferramenta valiosa para a compreenso do quadro geral de sade da populao, seja em nvel local ou global. Permite entender possibilidades (esperana de vida ao nascer), diferenas (estaturas) e disparidades (distribuio de doenas). Mas a prpria matemtica ganha sentido quando se faz o exerccio de relacionar observaes do mundo real com suas representaes grficas e numricas, contextualizando-as e analisando-as do ponto de vista qualitativo.
A identificao da existncia de violncia, das tenses e desajustamentos, prostituio e, em muitos casos, da excluso social como forma de "enfrentamento" de doenas como
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a tuberculose, a hansenase, a doena mental ou a Aids. deve ser voltada para a formao de atitude crtica quanto s repercusses de determinados valores, prticas e formas de organizao social sobre a sade das pessoas e da sociedade.
Na verdade, a realizao de exerccios de diagnstico de sade da populao termina por ser, igualmente, um instrumento para o exerccio da reflexo crtica sobre a concepo de sade e doena com a qual se interpretam os fenmenos humanos.
Num trabalho que seja voltado para a ao, o conhecimento do quadro epidemiolgico brasileiro, incluindo seu histrico e situao atual, abre o debate  formulao de alternativas para a promoo, proteo e recuperao da sade, e  identificao de possibilidades para a ao ao alcance dos alunos.
No tratamento das relaes entre sade e meio ambiente devem ser considerados os fatores que tm comprometido a salubridade ambiental de forma mais significativa e as alternativas aplicadas ou passveis de aplicao em experincias efetivas. Alm da destruio de ambientes naturais, esses fatores continuam sendo as polticas urbanas equivocadas e os mtodos de trabalho insustentveis na indstria e na agricultura, sistemas inadequados ou insuficientes de tratamento da gua, formas imprprias de destino e tratamento de dejetos humanos, animais e do lixo. A rea de Geografia pode contribuir significativamente para a compreenso da maneira como as diferentes formas de organizao humana  as relaes com a natureza, a interveno humana sobre ela  contribuem para plasmar a situao de sade em diferentes realidades. Pode-se mapear as transformaes necessrias na poltica ambiental e no prprio ambiente para fazer pender a balana em favor da vida e da sade, no presente e no futuro.
No que se refere  suas prticas, toda a comunidade escolar deve participar cotidianamente da conservao do ambiente limpo e saudvel na escola e seu entorno.
A atuao em programas de defesa civil ou o desenvolvimento de projetos para a identificao dos riscos e aes preventivas e emergenciais em situaes crticas abrem campo para a traduo deste contedo em prticas concretas, segundo a realidade sanitria e social de cada localidade: os principais sinais e sintomas das doenas transmissveis em evidncia em funo de epidemias e endemias, as formas de contgio, preveno e tratamento precoce para a proteo da sade pessoal e de terceiros. Destacam-se as doenas sexualmente transmissveis e em especial a Aids, tratadas em captulo  parte dentro do tema Orientao Sexual. A informao relativa aos direitos da criana e do adolescente e  validade e importncia em se buscar ajuda quando necessrio constituem recursos essenciais para a proteo  sade, especificamente para a proteo contra a violncia sexual. Infelizmente,  preciso lembrar que as diferentes formas de violncia fsica e psicossocial, incluindo-se o abuso sexual, ocorrem, na maioria da vezes, no prprio ambiente familiar.
Os acidentes podem ser contemplados tanto do ponto de vista das medidas prticas de preveno como da aprendizagem de medidas de primeiros socorros. Em aulas prticas, com a participao de profissionais de sade, salva-vidas e bombeiros, podem ser 
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demonstradas as tcnicas para higienizao de ferimentos superficiais, uso de compressas frias em caso de contuses e primeiros cuidados em convulses, mordidas de animais, queimaduras, desmaios, picadas de insetos, tores e fraturas, afogamentos, intoxicaes, cibras, febre, choque eltrico, diarria e vmito, acidentes de trnsito, e uma infinidade de situaes que podem ocorrer na vida cotidiana. Deve ser destacada a necessidade de discernir problemas de maior gravidade, reconhecendo a necessidade de buscar auxlio de adultos e profissionais de sade.
Diversos fatores predispem o adolescente a comportamentos de risco para acidentes, principais responsveis pela perda de anos potenciais de vida em faixas etrias precoces. Torna-se prioritrio o desenvolvimento da valorao ajustada de riscos. Para isso,  necessrio trabalhar as informaes relativas  incidncia de agravos  sade por acidentes de forma geral e, particularmente, na realidade do escolar, identificando os comportamentos seguros pertinentes a cada situao.
 fundamental para a proteo  vida e  sade, nessa idade, conhecer as regras bsicas de segurana no trabalho e no trnsito e seu significado normativo e preventivo, tanto para o aprendizado da convivncia social como para a aplicao imediata, na vida cotidiana, das medidas preventivas correspondentes.
Deve-se ter o cuidado de no associar preveno  ideia que se deve evitar qualquer risco. Os riscos so inerentes  vida, alm de ser legitimada pela prpria sociedade a associao entre risco e prazer, como bem demonstra a prtica de muitos esportes. Mas pode-se discutir o medo como um sinal positivo de vida  no de covardia  quando se corre risco. No se trata de acabar com os riscos e desafios, mas de construir competncias para responder bem a eles.
Uma possibilidade realista de trabalhar a questo do risco  a identificao das associaes entre seus diversos componentes como consumo de lcool e acidentes de trnsito ou consumo de drogas injetveis e aumento da vulnerabilidade ao vrus da Aids. Na realidade, as mortes vioentas que atingem particularmente os adolescentes revelam como regra geral uma associao de riscos que no podem ser tratados de forma isolada.
Este pode ser o contexto para trabalhar de forma produtiva a vulnerabilidade do adolescente e, particularmente, o uso indevido de "drogas". Considerando-se as experincias j realizadas nesse campo, a escola em seu conjunto precisa adotar uma abordagem preventiva consistente, que integre o processo educativo de maneira permanente. No  necessrio, para isso, promover aulas explicativas sobre diferentes drogas. Pode-se, num momento determinado do trabalho educativo, com o auxlio de um profissional de sade ou de um professor que tenha interesse especial no assunto, identificar os efeitos das diferentes drogas nas pessoas para o discernimento entre as informaes corretas e os mitos e tabus que distanciam da preveno ao invs de promov-la.  importante diferenciar a experimentao do uso sistemtico, momento no qual o indivduo pode perder a oportunidade de escolha. Cabe promover a reflexo sobre o abuso e a 
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dependncia, situaes crticas de risco e de perda da liberdade, da mesma liberdade cuja busca tenha sido a motivao inicial para o consumo da droga.
O professor no precisa ser especialista em drogas e seus efeitos para realizar o trabalho preventivo, prprio ao mbito escolar. Em muitos casos, inclusive, os alunos podero ter mais informaes e menos receios em lidar com esse assunto do que os prprios educadores. Alm do mais, no se tem quaisquer evidncias de que a exposio a riscos ou o consumo sistemtico de drogas que limitam a sade relaciona-se negativamente com informaes tericas sobre suas aes e efeitos. Segundo relatrio apresentado pelo Ministrio da Sade, em 1994, a maioria dos estudantes de segundo grau consumidores de algum tipo de droga considerava o consumo prejudicial  sade. Expectativas de "resolver" a questo somente por meio de informao e de aes preventivas pautadas na proibio resultaram ineficazes.
A construo de atitudes de proteo contra os agravos  sade decorrentes do abuso de drogas precisa ser encarada como um trabalho de mdio e longo prazos. As nicas possibilidades que se tm mostrado frutferas no mbito escolar so as oportunidades de reflexo e de dilogo sobre o assunto. No adianta pensar pelos alunos; ao gerar espaos para essa discusso, a escola possibilita a construo de seu prprio discurso e a oportunidade de legitimar valores de modo autnomo. Este, sem dvida, no  um trabalho que pode ser feito de modo isolado. Articula-se necessariamente com as demais questes da vida dos jovens e demanda canto condies institucionais quanto postura pessoal de acolhimento por parte dos professores.
A abordagem preferencial se d, portanto, na forma de preveno inespecfica, na educao preventiva, na aprendizagem social de valores, atitudes e limites, pois o uso indevido de drogas no diz respeito aos marginais  sociedade, mas situa-se no centro de seus conflitos. O consumo de drogas psicoativas  sentido, pela maioria de seus usurios, como recurso que favorece o comportamento social mais relaxado, integrado ou alegre, ou como alternativa para a convivncia com os problemas para os quais no se tem soluo ou possibilidade de enfrentamento. E esses problemas so reais e esto presentes na vida de todas as pessoas. Quantas vezes no trabalho, nas relaes familiares, na vida social, h restritas possibilidades de escolha para situaes difceis, dolorosas ou mesmo insustentveis? H polmicas sobre a existncia de personalidades vulnerveis, mais propensas  drogadio. Mas, certamente, o uso sistemtico de drogas prejudiciais  sade constitui-se, hoje, em questo de mbito social alm de pessoal.
H um longo caminho anterior  dependncia, que afeta um nmero muito pequeno de pessoas. A droga, alm de produzir prazer, supre uma necessidade, representando muitas vezes uma tentativa de conforto ou de alvio da dor. Isto significa que preveno ao abuso de drogas se faz, principalmente, pelo estabelecimento do dilogo quanto aos fatores presentes na vida dos quais se quer alienar, seja na busca de alternativas para o enfrentamento dos desafios ou, pelo menos, cm sua clara identificao. Faz-se tambm por meio da percepo de fontes alternativas de prazer, de sentir-se capaz e com vontade 
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de batalhar por ele com recursos diferentes. Novamente, o reforo das atuaes positivas, a promoo da afetividade e da auto-estima conquistada ao longo de toda a formao, constituem-se em ferramentas para a construo de condutas positivas com esprito crtico e criativo e de atitudes de autopreservao diante de riscos excessivos e desnecessrios.
Em determinados casos, a autonomia para a proteo contra riscos no desejados ou desnecessrios envolve o desenvolvimento de capacidades para resistir s presses sociais, principalmente dos pares, a depender da realidade do aluno e de seu grupo de pertinncia social. Considerando o poder da "turma" sobre os comportamentos individuais, a adoo de compromissos de cuidado pessoal e mtuo com seus grupos tem efeito comprovadamente mais eficaz sobre os jovens do que as medidas autoritrias e repressivas tomadas como instrumento de coero.
As pessoas dependentes de drogas so merecedoras de ateno mdica, psicolgica e social. A identificao e o reconhecimento de situaes-problema no pode ser um fator de discriminao e excluso de alunos, pois seria incoerente com o reconhecimento da necessidade de solidariedade e do desenvolvimento de posturas socialmente responsveis e preventivas. Prevenir  oferecer escolhas e a melhor ajuda que se pode oferecer  exatamente a possibilidade de sua aceitao e incluso.
No convvio escolar, a tomada de decises de grupo permite trabalhar a necessidade de respeito por acordos e decises alcanados por meio do dilogo. O reconhecimento da existncia de conflitos interpessoais e grupais que possam produzir comportamentos de desagregao e excluso pode, em sala de aula, ser tomado como situao motivadora para o exerccio da construo de um comportamento responsvel e solidrio, valorizando os aportes e as aes de cada um, de modo que a defesa dos prprios interesses e opinies seja complementar  atitude de respeito para com as dos outros. Estas so ocasies propcias para a identificao da possibilidade de convivncia com a diferena.
Tambm em vida coletiva, o recurso da construo e atualizao peridica de um quadro panormico da sade, incluindo acontecimentos significativos do ponto de vista ambiental, a ocorrncia de epidemias, fatos polticos e suas repercusses sobre a sade, pesquisas e descobertas cientficas, datas emblemticas como o "Dia mundial de combate  Aids", permite a reelaborao e expresso das aspiraes e projetos para a transformao social.
Este bloco de contedo busca recuperar a cultura de sade do aluno para que possa ser trabalhada de forma consciente, complementando o saber popular com o saber oriundo do ensino e aprendizagem escolares.
Na vida cotidiana, a valorizao das prticas solidrias diante de problemas e necessidades de sade dos demais, as atitudes de ajuda e proteo a pessoas doentes e deficientes tambm se incluem na formao de comportamentos saudveis. A solidariedade diante das necessidades das pessoas e da comunidade  um ato de humanizao e um elemento essencial para o exerccio da cidadania. 
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PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS
ORIENTAO SEXUAL
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APRESENTAO

Ao tratar do tema Orientao Sexual, busca-se considerar a sexualidade como algo inerente a vida e  sade, que se expressa no ser humano, do nascimento ate a morte. Relaciona-se com o direito ao prazer e ao exerccio da sexualidade com responsabilidade. Engloba as relaes de gnero, o respeito a si mesmo e ao outro e  diversidade de crenas, valores e expresses culturais existentes numa sociedade democrtica e pluralista. Inclui a importncia da preveno das doenas sexualmente transmissveis/Aids e da gravidez indesejada na adolescncia, entre outras questes polmicas. Pretende contribuir para a superao de tabus e preconceitos ainda arraigados no contexto sociocultural brasileiro.
A primeira parte deste documento justifica a importncia de incluir Orientao Sexual como tema transversal nos currculos, discorre sobre a postura do educador e da escola, descrevendo, para tanto, as referncias necessrias  atuao educacional ao tratar do assunto, trabalho que se diferencia do tratamento da questo no ambiente familiar. Aborda ainda, por meio dos objetivos gerais, as capacidades a serem desenvolvidas pelos alunos do ensino fundamental.
A segunda parte, constituda pelos blocos de contedo e por orientaes para trabalhos com Orientao Sexual em espao especfico, refere-se  abordagem da sexualidade no terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Alm das informaes, destaca-se o estmulo  reflexo dos jovens a partir da problematizao e debate das diversas temticas atuais da sexualidade.
O objetivo deste documento  promover reflexes e discusses de tcnicos, professores, equipes pedaggicas, bem como de pais e responsveis, com a finalidade de sistematizar a ao pedaggica da escola no trato de questes da sexualidade.
Secretaria de Educao Fundamental
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ORIENTAO SEXUAL
1 PARTE
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JUSTIFICATIVA
A discusso sobre a incluso da temtica da sexualidade no currculo das escolas de ensino fundamental e mdio vem se intensificando desde a dcada de 70, provavelmente em funo das mudanas comportamentais dos jovens dos anos 60, dos movimentos feministas e de grupos que pregavam o controle da natalidade. Com diferentes enfoques e nfases, h registros de discusses e de trabalhos em escolas desde a dcada de 20. A retomada contempornea dessa questo deu-se juntamente com os movimentos sociais que se propunham, com a abertura poltica, repensar o papel da escola e dos contedos por ela trabalhados. Mesmo assim no foram muitas as iniciativas tanto na rede pblica como na rede privada de ensino.
A partir de meados dos anos 80, a demanda por trabalhos na rea da sexualidade nas escolas aumentou em virtude da preocupao dos educadores com o grande crescimento da incidncia de gravidez indesejada entre as adolescentes e com o risco da infeco pelo HIV (vrus da Aids1) entre os jovens. Antes, acreditava-se que as famlias apresentavam resistncia  abordagem dessas questes no mbito escolar, mas atualmente sabe-se que os pais reivindicam a orientao sexual nas escolas, pois reconhecem no s a sua importncia para crianas e jovens, como tambm a dificuldade de falar abertamente sobre o assunto em casa. Uma pesquisa do Instituto DataFolha, realizada em dez capitais brasileiras e divulgada em junho de 1993, constatou que 86% das pessoas ouvidas eram favorveis  incluso de Orientao Sexual nos currculos escolares.
As manifestaes da sexualidade afloram em todas as faixas etrias. Ignorar, ocultar ou reprimir so respostas habituais dadas por profissionais da escola, baseados na idia de que a sexualidade  assunto para ser lidado apenas pela famlia.
Na prtica, toda famlia realiza a educao sexual de suas crianas e jovens, mesmo aquelas que nunca falam abertamente sobre isso. O comportamento dos pais entre si, na relao com os filhos, no tipo de "cuidados" recomendados, nas expresses, gestos e proibies que estabelecem, so carregados dos valores associados  sexualidade que a criana e o adolescente apreendem.
O fato de a famlia ter valores conservadores, liberais ou progressistas, professar alguma crena religiosa ou no, e a forma como o faz, determina em grande parte a educao das crianas e jovens. Pode-se afirmar que  no espao privado, portanto, que a criana recebe com maior intensidade as noes a partir das quais vai construindo e expressando a sua sexualidade.
Se as palavras, comportamentos e aes dos pais configuram o primeiro e mais importante modelo da educao sexual das crianas, muitos outros agentes sociais e milhares de estmulos faro parte desse processo. Todas as pessoas com quem convivem outras crianas,
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jovens e adultosao expressarem sua sexualidade ensinam coisas, transmitem conceitos e idias, tabus, preconceitos e esteretipos que vo se incorporando a educao sexual.
A mdia, nas suas mltiplas manifestaes, e com muita fora, assume relevante papel, ajudando a moldar vises e comportamentos. Ela veicula imagens erticas, que estimulam crianas e adolescentes, incrementando a ansiedade e alimentando fantasias sexuais. Tambm informa, veicula campanhas educativas, que nem sempre so dirigidas e adequadas a esse pblico. Muitas vezes tambm moraliza e refora preconceitos. Ao ser elaborada por crianas e adolescentes, essa mescla de mensagens pode acabar produzindo conceitos e explicaes tanto errneos quanto fantasiosos.
A sexualidade no espao escolar no se inscreve apenas em portas de banheiros, muros e paredes. Ela "invade" a escola por meio das atitudes dos alunos em sala de aula e da convivncia social entre eles. Por vezes a escola realiza o pedido, impossvel de ser atendido, de que os alunos deixem sua sexualidade fora dela.
H tambm a presena clara da sexualidade dos adultos que atuam na escola. Pode-se notar, por exemplo, a grande inquietao e curiosidade que a gravidez de uma professora desperta nos alunos menores. Os adolescentes testam, questionam e tomam como referncia a percepo que tm da sexualidade de seus professores, por vezes desenvolvendo fantasias, em busca de seus prprios parmetros.
Todas essas questes so expressas pelos alunos na escola. Cabe a ela 
1 Aids ou SIDA  a sigla correspondente  Sndrome da Imunodeficincia Adquirida.  um conjunto de sintomas ligados  perda das defesas do organismo. A Aids  causada pelo vrus chamado HIV (Vrus da Imunodeficincia Humana), que ataca os mecanismos de defesa do corpo humano. O HIV pode ser transmitido atravs da entrada, na corrente sangnea, de fluidos sexuais, sangue ou leite materno contaminados.
desenvolver ao crtica, reflexiva e educativa.
Queira ou no, a escola intervm de vrias formas, embora nem sempre tenha conscincia disso e nem sempre acolha as questes dos adolescentes e jovens. Seja no cotidiano da sala de aula, quando probe certas manifestaes e permite outras, seja quando opta por informar os pais sobre manifestaes de seu filho, a escola est sempre transmitindo certos valores, mais ou menos rgidos, a dependerdes profissionais envolvidos no momento.
Praticamente todas as escolas trabalham o aparelho reprodutivo em Cincias Naturais. Geralmente o fazem por meio da discusso sobre a reproduo humana, com informaes ou noes relativas  anatomia e fisiologia do corpo humano. Essa abordagem normalmente no abarca as ansiedades e curiosidades das crianas, nem o interesse dos adolescentes, pois enfoca apenas o corpo biolgico e no inclui a dimenso da sexualidade.
Sabe-se que as curiosidades das crianas a respeito da sexualidade so questes muito significativas para a subjetividade, na medida em que se relacionam com o conhecimento das origens de cada um e com o desejo de saber. A satisfao dessas curiosidades contribui para que o desejo de saber seja impulsionado ao longo da vida, enquanto a no-satisfao gera ansiedade, tenso e, eventualmente, inibio da capacidade investigativa. A oferta, por parte da escola, de um espao em que as crianas possam esclarecer suas dvidas e continuar formulando novas questes, contribui para o alvio das ansiedades que muitas vezes interferem no aprendizado dos contedos escolares.
Com a ativao hormonal trazida pela puberdade, a sexualidade assume o primeiro plano na vida e no comportamento dos adolescentes. Toma o carter de urgncia,  o centro de todas as atenes, est em todos os lugares, na escola ou fora dela, nas malcias,
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nas piadinhas, nos bilhetinhos, nas atitudes e apelidos maldosos, no "ficar", nas carcias pblicas, no namoro, e em tudo o que qualquer matria estudada possa sugerir. A escola pode ter papel importante, canalizando essa energia que  vida, para produzir conhecimento, respeito a si mesmo, ao outro e  coletividade.
Se a escola deseja ter uma viso integrada das experincias vividas pelos alunos, buscando desenvolver o prazer pelo conhecimento,  necessrio reconhecer que desempenha um papel importante na educao para uma sexualidade ligada  vida,  sade, ao prazer e ao bem-estar e que englobe as diversas dimenses do ser humano.
O trabalho sistemtico de Orientao Sexual dentro da escola articula-se, tambm, com a promoo da sade das crianas, dos adolescentes e dos jovens. A existncia desse trabalho possibilita a realizao de aes preventivas das doenas sexualmente transmissveis/Aids de forma mais eficaz. Diversos estudos j demonstraram os parcos resultados obtidos por trabalhos espordicos sobre esse assunto. Inmeras pesquisas apontam tambm que apenas a informao no  suficiente para favorecer a adoo de comportamentos preventivos.
Reconhecem-se, portanto, como intervenes mais eficazes na preveno da Aids, as aes educativas continuadas, que oferecem possibilidades de elaborao das informaes recebidas e de discusso dos obstculos emocionais e culturais que impedem a adoo de condutas preventivas. Devido ao tempo de permanncia dos jovens na escola e s oportunidades de trocas, convvio social e relacionamentos amorosos, a escola constitui-se em local privilegiado para a abordagem da preveno das doenas sexualmente transmissveis/Aids, no podendo se omitir diante da relevncia dessas questes.
A Orientao Sexual na escola  um dos fatores que contribui para o conhecimento e valorizao dos direitos sexuais e reprodutivos. Estes dizem respeito  possibilidade de que homens e mulheres tomem decises sobre sua fertilidade, sade reprodutiva e criao de filhos, tendo acesso s informaes e aos recursos necessrios para implementar suas decises. Esse exerccio depende da vigncia de polticas pblicas que atendam a estes direitos.
O trabalho de Orientao Sexual tambm contribui para a preveno de problemas graves, como o abuso sexual e a gravidez indesejada. Com relao  gravidez indesejada, o debate sobre a contracepo, o conhecimento sobre os mtodos anticoncepcionais, sua disponibilidade e a reflexo sobre a prpria sexualidade ampliam a percepo sobre os cuidados necessrios quando se quer evit-la. Para a preveno do abuso sexual com crianas e jovens, trata-se de favorecer a apropriao do corpo, promovendo a conscincia de que seu corpo lhes pertence e s deve ser tocado por outro com seu consentimento ou por razes de sade e higiene. Isso contribui para o fortalecimento da auto-estima, com a conseqente inibio do submetimento ao outro.
Com a incluso da Orientao Sexual nas escolas, a discusso de questes polmicas e delicadas, como masturbao, iniciao sexual, o "ficar" e o namoro, homossexualidade, aborto, disfunes sexuais, prostituio e pornografia, dentro de uma perspectiva democrtica e pluralista, em muito contribui para o bem-estar das crianas, dos adolescentes e dos jovens na vivncia de sua sexualidade atual e futura.
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CONCEPO DO TEMA
 A sexualidade forma parte integral da personalidade de cada um.
 uma necessidade bsica e um aspecto do ser humano que no pode ser separado de outros aspectos da vida.
A sexualidade no  sinnimo de coito e no se limita  presena ou no do orgasmo.
Sexualidade  muito mais do que isso,  a energia que motiva encontrar o amor, contato e intimidade, e se expressa na forma de sentir, na forma de as pessoas tocarem e serem tocadas.
A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, aes e interaes e tanto a sade fsica como a mental.
Se a sade  um direito humano fundamental, a sade sexual tambm deveria ser considerada como um direito humano bsico.
A sexualidade tem grande importncia no desenvolvimento e na vida psquica das pessoas, pois, alm da sua potencialidade reprodutiva, relaciona-se com a busca do prazer, necessidade fundamental das pessoas. Manifesta-se desde o momento do nascimento at a morte, de formas diferentes a cada etapa do desenvolvimento humano, sendo construda ao longo da vida. Alm disso, encontra-se necessariamente marcada pela histria, cultura, cincia, assim como pelos afetos e sentimentos, expressando-se ento com singularidade em cada sujeito. Indissociavelmente ligado a valores, o estudo da sexualidade rene contribuies de diversas reas, como Educao, Psicologia, Antropologia, Histria, Sociologia, Biologia, Medicina e outras. Se, por um lado, sexo  expresso biolgica que define um conjunto de caractersticas anatmicas e funcionais (genitais e extragenitais), a sexualidade, entendida de forma bem mais ampla,  expresso cultural. Cada sociedade desenvolve regras que se constituem em parmetros fundamentais para o comportamento sexual das pessoas. Isso se d num processo social que passa pelos interesses dos agrupamentos socialmente organizados e das classes sociais, que  mediado pela cincia, pela religio e pela mdia, e sua resultante  expressa tanto pelo imaginrio coletivo quanto pelas polticas pblicas, coordenadas pelo Estado. A proposta de Orientao Sexual procura considerar todas as dimenses da sexualidade: a biolgica, a psquica e a sociocultural, alm de suas implicaes polticas.

 Organizao Mundial de Sade, 1975.
Sexualidade na infncia e na adolescncia
Os contatos de uma me com seu filho despertam nele as primeiras vivncias de
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prazer. Essas primeiras experincias sensuais de vida e de prazer no so  essencialmente biolgicas, mas se constituiro no acervo psquico do indivduo, so o embrio da vida mental no beb. A sexualidade infantil se desenvolve desde os primeiros dias de vida e segue se manifestando de forma diferente em cada momento da infncia.
Assim como a inteligncia, a sexualidade ser construda a partir das possibilidades individuais e de sua interao com o meio e a cultura. Os adultos reagem, de uma forma ou de outra, aos primeiros movimentos exploratrios que a criana faz na regio genital e aos jogos sexuais com outras crianas. As crianas recebem ento, desde muito cedo, uma qualificao ou "julgamento" do mundo adulto em que esto imersas, permeado de valores e crenas atribudos  sua busca de prazer, os quais estaro presentes na sua vida psquica.
Nessa explorao do prprio corpo, na observao do corpo de outros, e a partir das relaes familiares  que a criana se descobre num corpo sexuado de menino ou menina. Preocupa-se ento mais intensamente com as diferenas entre os sexos, no s as anatmicas, mas todas as expresses que caracterizam o homem e a mulher. A construo do que  pertencer a um ou outro sexo se d pelo tratamento diferenciado para meninos e meninas, inclusive nas expresses diretamente ligadas  sexualidade, e pelos padres socialmente estabelecidos de feminino e masculino. Esses padres so oriundos das representaes sociais e culturais construdas a partir das diferenas biolgicas dos sexos, e transmitidas atravs da educao, o que atualmente recebe a denominao de "relaes de gnero". Essas representaes internalizadas so referncias fundamentais para a constituio da identidade da criana.
As formulaes conceituais sobre sexualidade infantil datam do comeo deste sculo, e ainda hoje no so conhecidas ou aceitas por parte de profissionais que se ocupam de crianas, inclusive educadores. Para alguns, as crianas so seres "puros" e "inocentes" que no tm sexualidade a expressar, e as manifestaes da sexualidade infantil possuem a conotao de algo feio, sujo, pecaminoso, cuja existncia se deve  m influncia de adultos. Entre outros educadores, no entanto, j se encontram bastante difundidas as noes da existncia e da importncia da sexualidade para o desenvolvimento de crianas e jovens.
Em relao  puberdade, as mudanas fsicas incluem alteraes hormonais que, muitas vezes, provocam estados de excitao difceis de controlar, intensifica-se a atividade masturbatria e instala-se a genitalidade. E a fase de novas descobertas e novas experimentaes, podendo ocorrer as exploraes da atrao e das fantasias sexuais com pessoas do mesmo sexo e do outro sexo. A experimentao dos vnculos tem relao com a rapidez e a intensidade da formao e da separao de pares amorosos entre os adolescentes.
As expresses da sexualidade, assim como a intensificao das vivncias amorosas, so aspectos centrais na vida dos adolescentes. A sensualidade e a "malcia" esto presentes nos seus movimentos e gestos, nas roupas que usam, na msica que produzem e consomem, na produo grfica e artstica, nos esportes e no humor por eles cultivado.
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A escola, sendo capaz de incluir a discusso da sexualidade no seu projeco pedaggico, estar se habilitando a interagir com os jovens a partir da linguagem e do foco de interesse que marca essa etapa de suas vidas e que  to importante para a construo de sua identidade.
A comunicao entre educadores e adolescentes tender a se estabelecer com mais facilidade, colaborando para que todo o trabalho pedaggico flua melhor.
A presente proposta de trabalho com sexualidade legitima o papel e delimita a atuao do educador neste campo.
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O TRABALHO DE ORIENTAO SEXUAL NA ESCOLA
A escola, ao definir o trabalho com Orientao Sexual como uma de suas competncias, o incluir no seu projeto educativo. Isso implica uma definio clara dos princpios que devero nortear o trabalho de Orientao Sexual e sua clara explicitao para toda a comunidade escolar envolvida no processo educativo dos alunos. Esses princpios determinaro desde a postura diante das questes relacionadas  sexualidade e suas manifestaes na escola, at a escolha de contedos a serem trabalhados junto aos alunos. A coerncia entre os princpios adotados e a prtica cotidiana da escola dever pautar todo o trabalho.
Para garantir essa coerncia, ao tratar de tema associado a To grande multiplicidade de valores, a escola precisa estar consciente da necessidade de abrir um espao para reflexo como parte do processo de formao permanente de todos os envolvidos no processo educativo.
A sexualidade  primeiramente abordada no espao privado, por meio das relaes familiares. Assim, de forma explcita ou implcita, so transmitidos os valores que cada famlia adota como seus e espera que as crianas e os adolescentes assumam.
De forma diferente, cabe  escola abordar os diversos pontos de vista, valores e crenas existentes na sociedade para auxiliar o aluno a construir um ponto de auto-referncia por meio da reflexo. Nesse sentido, o trabalho realizado pela escola, denominado aqui Orientao Sexual3, no substitui nem concorre com a funo da famlia, mas a complementa. Constitui um processo formal e sistematizado que acontece dentro da instituio escolar, exige planejamento e prope uma interveno por parte dos profissionais da educao.
O trabalho de Orientao Sexual na escola se faz problematizando, questionando e ampliando o leque de conhecimentos e de opes para que o prprio aluno escolha seu caminho. A Orientao Sexual aqui proposta no pretende ser diretiva e est circunscrita ao mbito pedaggico e coletivo, no tendo, portanto, carter de aconselhamento individual nem psicoteraputico. Isso quer dizer que as diferentes temticas da sexualidade devem ser trabalhadas dentro do limite da ao pedaggica, sem invadir a intimidade e o comportamento de cada aluno ou professor. Tal postura deve, inclusive, auxiliar as crianas e os jovens a discriminar o que pode e deve ser compartilhado no grupo e o que deve ser mantido como vivncia pessoal. Apenas os alunos que, por questes pessoais, demandem  ateno e interveno individuais, devem ser atendidos separadamente do grupo pelo professor ou orientador na escola, e poder ser discutido um possvel encaminhamento
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para atendimento especializado. Alunos portadores de algumas deficincias podem eventualmente ter dificuldades de comunicao e de expresso da sexualidade e, por isso, exigir formas diferenciadas de orientao na escola, nos contedos e estratgias de abordagem. Dada a expresso singular da sexualidade em cada indivduo, tambm os portadores de necessidades especiais merecem ateno diferenciada na escola, devendo ser acionadas assessorias de profissionais especializados se necessrio.
Prope-se que a Orientao Sexual oferecida pela escola aborde com as crianas e os jovens as repercusses das mensagens transmitidas pela mdia, pela famlia e pelas demais instituies da sociedade. Trata-se de preencher lacunas nas informaes que a 
 Trabalhos similares ao proposto por este documento recebem diferentes denominaes, como Educao Sexual, Educao em Sexualidade, Educao Afetivo-Sexual, entre outras, no Brasil e no exterior.
criana e o adolescente j possuem e, principalmente, criar a possibilidade de formar opinio a respeito  do que lhes  ou foi apresentado. A escola, ao propiciar informaes atualizadas do ponto de vista cientfico e ao explcitar e debater os diversos valores 
associados  sexualidade e aos comportamentos sexuais existentes na sociedade, possibilita ao aluno desenvolver atitudes coerentes com os valores que ele prprio eleger como seus.
Experincias bem-sucedidas com Orientao Sexual em escolas que realizam esse trabalho apontam para alguns resultados importantes: aumento do rendimento escolar (devido ao alvio de tenso e preocupao com questes da sexualidade) e aumento da solidariedade e do respeito entre os alunos. Quanto s crianas menores, os professores relatam que informaes corretas ajudam a diminuir a angstia e a agitao em sala de aula. No caso dos adolescentes, as manifestaes da sexualidade tendem a deixar de ser fonte de agresso, provocao, medo e angstia, para tornar-se assunto de reflexo.

Manifestaes da sexualidade na escola
As manifestaes da sexualidade infantil mais freqentes acontecem na realizao de carcias no prprio corpo, na curiosidade sobre o corpo do outro, nas brincadeiras com colegas, nas piadas e msicas jocosas que se referem ao sexo, nas perguntas ou ainda na imitao de gestos e atitudes tpicos da manifestao da sexualidade adulta.
Essas manifestaes tambm acontecem no mbito escolar e  necessrio que a escola se posicione clara e conscientemente sobre referncias e limites com os quais ir trabalhar as expresses da sexualidade dos alunos. Se  adequado ao espao da escola o esclarecimento de dvidas e curiosidades sobre este tema,  importante que contribua para que a criana aprenda a distinguir as expresses que fazem parte da sua intimidade e privacidade daquelas que so pertinentes ao convvio social.
A manipulao curiosa e prazerosa dos genitais e as brincadeiras que envolvem contato corporal nas regies genitais so frequentes nos ciclos iniciais. A interveno dos educadores nessas situaes deve se dar de forma que aponte a inadequao de tal comportamento s normas do convvio escolar, no cabendo a eles condenar ou aprovar essas atitudes, mas
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sim contextualiz-la. Compete aos educadores compreender, ento, que no se trata de aberrao que justifique informar os pais. E funo da prpria escola estabelecer diretamente com seus alunos os limites para o que pode ou no ocorrer dentro dela. A convocao dos pais s se justifica quando se tratar de prticas muito recorrentes e que estejam interferindo nas possibilidades de aprendizagem do aluno ou demandem cuidados com sua sade. Isso pressupe a interveno anterior dos educadores com os alunos envolvidos na situao. A convocao no pode substituir a ao junto s crianas e adolescentes e, caso ela ocorra, os alunos devem estar cientes dela.
 comum nos primeiros ciclos a curiosidade sobre concepo e parto, relacionamento sexual ou Aids. Muitas vezes a curiosidade se expressa de forma direta. Outras, surge encoberta em brincadeiras erotizadas, piadas, expresses verbais, msicas etc. Observa-se tambm que as crianas reproduzem manifestaes da sexualidade adulta vistas na TV ou presenciadas. Compete ao educador identificar essas manifestaes como curiosidades acerca dos aspectos relacionados  sexualidade e intervir pontualmente, permitindo que as dvidas possam ser colocadas e o assunto possa ser tratado de forma clara e direta. Essa interveno deve esclarecer as dvidas dos alunos e, se o tema for de interesse geral, o professor deve oferecer espao para discusso e esclarecimento. Nos ciclos seguintes (terceiro e quarto), com o desenvolvimento e as aprendizagens que o favorecem, essas manifestaes vo se transformando, ainda que no desapaream de todo.
Quando a questo da sexualidade  tomada como algo srio a ser esclarecido, compreendido e estudado, tende a modificar a relao agitada dos adolescentes com o tema. Vo perdendo progressivamente sentido os desenhos de rgos genitais nas carteiras, paredes e banheiros da escola, como atitudes provocativas e exibicionistas de sensualidade exacerbada ou as tentativas de escandalizar os adultos.
Manifestaes da sexualidade associadas  agressividade so indicadores da necessidade de discutir abertamente um assunto que causa ansiedade, desperta dvidas e expressa uma nova vivncia para eles, a do relacionamento sexual. Vergonhas, risos encabulados e principalmente a sada para a "gozao" so reaes tambm muito comuns entre adolescentes, quando se coloca em pauta a questo sexual. H, ainda, muitos que se calam, sentindo-se incapazes de expressar uma opinio a respeito dos assuntos relacionados  sexualidade. Isso acontece at com alunos e alunas que tm participao ativa nas aulas e na vida escolar, de modo geral.
Todas essas reaes indicam as dificuldades para lidar com o tema, o medo de errar, de no ser "normal", da opinio alheia. So difceis porque se referem a coisas ntimas, que dizem respeito a cada adolescente, sem exceo.
Criar espaos para reflexo e debate, justamente dessas questes, sem personaliz-las,  o que pode ajudar os jovens a passar por essa fase com menos angstias e turbulncias, e sem precisar armar uma couraa protetora/repressora ou transformar a sexualidade em expresso de rebeldia.
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O bem-estar sexual passa pelo esclarecimento das questes que esto sendo vivenciadas pelas crianas e pelos jovens e  favorecido pelo seu debate aberto, nas diversas etapas do crescimento.

Postura dos educadores
E importante que os educadores reconheam como legtimas e lcitas, por parte das crianas e dos jovens, a busca do prazer e as curiosidades manifestas acerca da sexualidade, uma vez que fazem parte de seu processo de desenvolvimento.
Para um consistente trabalho de Orientao Sexual,  necessrio que se estabelea uma relao de confiana entre alunos e professores. Os professores precisam se mostrar disponveis para conversar a respeito dos temas propostos e abordar as questes de forma direta e esclarecedora, exceo feita s informaes que se refiram  intimidade do educador. Informaes corretas do ponto de vista cientfico ou esclarecimentos sobre as questes trazidas pelos alunos so fundamentais para seu bem-estar e tranquilidade, para uma maior conscincia de seu prprio corpo, elevao de sua auto-estima e, portanto, melhores condies de preveno das doenas sexualmente transmissveis, gravidez indesejada e abuso sexual.
A escola deve informar, problematizar e debater os diferentes tabus, preconceitos, crenas e atitudes existentes na sociedade, buscando no a iseno total, o que  impossvel, mas um maior distanciamento das opinies e aspectos pessoais dos professores para empreender essa tarefa. Isso porque na relao professor-aluno o professor ocupa lugar de maior poder, constituindo-se em referncia muito importante para o aluno. A emisso da opinio pessoal do professor na sala de aula pode ocupar o espao dos questionamentos, incertezas e ambivalncias necessrios  construo da opinio do prprio aluno. Por exemplo, numa discusso sobre virgindade entre um grupo de alunos de oitava srie e seu professor, abordam-se todos os aspectos e opinies sobre o tema, seu significado para meninos e meninas, pesquisam-se suas implicaes em diferentes culturas, sua conotao em diferentes momentos histricos e os valores atribudos por distintos grupos sociais contemporneos. O professor conduz e orienta o debate, no emitindo opinies pessoais. Aps esse trabalho,  uma opo pessoal do aluno tirar (ou no) uma concluso sobre o tema da virgindade naquele momento, no sendo necessrio explicit-la para o grupo. J no espao domstico o mesmo tema, quando abordado, suscita expectativas, ansiedades e direcionamento por parte dos pais, coisas muito diferentes das discutidas em sala de aula.
Os professores (e as demais pessoas), mesmo sem perceber, transmitem valores com relao  sexualidade no seu trabalho cotidiano, inclusive na forma de responder ou no s questes mais simples trazidas pelos alunos. Por exemplo, se um professor disser que uma relao sexual  apenas a que acontece entre um homem e uma mulher aps o casamento
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para ter filhos, estar afirmando valores especficos: sexo heterossexual aps o casamento, com o objetivo da procriao.
 necessrio que o educador tenha acesso  formao especfica para tratar de sexualidade com crianas e jovens na escola, possibilitando a construo de uma postura profissional e consciente no trato desse tema. Os professores necessitam entrar em contato com suas prprias dificuldades diante do tema, com questes tericas, leituras e discusses referentes  sexualidade e suas diferentes abordagens; preparar-se para a interveno prtica junto aos alunos e ter acesso a um espao grupal de produo de conhecimento a partir dessa prtica, se possvel contando com assessoria especializada. A formao deve ocorrer de forma continuada e sistemtica, propiciando a reflexo sobre valores e preconceitos dos prprios educadores envolvidos no trabalho de Orientao Sexual.  necessrio que os professores possam reconhecer os valores que regem seus prprios comportamentos e orientam sua viso de mundo, assim como reconhecer a legitimidade de valores e comportamentos diversos dos seus. Tal postura cria condies mais favorveis para o esclarecimento, a informao e o debate sem a imposio de valores especficos.
A postura dos educadores precisa refletir os valores democrticos e pluralistas propostos e os objetivos gerais a serem alcanados. Em relao s questes de gnero, por exemplo, os professores devem transmitir, por sua conduta, a valorizao da eqidade entre os gneros e a dignidade de cada um individualmente. Ao orientar todas as discusses, eles prprios respeitam a opinio de cada aluno e, ao mesmo tempo, garantem o respeito e a participao de todos, explicitando os preconceitos e trabalhando pela no-discriminao das pessoas. Para a construo dessa postura tica, o trabalho coletivo da equipe escolar, definindo princpios educativos, em muito ajudar cada professor em particular nessa tarefa.
Os professores tambm precisam estar atentos s diferentes formas de expresso dos alunos. Muitas vezes a repetio de brincadeiras, pardias de msicas ou apelidos alusivos  sexualidade podem significar uma necessidade no verbalizada de discusso e de compreenso de algum tema. Deve-se ento satisfazer a essa necessidade.
No trabalho com crianas, os contedos devem tambm favorecer a compreenso de que o ato sexual  manifestao pertinente  sexualidade de jovens e de adultos, no de crianas. Os jogos sexuais infantis tm carter exploratrio, pr-genital.
Com relao s brincadeiras a dois ou em grupo que remetam  sexualidade,  importante que o professor afirme como princpios a necessidade do consentimento e a aprovao sem constrangimento por parte dos envolvidos. Para a preveno do abuso sexual,  igualmente importante o esclarecimento de que essas brincadeiras em grupo ou a dois so prejudiciais quando envolvem crianas ou jovens de idades muito diferentes, ou quando so realizadas entre adultos e crianas. Alm disso, os alunos devem saber que podem procurar ajuda de um adulto de sua confiana, no caso de serem envolvidos em situao de abuso.
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Os adolescentes tm todo o direito ao prazer. Precisam aprender a considerar, tambm, os aspectos reprodutivos de sua sexualidade genital e, portanto, agir responsavelmente, prevenindo-se da gravidez indesejada e das doenas sexualmente transmissveis/Aids. A sexualidade envolve pessoas e, conseqentemente, sentimentos, que precisam ser percebidos e respeitados. Envolve tambm crenas e valores, ocorre em um determinado contexto sociocultural e histrico, que tem papel determinante nos comportamentos. Nada disso pode ser ignorado quando se debate a sexualidade com os jovens. O papel de problematizador e orientador do debate, que cabe ao educador,  essencial para que os adolescentes aprendam a refletir e tomar decises coerentes com seus valores, no que diz respeito  sua prpria sexualidade, ao outro e ao coletivo, conscientes de sua insero em uma sociedade que incorpora a diversidade.

Relao escola-famlias
O trabalho de Orientao Sexual compreende a ao da escola como complementar  educao dada pela famlia. Assim, a escola dever informar os familiares dos alunos sobre a Orientao Sexual includa na proposta curricular e explicitar os princpios norteadores do trabalho. No dilogo entre a escola e as famlias, pretende-se que a sexualidade deixe de ser tabu e, ao ser objeto de discusso na escola, possibilite a troca de idias entre esta e as famlias. O apoio dos pais aos trabalhos desenvolvidos com os alunos  um aliado importante para o xito da Orientao Sexual na escola.
Os arranjos familiares, assim como os valores a eles associados, variam enormemente na realidade brasileira. O ncleo familiar pode incluir pai, me e filhos com outros agregados ou no. Pode-se estabelecer entre me e filhos ou pais e filhos. A separao dos pais pode dar origem ao compartilhar de duas casas, com duas famlias, incluindo padrasto e madrasta. A adoo de filhos, o peso do sustento da famlia por parte da mulher, o compartilhar da mesma casa por casal que se separou so outros elementos presentes nas estruturas familiares. Muitas crianas e adolescentes vivem em lares habitados exclusivamente por homens ou por mulheres. O nmero de famlias chefiadas por mulheres cresceu significativamente no Brasil, indicando tanto os novos rumos sociais da mulher quanto a inviabilidade da manuteno de relaes homem-mulher, montadas sobre vnculos pouco consistentes.
Muitas mudanas na esfera domstica refletem mudanas nas relaes de gnero, mostrando a mulher menos confinada ao lar, o homem mais comprometido na esfera domstica e na paternidade, o que acaba gerando novas configuraes familiares e a reviso de papis sexuais.
Diferentes famlias constroem suas histrias e desenvolvem crenas e valores, certamente muito diversos, embora possam receber influncias sociais semelhantes.
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Compreender e respeitar essa diversidade e dialogar com ela enriquece a comunidade escolar e favorece o desenvolvimento de uma viso crtica por parte dos alunos.
No compete  escola, em nenhuma situao, julgar como certa ou errada a educao que cada famlia oferece. O papel da escola  abrir espao para que a pluralidade de concepes, valores e crenas sobre sexualidade possa se expressar. Caber  escola trabalhar o respeito s diferenas a partir da sua prpria atitude de respeitar as diferenas expressas pelas famlias. A nica exceo refere-se s situaes em que haja violao dos direitos das crianas e dos jovens. Nesses casos especficos, cabe  escola posicionar-se a fim de garantir a integridade bsica de seus alunos  por exemplo, as situaes de violncia sexual contra crianas por parte de familiares devem ser comunicadas ao Conselho Tutelar (que poder manter o anonimato do denunciante) ou autoridade correspondente.
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ORIENTAO SEXUAL COMO TEMA TRANSVERSAL
As questes referentes  sexualidade no se restringem ao mbito individual. Pelo contrrio, para compreender comportamentos e valores pessoais  necessrio concextualiz-los social e culturalmente.  nas relaes sociais que se definem, por exemplo, os padres de relao de gnero, o que homens e mulheres podem e devem fazer por serem homens e mulheres, e, principalmente, quais so e quais devero ser os direitos de cidadania ligados  sexualidade e  reproduo. O alto ndice de gravidez indesejada na adolescncia, abuso sexual e prostituio infantil, o crescimento da epidemia da Aids, a discriminao das mulheres no mercado de trabalho, so algumas das questes sociais que demandam posicionamento em favor de transformaes que garantam a todos a dignidade e a qualidade de vida, que desejamos e que esto previstas pela Constituio brasileira.
Os conceitos relacionados  sexualidade e aquilo que se valoriza so tambm produes socioculturais. Como nos demais Temas Transversais, diferentes cdigos de valores se contrapem e disputam espao. A explorao comercial, a propaganda e a mdia em geral tm feito uso abusivo da sexualidade, impondo valores discutveis e transformando-a em objeto de consumo.
Assim, como indicam inmeras experincias pedaggicas, a abordagem da sexualidade no mbito da educao precisa ser clara, para que seja tratada de forma simples e direta; ampla, para no reduzir sua complexidade; flexvel, para permitir o atendimento a contedos e situaes diversas; e sistemtica, para possibilitar aprendizagem e desenvolvimento crescentes.
Ser por meio do dilogo, da reflexo e da possibilidade de reconstruir as informaes, pautando-se sempre pelo respeito a si prprio e ao outro, que o aluno conseguir transformar, ou reafirmar, concepes e princpios, construindo de maneira significativa seu prprio cdigo de valores.
Para isso, optou-se por integrar a Orientao Sexual nos Parmetros Curriculares Nacionais, atravs da transversalidade4, o que significa que tanto a concepo quanto os objetivos e contedos propostos por Orientao Sexual encontram-se contemplados pelas diversas reas do conhecimento. Dessa forma, o posicionamento proposto pelo tema Orientao Sexual, assim como acontece com todos os Temas Transversais, estar impregnando toda a prtica educativa. Cada uma das reas tratar da temtica da sexualidade por meio de sua prpria proposta de trabalho. Ao se apresentarem os contedos de Orientao Sexual, sero explicitadas as articulaes mais evidentes de cada bloco de contedo com as diversas reas.
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O trabalho de Orientao Sexual tambm implica o tratamento de questes que nem sempre estaro articuladas com as reas do currculo  seja porque so singulares e necessitam de tratamento especfico, seja porque permeiam o dia-a-dia na escola das mais diferentes formas, emergindo e exigindo do professor flexibilidade, disponibilidade e abertura para trabalha-las. As manifestaes da sexualidade, diferentes em cada etapa do desenvolvimento, so uma excelente oportunidade para os professores desenvolverem um trabalho no previamente programado. A sexualidade gera nos alunos grande variedade de sentimentos, sensaes e dvidas. Suas manifestaes so espontneas, acontecem inevitavelmente e os professores precisam estar preparados para lidar com elas. A atitude de acolhimento a essas expresses e de disponibilidade para ouvir e responder  fundamental para o trabalho que aqui se prope. O trabalho de Orientao Sexual se dar, portanto, dentro da programao, por meio dos contedos j 
4 Ver no documento de Apresentao dos Temas Transversais a exposio sobre transversalidade.
transversalizados nas reas do currculo, e extraprogramao, sempre que surgirem questes relacionadas ao tema.
A partir da quinta srie, alm da transversalizao j apontada, a Orientao Sexual comporta tambm uma sistematizao e um espao especfico. Esse espao pode ocorrer, por exemplo, na forma de uma hora-aula semanal para os alunos (dentro ou fora da grade horria existente, a depender das condies de cada escola). Da quinta srie em diante, os alunos j apresentam condies de canalizar suas dvidas ou questes sobre sexualidade para um momento especialmente reservado para tal, com um professor disponvel. Isso porque, a partir da puberdade, os alunos tambm j trazem questes mais polmicas sobre sexualidade e j apresentam necessidade e melhores condies para refletir sobre temticas como aborto, virgindade, homossexualidade, pornografia, prostituio e outras.
Um tema como o aborto, por exemplo, implica discusses progressivas sobre o que , como acontece, como e por que  feito, que sentimentos pode envolver, que relao guarda com a contracepo (j que no pode ser encarado como mtodo anticoncepcional) at chegar a questes polticas e sociais. O direito da mulher sobre seu corpo, os problemas de sade pblica decorrentes de sua prtica clandestina no Brasil, assim como os posicionamentos que defendem o direito  vida do feto e a legislao brasileira e internacional sobre o assunto, devem ser objeto de anlise5.
Evidentemente, so questes complexas e polmicas que esto a envolvidas. A reflexo sobre elas, desvendando os valores que as orientam, no s configuram o tema como possibilitam questionamentos e posicionamentos que precisam ultrapassares estreitos limites dos preconceitos e das palavras de ordem.
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Os temas polmicos da sexualidade abrangem uma compreenso ampla da realidade, demandam escudo, so fontes de reflexo e desenvolvimento do pensamento crtico e, portanto, exigem maior preparo dos educadores. E importante, porm, que a escola possa oferecer um espao especfico dentro da rotina escolar para essa finalidade (ver, neste documento, o tpico sobre trabalho com Orientao Sexual em espao especfico).
Ao questionar tabus e preconceitos ligados  sexualidade e trabalhar com conhecimentos e informaes que visam  promoo do bem-estar e da sade, o trabalho de Orientao Sexual se entrelaa com objetivos e contedos contemplados tambm nos outros temas transversais (tica, Sade, Trabalho e Consumo, Pluralidade Cultural e Meio Ambiente).
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OBJETIVOS GERAIS
A finalidade do trabalho de Orientao Sexual  contribuir para que os alunos possam desenvolver e exercer sua sexualidade com prazer e responsabilidade. Esse tema vincula-se ao exerccio da cidadania na medida em que prope o desenvolvimento do respeito a si e ao outro e contribui para garantir direitos bsicos a todos, como a sade, a informao e o conhecimento, elementos fundamentais para a formao de cidados responsveis e conscientes de suas capacidades.
Assim, a escola deve se organizar para que os alunos, ao fim do ensino fundamental,sejam capazes de:

respeitar a diversidade de valores, crenas e comportamentos relativos  sexualidade, reconhecendo e respeitando as diferentes formas de atrao sexual e o seu direito  expresso, garantida a dignidade do ser humano;
5 A lei brasileira permite o aborto em dois casos: em decorrncia de estupro e quando a gravidez pe em risco a vida da me.
compreender a busca de prazer como um direito e uma dimenso da sexualidade humana;
conhecer seu corpo, valorizar e cuidar de sua sade como condio necessria pra usufruir prazer sexual;
identificar e repensar tabus e preconceitos referentes  sexualidade, evitando comportamentos discriminatrios e intolerantes e analisando criticamente os esteretipos;
reconhecer como construes culturais as caractersticas socialmente atribudas ao masculino e ao feminino, posicionando-se contra discriminaes a eles associadas;
identificar e expressar seus sentimentos e desejos, respeitando os sentimentos e desejos do outro;
reconhecer o consentimento mtuo como necessrio para usufruir prazer numa relao a dois;
proteger-se de relacionamentos sexuais coercitivos ou exploradores;
agir de modo solidrio em relao aos portadores do HIV e de modo propositivo em aes pblicas voltadas para preveno e tratamento das doenas sexualmente transmissveis/Aids;
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 conhecer e adotar praticas de sexo protegido, desde o incio do relacionamento sexual, evitando contrair ou transmitir doenas sexualmente transmissveis, inclusive o vrus da Aids;
 evitar uma gravidez indesejada, procurando orientao e fazendo uso de mtodos contraceptivos;
 conscincia crtica e tomar decises responsveis a respeito de sua sexualidade.
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ORIENTAO SEXUAL
2 PARTE
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CONTEDOS DE ORIENTAO SEXUAL PARA TERCEIRO E QUARTO CICLOS
Os trabalhos j existentes de Orientao Sexual nas sries iniciais do primeiro grau (primeira a quarta sries) indicam que a maioria das questes trazidas pelos alunos tendem a ter um carter informativo e de esclarecimento sobre a sexualidade. A curiosidade gira em torno da tentativa de compreender o que  o relacionamento sexual, como ele ocorre, as transformaes no corpo durante a puberdade, os mecanismos da concepo, gravidez e parto.
A partir da quinta srie do ensino fundamental, os quesrionamentos vo aumentando, exigindo progressivamente a discusso de temas polmicos, como masturbao, incio do relacionamento sexual, homossexualidade, abono, prostituio, erotismo e pornografia, desempenho sexual, disfunes sexuais, paraflias, gravidez na adolescncia, obstculos na preveno das doenas sexualmente transmissveis/Aids, entre outros. So temas que refletem as preocupaes e ansiedades dos jovens, dizem respeito ao que eles vem, lem e ouvem, despertando curiosidade, ou ainda temas que as novelas de TV colocam na ordem do dia. Questes como mes de aluguel, hermafroditismo, transexualismo, novas tecnologias reprodutivas, por exemplo, so trazidas por meio da veiculao pela mdia, aparecendo ento como demanda efetiva de conhecimento e debate.
Os assuntos mais importantes para o grupo e de maior relevncia social devem ser objeto prioritrio do trabalho de Orientao Sexual. Quaisquer que sejam eles, porm, os eixos bsicos da atuao permanecem, j que todos os assuntos precisam incluir as dimenses do Corpo, as Relaes de Gnero e a Preveno das Doenas Sexualmente Transmissveis/ Aids na sua discusso.
Critrios de seleo
A vivncia da sexualidade em cada indivduo inclui fatores oriundos de ordens distintas: aprendizado, descoberta e inveno. O trabalho de Orientao Sexual deve se nortear pelas questes que pertencem  ordem do que pode ser apreendido socialmente, preservando assim a vivncia singular das infinitas possibilidades da sexualidade humana, pertinente  ordem do que pode ser prazerosamente aprendido, descoberto ou inventado no espao da privacidade de cada um. Assim, buscou-se selecionar os contedos segundo os seguintes critrios:
 relevncia sociocultural, isto , contedos que correspondam   s questes apresentadas pela sociedade no momento tual; 
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 considerao s dimenses biolgica, psquica e sociocultural da sexualidade, buscando contemplar uma viso ampla e no reducionista das questes que envolvem a sexualidade e o seu desenvolvimento no mbito pessoal;
 possibilidade de conceber a sexualidade de forma prazerosa e  responsvel.
Tais contedos foram elencados no apenas em seus aspectos conceituais, que garantem as informaes pertinentes, mas sobretudo por seus aspectos procedimentais e atitudinais.
Blocos de contedos 
A partir dos critrios descritos, os contedos foram organizados em trs blocos ou eixos norteadores:
 Corpo: matriz da sexualidade
 Relaes de Gnero
 Preveno das Doenas Sexualmente Transmissveis/Aids
Podem-se encontrar programas de Orientao Sexual bastante diversificados com os mais variados tpicos e temas. A definio dos trs blocos de contedo da presente proposta de Orientao Sexual responde  necessidade de eleger tpicos que devem ser necessariamente trabalhados e relacionados aos contedos de cada rea, ou aos eleitos pelos alunos, e que sempre devem estar presentes em qualquer programa de Orientao Sexual, de forma a garantir informaes e discusses bsicas sobre sexualidade. Esses contedos devem possibilitar a abordagem dos diferentes assuntos, que variam de acordo com a faixa etria, cultura regional e fatos contemporneos veiculados pela mdia ou vividos por uma determinada comunidade. O desafio que se coloca  o de dar visibilidade a esses aspectos, considerados fundamentais. Porm, h estreita ligao entre eles, o que forma uma unidade coerente com a concepo de sexualidade adotada.
O trabalho com Orientao Sexual supe reflorir sobre e se contrapor aos esteretipos de gnero, raa, nacionalidade, cultura e classe social ligados  sexualidade. Implica, portanto, colocar-se contra as discriminaes associadas a expresses da sexualidade, como a atrao homo ou bissexual, e aos profissionais do sexo.
Os blocos (Corpo: matriz da sexualidade, Relaes de gnero e Preveno das Doenas Sexualmente Transmissveis/Aids) foram definidos para os quatro ciclos do ensino 
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fundamental, ao passo que os contedos especificados em cada bloco enfatizam os dois ltimos ciclos e j se encontram transversalizados, isco , contemplados pelas reas. Esto destacados para garantir a compreenso do tema de forma integral e favorecer a reflexo e a articulao do trabalho de Orientao Sexual. 
Corpo: matriz da sexualidade
Para a compreenso da abordagem proposta no trabalho de Orientao Sexual, deve-se ter em mente a distino entre os conceitos de organismo e corpo. O organismo referese ao aparato herdado e constitucional,  infra-estrutura biolgica dos seres humanos. J o conceito de corpo diz respeito s possibilidades de apropriao subjetiva de toda a experincia na interao com o meio. O organismo atravessado pela inteligncia e desejo se mostrar um corpo. No conceito de corpo, portanto, esto includas as dimenses da aprendizagem e todas as potencialidades do indivduo para a apropriao das suas vivncias.
A partir dessa diferenciao, v-se que a abordagem deve ir alm das informaes sobre anatomia e funcionamento, pois os rgos no existiriam fora de um corpo que pulsa e sente. O corpo  concebido como um todo integrado de sistemas interligados e que inclui emoes, sentimentos, sensaes de prazer e desprazer, assim como as transformaes nele ocorridas ao longo do tempo. H que considerar, portanto, os fatores culturais que intervm na construo da percepo do corpo, esse todo que inclui as dimenses biolgica, psicolgica e social.
Essa concepo, ao mesmo tempo que orienta o trabalho dos professores, vai sendo construda pelos alunos ao longo do ensino fundamental, por meio da aprendizagem de diferentes contedos em situaes didticas que a favoream.
A abordagem desce tema com os alunos buscar favorecer a apropriao do prprio corpo pelos adolescentes, assim como contribuir para o fortalecimento da auto-esrima e conquista de maior autonomia, dada a importncia do corpo na identidade pessoal.
Do ponto de vista dos alunos, isso implica construir noes, imagens, conceitos e valores a respeito do corpo em que esteja includa a sexualidade como algo inerente, necessrio e fonte de prazer na vida humana. As idias e concepes veiculadas pelas diferentes reas (Lngua Portuguesa, Matemtica, Cincias Naturais, Histria, Geografia, Arte e Educao Fsica) contribuem para a construo dessa viso do corpo por meio da explicitao das dimenses da sexualidade nos seus contedos. Por exemplo, em Histria, a incluso de contedos a respeito de como a sexualidade  vivida em diferentes culturas, em diferentes tempos, em diferentes lugares e como se expressa pelo vesturio, cuidados pessoais, regras, interdies e valorizao do comportamento (o hbito presente em algumas culturas de as mulheres tomarem banho vestidas, a nudez e a liberdade entre as crianas indgenas brasileiras etc.) permitir compreender que, apesar de parecer algo to "natural", 
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o corpo e os modos de us-lo, represent-lo e valoriz-lo tem determinaes sociais de vrias ordens: econmica, poltica e cultural. E que, por outro lado, ainda que das formas mais diversas, a sexualidade sempre teve papel importante na vida do ser humano.
A Educao Fsica, que privilegia o uso do corpo e a construo de uma "cultura corporal" (ver o documento dessa rea),  um excelente espao onde o conhecimento, o respeito c a relao prazerosa com o prprio corpo podem ser trabalhados. O mesmo pode acontecer na rea de Arte com a dana e o teatro. Arte tambm pode abordar as representaes do corpo expressas nas diferentes manifestaes artsticas em diversas pocas e com isso relativiz-las. Nas atividades fsicas propiciadas por essas reas, como os jogos e a dana,  interessante os professores aproveitarem para destacar alguns aspectos observveis: o esforo e as sensaes de prazer que o acompanham, a oportunidade de notar e ser notado. O desejo de se exibir e de observar  algo associado  prtica de e  assistncia a esportes e espetculos de arte corporais, o que no deveria ser ignorado pelos educadores, mas possibilitar uma melhor percepo do prprio corpo plos adolescentes e jovens.
Dessa forma podem ser trabalhadas questes fundamentais ligadas  sexualidade, como gostar e cuidar do prprio corpo, respeit-lo tanto no aspecto fsico como psicolgico. O respeito a si prprio, ao seu corpo c aos seus sentimentos  a base para a possibilidade de um relacionamento enriquecedor com o outro. O questionamento da imposio de certos padres de beleza veiculados pela mdia, principalmente a propaganda, faz-se pertinente na medida em que interfere na auto-imagem e na auto-estima das crianas e dos jovens. Trata-se de auxiliar os alunos a construir uma postura crtica ante os padres de beleza idealizados como pessoas jovens, esbeltas ou musculosas, que no correspondem  realidade e esto a servio do consumismo.
Em Cincias Naturais, ao ser abordado o corpo (da criana e do adulto, do homem e da mulher) e sua anatomia interna e externa,  importante incluir o fato de que os sentimentos, as emoes e o pensamento se produzem a partir do corpo e se expressam nele, marcando-o, e constituindo o que  cada pessoa. A integrao entre as dimenses fsicas, emocionais, cognitivas e sensveis, cada uma se expressando e interferindo na outra, necessita ser explicitada no estudo do corpo humano, para que no se reproduza a sua concepo de conjunto fragmentado. Com o mesmo cuidado devem, necessariamente, ser abordados as transformaes do corpo que ocorrem na puberdade, os mecanismos da concepo, gravidez e parto, assim como a existncia de diferentes mtodos contraceptivos e sua ao no corpo do homem e da mulher. Todos esses itens precisam ser trabalhados de forma que, ao mesmo tempo em que se referem a processos corporais individuais de uma pessoa, se possa pensar sobre eles tambm na relao com o outro, enfatizando o aspecto dos vnculos estabelecidos ao longo de toda a vida.
Em um trabalho inicial, ou com crianas menores, o estudo do corpo da criana e do adulto inclui os rgos envolvidos na reproduo e zonas ergenas privilegiadas, em sua 
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anatomia externa. Deve favorecer a percepo das relaes existentes entre sentimentos e expresses corporais; reaes corporais diante de diferentes estimulaes sensonais; e observao das caractersticas do prprio corpo. Deve, ainda, abordar a participao diferenciada do homem e da mulher no processo da fecundao, estabelecer a comparao no processo reprodutivo de diferentes espcies animais, na gestao e nascimento.
A continuidade do trabalho se da pela retomada desses contedos de forma ampliada e aprofundada. A ampliao  feita com a incluso do estudo sobre as transformaes globais da puberdade, vistas no plano corporal e no aspecto relacional/social. As transformaes do corpo consistem em: acelerao do crescimento (estiro), surgimento dos caracteres sexuais secundrios diferenciados nos meninos e nas meninas e amadurecimento das potencialidades sexuais e reprodutivas. O aprofundamento ser feito de forma a detalhar as questes j vistas, complementando-as com novas informaes (por exemplo, no estudo da anatomia do corpo humano incluir o estudo dos rgos internos do aparelho reprodutor e seu funcionamento, a amamentao etc.). Os educadores, coerentemente com a abordagem proposta, no devem descuidar da vivncia dessas mudanas pelos alunos. Prope-se, portanto, que os professores acolham a necessidade de discusso dos medos provocados por essas mudanas, o ritmo e o tempo em que elas ocorrem e que variam bastante de jovem para jovem, o respeito a essas diferenas, as mudanas gestuais e posturais que se do em consequncia do crescimento rpido; enfim, a acomodao necessria a esse novo corpo que muda. So tambm abordadas as mudanas socialmente estabelecidas e relacionadas  idade e sua repercusso nas relaes familiares e sociais.
 fundamental que os professores, ao trabalharem as transformaes corporais, as relacionem aos significados culturais que lhes so atribudos. Isso poque no existe processo exclusivamente biolgico, a vivncia e as prprias transformaes do corpo sempre so acompanhadas de significados sociais, como o que acontece com a monarca, a primeira menstruao. Existe uma infinidade de crenas a ela associadas e, portanto, sua ocorrncia marca de forma indelvel a vida das mulheres, com o significado que lhe atribui cada grupo familiar e social. Outra transformao bastante controvertida  a ativao dos hormnios ligados ao desejo sexual nas meninas e nos meninos. Existe a crena fortemente arraigada de que, no sexo masculino, esse processo  mais intenso, levando, portanto, "biologicamente", a maior interesse pela atividade sexual, e que a maior expresso da excitao nos meninos seria uma coisa natural. Como contraponto a essa crena, pode-se constatar o ainda vigente mecanismo social cie tolerncia e incentivo  iniciao sexual dos meninos concomitantemente com a represso sexual das meninas e o tabu da virgindade feminina.
No terceiro e quarto ciclos, o trabalho com esse bloco inclui e tematiza a potencialidade ertica do corpo. Isso porque, a partir da puberdade e das transformaes hormonais ocorridas no corpo de meninos e meninas,  comum a curiosidade e o desejo da experimentao ertica ou amorosa a dois. 
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Esta tematizao possibilita aprofundar o escudo e o conhecimento das transformaes da puberdade no corpo do menino e da menina, seu ritmo e decorrncias na imagem corporal que cada um tem de si mesmo. E a partir da puberdade que a potencialidade ertica do corpo se manifesta sob a primazia da regio genital, expressando-se na busca do prazer, tambm na relao com o outro (alem do contato com o prprio corpo iniciado na primeira infncia). A inveno do "ficar", por parte dos jovens,  a mais genuna expresso dessa necessidade, vivida na adolescncia. Com diferenas nos grupos etrios sociais ou regionais, essa expresso indica o desejo da experimentao na busca do prazer com um parceiro, desvinculada agora do compromisso entre ambos (o namoro). Trata-se de uma experimentao que implica um relativo avano social em relao s adolescentes do sexo feminino (para as quais ainda se coloca reprovao social na experimentao de intimidade ertica com vrios parceiros, sano praticamente inexistente para os adolescentes do sexo masculino).
Tambm se constitui como contedo a ser trabalhado com os alunos a importncia da sade sexual e reprodutiva e os cuidados necessrios para promov-la em cada indivduo.
O conhecimento do corpo e de seu funcionamento propicia maior conscientizao da importncia da sade e da necessidade de aes no s curativas, mas tambm preventivas. A escola deve, ento, atuar de forma integrada com os servios pblicos de sade da regio. Consultas regulares ao clnico geral ou ao ginecologista, para o acompanhamento da condio da sade e do desenvolvimento, so atitudes de autocuidado que a escola precisa fomentar.
Com relao aos mtodos contraceptivos,  importante analisar com os alunos todos os existentes e em uso no pas, suas indicaes e contra-indicaes, grau de eficcia e implicaes para a sade reprodutiva e bem-estar sexual. Essa discusso deve ser acompanhada da questo de gnero que lhe diz respeito: a responsabilidade, que deve, idealmente, ser compartilhada pelo casal que busca o prazer e no a concepo.  necessrio fazer uma diferenciao entre mtodos de esterilizao, que so definitivos, e contraceptivos, que so temporrios. Nessa questo  relevante ressaltar a importncia do uso das camisinhas (masculina e feminina) que, alm de prevenirem a gravidez indesejada, previnem tambm a contaminao pelas doenas sexualmente transmissveis/Aids.
Na contracepo, h que se discutir como, quando e por que ter ou no filhos e quantos, o que posteriormente leva s responsabilidades correspondentes  maternidade e  paternidade. Sem a discusso dos motivos subjacentes  idia da contracepo e seus obstculos, pouco se pode avanar na adoo de prticas preventivas pelos jovens, ao se relacionarem sexualmente com parceiro ou parceira.
Falar sobre o corpo, com seu potencial para usufruir o prazer e suas potencialidades reprodutivas, implica tambm a discusso das expectativas, das ansiedades, medos e fantasias, relacionados  relao sexual,  "primeira vez", ao desempenho e s dificuldades que podem surgir como manifestaes associadas  impotncia, frigidez, ejaculao precoce e outras possveis disfunes. 
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Os impulsos do desejo vividos no corpo precisam ser discutidos e esclarecidos, ajudando os jovens a dimension-los adequadamente, compreendendo seu carter e sua relao com as possveis escolhas racionais.
Os educadores podem utilizar diferentes materiais para esses trabalhos (didticos, cientficos, artsticos etc.), analisando e comparando a abordagem dada ao corpo pela cincia, pela propaganda e pela arte; por exemplo, discutindo e questionando o uso de um certo padro esttico veiculado pela mdia. Pode tambm incentivar a produo (coletiva e individual) das representaes que crianas e adolescentes tm sobre o corpo, por meio de desenhos, colagens, modelagem etc.
Nas atividades,  importante que nenhum aluno se sinta exposto diante dos demais. Um recurso possvel para evitar que isso acontea  o da criao, adoo e uso de personagens fictcios, criados pelo prprio grupo. Por meio desse recurso podem-se trabalhar dvidas, medos, informaes e questes dos alunos ligadas ao corpo, de forma que ningum se sinta ameaado ou invadido em sua intimidade. Com relao  linguagem a ser utilizada para designar partes do corpo, o mais indicado  acolher a que eles trazem e apresentar as denominaes correspondentes adotadas pela cincia.
 sempre importante investigar o conhecimento prvio que os alunos tm sobre o assunto a ser tratado. Em geral, mesmo quando no tm informaes objetivas, eles imaginam algo a respeito, pois so questes muito significativas, que mobilizam neles grande curiosidade e ansiedade. A explicitao dessas informaes e fantasias relacionadas com as mudanas do corpo e com a reproduo possibilita tratar o assunto de modo claro, diminuir a ansiedade, e assimilar noes corretas do ponto de vista cientfico. Os educadores precisam estar atentos para a necessidade de repetir contedos j abordados. Os alunos vivem suas curiosidades e interesses na rea da sexualidade em momentos prprios e diferentes uns dos outros, ocorrendo muitas vezes estudo e discusso de um tema com pouca apropriao desse conhecimento para alguns. A retomada  importante e deve ser feita sempre que as questes trazidas pelos alunos apontarem sua pertinncia.
O corpo, como sede do ser,  uma fonte inesgotvel de questes e debates, que vo muito alm do que  habitual incluir nos estudos da sua anatomia e fisiologia.
Relaes de Gnero 
O conceito de gnero diz respeito ao conjunto das representaes sociais e culturais construdas a partir da diferena biolgica dos sexos. Enquanto o sexo diz respeito ao atributo anatmico, no conceito de gnero toma-se o desenvolvimento das noes de "masculino" e "feminino" como construo social. O uso desse conceito permite abandonar a explicao da natureza como a responsvel pela grande diferena existente entre os comportamentos 
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e Iugares ocupados por homens e mulheres na sociedade. Essa diferena historicamente tem privilegiado os homens, na medida em que a sociedade no tem oferecido as mesmas oportunidades de insero social e exerccio de cidadania a homens e mulheres. Mesmo com a grande transformao dos costumes e valores que vm ocorrendo nas ltimas dcadas, ainda persistem muitas discriminaes, por vezes encobertas, relacionadas ao gnero.
Atualmente, reivindica-se a incluso da categoria de gnero, assim como etnia, na anlise dos fenmenos sociais, com o objetivo de retirar da invisibilidade as diferenas existentes entre os seres humanos que, por vezes, encobrem discriminaes. Por exemplo, um dado estatstico, como "nvel de escolaridade mdio atingido pelo alunado brasileiro", no expe as diferenas entre o nvel de escolaridade de meninos e de meninas, assim como a diferena da escolaridade atingida por crianas brancas e crianas negras. Entretanto, incluindo-se essas variveis, o mesmo dado estatstico revelar diferenas que podem ser analisadas como discriminaes. Trata-se, portanto, de desvendar e explicitar as discriminaes e preconceitos associados ao gnero, no sentido de garantir a eqidade6 como princpio para o exerccio da cidadania.
E inegvel que h muitas diferenas nos comportamentos de meninos e meninas. Reconhec-las e trabalhar para no transform-las em desvantagens  papel de todo educador.
O trabalho sobre relaes de gnero tem como propsito combater relaes autoritrias, questionar a rigidez dos padres de conduta estabelecidos para homens e mulheres e apontar para sua transformao. Desde muito cedo so transmitidos padres de comportamento diferenciados para homens e mulheres. A flexibilizao dos padres visa a permitir a expresso de potencialidades existentes em cada ser humano e que so dificultadas pelos esteretipos de gnero. Como exemplo comum, pode-se lembrar a represso das expresses de sensibilidade, intuio e meiguice nos meninos ou de objetividade e agressividade nas meninas. As diferenas no precisam ficar aprisionadas em padres preestabelecidos, mas podem e devem ser vividas a partir da singularidade de cada um.
Como um dos primeiros aspectos ligados ao gnero na escola, constatamos que o relacionamento dos alunos entre si evolui do agrupamento espontneo das crianas em "clubes do Bolinha e da Luluzinha", passando pelas amizades "exclusivas" (em geral do mesmo sexo), at a aproximao entre meninos e meninas, determinada pela busca do conhecimento do outro.
Com a puberdade h maior entrosamento e atrao entre eles. Essa aproximao no se d sem conflitos, medos e por vezes agresses de diferentes intensidades.
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Na temtica de relaes de gnero, os contedos no se referem fundamentalmente a concepes que embasam atitudes e aes nas relaes humanas cotidianas: a eqidade entre os sexos, a flexibilizao dos padres de comportamento e o questionamento das estercotipias ligadas ao gnero.
A questo de gnero se coloca em praticamente todos os assuntos trabalhados 
6 O termo "eqidade" aqui utilizado refere-se  necessria ateno s diferenas para a real garantia de igualdade de direitos, oportunidades e acesso aos bens sociais, em todos os campos. 
pela escola, nas diferentes reas. Estar atento a isso, explicitando sempre que necessrio,  uma forma de ajudar os jovens a construir relaes de gnero com eqidade, respeito pelas diferenas, somando e complementando o que os homens e as mulheres tm de melhor, compreendendo o outro e aprendendo com isso a ser pessoas mais abertas e equilibradas.
So muitas as possibilidades da transversalidade desse bloco de contedo.
Em Lngua Portuguesa, nos textos literrios, podem-se perceber as perspectivas de gnero por meio da anlise das personagens e descrio de suas caractersticas. Seria interessante tambm discutir as prprias regras do idioma, quando estabelecem, por exemplo, que o plural no masculino inclui as mulheres, mas o plural no feminino exclui os homens.
Lngua Estrangeira pode explorar as diferentes conotaes atribudas ao masculino e ao feminino em vrios pases e diferentes culturas, ao trabalhar na literatura a leitura e a traduo de textos.
Ao estudar movimentos migratrios em Geografia, podem-se incluir as perspectivas de gnero, analisando as consequncias das migraes nos arranjos familiares, nas ocupaes profissionais e na ocupao de espaos.
Em Arte seria interessante trabalhar as discriminaes. Os atributos relacionados  sensibilidade artstica costumam ser associados ao feminino. No caso de dana (bal especialmente) a discriminao dos meninos que se interessam por sua prtica  muito evidente e merece ser debatida. Pode-se abordar, tambm, a conotao pejorativa que as mulheres tiveram at muito recentemente, quando assumiam uma carreira artstica. Eram vistas como autenticas prostitutas, sendo rejeitadas por suas famlias, enfrentando uma discriminao muito maior do que a impingida aos homens. Como homens e mulheres expressam na arte suas diferenas e semelhanas  outra sugesto que a rea pode investigar.
A histria das mulheres, suas lutas pela conquista de direitos e as enormes diferenas que podem ser encontradas ainda hoje nas diversas partes do globo, constitui tema de estudo, tanto em Histria quanto em Geografia e mesmo em Matemtica, ao utilizar dados para anlise dos avanos progressivos do movimento de mulheres ao longo do tempo. Esses avanos referem-se principalmente  maior participao das mulheres na esfera pblica em todos os aspectos: na poltica, na cultura, no trabalho remunerado e outros.
Tratar das relaes de gnero com as diferentes faixas etrias, convm esclarecer,  uma tarefa delicada. H alguns mitos associados ao gnero na escola que precisam ser
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questionados: as disciplinas onde os meninos se saem melhor (Matemtica, por exemplo) e as que apresentam melhor aproveitamento pelas meninas (Lngua Portuguesa, por exemplo). Se o professor tem essa crena, mesmo sem perceber pode ajudar a promov-la, sendo que sua origem pode no ter nenhuma ligao com o sexo biolgico e, sim, com experincias vividas que a escola pode alterar.
So comportamentos e habilidades socialmente desenvolvidos, no to explcitos, a que os educadores precisam estar atentos para no tom-los como "naturais" e ligados ao sexo biolgico, como a forma diferenciada de expresso verbal de meninos e meninas. Estas tendem a usar a linguagem de forma mais indireta e, portanto, mais facilmente so interrompidas em suas dvidas e no so to ouvidas pelos professores como os meninos, que tendem a ser mais diretos nas questes. H tambm que se considerar que, em funo da educao diferenciada, as experincias prvias dos alunos so diferentes das alunas, o que pode significar maior grau de dificuldade na aprendizagem de determinadas atividades (em geral os meninos apresentam maior experincia em atividades manipulativas e em visualidade espacial; e as meninas, maiores habilidades para o cuidado e ateno s outras pessoas).
Na Educao Fsica tambm pode acontecer de persistirem antigos esteretipos ligados ao gnero, como a separao rgida entre prticas esportivas e de lazer dirigidas a meninos e a meninas. O professor pode intervir para garantir as mesmas oportunidades de participao a ambos os sexos, ao mesmo tempo que respeita os interesses existentes entre seus alunos e alunas.
A rigor, podem-se trabalhar as relaes de gnero em qualquer situao do convvio escolar. Elas se apresentam de forma ntida nas relaes entre os alunos e nas brincadeiras diretamente ligadas  sexualidade. Tambm esto presentes nas demais brincadeiras, no modo de realizar as tarefas escolares, na organizao do material de estudo, enfim, nos comportamentos diferenciados de meninos e meninas. Nessas situaes, o professor, estando atento, pode intervir de modo que se coloque contra as discriminaes e questione os esteretipos associados ao gnero. Os momentos e as situaes em que se faz necessria essa interveno so os que implicam discriminao de um aluno em seu grupo, com apelidos jocosos e s vezes questionamento sobre sua sexualidade. O professor deve, ento, sinalizar a rigidez das regras existentes nesse grupo, apontando para a imensa diversidade dos jeitos de ser homem ou mulher. Tambm as situaes de depreciao ou menosprezo por colegas do outro sexo demandam a interveno do professor a fim de se trabalhar o respeito ao outro e s diferenas.
A proposio, por parte do professor, de momentos de convivncia e de trabalho com alunos de ambos os sexos pode propiciar observao, descobertas e tolerncia das diferenas. Essa convivncia, mesmo quando vivida de forma conflituosa,  tambm facilitadora dessas relaes, pois oferece oportunidades concretas para os questionamentos dos esteretipos associados ao gnero. 
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H ainda outro fato que merece muita ateno por parte dos educadores: a violncia associada ao gnero. Essa forma de violncia deve ser alvo de ateno, pois constitui-se em atentado contra a dignidade e at a integridade fsica das mulheres. O fato de os meninos geralmente possurem maior fora fsica que as meninas no deve possibilitar que ocorram situaes de coero, agresso ou abuso sexuais. E dever do educador intervir nessas situaes e encaminh-las s autoridades competentes alm,  claro, de assistir  vtima. Se situaes como essas acontecem na escola devem ser alvo de discusso e reflexo por parte da comunidade escolar, a fim de prevenir outras similares e garantir o respeito ao outro.
Outro ponto que merece ateno  o material didtico escolhido para o trabalho em sala de aula, que muitas vezes apresenta esteretipos ligados ao gnero, como a mulher predominantemente na esfera domstica e realizando trabalho no remunerado, enquanto o homem  associado ao desempenho de atividades sempre na esfera pblica. A ateno, o questionamento e a crtica dos educadores no trato dessas questes  parte do seu exerccio profissional, que contribui para o acesso  plena cidadania de meninos e meninas.
Nas questes mais diretamente ligadas  sexualidade humana, a perspectiva de gnero est inevitavelmente presente. E preciso at fazer esforo para poder ignor-la. O  que esta proposta pretende  que se aborde, o tempo todo, a perspectiva de gnero nas relaes, na vivncia da sexualidade, explicitando e buscando formas mais criativas nos relacionamentos sexuais e amorosos.
Tome-se como exemplo a discusso do tema da homossexualidade. Muitas vezes se atribui conotao homossexual a um comportamento ou atitude que  expresso menos convencional de uma forma de ser homem ou mulher. Ela escapa aos esteretipos de gnero, tal como um menino mais delicado ou sensvel ser chamado de "bicha" ou uma menina mais agressiva ser vista como lsbica, atitudes essas discriminatrias. Em cada perodo histrico e em cada cultura, algumas expresses do masculino e do feminino so dominantes e servem como referncia ou modelo, mas h tantas maneiras de ser homem ou mulher quantas so as pessoas. Cada um tem o seu jeito prprio de viver e expressar sua sexualidade. Isso precisa ser entendido e respeitado pelos jovens.

Preveno das Doenas sexualmente Transmissveis/Aids
De uma maneira geral, o trabalho de Orientao Sexual visa a desvincular a sexualidade dos tabus e preconceitos, afirmando-a como algo ligado ao prazer e  vida. Na discusso das doenas sexualmente transmissveis/Aids o enfoque precisa ser coerente com isso e no acentuar a ligao entre sexualidade e doena ou morte. As informaes sobre as doenas devem ter sempre como foco a promoo da sade e de condutas
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preventivas, enfatizando-se a distino entre as formas de contato que propiciam risco de contgio daquelas que, na vida cotidiana, no envolvem risco algum.
Ao trabalhar com a preveno da Aids, so contedos indispensveis as informaes atualizadas sobre as vias de transmisso do vrus HlV (fluidos sexuais, sangue e leite materno contaminados), o histrico da doena, a distino entre portador do vrus e doente de Aids e o tratamento. Os professores precisam incentivar os alunos na adoo de condutas preventivas (usar camisinha, calar luvas ao lidar com sangue) e promover o debate sobre os obstculos que dificultam a preveno. A promoo da sade e o respeito ao outro vinculam-se  valorizao da vida como contedos importantes a serem trabalhados. Esses contedos devem propiciar atitudes responsveis (tanto individual quanto coletivamente) diante da epidemia, solidrias e no discriminatrias em relao aos soropositivos, enfatizando o convvio social.
Contedos a serem trabalhados com as crianas do primeiro e segundo ciclos so as informaes sobre a existncia de doenas sexualmente transmissveis (colocadas genericamente, no sendo necessrio enumerar as mais conhecidas), em especial a Aids, incluindo esclarecimentos sobre os fatos e os preconceitos a ela associados.
O trabalho com esse bloco de contedos nos terceiro e quarto ciclos j precisa abordar cada uma das principais doenas sexualmente transmissveis, seus sintomas no homem e na mulher, enfatizando as condutas necessrias para sua preveno. A denominao Doenas Sexualmente Transmissveis agrupa aquelas que se transmitem pelo contato sexual entre duas pessoas, e engloba as antigas doenas venreas, incluindo a Aids.
Particularmente em relao  Aids, o tratamento que esse tema deve ter em Orientao Sexual junto aos alunos  o oposto ao que foi dado pelas primeiras campanhas de preveno veiculadas pela mdia: "Aids mata". Essa mensagem contribui para o aumento do medo e da angstia, desencadeando reaes defensivas. A mensagem fundamental a ser trabalhada : a Aids pode ser prevenida.
O trabalho com esse tema, ao mesmo tempo que fornece informaes sobre Aids,  possibilita que os jovens exponham os medos e angstias suscitados e se questionem osdiferentes mitos e obstculos emocionais e culturais que impedem a mudana decomportamento necessria  adoo de prticas de sexo protegido. Dentre os obstculos emocionais, vale destacar os mecanismos de onipotncia e de negao entre os adolescentes, que demandam espao contnuo de discusso para que possam vir  tona e modificar-se. A crena de que "comigo no vai acontecer" ou de que no h risco porque "eu s transo com quem eu conheo"  reveladora desses mecanismos, que se utilizam do pensamento mgico, tentando obter controle sobre todas as variveis envolvidas no relacionamento sexual. Nega-se a evidncia de que as coisas escapam  possibilidade humana de ter conhecimento e domnio sobre elas, ainda mais na turbulenta vivncia adolescente.
Os obstculos emocionais e culturais que impedem ou dificultam a prtica do sexo protegido entre os jovens tambm se relacionam com a questo de gnero. A utilizao da
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camisinha masculina supe superar a vergonha e a falta de prtica dos garotos  no seu uso.  um complicador para quem est iniciando um relacionamento sexual. Tambm implica a dificuldade das meninas em exigir dos seus parceiros o uso do preservativo nas relaes sexuais. Essa dificuldade supe uma srie de fatores, entre eles auto-estima rebaixada, submisso ao homem, medo de "perder" o parceiro, medo de ser tomada como promscua, entre outras questes.
A Aids deve ser abordada com especial nfase, uma vez que, apesar de os novos medicamentos melhorarem a qualidade de vida dos soropositivos, ainda no se descobriu sua cura. Dada a faixa etria dos alunos dos terceiro e quarto ciclos, que muitas vezes coincide com a possibilidade do incio da atividade sexual a dois,  fundamental a promoo da sade por meio da adoo de condutas eficientemente preventivas desde as primeiras relaes sexuais.
Segundo os dados da publicao "Aids no Mundo"7, o aumento da Aids na faixa etria de 20 a 25 anos aponta para a urgncia de programas de preveno efetivos destinadosa jovens. O pico da incidncia de casos de Aids no Brasil situa-se na faixa etria dos 20 aos 34 anos. A infeco, dado o longo do perodo de incubao, ocorre provavelmente, na maioria dos casos, na adolescncia e incio da vida adulta. A vulnerabilidade das camadas jovens da populao  infeco pelo HIV se explica pela maior exposio a situaes de risco, como as relaes sexuais desprotegidas e o compartilhar de seringas e agulhas contaminadas. A tendncia a explorar o que  novo, potencialmente transgressor, a suscetibilidade s presses grupais e a sensao de onipotncia esto muitas vezes presentes nas aes dos jovens. Outros fatores que contribuem para essa vulnerabilidade so a pobreza, a violncia, a ausncia ou a deficincia dos servios e programas de sade e educao. E fundamental, portanto, o papel da escola como local privilegiado para o trabalho preventivo.
Um dos aspectos centrais desse bloco  o trabalho quanto ao cuidado com a prpria sade e a dos outros, de forma geral e, especificamente, da sade sexual. H resistncias, por parte de muitos adolescentes, em procurar os servios de sade e orientao mdica. A escola pode interferir positivamente, criando uma ligao mais estreita e comunicao fluente com a unidade de sade mais prxima. Isso favorece a diminuio dos receios dos adolescentes em buscar orientao clnica, preventiva ou teraputica.
E preciso retomar a discusso sobre o corpo, apontando a necessidade de buscar os servios de sade regularmente. Os professores devem basear-se nas proposies gerais do tema transversal Sade.
Alm do autocuidado, doenas sexualmente transmissveis/Aids implicam responsabilidade coletiva diante da epidemia. A necessidade de comunicar aos eventuais parceiros sexuais a ocorrncia da infeco precisa ser enfatizada, por ser, geralmente, esquecida ou relegada a um plano secundrio, contribuindo assim para a disseminao das doenas.
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Deve-se trabalhar para promover junto aos adolescentes a valorizao da vida  sua e do outro , a promoo da sade e respeito ao outro. Trata-se, portanto, de associar a possibilidade da vivncia do prazer com a responsabilidade necessria para a manuteno da vida e da sade, presente e futura.
 preciso discutir com os alunos a discriminao social e o preconceito de que 

7 PARKER, R.; GALVO, J. e PEDROSA, J. S. (orgs.), 1993.
so vtimas os portadores do HIV e os doentes de Aids8, por intermdio dos direitos de cidadania e da proposio da adoo de valores como a solidariedade, o respeito ao outro e a participao de todos no combate aos preconceitos, apresentando como contraponto os direitos individuais e sociais existentes e explicitando a importncia desses valores para a manuteno da vida nas pessoas soropositivas.
No se pode desperdiar a oportunidade de abordar o tema quando algo a ele referente  trazido pelos prprios alunos, ou  vivido pela comunidade escolar. Tambm aqui se faz particularmente importante o levantamento do conhecimento prvio dos alunos sobre as doenas sexualmente transmissveis e sobre a Aids, pois, alm de ser um princpio didtico fundamental, se constata a existncia de um grande volume de informaes errneas e equivocadas sobre elas.
Atualmente, muitas comunidades escolares j se depararam com o fato de haver, entre seus membros, um portador do HIV ou doente de Aids. Deve-se trabalhar tanto o aspecto informativo da ausncia do perigo da contaminao no contato social, quanto o aspecto tico dos relacionamentos, promovendo o convvio e a solidariedade.
No pode ser exigida a realizao de teste sorolgico compulsrio para alunos ou profissionais que trabalhem na escola, assim como os indivduos sorologicamente positivos no so obrigados a informar sua condio  direo ou a qualquer membro da comunidade escolar. A divulgao de diagnstico de infeco pelo HIV no deve ser feita, sob pena de despertar preconceito e discriminao. Tambm no deve ser permitida a existncia de classes especiais, ou de escolas especficas para infectados pelo HIV. Constitui violao de direito (passvel de processo jurdico) a excluso de profissional ou aluno de escola por motivo de infeco pelo HIV (vide portaria interministerial Sade/Educao n 796, de 29/5/92).
Todas essas medidas esto absolutamente corretas, porque o indispensvel  incorporar a mentalidade preventiva e pratic-la sempre. Todos na escola  direo, orientao, corpo docente, funcionrios e alunos  devem estar conscientes de que a preveno  um ato de rotina, presente no cotidiano da escola, envolvendo todas as situaes e todas as pessoas, sem distino. Por exemplo, sempre que existir a possibilidade de se mexer com sangue, como um ferimento numa aula de Educao Fsica, uma atividade no laboratrio de Cincias ou outras, devem-se usar luvas de borracha.
Os professores de Educao Fsica devem ter sempre luvas como instrumento de trabalho, e us-las em todas as situaes em que se fizerem necessrias. No se trata de
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saber que aluno ou pessoa est sendo socorrido num ferimento, mas adotar a mesma atitude para todos. Do mesmo modo, os jovens tm de saber que em todas as relaes sexuais, desde o seu incio e com qualquer pessoa, a camisinha deve ser usada. No se trata de se prevenir de algum, mas do vrus HIV.
A falta de informaes sobre a Aids  um dos fatores que podem gerar preconceito e discriminao de soropositivos na escola. Como contraponto, o trabalho com os alunos deve, alm da informao, propor valores como o respeito aos direitos de cidadania, no excluso e solidariedade para com os soropositivos.
A rea de Cincias Naturais vai tratar do HIV e da doena Aids, as formas de transmisso e preveno. Mas o tema da Aids pode e deve ser abordado por todas as reas: nos textos literrios, revistas e jornais (Lngua Portuguesa); nos estudos comparativos de epidemias em diferentes perodos histricos (Histria); em pesquisas com dados sobre a epidemia no estudo de grficos, tabelas (Matemtica); no estudo das regies mais afetadas nos diversos continentes, e em diferentes cidades e regies do 

8 A diferena entre "doente de Aids" e "portador do vrus HIV" est na presena ou no dos sintomas da doena.
Brasil (Geografia); na montagem de cenas ou peas teatrais que tratem do relacionamento humano (Arte); no conhecimento dos cuidados necessrios para evitar infeco pelo HIV por contato sanguneo (Educao Fsica). Esses so alguns exemplos que podem se somar a muitas outras formas criativas que cada professor pode desenvolver para atuar de forma responsvel na preveno da Aids. A escola pode tambm promover outras formas de divulgao mais amplas para toda comunidade escolar, como realizao de murais, faixas em eventos, exposio de trabalhos dos alunos, participao em feira de cincias, realizao de atividades na escola com profissionais da rea da Sade, interveno de adolescentes como multiplicadores na preveno etc.
O debate com os alunos sobre a preveno das doenas sexualmente transmissveis/Aids precisa levar em conta ainda a necessidade de incorporar a temtica das drogas, tal como foi proposto no tema transversal Sade. No uso de drogas injetveis, o compartilhar de agulhas e seringas com sangue contaminado  um dos mais freqentes meios de transmisso do HIV. Alm disso,  importante lembrar que o uso de drogas psicotrpicas interfere nos estados de conscincia.
Se estados eufricos como os produzidos pelo apaixonar-se j colocam em risco seriamente a preveno, alteraes no sistema nervoso central, estimulando, deprimindo ou mudando qualitativamente seu funcionamento sero novos dificultadores. Poucos se lembraro de usar camisinha estando bbados ou, por exemplo, sob o efeito de um alucingeno. O trabalho de preveno da Aids junto aos jovens implica, portanto, no s a abordagem franca e direta da sexualidade, mas tambm o debate aberto sobre as drogas.
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O TRABALHO COM ORIENTAO SEXUAL EM ESPAO ESPECFICO
Conforme j apresentado neste documento, no item Orientao Sexual como Tema Transversal, o trabalho com os terceiro E quarto ciclos, alm da transversalizao pode ser realizado em um espao especfico. Isso porque a sexualidade se impe, na sociedade contempornea, como um dos maiores interesses dos adolescentes, exigindo posicionamentos e atitudes cotidianas. Temticas como a gravidez na adolescncia, masturbao, homossexualidade, iniciao sexual, pornografia e erotismo, aborto, violncia sexual e outras, so exemplos de questes que extrapolam a possibilidade da transversalizao pelas disciplinas e demandam espao prprio para serem refletidas e discutidas. So temas polmicos, que envolvem questes complexas e demandam tempo para serem aprofundadas, com ampla participao dos alunos, alm de exigirem maior preparo do educador.
Aliado a esse fato, constatamos que a capacidade cognitiva prpria dessa faixa etria j possibilita a postergao e canalizao das dvidas, curiosidades e questes para local e momento especialmente demarcadas para essa finalidade na escola (o que no ocorre no trabalho com os dois primeiros ciclos). Isso significa que se faz possvel acrescentar esta outrai forma de sistematizao do trabalho de Orientao Sexual na escola. E importante que esse trabalho seja inserido no projeto pedaggico da escola, e que se criem condies de progressiva qualidade na abordagem dos contedos ligados  sexualidade.
Um dos aspectos associados a essa qualidade  a formao do professor ou profissional da educao que se responsabiliza por essa tarefa. Conforme j apontado no tpico "Postura do Educador" deste mesmo documento,  importante o aprofundamento terico sobre as questes contidas no trabalho de Orientao Sexual. Por tratar-se de temtica multidisciplinar, comporta contribuies de diferentes reas do conhecimento, como Educao, Histria, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Psicanlise, Economia e outras. Tambm  importante a construo permanente de uma metodologia participativa, que envolve o lidar com dinmicas grupais, a aplicao de tcnicas de sensibilizao e facilitao dos debates, a utilizao de materiais didticos que problematizem em vez de "fechar" a questo, possibilitando a discusso dos valores (sociais e particulares) associados a cada temtica da sexualidade. A montagem de um acervo de materiais na escola  como textos e livros paradidticos, vdeos, jogos, exerccios e propostas de dramatizao ,  importante para a concretizao do trabalho.
O profissional que se responsabiliza por esse trabalho pode ser um professor de qualquer matria ou educador com outra funo na escola (orientador educacional, coordenador pedaggico ou psiclogo, por exemplo). O importante  que seja algum que tenha bom contato com os alunos e, portanto, um interlocutor confivel e significativo para acolher as expectativas, opinies e dvidas, alm de ser capaz de conduzir debates sem
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impor suas opinies. No constitui pr-requisito que o professor seja da rea de Cincias (comumente associada  sexualidade), j que no se trata de abordagem predominantemente biolgica da sexualidade. Importa  que tenha interesse e disponibilidade para esse trabalho, assim como flexibilidade e disposio pessoal para conhecer e questionar seus prprios valores, respeitando a diversidade dos valores atribudos  sexualidade na sociedade atual.
Ao pensar na concretizao de um espao especfico para a Orientao Sexual na escola, o fundamental  que o trabalho seja contnuo e sistemtico, abarcando as dvidas, preocupaes e ansiedades, que se modificam significativamente nas diversas faixas etrias.
Experincias concretas em diferentes redes pblicas e escolas particulares do pas apontam para a diversidade de possibilidades de estruturao desse espao:

incluso no horrio escolar de uma hora-aula semanal (anual ou semestralmente), desde que associada s condies de formao e aprimoramento dos profissionais responsveis;
oferta de hora-aula semanal, optativa, para todas as sries, ou parte delas, anual, semestral ou bimestralmente;
projeto-piloto limitado a poucas turmas, com uma etapa inicial de implantao e avaliao.

Outras alternativas, ainda, podem ser pensadas em cada escola, a partir da incluso da Orientao Sexual no seu projeto pedaggico e em funo das necessidades e possibilidades de sua comunidade escolar.
Antes de iniciar o processo junto aos alunos  fundamental que o corpo de profissionais da escola discuta o assunto com todos os agentes escolares, explicitando a forma de abordar o tema com os alunos. No s a direo e os professores devem ser inteirados da insero de Orientao Sexual na escola. Tambm os funcionrios administrativos e de apoio devem participar, de alguma forma, do trabalho a ser realizado.
A comunicao aos familiares deve ser feita antes do incio do trabalho, de preferncia em forma direta, em reunies nas quais os pais possam fazer todos os seus questionamentos, ter suas dvidas esclarecidas e se posicionar, contribuindo para a montagem do trabalho. No caso de haver familiares que se oponham  freqncia de seus filhos nas discusses, por motivo de crena religiosa, pessoal ou outros, a escola deve informar e esclarecer os objetivos e a dinmica do processo, enfatizando que no se trata de substituir ou concorrer com a funo da famlia nas questes da sexualidade em mbito privado. Se, mesmo assim, houver resistncias ou proibies, a escola deve estar ciente de que esse posicionamento dos familiares deve ser respeitado, podendo ser o aluno dispensado do trabalho, pois so os pais os principais responsveis pelo adolescente.
Para a montagem das turmas, o critrio de agrupamento por proximidade da faixa
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etria se sobrepe ao de srie/classe. Os alunos da faixa de 10-13 anos comumente apresentam dvidas e curiosidades sobre questes mais concretas, enquanto os maiores j apresentam condies de reflexo mais elaborada sobre os valores associados aos temas da sexualidade. O nmero ideal para uma turma deve estar em torno de 25 alunos. No se recomenda a montagem de grupos apenas com meninos ou exclusivamente de meninas;  importante a formao de turmas mistas para possibilitar a troca, apesar das dificuldades iniciais previsveis. Momentos de discusso especficos por sexo podero acontecer no decorrer do trabalho com as turmas, como estratgia de trabalho num dado momento ou para determinados assuntos.
Aps a divulgao, inscries e montagem das turmas, pode ter incio o trabalho junto aos alunos. O primeiro passo ser, ento, o estabelecimento do "contrato" de trabalho a ser realizado entre o coordenador e os alunos.
Por contrato, entende-se o estabelecimento de regras de participao, com limite de atrasos e faltas, garantindo-se o respeito  livre manifestao de todos. Enquanto temtica diversa das disciplinas tradicionais e fronteiria entre o pblico e o privado, exige maior cuidado por parte de todos quanto ao sigilo das discusses. Nenhum aluno deve ter exposta sua intimidade no grupo, assim como o coordenador deve garantir (de sua parte) a no exposio de posies pessoais ou argumentos de nenhum aluno junto a seus familiares, direo da escola ou outros alunos. O coordenador pode solicitar a cooperao de todos para que os assuntos tratados no grupo sejam sempre ali comentados, evitando assim "fofocas" e mal-entendidos envolvendo alunos no presentes s discusses. Alm de frequncia e sigilo, outros itens podem fazer parte desse contrato, como o respeito a todas as perguntas e s opinies divergentes, exposio de opinio apenas em nome prprio e outras que o grupo julgue pertinentes.
O papel do coordenador , portanto, de propositor em alguns tpicos e mediador em outros, devendo sempre estar atento para as radicalizaes to frequentes entre os adolescentes. O momento de discusso das regras  uma excelente oportunidade de exercitar o convvio democrtico.
Coerentemente com a metodologia em questo e proposta para a discusso de sexualidade na escola, no h programas "prontos" a serem apresentados aos alunos. Eles  que devem ser convidados a trazer suas demandas e interesses ao educador. Muitas vezes se faz necessrio facilitar a explicitao dessas questes, como com a introduo de uma "caixa" de perguntas annimas.  muito comum que os alunos tragam suas dvidas, angstias e questionamentos em sexualidade com perguntas diretas. E funo do coordenador, em vez de respond-las uma a uma, retirar dessas perguntas o tema proposto. Por exemplo: perguntas do tipo "o que  teso?", "quando a gente est preparado para transar?", "ter relaes sexuais na gravidez prejudica o beb?", "como nascem os gmeos?", "por que a mulher grvida no menstrua?" ou " possvel engravidar mesmo sendo virgem?" trazem como temas a serem discutidos, alm do prazer, os mecanismos de concepo,
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gravidez e parto. A discusso procurar responder a essas questes e incluir outros componentes no levantados pelos alunos, como o esclarecimento dos mitos relacionados ao desejo sexual e  gravidez, o papel do homem na deciso de ter filhos, a importncia dos cuidados com a sade etc.
A montagem do programa  singular para cada turma, a partir de seus interesses. Isso no significa um papel passivo do coordenador. Pelo contrrio, sua funo  ativa. Cabe a ele a organizao dos temas de forma didtica, explicitando que alguns tpicos so "pr-requisito" para outros, assim como a proposio de temticas fundamentais no trazidas naquele momento pelos alunos e os trs eixos bsicos do trabalho: Corpo: matriz da sexualidade, Relaes de Gnero e Preveno das Doenas Sexualmente Transmissveis/Aids. Uma vez organizado o programa, ele no precisa ser seguido de forma rgida, podendo ser alterado caso algo significativo indique a introduo de novo assunto ou a alterao da ordem inicialmente prevista. Esse programa constitui guia para o trabalho subsequente e preparao das aulas.
Ao iniciar a discusso de cada tpico eleito do programa,  importante que o coordenador promova a explicitao do conhecimento prvio existente sobre ele, por parte dos alunos. Essa atitude  fundamental, pois possibilita o surgimento de mitos, fantasias, informaes equivocadas, preconceitos e conhecimentos fundamentados sobre o assunto. Costuma acontecer muita troca produtiva entre os alunos e, ao mesmo tempo, desperta-se a curiosidade para novas informaes. Trata-se, tambm, de reconhecer como importante e ponto de partida o conhecimento j produzido pelo aluno.
Na abordagem de cada item do programa, o coordenador deve ter clareza de sua funo: problematizar e explicitar os valores plurais existentes em cada tema, alm de oferecer informao correta do ponto de vista cientfico, mostrando o carter dinmico da evoluo da cincia. E o processo reflexivo do aluno que deve ser estimulado a todo momento, ou seja, ao mesmo tempo que esclarece algumas dvidas, vai reunindo informaes para formular novas questes e estabelecer novas relaes. Como premissas desse trabalho esto os princpios norteadores: respeito a si prprio e ao outro, atitudes no discriminatrias, questionamento de valores preconceituosos, conhecimento dos valores pluralistas, combate  intolerncia e uso do dilogo e da negociao como forma de mediar conflitos (vide documento de tica).
Assim, muitas das concluses sobre determinadas discusses so diferentes para cada participante do grupo e o "fechamento" da abordagem de um determinado tema pode ser a explicitao de pontos que devem ser refletidos, no havendo resposta consensual sobre ele.
O espao especfico de Orientao Sexual tambm comporta atividades corporais, como o trabalho com tcnicas de relaxamento, alguns jogos e exerccios com dramatizao, entre outros. Isso pode ajudar a concretizar noes, como percepo, apropriao do prprio corpo, autodomnio e autocuidado.  preciso, no entanto, atentar para o fato de que as
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atividades que envolvem contato fsico entre adolescentes podem levar a excitao, inclusive sexual, de alguns e ser de difcil manejo no contexto escolar.
O tratamento dado a cada tema em sexualidade deve convergir para o favorecimento da construo, por parte do aluno, de um ponto de auto-referncia, a partir do qual poder desenvolver atitudes coerentes com os valores que elege para si. H que se considerar, tambm, a impossibilidade, mesmo para adultos, das verdades absolutas e imutveis, pois, enquanto componente da subjetividade, a sexualidade se constri e se modifica ao longo de toda a vida e, portanto, os valores a ela associados podem ser transitrios.
E funo do coordenador polemizar posies hegemnicas, trazendo pontos de vista divergentes e desconhecidos ou esquecidos dos alunos; apresentar informaes do ponto de vista legal e jurdico, social, histrico e outros; trazer e discutir posicionamentos de diferentes grupos sociais sobre determinado tema. Dessa forma, estar contribuindo para abrir as perspectivas e os horizontes da discusso, assim como demonstrando, na prtica, a complexidade sociocultural de questes aparentemente simples e individuais. Essa atuao contribui tambm para o bem-estar e para a construo de uma tica autnoma, no individualista, social no trato das questes da sexualidade, tema to polmico nos dias de hoje.
O trabalho de Orientao Sexual no espao especfico no comporta avaliao por meio de notas ou conceitos, como habitualmente se pratica na escola. E fundamental realizar uma avaliao contnua do processo de trabalho, solicitando comentrios dos alunos sobre as aulas desenvolvidas, o debate dos temas, a postura do educador, os materiais didticos utilizados, o relacionamento da turma e o que ficou de mais importante para cada um, assim como as dvidas que persistem e os temas que merecem ser retomados ou desmembrados. Questionrios para avaliar tanto as informaes quanto as opinies dos alunos, sobre os temas gerais da sexualidade, podem ser aplicados no incio e no final de cada programa desenvolvido, para colher dados, o que pode ser muito til na avaliao do trabalho de Orientao Sexual.
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PARMETROS CURRICULARES NACIONAIS
TRABALHO E CONSUMO
1 parte
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APRESENTAO
Este tema incorpora no currculo escolar demandas sociais urgentes, de abrangncia nacional, passveis de ensino e aprendizagem no ensino fundamental e com importante papel na promoo da participao social e poltica. Seus pressupostos so os seguintes: em todo produto ou servio consumido existe trabalho social; este trabalho  realizado segundo determinadas relaes de trabalho que no so naturais e sim construdas historicamente, sendo, portanto, passveis de crtica, interveno e transformao.
O fato do tema Trabalho e Consumo estar sendo apresentado nos Parmetros Curriculares Nacionais para o terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental no significa que no deva ser tratado nos ciclos anteriores, com as devidas adaptaes e modificaes. Prope-se que as Secretarias de Educao e as escolas, em seus projetos pedaggicos discutam sobre sua relevncia e incorporao nos primeiros ciclos.
Busca-se, portanto, pela anlise do trabalho e do consumo na atualidade, explicitar as relaes sociais nas quais se produzem as necessidades, os desejos e os produtos e servios que iro satisfaz-los. Participar dos debates sobre as formas de realizao e organizao do trabalho e do consumo, compreendendo suas relaes, dependncias, dilemas e direitos vinculados, assim como os valores que lhe so associados, subsidiar uma atitude critica, na perspectiva da valorizao de formas de ao que favoream uma melhor distribuio da riqueza produzida socialmente.
Secretaria de Educao Fundamental
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TRABALHO E CONSUMO 
1 PARTE
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INTRODUO
As relaes que os seres humanos estabelecem entre si e com a natureza, de carter econmico, poltico, cultural, produzem modos de ser e de viver e definem, a cada momento, o que ser considerado imprescindvel ao bem viver: um conjunto de bens e servios, produzidos por toda a sociedade, que podero ser usufrudos. Materializado nos objetos de consumo, nos produtos e bens materiais ou simblicos e nos servios, encontra-se o trabalho humano, realizado sob determinadas relaes e condies.
As relaes existentes entre os homens em sociedade podem ser analisadas a partir das relaes de trabalho e consumo, mas ficam muitas vezes obscurecidas pela frequente afirmao de que todos so igualmente livres tanto para trabalhar e escolher um tipo de trabalho como para consumir. Essa afirmao no considera as desigualdades de acesso ao trabalho, aos bens de consumo e aos servios, ou a distribuio diferenciada entre as classes sociais.
Consumir, portanto, no  um ato "neutro": significa participar de um cenrio de disputas por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de us-lo, tornando-se um momento em que os conflitos, originados pela desigual participao na estrutura produtiva, ganham continuidade por meio da distribuio e apropriao de bens e servios. A histria do movimento dos consumidores (consumerismo) reflete esta compreenso. Considera-se que o movimento dos consumidores iniciou-se em Nova York, em 1891, quando surgiu uma associao de consumidores denominada New York Consumers Lengue, cuja luta era pela melhoria das condies de trabalho locais, contra a explorao do trabalho feminino e infantil em fbricas e comrcio. Essa associao elaborava "Listas Brancas", contendo o nome dos produtos que os consumidores deveriam escolher preferencialmente, pois as empresas que os produziam e comercializavam respeitavam os direitos dos trabalhadores, como salrio mnimo, horrios de trabalho razoveis e condies de higiene condignas. Era uma forma de influenciar a conduta das empresas pelo poder de compra dos consumidores.
Se individualmente e de forma isolada pouco se pode fazer em relaes marcadas pela desigualdade de foras e de poder, trabalhadores e consumidores conquistam formas de organizao, e, por meio delas, garantias e direitos concretizados em lei. As relaes de trabalho e consumo produzem e reproduzem as tenses entre desigualdade e luta pela igualdade, injustia e luta pela justia. E assim que se constri, a cada momento, a cidadania, como uma srie de lutas em prol da afirmao dos direitos ligados  liberdade,  participao nas decises pblicas e  igualdade de condies dignas de vida, modificando, dessa forma, a distribuio de riqueza e poder na sociedade.
Ao se conceber a educao escolar como uma prtica que tem a possibilidade de criar condies para que todos os alunos desenvolvam suas capacidades,  papel da escola discutir como poder atuar na educao das crianas e dos jovens na perspectiva da participao em relaes sociais, polticas e culturais cada vez mais amplas, condies estas fundamentais para o exerccio da cidadania na construo de uma sociedade democrtica e no excludente.
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A discusso sobre trabalho e consumo na escola busca explicitar as relaes sociais nas quais se produzem as necessidades e os desejos, e os produtos e servios que iro satisfaz-los. Conhecer e discutir as formas de realizao e organizao do trabalho e do consumo, compreendendo suas relaes, dependncias, interaes, os direitos vinculados, as contradies e os valores a eles associados, subsidiar a compreenso da prpria realidade, a construo de uma auto-imagem positiva e uma atitude crtica, para a valorizao de formas de ao que favoream uma melhor distribuio da riqueza produzida socialmente.
Este tema traz para o currculo escolar demandas sociais urgentes, de abrangncia nacional, passveis de ensino e aprendizagem no ensino fundamental e com importante papel na promoo da participao social. Seus pressupostos so os seguintes: em cada produto ou servio consumido existe trabalho social; este trabalho  realizado segundo determinadas relaes que no so naturais e sim construdas historicamente, sendo, portanto, passveis de crtica, interveno e transformao.
No Brasil, o direito ao trabalho e o direito ao consumo  ao acesso aos bens materiais e culturais socialmente produzidos  precisam ser analisados no contexto de desigualdade social existente. As diferenas entre ricos e pobres, homem e mulher, brancos e no-brancos, moradores do campo e da cidade, indivduos com baixa e alta escolaridade, so extremas. Essa desigualdade compromete a democracia e, conseqentemente, a construo da cidadania.

Escola, trabalho e consumo
Entende-se a escola como uma organizao que trabalha  que trabalha com uma tarefa especfica e que, com seu trabalho, prepara futuros trabalhadores , reproduzindo parcialmente as representaes, valores e condies de trabalho mais gerais, a hierarquia, a especializao, a precarizao do trabalho formal, o impacto das novas tecnologias. Est, portanto, condicionada por fatores estruturais. Pode, porm, desempenhar um papel importante na incluso dos grupos sociais discriminados ou desfavorecidos, ainda que isso dependa fundamentalmente de polticas pblicas (de alimentao, de habitao, sade e de renda), assim como de investimentos diretos que modifiquem as condies de salrio e de trabalho dos educadores.
Na discusso sobre a relao entre escola e trabalho o que se afirma  que garantir aos alunos slida formao cultural, favorecendo o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes de cooperao, solidariedade e justia contribui significativamente tanto para a insero no mercado de trabalho quanto para a formao de uma conscincia individual e coletiva dos significados e contradies presentes no mundo do trabalho e do consumo, das possibilidades de transformao1.
Adolescentes e jovens vivem a expectativa sobre a futura  ou presente  insero no mundo do trabalho, assim como os dilemas diante dos apelos para o consumo dos produtos valorizados por seu grupo etrio. Trazem um conjunto de representaes acerca da sociedade
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e sobre a posio que nela ocupam a partir da verificao das condies familiares e da comparao com outras realidades com as quais entraram em contato diretamente ou pela mdia. Esse conjunto de representaes servir de base para a formulao de seus projetos de vida, entre os quais se inclui o projeto profissional.
A combinao escola-trabalho  corrente entre jovens de famlias trabalhadoras, visando complementar a renda familiar afetada pela deteriorao salarial ou o desemprego , para melhorar o padro de consumo, ou para garantir sua permanncia na escola. Muitas vezes o salrio recebido pelo jovem trabalhador representa um dinheiro que pode ser gasto no consumo de produtos e servios voltados para esse pblico. Porm, se no so todos que j participam de alguma forma do mercado de trabalho, ou tm um lugar no trabalho domstico, todos refletem, em sua atuao escolar, a situao de trabalho e emprego das famlias, assim como a luta cotidiana para conquistar o direito de usufruir dos bens e servios produzidos.
Direta ou indiretamente, de forma explcita ou implcita, a escola trabalha com valores,  representaes e posicionamentos relativos ao mundo do trabalho e do consumo. Todos trazem consigo representaes sobre estas relaes sociais, posturas frente a elas, imagens j construdas de valorizao de determinadas profisses e tipos de trabalho, assim como sua traduo em prticas de consumo, na posse ou no de objetos ou em marcas de distino social. A desigualdade e a diversidade esto presentes nas escolas, por meio de prticas de consumo que permeiam o cotidiano escolar: enquanto em algumas h a possibilidade de  escolha entre determinados materiais existentes no mercado, de material didtico, que pode se reflorir no desperdcio ou reaproveitamento de materiais, por exemplo, outras convivem com grande carncias at de materiais bsicos.
Torna-se necessrio problematizar como, por meio dessas representaes e das relaes efetivamente vividas em seu interior, a escola pode atuar para superar prticas e valores que discriminam trabalhadores e colaboram na aceitao da pobreza e da "naturalidade" do sistema ou para sua manuteno.
Como a escola relaciona-se com os alunos mais pobres, freqentemente provenientes de famlias que no tiveram acesso  escola? O fracasso escolar ou baixo desempenho de alguns alunos  "esperado" ou se luta contra a associao da pobreza ou do desemprego  incompetncia ou desvalia pessoal? Como a escola avalia/valoriza os 
 Ver documento de Introduo aos Parmetros Curriculares Nacionais.
saberes produzidos nos diferentes campos de trabalho, o cientfico, o tecnolgico, o artstico, o operrio? Existe o reconhecimento dos diferentes conhecimentos como produtos do trabalho e o reconhecimento dos diferentes trabalhadores como produtores de conhecimento? Quais so os critrios utilizados para se pensar sobre o "sucesso", sobre o "xito"? Realizao pessoal, empenho, solidariedade, contribuio para o "bem comum"? Ou riqueza, acmulo de bens? Como estas e outras idias perpassam os contedos ensinados nas reas, as tomadas de deciso e postura dos educadores, as relaes e prticas do convvio escolar?
Assim, prope-se que a escola atue com o compromisso de uma formao cultural e poltica slida e abrangente, que possibilite uma compreenso crtica da situao atual e favorea a participao e a cooperao.
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CARACTERIZAO DO TEMA
De forma sucinta, o trabalho pode ser definido como a modificao da natureza operada pelos seres humanos de forma a satisfazer suas necessidades. Nessa relao, os homens modificam e interferem nas coisas naturais, transformando-as em produtos do trabalho. O trabalho, ao mesmo tempo que organiza e transforma a natureza, organiza e transforma o prprio homem e sua sociedade. O trabalho no  uma categoria abstrata ou sem localizao histrica. Cada sociedade cria suas formas de diviso e organizao do trabalho, de regimes de trabalho e de relao entre as pessoas no e para o trabalho, alm de instrumentos e tcnicas para realiz-lo. Por isso varia tambm aquilo que  considerado trabalho e o valor a ele atribudo.
O presente tema prope tematizar a quantidade e a diversidade de trabalho presente em cada produto ou servio, e as relaes entre trabalho e consumo, que so muitas e bastante complexas. Como exemplo dessa rede de relaes, segue-se uma explicitao delas a partir de um gesto, aparentemente to simples, como o de beber um copo de leite.
O dicionrio define o leite como "lquido branco, opaco, segregado pelas glndulas mamrias das fmeas dos animais mamferos"2. Mas tal definio no revela tudo. No Brasil ainda agrrio, cunhou-se a expresso "esconder o leite", que significa encobrir, omitir algo. Essa expresso faz referncia a determinados mamferos, especialmente s vacas, que no vertem o leite quando ordenhadas, guardando ("escondendo") o lquido precioso para suas crias. Quanto trabalho  necessrio para que esse leite chegue at as casas e quanto trabalho ser necessrio para comprar esse valioso alimento que ser consumido por crianas e adultos? Para compreender todo o significado "escondido" num litro de leite  preciso desvendar as imbricaes3 atuais do processo de sua produo e consumo.
Ao tomar um copo de leite em casa, pouca ateno se d aos significados dessa ao. O gostoso lquido foi produzido, embalado, transportado e vendido at chegar ao copo para ser consumido. Alis, o copo tambm foi produzido, embalado, transportado e vendido, envolvendo um grande nmero de trabalhadores de diversas esferas da produo, distribuio e comercializao, esferas que, por sua vez, consumiram quantidades de energia e matria-prima.
Como ento esse leite chegou at o momento de poder ser consumido? Nas
 
2 Ferreira. A. B. H., 1986.
3 Segundo o Dicionrio Aurlio, imbricao significa "a disposio que apresentam certos objetos quando se sobre-pem parcialmente uns aos outros, como as telhas de um telhado ou as escamas de um peixe". Este termo reflete de forma precisa a idia que se deseja tratar os momentos constitutivos de um processo produtivo, que podem parecer isolados ou apresentar-se  conscincia de forma fragmentada, de fato interligam-se, formando uma trama, uma estrutura.


cidades, provavelmente seu filho ou outra pessoa  dependendo da diviso e organizao do trabalho domstico  foi at a padaria comprar um litro de leite. Seguramente pediu a um balconista
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aquilo que precisava. Esse balconista teve como primeira tarefa do seu dia de trabalho guardar o lote de leite, que chegou de madrugada, na geladeira, para que no estragasse. Ele  um trabalhador, funcionrio do dono do estabelecimento. Pode ser um empregado com registro na Carteira de Trabalho conforme manda a lei, ou, caso contrrio, fazer parte do contingente de trabalhadores que vivem relaes de trabalho marcadas pela precarizao.
No momento da compra do produto, foi necessrio escolher entre marcas, tipos e embalagens de leite com preos diferenciados, assim como tomar algumas precaues: olhar a data de validade do leite, como estava armazenado (com boas condies de refrigerao), se a embalagem estava intacta etc. Foi preciso conferir o troco e guardar o comprovante da operao de compra e venda do produto, pois, com ele, o consumidor, caso lesado, pode recorrer ao servio de atendimento ao consumidor da empresa fornecedora do leite, s associaes de defesa de consumidores civis e governamentais.
No preo pago pelo produto, h tambm impostos embutidos, que geram numerrio para que o governo fornea servios, contrate obras e fiscalize, por meio de uma srie de rgos da administrao pblica, a produo, a distribuio e a comercializao, por exemplo, daquele leite, para garantir suas condies de higiene e qualidade, assim como verificar o cumprimento das leis que regulam as relaes de trabalho e consumo. Essas leis, conquistadas ao longo da histria pelos cidados organizados, partem do reconhecimento da desigualdade de foras existente nas relaes de trabalho e consumo e visam proteger os cidados contra abusos e discriminaes.
A renda auferida pelo proprietrio da padaria na venda do leite e de outros produtos pode ser depositada ou aplicada num banco. O banco, parte do sistema financeiro, rene uma variedade de trabalhadores com diferentes qualificaes, remuneraes e direitos, sindicatos e associaes profissionais. Enquanto o depositante mantm seu dinheiro no banco, a instituio financeira o utiliza, juntamente com o depsito de milhares de outros clientes, em operaes financeiras e de crdito, sujeitas a taxas de juros cobradas de outras pessoas, empresas ou organizaes que solicitam dinheiro para financiar sua produo, seus projetos e at as suas dvidas.
, parece que um copo de leite "esconde" muito leite mesmo!
Para esse leite poder ser consumido, precisou ser transportado do laticnio at a padaria. Uma srie de trabalhadores, os motoristas, proprietrios de seus caminhes ou funcionrios de empresas transportadoras, sujeitos a determinadas condies de salrio e trabalho com seus direitos e sindicatos, fazem este servio pela madrugada afora. Para transportar o leite  necessrio caminhes com refrigerao, projetados e produzidos em grandes fbricas nacionais ou multinacionais que consomem energia e matria-prima e que, novamente, empregam um grande nmero de trabalhadores com diferentes especializaes, sujeitos a diferentes formas de organizao do trabalho, salrios e direitos, possivelmente tambm organizados em seus sindicatos ou associaes profissionais. Esses
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caminhes foram, por sua vez, vendidos por concessionrias que, tambm, renem trabalhadores do comrcio, com sua respectiva organizao.
O laticnio, formado no Brasil inicialmente por cooperativas e com a presena, atualmente, de empresas multinacionais no setor,  a indstria do produto.  a que o leite ser pasteurizado, homogeneizado e embalado. Mquinas e outros instrumentos so necessrios para a realizao do processo, produzidas, tambm, por fbricas, com o trabalho dos engenheiros, projetistas e operrios. A indstria do leite desenvolveu, alm dos leites tipos A, B, C (diferenciados pelo seu teor de gordura entre outros aspectos), outros tipos de leite: o leite longa vida, o leite condensado, o leite em p, o leite desnatado, assim como uma srie de produtos lcteos, como bebidas com gosto frutas, os mais variados iogurtes (tradicionais, com polpas de frutas, diets e lights}, atingindo, dessa forma, pblicos diferenciados por idade e poder aquisitivo.
Uma parte da produo do leite no chega ao consumidor diretamente. Pes, bolos da indstria de panificao e outros produtos o utilizam como ingrediente. Para que a populao compre (e no s uma vez, mas se possvel sempre) um novo produto lcteo desenvolvido pela indstria do laticnio,  necessrio que ela tome conhecimento da existncia da mercadoria e sinta a necessidade de consumi-la. A propaganda, nas sociedades modernas, utilizando os meios de comunicao de massa, tem o papel de informar e "convencer" a pessoa de que ela "deve" comprar determinadas marcas e produtos. Esse  o outro setor que emprega o trabalho de uma srie de profissionais que se dedicam ao estudo do perfil dos possveis consumidores do produto, para encontrar os caminhos de seu sucesso de vendas.
Mas para que o laticnio possa dar incio a todo esse processo  necessria a matria-prima: o leite. Para tanto, ainda  necessria a propriedade da terra (grandes propriedades, pequenas propriedades cooperadas etc.), a plantao e manuteno do pasto, o cuidado dos animais, a cargo de trabalhadores, sujeitos a diferentes relaes de trabalho, para que se produza esse importante e complexo lquido.
Portanto, para que tudo isso possa aparecer nas prateleiras, trabalhadores com habilidades e conhecimentos diferenciados e adequados produzem e controlam a produo. Todos eles trabalham para obter, remunerao que lhes permita comprar o leite e outros produtos que consideram necessrios para si e para os seus.
Pelo que se viu, o leite  muito mais que um "lquido branco, opaco, segregado pelas glndulas mamrias das fmeas dos animais mamferos" e ao que parece a expresso "esconder o leite" faz muito sentido quando se recupera toda a gama de trabalho realizado.
Reconhecendo a importncia da determinao econmica na explicao da apropriao humana da natureza e na estruturao das relaes sociais (o regime de propriedade, diviso do trabalho e mercado, a relao entre as diversas atividades e as variaes de configurao econmica, as relaes que estabelecem entre si os diversos grupos e classes sociais, nacional e internacionalmente), cabe aqui destacar a existncia de
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outras determinaes e condicionantes que podem inclusive reorientar os prprios rumos dos processos econmicos. Torna-se importante analisar a dimenso dos processos tnico-culturais e histricos das decises polticas e suas consequncias sobre o processo produtivo, determinando sua modificao ou reestruturao, bem como a inventividade da sociedade para a superao de seus desafios e para a criao de novas alternativas. Nesta caracterizao, contudo, sero privilegiadas as dimenses polticas e econmicas do trabalho e do consumo na atualidade, com suas repercusses sociais, com o intuito de oferecer um quadro geral da discusso que poder ser aprofundado e complementado, inclusive com a contribuio da leitura e discusso dos demais temas transversais.
Caractersticas do trabalho e do consumo na sociedade atual.
Sob o nome de "globalizao, renem-se fenmenos diversos que refletem novas formas de organizao dos atores econmicos e polticos e de reorganizao da diviso internacional de trabalho.
Algumas caractersticas desse processo podem ser compreendidas a partir das transformaes provocadas pelo desenvolvimento da informtica, das telecomunicaes e da automao que modificam, por sua vez, a organizao e a capacidade de produo econmica, dentro do sistema capitalista de produo.
A transmisso e recepo de informaes em tempo real, seu processamento pelo computador, criaram novas condies de investir e gerenciar o capital e a produo em diferentes pontos do planeta. Um mesmo produto pode ser igual e simultaneamente produzido pelo mesmo fabricante em diferentes pases do mundo (os mesmos brinquedos, os mesmos automveis, por exemplo), segundo sua convenincia e margem de lucro. A rapidez da informao, ao lado do desenvolvimento dos transportes, permite tambm que os componentes de um produto final sejam fabricados em diferentes pontos, dividindo-se a produo segundo os lugares onde as condies econmicas (custo do trabalho, da matria-prima, legislao reguladora etc.) seja mais vantajosa.
As novas formas do dinheiro, como os cartes eletrnicos, com os quais se pode fazer movimentao financeira em qualquer lugar, o desenvolvimento do crdito, do marketing e da indstria cultural permitem comercializar e prestar servios globalmente, de modo que a produo, realizada nos lugares escolhidos, seja distribuda para o mundo. E o caso dos produtos feitos nos pases asiticos que nos ltimos anos entraram no mercado brasileiro.
O mercado financeiro, com suas bolsas de valores, funciona articuladamente: o que acontece em um pas tem reflexos imediatos nos demais, fazendo com que em determinados momentos os investimentos se concentrem num pas, para em seguida migrar para outro, seguindo apenas a lgica da rentabilidade imediata. Verifica-se o sempre crescente
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movimento de fuso de empresas, de ampliao do espectro de atuao das corporaes multinacionais e a influncia de instituies supranacionais de financiamento nas decises macroeconmicas.
No  possvel deixar de chamar a ateno para a desigualdade de posies nessa interdependncia mundial, entre os chamados pases centrais (aqueles que abrigam os centros de deciso das grandes empresas, os grandes centros financeiros e cientficos) e os perifricos, determinada pela desigual produo e acesso s tecnologias agrcolas, biotecnolgicas, de automao, comunicaes ou robtica, assim como a desigualdade do impacto das inovaes tecnolgicas nas diferentes classes sociais.
Configura-se, assim, um contexto instvel, de transformaes aceleradas e de transnacionalizao da produo, que tem impacto direto nas relaes de trabalho e de consumo. Isso ocorre de formas profundamente desiguais e diferenciadas, nacional, regional ou setorialmente, nos pases centrais e nos perifricos, afetando formas tradicionais de produo, modificando hbitos de consumo, com grande impacto nas culturas locais.
Na acirrada concorrncia internacional, as empresas lanam mo de todos os fatores que possam significar vantagens, como a reduo dos custos do trabalho, a expanso da subcontratao, a tercerizao da produo e o trabalho autnomo realizado no domiclio, alm de fazerem presso para modificar a regulamentao das relaes de trabalho.
A rpida transformao na produo de bens e servios acabam por causar efeitos jamais imaginados. Novas tecnologias e formas de gerenciamento na produo promovem o aumento da produtividade que elimina, com a automao, postos de trabalho, gerando o chamado desemprego tecnolgico. As divises do trabalho se alteram, surgem novos campos de trabalho, grandes contingentes de trabalhadores industriais so expulsos para o setor tercirio da economia ou para o chamado "setor informal", ou, ainda, so totalmente excludos do mercado de trabalho, criando o desemprego conjuntural e o de excluso4.
Ao mesmo tempo, portanto, em que novas palavras aparecem no cotidiano, como empregabilidade, trabalho por projetos, trabalho virtual, convive-se com o desemprego, com uma multiplicidade de formas diferenciadas de trabalho e de ocupao, com a insegurana e com a incerteza em relao ao futuro. Novas profisses aparecem, outras tendem a desaparecer, outras, ainda, se transformam. A valorizao e remunerao das profisses e dos servios tem mudado em funo das novas demandas do mercado. Nesse contexto em transformao, servios altamente remunerados convivem com outros, muito mal pagos, sem segurana e sem respeito s legislaes trabalhistas, ou com o desemprego.
No Brasil, junto  questo do desemprego tem-se o desafio, histrico, de modificar o
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quadro perverso de distribuio profundamente desigual da riqueza, que resulta em desigualdade de oportunidades de acesso a bens e servios, incluindo o acesso s informaes e oportunidades de encontrar alternativas cm outros tipos de ocupao. Essas mudanas afetam trabalhadores de todas as classes sociais, porm com impactos diferenciados, na medida em que dependem do setor em que ocorrem, das relaes de trabalho, da organizao sindical existente.
Ao mesmo tempo, vive-se a busca de alternativas e discute-se sobre quais sero as responsabilidades que cabero aos governos e  sociedade civil organizada.
Os problemas de desemprego e transformao das relaes de trabalho dependem, em muito, das opes por modelos de desenvolvimento da economia nacional e da eficcia das polticas econmicas e sociais.
At agora, na sociedade capitalista, o emprego  a forma predominante de exerccio do trabalho e de distribuio da riqueza produzida socialmente e, portanto, de se auferir recursos para a satisfao das necessidades.
A rapidez das mudanas  grande, exigindo esforos para construir alternativas, propor mudanas e novas formas de organizao, pois as escolhas tecnolgicos tambm comportam decises de natureza poltica. A questo que se coloca  a de como fazer com que tal produtividade e capacidade tecnolgica sejam usadas em benefcio da qualidade de vida das populaes e no para a maximizao do lucro ao custo da precarizao das relaes de trabalho ou do desemprego. Ou, de outro modo, que novos direitos e formas de organizao social do trabalho so necessrios para fazer frente a esse novo modelo de organizao da produo, de modo a garantir a todos os direitos de cidadania.
Ao grande aumento de produtividade conseguido pelas novas tecnologias e organizao da produo de bens e servios corresponde a necessidade de vend-los, pois  na dinmica produo/consumo/produo que o capital se amplia. Por isso, juntamente com esse processo, e guardando estreita relao com ele, vem se tornando cada vez mais intenso o apelo s pessoas para que consumam.
Consumidor  toda pessoa que compra um produto ou paga pela realizao de um servio. Consumir no  s uma relao entre particulares. Ao utilizar gua, luz e transporte coletivo, os servios de sade ou educao, consome-se um servio pblico, pago por todos nos impostos diretos e indiretos. Consumir  ter acesso no s aos bens primrios de subsistncia, mas tambm usufruir dos desenvolvimentos tecnolgicos, dos bens culturais e simblicos.
Um direito bsico do cidado  ter acesso ao mercado de consumo, aos produtos ou servios que so oferecidos. Embora, aparentemente, exista o livre acesso de todos 

4 Segundo o Dieese (1995), o desemprego conjuntural  aquele que resulta das polticas econmicas adotadas, que privilegiam alguns setores em detrimento de outros; o desemprego tecnolgico  resultado dos processos de introduo de novas tecnologias e tcnicas organizacionais que provocam novas percepes do que seria a racionalidade desejvel dentro do processo produtivo; o desemprego de excluso  definido como resultante da desqualificao para o trabalho nos ncleos mais dinmicos da economia.
aos bens de consumo e servios, reconhece-se a existncia de "bolses" de consumo diferenciados: se em alguns o consumo de bens  praticamente ilimitado, em outros existe a impossibilidade de acesso aos bens de consumo e servios considerados vitais. Trata-se, portanto, de reivindicar o acesso ao consumo como um direito fundamental de cidadania.
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Problemas derivados do modelo dominante de produo, tais como a pobreza e a desigualdade social, colocam em questo o que produzir, para quem, quais seriam as prioridades. Como fazer frente  lgica desse sistema que depende de criar cada vez mais mercadorias para continuar se expandindo, e que para isso tem uma complexa engrenagem de "fabricao de novas necessidades", instalando a idia do poder de consumo como um valor em si? Criando por um lado o consumo compulsivo, excessivo e acrtico de determinados bens, independentemente de sua necessidade "real" (o chamado consumismo), e por outro a desvalorizao e a desvalia social para os que no podem consumir no mesmo nvel e o mesmo tipo de bens?
O custo social desse modelo tambm transparece quando se verificam suas repercusses negativas no meio ambiente, com o esgotamento de recursos naturais, o desperdcio de energia, o lixo, a poluio, assim como seu impacto na sade. Para os cidados  que, de formas desiguais e diferences se relacionam com o mercado como consumidores , colocam-se os mais diversos problemas no cotidiano: como distinguires produtos levando em considerao a relao qualidade, composio, quantidade, impacto ambiental e preo; como defender-se das estratgias de vendas agressivas; quais so os cuidados na hora de negociar ou assinar um contrato; como fazer valer seus direitos em relao aos servios pblicos e privados etc.
Essas decises tornam-se difceis quando pensadas de forma individual. As empresas dirigem sua produo e suas estratgias de vendas e publicidade para seus pblicos-alvo, apontando para imagens, estilos de vida, emoes ligadas ao consumo de determinados produtos e marcas. Como exemplos podem-se destacaras promessas de felicidade atribudas  compra de eletrodomsticos, os apelos  sexualidade nos comerciais dos mais diferentes produtos e a apresentao de determinados objetos como signos de sucesso profissional. A posse de determinados objetos liga-se a imagens de amor, de poder, de segurana, de esperana, de riqueza, indo alm do seu papel de preencher determinada funo ou necessidade, provocando o crescimento das expectativas, criando e manipulando desejos. Por meio da publicidade criam-se necessidades e novos padres de consumo, que passam a servir como indicadores da posio social dos indivduos.
No  suficiente ter um sapato, uma roupa, uma caneta, mas a roupa, o sapato de determinada marca. A identidade  marcada pelo consumo no apenas dos objetos como das marcas espalhadas pelo mundo e que se tornaram objeto de desejo, nos mais diversos pases e culturas, independente de fatores como qualidade, durabilidade, adequao ao uso, preo etc.
Assim, questes antes restritas ao mbito da vida privada ou individuais ganham dimenses sociais, como a questo do desperdcio, do consumo de bens descartveis, do uso de materiais no reciclveis, at a deciso de usar ou no um automvel. Os cidados, porm, ainda desconhecem sua fora como consumidores, sua condio de sujeito nas relaes de consumo, seus direitos e sua capacidade para intervir nessas relaes.
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Existem, nacional e internacionalmente, movimentos que defendem a idia de que a participao na sociedade moderna atravs do consumo, deve implicar a crtica e o repdio a explorao e precarizao das relaes de trabalho, as desigualdades e discriminaes de gnero, etnia e idade, assim como a defesa de direitos em relao ao meio ambiente e a sade.
So essas reflexes que justificam e delineiam os propsitos de uma educao do consumidor: propiciar aos alunos o desenvolvimento de capacidades que lhe permitam compreender sua condio de consumidor, com os conhecimentos necessrios para construir critrios de discernimento, aluar de forma crtica, perceber a importncia da organizao, solidariedade e cooperao para fazer valer seus direitos e assumir atitudes responsveis em relao a si prprio e  sociedade.

Trabalho e consumo na sociedade brasileira
Para o avano da democracia, o problema central a ser enfrentado  o da injusta e intolervel concentrao de renda e riqueza existente no pas. Essa concentrao  resultado da vigncia, histrica e que se agrava nas ltimas dcadas, de modelos econmicos e polticos excludentes. A desigualdade retraia uma situao referida  participao na renda, no consumo e no acesso a bens e servios.
O Brasil, considerado a oitava economia mundial,  um dos pases com mais injusta distribuio de renda. As estatsticas mostram que os 50% mais pobres, ou seja, metade das pessoas que receberam alguma remunerao por seu trabalho, se apropriaram de apenas 12% do total dos rendimentos do trabalho, enquanto os 50% mais ricos se apropriaram de 88%; destes ltimos, 1% dos mais ricos  que ganharam acima de 50 salrios mnimos  concentraram 14% do total dos rendimentos do trahalho5. Analisando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios6, o instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica conclui que, se entre 1981 e 1990 houve reduo das desigualdades de rendimento entre homens e mulheres, contribuintes e no-contribuintes, entre trabalhadores "intelectuais" e "manuais", tal reduo resultou sobretudo de um nivelamento por baixo dos rendimentos, pois naquele mesmo perodo, intensificou-se o processo de concentrao de renda7. Essa concentrao tem variado nos ltimos anos, refletindo-se, por exemplo, na diminuio do nmero de pessoas com remunerao de at um salrio mnimo, sem que essa tendncia, contudo, possa ainda ser considerada contnua. A discriminao de etnia e gnero  um dos fatores que afeta a renda do trabalho no Brasil: a renda mdia dos homens  73,7% superior  das mulheres, e a renda mdia dos brancos  mais que o dobro da dos pardos e negros8.
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Em conseqncia da extrema polarizao social, milhes de pessoas esto excludas do acesso aos bens e servios bsicos de consumo. So precisamente esses setores populares os mais indefesos economicamente, com poucas condies de organizao poltica para demandar o acesso aos servios e bens essenciais. Relatrio do Banco Mundial, "Brazil, Poverty Assessment", de 1995, mostra que os mais pobres cem menos acesso aos gastos sociais federais, estaduais e municipais em sade, O nvel de rendimento  um componente importante quando se analisa a questo da educao. Os percentuais de analfabetos so maiores em famlias com renda per capita menor. Tambm h, proporcionalmente, mais analfabetos ou pessoas que no estudaram nem um ano na zona rural do que nas cidades, devido, em parte, s distncias a serem percorridas e, principalmente,  necessidade de trabalhar para complementar a educao, transporte, habitao e previdncia: os 20% mais pobres ficam com 15% do total de gastos, enquanto que os 20% mais ricos ficam com 21%.

5 DIEESE, Departamento Intersindical de Estatstica e Estudos Socioeconmicos, 1995.
6 IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica, 1994.
7 O ndice de Gini, adotado para medir a concentrao de renda em um pas, apresenta a seguinte evoluo no Brasil: em 1950, 0,564 e 0,602 em 1990. Esse indicador varia de zero a um, indicando, quanto mais prximo estiver de 1, que a distribuio est se concentrando.
8 SINGER, 1998.
renda familiar. No campo, apenas 6,8% estudaram os oito anos do ensino fundamental, contra 30,9% que atingiram a mesma escolaridade nas cidades9. Mesmo constatando-se uma taxa de escolarizao crescente nos ltimos anos, com o Brasil alcanando a universalizao do ensino fundamental, os ndices sobre a situao da escolarizao nas diferentes regies refletem as profundas desigualdades regionais existentes no pas10.

Tributao11, distribuio de renda e justia social
Na discusso sobre poltica de distribuio de renda, um ponto importante a ser considerado  o papel da tributao cm sua relao com a cidadania, questo ligada diretamente ao usufruto de direitos e benefcios sociais por parte dos cidados.
A tributao  a maneira pela qual a maior parte dos recursos pblicos  obtida, por meio dos impostos diretos sobre renda e lucro (Imposto de Renda)  e indiretos  embutidos nos preos dos bens e servios (ICMS, SS)12. O sistema tributrio de um pas tem peso significativo na promoo da justia social e do bem-estar de seus cidados, sendo um importante instrumento de redefinio e distribuio das rendas e riquezas nacionais. Tributos no so elementos "neutros" na organizao de uma nao, afetando-a diretamente. O que beneficia determinados setores pode significar uma reduo de benefcios e servios para outros setores.
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O dinheiro, portanto, a ser gasto em investimentos e servios pblicos vem dos impostos diretos e indiretos pagos por todos os cidados. Dessa forma, mesmo os cidados mais pobres, isentos dos impostos diretos, esto colaborando com esse fundo coletivo de recursos por intermdio dos impostos indiretos que incidem sobre todos os produtos, mesmo os mais simples e bsicos.
 fundamental, para o exerccio de cidadania, saber como se processa a definio de incentivos ou restries a determinadas regies, atividades ou produtos, o combate ou o estmulo  concentrao de renda deste ou daquele grupo social. Existem experincias municipais de oramento participativo, nas quais os cidados, por meio de associaes ou de forma individual, discutem as prioridades e determinam como esse dinheiro ser aplicado.  importante estar atento ao destino que o administrador d aos impostos arrecadados e ao recolhimento do imposto que o comerciante, o industrial ou o prestador de servios deve efetuar.  preciso procurar saber quanto  recolhido de imposto, qual sua destinao, quem deveria pagar mais ou menos, contribuindo para o dcsvelamento das questes tributrias, participando da elaborao do oramento pblico, discutindo suas prioridades e controlando sua execuo.

Alguns descritores da situao do trabalho no Brasil
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica considera trabalho em atividade econmica o exerccio de:

 ocupao remunerada em dinheiro, produtos, mercadorias ou benefcios (moradia, alimentao, roupas etc.) na produo de bens e servios;
 ocupao remunerada em dinheiro ou benefcios (moradia, alimentao, roupas
9 DIEESE, 1995.
10 Ainda segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios  PNAD , de 1995, enquanto no Sudeste restavam 6,4% das crianas de 7 a 14 anos fora da escola, no Nordeste esse ndice subia para 15% (IBGE, 1996).
11 Tributao: cobrana de impostos.
12 Segundo o documento da Secretaria da Fazenda do Estado de So Paulo, Educao, Tributao e Cidadania, as funes dos tributos so: integrar as receitas pblicas que custearo os servios prestados pelo Estado  populao; distribuir ou concentrar renda; regular o comrcio externo e interno; incentivar o desenvolvimento regional ou setorial; realizar, ou no, a justia social.
etc.) no servio domstico;
 ocupao sem remunerao na produo de bens e servios, desenvolvida durante pelo menos uma hora na semana, em ajuda a membro da unidade domiciliar, em ajuda a instituio religiosa, beneficente ou de cooperativismo, ou como aprendiz ou estagirio;
 ocupao desenvolvida, durante pelo menos uma hora na semana, na produo de bens, destinados prpria alimentao ou da unidade domiciliar, ou na construo de edificaes e outras benfeitorias para o uso da unidade domiciliar.

Nessa concepo de trabalho, incluem-se o trabalho remunerado de diferentes formas, o trabalho no-remunerado e o trabalho na produo para o prprio consumo ou na
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construo para o prprio uso. Todas essas modalidades de ocupao convivem e fazem  parte do cotidiano das pessoas e das comunidades. Apontam-se, a seguir, algumas tendncias da situao do trabalho no Brasil.

Urbanizao e terceirizao da economia.
Prossegue, no Brasil, a tendncia de urbanizao e terceirizao nos mercados de mo-de-obra, com 3/4 (73,9%) da populao ativa incorporada ao mercado urbano e mais da metade da populao ocupada em atividades tercirias (servios), em detrimento das atividades primrias (produo agrcola, pecuria e extrativa) e secundrias (produo industrial)13.
O processo de terceirizao foi impulsionado principalmente pelos servios de consumo individual: comrcio, estabelecido e ambulante; atividades sociais, servios pblicos e outros servios. Estaria se processando tanto pela criao ou ampliao de atividades modernas e organizadas quanto pela permanncia ou mesmo recriao de atividades no organizadas, que responderiam a estratgias de sobrevivncia dos setores atingidos pelo desemprego.

Precarizao do trabalho formal.
Os dados recentes apontam mudanas na situao do trabalho assalariado formal, com seus direitos e garantias e na do trabalho informal  assalariado sem carteira assinada ou autnomo. Entre 1981 e 1990, e continuando at hoje, h uma progressiva diminuio relativa do assalariamento formal em contraposio  produo independente (informal), e, em conseqncia, uma reduo na proporo de trabalhadores vinculados  previdncia social14. A excluso do emprego formal significa que os trabalhadores podero no estar usufruindo de uma srie de direitos garantidos por lei, como os que regulam o nmero de horas trabalhado, direito a descanso remunerado e frias, segurana no trabalho etc.
	Se o mercado informal, do ponto de vista de sua histria, absorveu principalmente o migrante recm-chegado aos centros urbanos, o trabalhador pouco qualificado, os
	13 Segundo dados do IBGE (1998), o nmero de vagas na indstria brasileira foi reduzido cm 38,1% de 1990 a 1997. No mesmo perodo, a produo industrial cresceu 6,3%.
	14 Publicao do IBGE, diz que; "resultados recentes das pesquisas domiciliares indicam que essa tendncia de precarizao, expressa no crescimento do nmero de trabalhadores com baixos nveis de rendimento e/ou sem cobertura social, observada nos anos 80, no apenas se mantm, como se incersifca nos primeiros anos de 1990" (IBGE, Mapa de Trabalho no Brasil. 1994). Essa pesquisa tenta precisar, dentro das modificaes do mercado de trabalho, quais so os "desvios'' do "modelo de emprego total" (empregados sem carteira assinada, pequenos empregadores e trabalhadores por conta prpria que exercem sua atividade no domiclio ou na rua, entre outros).
jovens ingressantes no mundo do trabalho, os idosos ou pessoas com idade prxima  aposentaria, hoje encontra-se ampliado, absorvendo os trabalhadores desempregados pela indstria e pelos servios, tanto pblicos como privados. A perda da importncia relativa do trabalho assalariado formal em contraposio ao trabalho autnomo, o crescimento de formas de
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ocupao sem vnculo contratual e cobertura social, o declnio dos nveis mdios de remunerao da maioria das pessoas ocupadas, leva a que se recorra a termos como "precarizaao" ou "deteriorao" das relaes de trabalho.

Participao crescente do trabalho feminino.
Os dados disponveis descrevem uma tendncia de contnua elevao da participao feminina no mercado de trabalho.
Em 1995 as mulheres representavam 39,9% da populao ocupada total. Ao mesmo tempo em que diversificaram seus postos de trabalho e alcanam ocupaes de melhor status social  ocupaes urbanas de nvel superior e gerenciais , foram as ocupaes manuais de menor qualificao as responsveis por aproximadamente 70,0% do incremento absoluto da entrada de mulheres no mercado de trabalho (como trabalhadoras domsticas, balconistas, comerciantes ambulantes, aprendizes e ajudantes industriais), observado no mercado urbano. Dessa forma, longe de ainda representarem um indicador de participao social com igualdade de oportunidades, o ingresso e a permanncia de mulheres no mercado de trabalho pode estar representando, para muitas, uma imposio frente  deteriorao dos rendimentos que se registrou ao longo da dcada.
Apesar de apresentarem uma escolaridade superior  dos homens15 e estarem disputando melhores empregos e posies, as mulheres continuam recebendo menor remunerao do que a auferida pelos homens no desempenho de igual funo, refletindo, nas relaes de trabalho, a permanncia de discriminao.

A luta contra a explorao do trabalho infanto-juvenil.
Um dos pontos centrais de mobilizao da sociedade diz respeito s questes do trabalho infantil e infanto-juvenil. Debatido em organizaes governamentais e no-governamentais, nacionais e internacionais, o combate ao trabalho infanto-juvenil  uma questo de direitos humanos, sendo tratado no Programa Nacional de Direitos Humanos no contexto da poltica de coibio ao trabalho forado.
O tema est na agenda da poltica social do pas, como um problema que se explica pela conexo de fatores de natureza econmica, cultural e de organizao social da produo, associado  desigualdade e  excluso social. Constitui, dessa forma, um desafio a ser enfrentado por meio de conjuntos de medidas que envolvam Estado e sociedade civil e que implicam em uma srie de polticas de distribuio de renda. Segundo o documento  Trabalho Infantil no Brasil16, apesar de ser proibido por lei (at os quatorze anos), em torno
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de 4 milhes de crianas brasileiras entre 5 e 14 anos de idade so trabalhadoras. Esse nmero representa cerca de 12% do cocai de crianas nessa faixa etria.
Do total das crianas trabalhadoras, 60% desenvolvem trabalhos agrcolas e 40% se encontram ligadas a trabalhos urbanos. Verifica-se que o trabalho infantil aumenta com 
15 A populao feminina com idade superior a 10 anos escudou 5,1 anos contra 4,9 da populao masculina, havendo tambm menos analfabetos entre as mulheres do que entre os homens. Em 1995, o ndice de mulheres com escolaridade completa de segundo grau  ensino mdio  superava em dois pontos percentuais o de homens que alcanavam essa escolaridade (PNAD, 1993, IBGE, 1996).
16 Trabalho Infantil no Brasil. Verso aprovada pela Cmara de Poltica Social. Presidncia da Repblica. Braslia, setembro de 1997.
a idade e  maior entre meninos do que entre meninas17; a participao  maior naqueles de cor negra ou parda; a participao das crianas no trabalho  maior na rea rural do que na urbana e decresce conforme se eleva o nvel de renda das famlias em que esto inseridas. O trabalho infantil de alto risco concentra-se na zona rural, nos fomos de carvo, na extrao de pedras, no beneficiamento do sisal, na extrao de sal, nas olarias. As crianas e jovens so tambm objeto de explorao em atividades de alto risco e violncia como a prostituio e o trfico de drogas.
Mas no  possvel desconsiderar o trabalho urbano, tanto no setor formal como informal, em servios, em pequenas unidades de produo familiares, no comrcio. Muitas vezes, e de forma regionalmente diferenciada, esse trabalho  tolerado, por existir uma cultura de valorizao do trabalho infantil que teria como objetivo retirar as crianas e jovens do "cio" e de possvel delinqncia.
H uma alta participao de jovens entre 15 e 24 anos no mercado de trabalho e estes esto sendo profundamente afetados pelas transformaes em curso. A maioria (79%) dos jovens de 15 e 17 anos que esto trabalhando (ou esto desempregados e procurando emprego) tambm estudam, geralmente em escolas noturnas. Segundo o Dieese, sua insero no mercado de trabalho  bastante desfavorvel, mais ainda para outros segmentos de trabalhadores. Entre outros atributos (sexo, cor, migrao) a idade  a que mais discrimina. Realizam jornadas de trabalho (40 a 43 horas semanais) e desempenham funes que no diferem muito das dos adultos trabalhadores, porm com formas de contratao que no incluem a carteira de trabalho assinada e obtendo menores remuneraes.
Cabe ressaltar o impacto do trabalho infanto-juvenil sobre a aprendizagem das crianas e jovens trabalhadores: o absentesmo, a reduo, pelo cansao, da capacidade de concentrao, e, ao submeter a sade da criana a riscos e abusos, a baixos ndices de freqncia escolar e  repetncia, cujos ndices entre crianas e jovens trabalhadores urbanos oscila de 60% a 70%. Especialmente se o desempenho escolar for marcado pelo insucesso, essa situao pode traduzir-se em desalento e evaso, marcando a relao entre escola, trabalho, evaso escolar e escolaridade obtida.
Faz parte das estratgias de combate ao trabalho infantil a preocupao com a incluso e permanncia das crianas e jovens em escolas de boa qualidade, que os acolham, garantindo, assim, seu direito  educao e  infncia. Esse  um aspecto que diz respeito diretamente  participao da escola.
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O TEMA NO ENSINO FUNDAMENTAL
A problematizao e incorporao do tema Trabalho perpassa os currculos principalmente de Histria e Geografia18, apresentando tratamentos diferenciados.  associado aos processos de produo econmica nas reas rurais e urbanas, ou ento, ao estudo das diferentes profisses existentes, a partir da verificao do trabalho dos pais de aluno, do trabalho no contexto escolar, das diferenas entre trabalho rural e urbano.
Cultura, trabalho e poder marcaram uma orientao terica frutfera para explicar os processos de formao, organizao, valorizao e transformao do espao e de formaes territoriais concretas, assim como das relaes sociais que se estabelecem ou se estabeleceram entre grupos humanos, mostrando a existncia das vrias determinaes que orientam ou orientaram as formas de produo econmica e de consumo existentes.
Nas propostas curriculares de Cincias Naturais, as questes do trabalho e do
17 O trabalho das meninas  geralmente subestimado, pois nas pesquisas no so contempladas as atividades domsticas que no so remuneradas mas viabilizam a insero no mercado de trabalho de outros membros da famlia.
18 FUNDAO CARLOS CHAGAS/MEC/UNESCO, 1995.
consumo aparecem associadas ao desenvolvimento das tcnicas de produo, destacando-se principalmente o grande avano tecnolgico dos tempos modernos e sua repercusso sobre a sociedade. Em algumas, o trabalho  discutido em funo da problemtica ambiental.
Propostas curriculares de alguns estados comeam a incorporar educao em direitos do consumidor, principalmente em Geografia e Cincias Naturais. Em relao ao tema, existem, no Brasil, experincias em educao informal e formal em direitos do consumidor, algumas pontuais, outras mais abrangentes, mas que cobrem todo o territrio nacional. Conta-se com uma tradio em educao informal e formal por parte dos Procons19 e de outras organizaes governamentais e no-governamentais de defesa dos consumidores, com abundante produo de materiais, abordando desde os problemas mais gerais do consumidor at outros pontualmente direcionados para a resoluo de tipos determinados de problemas, com mltiplos formatos e com a utilizao de diversos suportes: vdeos, cartazes, cartilhas, boletins informativos.
Essas experincias mostram como a educao do consumidor torna-se importante para a construo da cidadania, atuando na conquista ou manuteno de nveis adequados de bens e servios, contribuindo para a eqidade social, na medida em que prepara e estimula a defesa do direito  sade,  moradia,  previdncia social,  qualidade ambiental e de todos aqueles servios que se integram aos direitos sociais e para cujo cumprimento  essencial o esforo pblico e privado da sociedade. Tem o propsito, portanto, de analisar criticamente os problemas que afetam os consumidores e que so gerados por elementos estruturais ou conjunturais do sistema, assim como promover a adoo, mediante a
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informao adequada e conhecimento dos procedimentos, de uma postura responsvel e solidria.

Ensinar e aprender trabalho e consumo
Como a escola pode contribuir para a superao da reproduo da pobreza, como pode acolher o jovem trabalhador ou aquele que se prepara para ingressar no mercado de trabalho, o jovem que enfrenta no cotidiano os dilemas da excluso de acesso aos bens e servios essenciais ou est determinado aos apelos ao consumo?
Os dilemas do trabalho e do consumo so objeto de um intenso debate. Esse debate, que congrega e mobiliza setores governamentais e no-governamentais, igrejas, sindicatos, associaes civis, traduz a necessidade e a urgncia de uma busca conjunta de solues por parte do Estado, da sociedade civil e de todos os cidados, que estimulem a distribuio de renda, polticas de habitao, sade, alimentao e educao.
No que cabe  escola, a partir da definio de seu projeto pedaggico, das capacidades a serem desenvolvidas, dos dilogos que manter com as famlias e a comunidade, poder promover a aprendizagem de uma srie de contedos conceituals, favorecendo o reconhecimento e a compreenso da historicidade desses dilemas, a relao que existe entre questes vividas como individuais ou privadas com questes sociais mais amplas; de uma srie do contedos procedimentais, possibilitando que os alunos, em sua vida quotidiana, exeram seus direitos e responsabilidades, resolvendo os problemas que lhes so colocados, individual e coletivamente; e de contedos atitudinais, identificando, criticando e repudiando as atitudes de discriminao e de injustia que favorecem a reproduo da pobreza e da desigualdade, desenvolvendo prticas que permitam o desenvolvimento de atitudes de respeito, de solidariedade e cooperao.
Essas trs dimenses favorecem a constituio de sujeitos politicamente ativos, fundamentais em uma democracia, capazes tanto de resolver os problemas encontrados 
19 Procon: rgo pblico de defesa do consumidor, ligado ao Ministrio da Justia e presente em todos os estados.
no cotidiano como influenciar nas condies mais gerais da vida social.
Os alunos e os professores encontram-se na sala de aula trazendo consigo vivncias diretas ou indiretas  como testemunhas ou protagonistas  de situaes que envolvem trabalho e consumo, entre o trabalho e sua remunerao, entre essa remunerao e a possibilidade de acesso a produtos e bens disponveis no mercado. J viveram situaes, pessoais ou familiares de satisfao e prazer ou de insatisfao e desprazer com o emprego, de procura de emprego ou desemprego, ou ouviram falar dessas situaes. Certamente os alunos ouviram seus pais falarem que "dinheiro no d em rvores...", trazendo, dessa forma, vivncias de situaes de consumo de bens e de servios, de prazer e de desprazer, de encantamento e de raiva, de satisfao e insatisfao. Todos tm, tambm, opinies sobre as leis, sobre as instncias encarregadas de sua aplicao  muitas vezes cercadas de
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descrena e desconfiana  ou j viveram situaes de desnimo ou desalento na hora de reclamar por seus direitos.
A compreenso desses acontecimentos, com suas relaes e interdependncias depende do desenvolvimento de capacidades, o que pressupe tanto o nvel cognitivo em que se encontram as crianas e os jovens como as representaes sociais que o ambiente lhes apresenta, construdas por meio da famlia, das relaes comunitrias, da escola, da mdia. Essas representaes incluem explicaes sobre os fatos, formas de proceder e valores, compondo o material utilizado para elaborar as idias sobre muitos aspectos do mundo econmico.
Existe, portanto, um conhecimento formado a partir da elaborao de uma srie de situaes vividas, proveniente de vrias fontes, que informa e que serve de base para o desenvolvimento de noes, atitudes e valores. Esses conhecimentos iniciais, extra-escolares e apreendidos de modo informal so muito persistentes, podendo permanecer isolados uns dos outros, fragmentados, at a vida adulta, sem constiturem modelos explicativos abrangentes que possibilitem a compreenso articulada das causas e conseqncias e/ou o desvelamento da teia de relaes sociais e polticas que lhes so subjacentes.
O valor do trabalho na sociedade, a relao entre trabalho e remunerao, compra-venda de produtos, a diversidade de trabalhos e remuneraes, a distribuio dessas ocupaes na sociedade, riqueza e pobreza, o papel das leis e das instncias governamentais encarregadas de seu cumprimento e defesa, a compreenso de que para ter dinheiro  preciso trabalhar e para trabalhar no  suficiente o desejo individual, so questes que s so compreendidas gradualmente ao longo da infncia e da adolescncia.
De modo geral, por meio de vivncias pessoais e da escolaridade nos primeiros ciclos, o aluno j traz um conhecimento sobre a relao entre produo e comercializao, entre trabalho e remunerao, sobre o sistema de compra-venda e trocas monetrias, conseguindo recompor determinadas cadeias produtivas e visualizando a relao entre estas fazendo aproximaes ao conceito de sistema produtivo. Relacionando as diversas atividades  da extrao da matria-prima ao consumo , as variaes de configurao econmica em sua dimenso histrica, cultural e social, trabalhadas pelas diversas reas e temas transversais, comea a compreender as relaes que os diversos grupos sociais estabelecem entre si.
Portanto, a abordagem didtica deve considerar os conhecimentos, procedimentos e valores dos educadores e alunos, de forma a favorecer a capacidade de pensar compreensivamente sobre eles, criando espaos de trabalho pedaggico na sala de aula, na escola, interagindo com organizaes preocupadas com a temtica existentes na localidade, fomentando a troca de pontos de vista sobre experincias que devem ser problematizadas explicitamente.
No se pode deixar de assinalar a importncia das metodologias de trabalho no desenvolvimento de atitudes e na aprendizagem de procedimentos importantes para a atuao dos cidados cambem no mbito do trabalho e do consumo. Trabalhar de modo
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cooperativo, organizar-se em grupo (associar-se) em funo de objetivos comuns, elaborar e desenvolver projetos, gerenciar o tempo e o espao, estabelecer relaes de respeito mtuo e autonomia no trabalho e com as figuras de autoridade, posicionar-se, argumentar, afirmar seu ponto de vista e compreender o de outros, reivindicar o que considera justo para si e para os demais, propor mudanas, so aprendizagens fundamentais ao cidado trabalhador/consumidor, urna vez que se referem a capacidades e contedos importantes para atuar de modo autnomo nas relaes sociais e polticas. Tais aprendizagens podem se desenvolver em contextos didticos passveis de serem intencionalmente planejados em todas as reas de conhecimento e so to importantes quanto as relativas a contedos de natureza conceitual, isto , aquelas que tematizam explicitamente as questes ligadas ao mundo do trabalho e do consumo (histrico, direitos, situao atual etc.).

Os jovens, a escola e a insero no trabalho20
Vrias vises e expectativas se entrecruzam no espao escolar c a opinio dos jovens, sobre as angstias e incertezas da atual conformao das relaes de trabalho e consumo, o aumento de formas de marginalismo profissional, o desemprego, a precarizao nas relaes de trabalho, as novas valorizaes de padres tanto de trabalho quanto de consumo, deve ser ouvida com ateno.
Verifica-se que um numero significativo da populao estudantil de terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental acaba desistindo da escola, desestimulada por seu desempenho, pelo desencanto em relao s oportunidades oferecidas pela escolarizao, pelo ingresso precoce no mundo do trabalho. Ao mesmo tempo, constata-se que nmeros significativos de jovens e de adultos trabalhadores retornam  escola objetivando finalizar etapas de sua escolarizao, apontando para a importncia da educao escolar na superao das condies  muitas vezes precrias  das famlias, revelando a expectativa de que a escola possa atuar como um fator importante na interrupo da reproduo intergeracional da pobreza. Freqentar a escola aparece, para muitos jovens, como uma oportunidade de ampliar suas possibilidades de insero no mundo do trabalho e de melhoria das condies de emprego, salrio e consumo. Para muitos, a entrada no mercado de trabalho garante a oportunidade de acesso a determinados bens de consumo e a prpria permanncia ou prosseguimento da educao escolar.
Historicamente, a idia de que as pessoas escolhem suas profisses e de que suas vidas dependem disso surgiu com o modo de produo capitalista. Com esse sistema, a produo de bens para o mercado (mercadorias) passou a ser o objetivo principal da atividade econmica e, os trabalhadores, livres da servido feudal que  caracterizava o perodo anterior, passaram a ser contratados e assalariados por empresas em funo da necessidade de mo-de-obra para os diferentes postos de trabalho.
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Criou-se ento o aque se se convencionou chamar de mercado de trabalho": por um lado o conjunto de empregos disponveis, requerendo qualificaes diferenciadas e atribuindo valores diferentes para os trabalhos; e, por outro, o conjunto de trabalhadores aos quais cabe, individualmente, a responsabilidade pela maior ou menor capacidade de ocupar os diferentes postos de trabalho. A escolha de uma profisso ou ocupao 
20 Denomina-se "insero no trabalho" o que habitualmente se chama escolha de profisso. Acredita-se ser esta a expresso mais ampla que d conta dos mltiplos aspectos envolvidos na questo.
passou, ento, a ser considerada importante.
O liberalismo  a base terica desse sistema.  uma concepo que propugna a idia de que todos os indivduos so livres, que a lei garante a igualdade de oportunidades e que, se h liberdade de escolha, as pessoas precisam aprender a escolher, se conhecer no que diz respeito a caractersticas pessoais, aptides ou habilidades inatas. As pessoas seriam diferentes entre si, porque nasceriam com aptides e habilidades igualmente diferentes, e isso deveria nortear seu posicionamento na sociedade (e no mais o pertencimento a uma determinada categoria ocupacional e descendncia familiar como na Idade Mdia). A sociedade entender-se-ia como uma pirmide com vrios extratos sociais na qual o posicionamento da pessoa dependeria, dentre vrios aspectos, tambm da adequada escolha profissional e, de seu esforo, dependeria a ascenso social.
Foi com base nessas idias que surgiu, no campo da Psicologia e da Educao, a Orientao Profissional (OP): a partir de perfis profissionais preestabelecidos, objetivava-se, por meio de testes vocacionais, indicar uma harmonia, a mais perfeita possvel, entre os cargos e funes existentes e a pessoa que vivia o dilema da escolha profissional. A idia de aptido ou habilidade inata viveu ento o seu apogeu.
De modo geral, a escola trabalha de forma implcita  e muitas vezes explcita  com a idia de vocao inata. Costuma-se falar em "desenvolvimento das potencialidades" dos alunos, o que evidencia a idia de que as pessoas j trariam em si atributos de nascena e que a educao deveria proporcionar sua "descoberta" e desenvolvimento posterior. O indivduo que "se d bem na vida"  aquele que localiza claramente sua "vocao" e se esfora para desenvolv-la e torn-la uma habilidade a ser oferecida no mercado. Os atributos da personalidade, tambm inatos, diferenciariam igualmente as pessoas. Alguns nasceriam com traos de liderana, outros com aptido para um trabalho manual especfico, outros ainda com atributos artsticos etc.
Na dcada de 80, no Brasil, a concepo liberal de escola sofreu crticas profundas e a idia de escolha da ocupao e/ou profisso foi colocada em xeque. Ao difundir a idia de que todos podem escolher livremente suas profisses, mascaram-se as determinaes, contradies e mazelas da sociedade organizada segundo as regras do capitalismo, fundado sobre a desigualdade social e a explorao.
Naquele momento passa ento a predominar a idia de que no existe liberdade de escolha  as pessoas no escolhem suas profisses/ocupaes, mas so determinadas pela estrutura social. O conceito biolgico de vocao  denunciado como um conceito ideolgico, com a funo de dissimular a realidade injusta e opressora. As pequenas e tmidas aes na
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rea de Orientao Profissional desaparecem dos currculos e a discusso a respeito do trabalho e de escolha profissional perdem espao na escola.
A existncia de um "dilema da escolha profissional" seria uma idia de classe: para a maioria das pessoas de classes mais desfavorecidas, na maioria das vezes, esse dilema no se apresenta. A premncia da sobrevivncia no costuma permitir muitas escolhas. O mais comum  que o jovem aceite a primeira oportunidade de trabalho remunerado e que, da em diante, v mudando de emprego em funo de melhores condies de salrio, transporte, benefcios indiretos. Nesse percurso, as preferncias pessoais podem ocupar um pequeno lugar.
Entre as dcadas de 80 e 90, novas propostas surgem na rea. Reconhecendo a importncia da crtica realizada no momento anterior, buscou-se uma viso mais dialtica. O indivduo detm, sim, algum grau de autonomia no interior da estrutura social. Essa  uma determinao importante, porm nunca estvel, fixa, impossvel de modificar. Procura-se, ento, pensar sobre a questo dentro da tenso sempre existente entre a liberdade pessoal e a determinao social.
Como ento se compreende a forma como o indivduo se insere na ocupao/profisso/trabalho? Como j foi apontado, o conceito de insero  mais amplo que o de escolha, porque d conta das determinaes  sociais, histricas, polticas, econmicas, culturais e psicolgicas  do fenmeno de incluso do indivduo na populao economicamente ativa.
Ao pensar sobre uma forma de se envolver no mundo do trabalho, bem como na atividade que vai desenvolver, a pessoa nunca o faz de forma abstrata. Ao contrrio, personifica e personaliza as ocupaes/profisses, mobilizando imagens que adquiriu durante sua vida. Assim, ao apontar uma dada opo como possibilidade, est pensando que gostaria de ser igual a uma pessoa que conhece (pessoalmente ou no) ou que imagina, que tem qualidades especficas e que supostamente as tem em funo da profisso que abraa. Nesse desejo, alm da ocupao/profisso concreta, est a imagem do profissional, seu modo de vida, suas possibilidades de consumo, seu status na sociedade.
No processo de insero no trabalho/ocupao ou profisso, o interessado mobiliza uma imagem que foi construda a partir de sua vivncia, por meio de contatos pessoais, de exposio  mdia, de leituras (de biografias, romances, revistas etc.), de ouvir dizer (transposio de experincias de outros). Assim, quando uma pessoa diz que pretende ser tal profissional ou exercer esta ou aquela ocupao, ela no est pensando em algo genrico e abstrato. H um modelo que d contornos a essa pretenso. Essa imagem pressupe que a pessoa que exerce tal profisso, vive de certo modo, cerca-se de determinados objetos de consumo, possui determinadas possibilidades.
Assim, por exemplo, o aluno no diferencia a figura do professor da matria que ele ensina. Gostar ou no de matemtica e gostar ou no do professor que a ensina no se diferenciam muito. Dessa forma, o aluno constri, a partir do contato com o professor, uma
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concepo do que seria um profissional que utiliza a matemtica em seu trabalho (estilo de vida; possibilidade de acesso ao consumo; caractersticas pessoais). Claro est que a imagem construda pelo aluno no depende unicamente da relao com seu professor: os meios de comunicao, a famlia e outros contatos tambm interferem nesse processo. Porm, nas comunidades com menos recursos, a figura do professor tem maior importncia do que nas mais privilegiadas, em que a estimulao cultural e o acesso a outras experincias e convivncias tornam a construo das imagens dos profissionais um pouco mais independente da situao escolar.
Constri-se uma auto-imagem, se desenvolvem determinadas capacidades, se aprendem determinados conhecimentos, se constitui uma singularidade que aproxima cada um deste ou daquele campo de trabalho, que permite uma identificao maior ou menor com este ou aquele profissional. Essa identificao se constri, portanto, num campo de possibilidades formado pelas relaes sociais e pelas situaes concretas de vida.
A atuao da escola e do professor  bastante importante na construo e desconstruo desses modelos e na possibilidade de superao da abordagem que supe uma escolha derivada de habilidades inatas e individuais. Com isso no se pretende que os professores desenvolvam um trabalho de orientao profissional. Entretanto, eles tm um importante papel ao possibilitar que seus alunos ampliem e superem as primeiras imagens e modelos de possibilidades pessoais de insero no trabalho. Pois a idia de aptido inata continua funcionando como princpio de identidade, de avaliao pessoal, de auto-estima quando no se desvela a necessidade de investimento pessoal e escolha para ser "bom" nessa ou aquela atividade. A atuao do professor interfere de maneira significativa na construo da auto-imagem e especialmente na possibilidade de vencer esteretipos preconceituosos em relao  condio social, sexo, etnia.
Uma forma de amar e de trabalhar para a ampliao do campo de possibilidades de escolha profissional dos alunos , em todas e quaisquer atividades realizadas, observar o trabalho e seus agentes, a importncia do trabalho na produo dos bens e servios envolvidos, o trabalho existente em cada objeto consumido, assim como analisar seu contexto, criticando explicaes individualistas ou fatalistas para as diferentes posies sociais dos indivduos.
Dependendo do ciclo e da experincia dos alunos, a anlise pode ser aprofundada, considerando o processo de produo do bem ou servio, a qualificao necessria para o desempenho de uma funo naquele processo, o salrio auferido pelo trabalhador, os direitos que usufrui. O estudo das relaes de trabalho (mercado formal/informal) e suas condies, o impacto de novas tecnologias mudando as qualificaes necessrias e o desemprego, a explorao do trabalho infantil, a luta pela manuteno e o desenvolvimento de novas leis regulando as relaes de trabalho  que incluam os trabalhadores da economia informal  so temas que podem ser analisados com os alunos.
Uma outra forma  incentiv-los a pensar, descobrir ou criar novas possibilidades de
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realizar os trabalhos conhecidos e discutir as novas formas propostas de sua organizao, das cooperativas de produo e consumo, cooperativas de economia solidaria que tentam superar o isolamenro das pequenas empresas21, criando espaos de experimentao organizacional, assim como as alternativas existentes na realidade local, pelo contato com sindicatos, prefeitura, organizaes governamentais e no-governamentais.
A anlise da insero das pessoas no trabalho deve propiciar que os alunos percebam suas identificaes, singularidades s determinaes existentes, questionando-as, ampliando e transformando sua conscincia, seus valores e atitudes e adquirindo melhores condies de organizar seus projetos de vida. Garantindo a aprendizagem do contedo das reas, por meio de uma metodologia e escolhas didticas que permitam a reflexo, participao, confrontao de idias, a escola pode ter um importante pape! para o conhecimento da realidade e construo de uma auto-imagem positiva por parte dos alunos. Pode, assim, aluar para que os alunos construam uma imagem de si prprios como cidados com direitos, entre os quais se incluem os direitos vinculados ao trabalho e ao consumo, para agir de forma solidria e responsvel, percebendo-se sujeitos nessa sociedade e sujeitos, portanto, nas relaes de trabalho e consumo.
Prope-se que os educadores discutam sobre a relevncia do tema, fazendo as adequaes que julgarem pertinentes, pois, se no existe um consenso sobre as conseqncias das transformaes e os rumos do trabalho e do consumo, deve-se ainda   
marcar a enorme diversidade de experincias e relaes de trabalho e consumo que convivem na atualidade. Cada regio, cada localidade, cada cidade apresenta uma multiplicidade de possibilidades de estudo destas relaes a ser contemplada pelos professores. Porm, chama-se a ateno para o fato de que essa multiplicidade e diversidade existentes na atualidade no se esgota  ou se encerra  em si mesma: do local ao regional, do regional ao nacional, do nacional ao mundial, as relaes de trabalho e de consumo confluam e interagem entre si. Os eixos histricos e geogrficos permitem que se contemple a dimenso fundamental para a compreenso da temtica trabalho-consumo: a da transformao.

21 As pequenas empresas so um conjunto de formas organizacionais (microempresas, operao individual autnoma, empresa familiar, cooperativa de produo, empresa comunitria etc.) caracterizadas por contarem com pouco capital inicial e financiamento.
Transversalidade
	Nos Parmetros Curriculares Nacionais os contedos do tema transversal Trabalho e Consumo encontram-se transversalizados nas diferentes reas, chamando-se a ateno para o fato de que algumas conformam parcerias privilegiadas com o tema. Sero apresentados, a ttulo de ilustrao, alguns exemplos da transversalidade do tema nos Parmetros Curriculares Nacionais.
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Em Histria, por exemplo, encontram-se contedos que tratam da histria das relaes sociais, da cultura e do trabalho. A perspectiva ser a forma como as sociedades moldaram, em diferentes pocas, suas relaes sociais de trabalho, percebendo a diversidade de atividades e profisses que convivem em uma mesma sociedade e em diferentes tempos, como ocorreu a diviso do trabalho na sociedade, a diviso de tarefas no espao domstico, a relao entre sexo, idade, etnia e formao escolar na remunerao do trabalho. Os contedos que tratam da cidadania e a cultura no mundo capitalista, analisam as relaes de trabalho na sociedade ps-fabril, as polticas econmicas e sociais, a mundializao da economia capitalista, as relaes econmicas internacionais, as migraes, o desemprego e a crise do trabalho assalariado, a industrializao do campo, a sociedade de consumo, as polticas governamentais e os direitos sociais. A abordagem histrica contribui de forma essencial para o desvelamento da ausncia de naturalidade das relaes de trabalho e consumo, mostrando como estas se constrem a partir de mltiplas determinaes, colocando-se como questes que mobilizam diferentes atores sociais.
Em Cincias Naturais, a perspectiva ser a da apropriao e transformao dos componentes da natureza em produtos necessrios  vida humana. So os aparelhos, as mquinas, os instrumentos, os materiais e os processos que possibilitam essa transformao pelo ser humano, entendendo-se a cincia e a tecnologia como frutos do empreendimento social, em um mundo real, concreto e historicamente determinado. Ao discutir a tecnologia, sociedade e ambiente, a transversalidade se d no estudo da produo de bens e servios, como eles se modificam no tempo histrico, como se criam constantemente novas necessidades e seu impacto sobre o meio ambiente. Nos contedos que tratam de sade, transversalizam-se questes ligadas a alimentao e  medicao,  segurana e aos cuidados no consumo de alimentos e remdios.
Em Geografia, discute-se o trabalho como presena histrica do pensar e fazer humanos e como o trabalho aparece concretamente nas relaes sociais, tornando compreensveis as questes polticas e econmicas que criam desigualdades entre os homens. Prope-se pensar sobre o trabalho trazendo solues para os problemas de sobrevivncia, criando produtos e servios necessrios  vida humana e tambm discutir a sociedade de consumo com sua face perversa e devoradora dos recursos naturais, assim como as desigualdades de acesso ao consumo de bens e servios. O tema Trabalho e Consumo est presente principalmente no tratamento das relaes entre o mundo rural e o urbano. Discute-se a diversidade das formas de expresso e relaes de trabalho, os direitos, a explorao do trabalho infanto-juvenil, sendo que trabalho e consumo aparece de forma ampla nos contedos que tratam das tecnologias e modernizao. Quando trata da conquista da cidadania, os aspectos ligados aos direitos dos trabalhadores e dos consumidores tambm podem ser estudados por meio da Geografia, analisando como e porque o mercado se organiza, a desigualdade que produz, a diversidade e desigualdade no consumo dos produtos e servios c seu impacto sobre a sade e o meio ambiente, assim como o papel da mdia e da propaganda.
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Em Matemtica, a primeira aproximao est em reconhecer que o conhecimento matemtico  fruto do trabalho humano e surge como resposta a necessidades e problemas com os quais os homens se deparam. Os contedos matemticos fornecem o instrumental necessrio para a compreenso dos dados e informaes colhidos cm atividades sobre a situao de trabalho e emprego, salrios, estudos comparativos de preos de produtos, verificao de vantagens e desvantagens das compras a crdito etc. Este  tambm o caso de Lngua Portuguesa, que, ao fornecer o instrumental para a compreenso das informaes colhidas em atividades ligadas ao tema, pelo estudo das caractersticas particulares dos textos de propaganda, da sntese informativa dos rtulos das embalagens, da complexidade da linguagem jurdica em contratos e leis, das dificuldades de leitura de manuais etc., tambm encontra nesses textos possibilidades de trabalho significativo com conceitos e procedimentos de Lngua Portuguesa. E esta tambm a situao de transversalidade do tema com Lngua Estrangeira, que pode trabalhar com textos, por exemplo, de publicidade, comparando com textos produzidos em Lngua Portuguesa.
O suporte de Arte para o tratamento do tema  essencial, tanto pela anlise de diferentes produes artsticas que o tratam e retraiam como utilizando diferentes linguagens para que os alunos possam expressar suas idias. Em Educao Fsica, o tema Trabalho e Consumo aparece contemplado desde seus objetivos: uma das capacidades a ser desenvolvida pelos alunos  o reconhecimento de condies de trabalho que comprometam os processos de crescimento e desenvolvimento, no as aceitando para si nem para os outros e reivindicando condies de vida dignas; outra capacidade trata sobre o conhecimento da diversidade de padres de sade, beleza e esttica corporal que existem nos diferentes grupos sociais, analisando criticamente os padres divulgados pela mdia, evitando o consumismo e o preconceito.
Trabalho e Consumo dialoga estreitamente com os outros temas transversais. Destaca-se a relao existente entre os contedos do tema Trabalho e Consumo com Meio Ambiente e Sade. Esses temas se entrelaam em diversos momentos mostrando a convergncia entre os vrios debates tratados nos diferentes temas transversais. Os contedos e objetivos de tica norteiam este tema, atravs da discusso sobre responsabilidade, solidariedade, justia. Orientao Sexual aprofunda a discusso sobre gnero, que aparecem neste documento sob a perspectiva da situao da mulher no mercado de trabalho e na diviso do trabalho domstico. Pluralidade Cultural brinda o suporte para a discusso sobre diversidade e desigualdade. Alm disso, apresenta contedos que retomam, na perspectiva da pluralidade, questes aqui tratadas, como ao trabalhar com a organizao familiar e a partilha das responsabilidades. Trata-se de uma abordagem sobre o trabalho domstico, problematizando sua tradicional diviso de gnero e enfatizando a igualdade de direitos e deveres de homens e mulheres. Neste mesmo bloco, ao discutir a vida comunitria, discute os dilemas do trabalho. O mesmo pode ser dito dos contedos que retomam caractersticas culturais, de organizao poltica e insero econmica de diferentes grupos humanos presentes na formao do Brasil e os contedos que tratam de direitos humanos e cidadania.
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O trabalho didtico com os contedos propostos deve incluir a investigao, a tentativa e o erro, a comprovao e a discusso, a explicitao e anlise de valores envolvidos nas concepes e nas prticas, de forma que o aluno forme sua opinio e retire suas concluses das experincias vividas dento e fora da sala de aula.  possvel trabalhar com projetos, estimulando o trabalho em grupo e as atividades individuais, utilizando relatos de experincias pessoais ou familiares em relao a situaes de compra de bens ou usufruto de servios pblicos ou privados e de situaes de trabalho concretas, verificando atitudes e procedimentos que foram seguidos e possibilidades alternativas de resoluo. Qualquer material  passvel de ser usado como um recurso didatico: embalagens, propagandas, programas de rdio ou TV, msicas, textos literrios e outras produo artsticas.  de fundamental importncia que a escola procure apoios nas organizaes governamentais e no-governamentais que trabalham com o tema existentes na localidade, na regio.
Projetos elaborados a partir do tema ou de alguma rea podem esclarecer o ir e vir do trabalho ao consumo e do consumo ao trabalho, utilizando a estratgia de "seguir a pista" de um produto, recuperando o trabalho contido em seu itinerrio. "Seguir a pista" supe verificar como o produto chegou ao ponto de venda, o caminho percorrido desde o lugar da produo at o de intermediao ou venda, quais foram as estratgias de venda e de propaganda que o divulgaram.  possvel estudar a regio ou pas onde foi produzido, as condies de produo e de trabalho, a presena ou no de direitos sociais, do trabalho infantil, trabalho feminino, diviso do trabalho c situao social e poltica do pas.  possvel discutir a energia utilizada na produo, os processos qumicos e fsicos da transformao, as tecnologias utilizadas, a forma de conservao do produto, sua composio, seus benefcios e usos, respeito aos direitos dos consumidores.
Como os direitos dos consumidores tratam tanto do consumo de produtos quanto de servios,  possvel desenvolver atividades a partir da escolha de algum servio relevante na localidade: saber se pertence  gesto pblica  federal, estadual ou municipal  ou privada, quais so os servios prestados, como se organiza para prestar esse servio adequadamente, quem nele trabalha, quais so seus direitos trabalhistas, se esto sendo respeitados os direitos dos consumidores. A partir dessas constataes,  possvel comparar entre diversos servios, verificando sua concentrao ou insuficincia nas diferentes localidades, assim como discutir quais so os servios vitais aos quais todos devem ter direito de acesso e como garantir que este direito se efetive.
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OBJETIVOS GERAIS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL
Os objetivos foram elencados na perspectiva de que os alunos possam compreender a importncia do trabalho na construo da riqueza do pas e que as relaes de trabalho e de consumo inserem-se em um sistema que apresenta grande diversidade e complexidade, construir uma imagem de si prprios  e dos demais como cidados com direitos entre os quais se incluem os direitos vinculados ao trabalho e ao consumo, que sejam capazes de agir de forma solidria e responsvel, percebendo-se sujeitos na sociedade e sujeitos, portanto, nas relaes de trabalho e consumo.
Levando-se em considerao o exposto anteriormente em relao ao papel social da escola e aos compromissos e possibilidades em relao  formao de seus alunos, as questes nucleares do tema e aos objetivos gerais da presente etapa de escolaridade definiram-se capacidades a serem desenvolvidas pelos alunos:

 atuar com discernimento e solidariedade nas situaes de consumo e de trabalho sabendo de seus direitos e responsabilidades, identificando problemas e debatendo coletivamente possveis solues;
 identificar a diversidade relaes de trabalho existentes, suas transformaes e permanncias no decorrer do tempo histrico, seu vnculo com a realidade local, regional, nacional e mundial;
 verificar como os lugares e as paisagens foram e continuam sendo criados e transformados, analisando a interveno do trabalho e do consumo humanos na produo da vida material, social e cultural;
 identificar e comparar diferentes instrumentos e processos tecnolgicos analisando seu impacto no trabalho e no consumo e Sua relao com a qualidade de vida, ao meio ambiente e  sade;
 reconhecer a existncia e a ocorrncia de discriminaes e injustias em situaes de trabalho e consumo adotando uma postura de repdio contra todo tipo de discriminao de classe, origem, gnero, etnia e idade;
 saber que os direitos civis, polticos e sociais so conquistados por meio de conflitos e acordos que podem redundar em maior justia na distribuio de renda, valorizando a atuao dos partidos polticos, sindicatos, associaes profissionais e
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associaes civis e rgos governamentais fundamentais para a democracia;
 posicionar-se de maneira crtica em relao ao consumismo, s mensagens da publicidade e estratgias de vendas, compreendendo seu papel na produo de novas necessidades, assim como ser capaz de resolver situaes-problema colocadas pelo mercado, tais como o uso das diversas formas do dinheiro, as vantagens e desvantagens do sistema de crdito, a organizao de oramentos;
 reconhecer como ocorrem os processos de insero no trabalho/profisso/ocupao na atualidade, identificando os problemas e possveis solues e repudiando codas as formas de discriminao e desvalorizao de tipos de trabalho e trabalhadores.
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TRABALHO E CONSUMO
2 PARTE
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CONTEDOS DE TRABALHO E CONSUMO PARA
TERCEIRO E QUARTO CICLOS
 importante que a escola, em seu projeto educativo, discuta a realidade local onde se insere, o perfil dos alunos que recebe, as experincias dos professores e professoras que nela trabalham, e procure apoios para o desenvolvimento de seu trabalho na comunidade, localizando as associaes, sindicatos, organizaes governamentais e no-governamentais de proteo aos direitos dos trabalhadores e consumidores, trocando informaes e desenvolvendo projetos conjuntos. Destaca-se a necessidade de que os professores selecionem, criem, reorganizem os contedos de acordo com seus planos de trabalho e da discusso das experincias vividas e das expectativas em torno do tema.

Critrios de seleo
Os contedos foram selecionados com o intuito de contemplar questes relevantes e atuais do trabalho e do consumo, assim como atender  temtica proposta pelas organizaes dos trabalhadores e de defesa e educao dos consumidores.
Eles atendem s dimenses conceitual, procedimental e atitudinal de modo interligado, ressaltando que o desenvolvimento de valores e posturas ticas, assim como o domnio de procedimentos,  de fundamental importncia para o exerccio consciente dos direitos e responsabilidades ligados  cidadania, no trabalho e no consumo. Junto ao conhecimento conceitual, destaca-se, portanto, a importncia do ensino de procedimentos  por exemplo, os cuidados na hora de comprar um produto, assinar um contrato, a quem recorrer em caso de conflito a partir da identificao das organizaes que atuam na defesa do consumidor e do trabalhador  e o trabalho com valores e atitudes  por exemplo, contra a discriminao, a desvalorizao de determinados trabalhos, contra a "vergonha" de reclamar seus direitos etc.
Os contedos aqui apresentados foram selecionados de acordo com os seguintes critrios:

 possibilitar o debate e o reconhecimento da diversidade de opinies assim como a importncia da busca conjunta de solues;
 permitir identificar os problemas existentes na localidade para que os alunos possam posicionar-se de forma positiva, responsvel, solidria e criativa, transformando atitudes e valores relacionados ao trabalho e ao consumo, dentro da escola e no meio social mais amplo;
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 favorecer a compreenso das relaes trabalho-consumo, suas transformaes ao longo da histria, sua no "naturalidade" e a possibilidade de interveno nessas relaes;
 favorecer um espao para a reflexo sobre os projetos de vida, entre os quais se inclui o projeto profissional.

Blocos de contedo
A partir desses critrios e dos objetivos j explicitados, foram eleitos os seguintes blocos de contedos: Relaes de trabalho; Trabalho, consumo, sade e meio ambiente; Consumo, meios de comunicao de massas, publicidade e vendas; Direitos Humanos, cidadania, trabalho e consumo.
Estes contedos se entrelaam, se aplicam e remetem mutuamente, no devendo ser vistos como sequenciais nem esgotando a gama de possibilidades existentes no tema. Outros contedos, relevantes na realidade local podem e devem ser contemplados. Tratou-se de contemplar, nos aqui apresentados, duas dimenses: a histrica, dada pela verificao de transformaes e permanncias no tempo e a geogrfica, que busca explicitar as relaes entre a realidade local, regional, nacional e mundial.

RELAES DE TRABALHO
O propsito didtico deste bloco  possibilitar a compreenso das relaes de trabalho existentes na atualidade, subsidiando a reflexo sobre os projetos de vida dos alunos nos quais se inclui a dimenso profissional. Assim, compreender, conhecer, no deve ser dissociado de saber como proceder, como procurar uma informao, como resolver os problemas cotidianos, nem dissociado da valorizao de atitudes solidrias e participativas.
Os contedos aqui explicitados esto presentes em Histria, Geografia e Cincias Naturais e relacionam-se intensamente com os demais temas transversais, em especial com Meio Ambiente, Sade e Pluralidade Cultural. Chama-se a ateno para o trabalho de Lngua Portuguesa e Matemtica, suportes essenciais para seu desenvolvimento, assim como para o seu tratamento em Arte e Educao Fsica.
Tal como trabalhado em Geografia, o territrio constitui o quadro da vida social, visto no apenas como um conjunto de formas naturais, mas como um conjunto integrado de sistemas naturais e construdos, em que esto presentes as pessoas, as instituies, a organizao jurdico-poltica, as heranas histricas e o atual contexto econmico, financeiro, fiscal e normativo. O territrio , dessa forma, uma unidade na qual, ao longo de sua histria,
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as naes e seus diversos grupos sociais conheceram tenses entre o interno e o externo, resultantes do comrcio, das relaes internacionais, das lutas de classe e das divises do trabalho. As relaes sociais mediadas pelo trabalho e pelo consumo, a presentes, precisam ser vistas em sua singularidade, mas tambm como pane do mundo, numa simultaneidade de escalas que combinam os nveis local, nacional e global, captando assim a dimenso espacial e temporal, sociocultural, econmica e poltica da realidade.
 importante que os alunos possam observar, registrar, representar, interpretar, questionar e propor novas formas de atuao em um contexto significativo, analisando sua realidade e estabelecendo relaes com outras, presentes ou passadas, verificando permanncias e transformaes. Que percebam, da forma a mais consistente possvel, sua realidade, o campo de possibilidades existente, as dificuldades, as contradies. Assim,  possvel a identificao de diferentes posies, a crtica a atitudes de discriminao e de injustia, o reconhecimento de caminhos possveis para enfrentar os problemas detectados.
Tanto a informao histrica sobre as relaes e as condies do trabalho no Brasil como as informaes sobre a situao atual podem ser procuradas em organizaes governamentais e no-governamentais que se dedicam ao tema. Nestas,  possvel encontrar abundante material sobre organizao do trabalho, emprego/desemprego etc.
Instituies diversas mantm registros e arquivos de momentos significativos da localidade e da regio, fornecendo, por exemplo, dados e imagens que podem ser utilizadas ao longo dos diferentes ciclos, estimulando os alunos a se expressarem utilizando desenhos, fotografias, recorte/colagem e montagem de imagens, teatro, msica. A literatura e a imprensa escrita ou televisiva, tambm so uma fonte importante de informaes, e, especialmente valiosa,  a contribuio de moradores mais idosos da localidade, atravs do relato de suas experincias.

 Conhecimento do carter histrico das diferentes formas de organizao do trabalho e de suas transformaes.

O conhecimento das relaes de trabalho e consumo que predominaram nas diferentes pocas  oportuno para compreender sua dimenso histrica e para situar as particularidades da localidade, podendo ser relacionadas e comparadas diferentes modalidades construdas pelas sociedades: o trabalho comunitrio, a servido, a escravido, o trabalho livre, o trabalho assalariado. Da mesma forma, a diviso do trabalho no espao domstico, no espao urbano, no espao rural, respondendo de diferentes formas ao regime de propriedade existente em cada poca, refletindo as tenses entre os grupos sociais pela distribuio da riqueza comum e poder.
A organizao do trabalho nas populaes indgenas coletoras e caadoras, o impacto causado pelo contato com os clon izadores, o assentamento destas populaes, a escravizao indgena, o papel das misses e dos religiosos, so importantes contedos a serem trabalhados com os alunos para que possam compreender a situao atual dos povos
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indgenas, suas formas de organizao, os conflitos e impasses na luta pela demarcao de suas terras e pela manuteno de sua cultura.
O trabalho escravo marcou profundamente nossa histria. Este tema pode ser abordado identificando-se os objetivos do trfico de escravos, os diferentes pases envolvidos, os enormes lucros que obtiveram e que foram utilizados nas respectivas revolues industriais. Ao estudar as condies de vida e trabalho que foram impostas aos trabalhadores escravos, verificar como se organizaram e resistiram, resgatando a influncia da populao africana na construo da riqueza material e cultural do Brasil. Nessa recuperao  de fundamental importncia a discusso sobre realidades onde ocorreu e como, no Brasil e em outros pases, ainda acontecem situaes de trabalho escravo, as formas atuais de escravido, assim como a identificao de organizaes nacionais e internacionais que lutam contra esta situao. A sobrevivncia do trabalho forado, trabalho escravo ou servil  intolervel, crime severamente punido por lei e, portanto, a atitude de repudio a essa prtica faz parte dos contedos a serem trabalhados.
O assalariamento, na verdade, sempre conviveu com inmeras outras relaes e situaes de trabalho: o trabalho domstico, o trabalho rural ou urbano desenvolvido a partir da casa e das relaes de parentesco em pequenas unidades de produo e de prestao de servios, o trabalho autnomo, o chamado trabalho "informal".
Em Histria e Geografia e articulando-se aos temas Pluralidade Cultural e Meio Ambiente,  importante marcar a diversidade de atividades e profisses que conviveram/convivem nas diferentes sociedades e que existiram em diferentes tempos, como foi resolvida a diviso do trabalho em cada momento com as formas de organizao, remunerao e direitos do trabalho relacionando-as  distribuio de poder e riqueza.
Recuperar a memria das transformaes vividas na localidade (por exemplo, entrevistando moradores mais idosos), as relaes de trabalho ento existentes, os tipos de trabalho  profisses, ofcios e servios  que j no existem mais e outros que permanecem, como se adaptaram e transformaram, permite ver como as novas e as tradicionais formas do trabalho coexistem, por momentos se entrecruzam, por momentos, entram cm conflito, assim como o que se expressa em sua valorizao social a cada momento.
Em Cincias Naturais,  possvel fazer um levantamento de profisses e ofcios que permanecem e sua importncia social e econmica, seu impacto na gerao de emprego, assim como os instrumentos e tcnicas utilizados, suas transformaes com a introduo de novas tecnologias. Ainda como sugesto, os alunos poderiam elaborar listas de profisses/trabalhos dos avs, pais, para identificar tipos de ocupao/profsso/trabalho, direitos vinculados, formas de organizao, cooperao e solidariedade existentes, verificando permanncias e mudanas.
O tema inclui, tambm, a questo dos movimentos migratrios, a identificao de suas causas, dos elementos que definem a opo por determinados centros para onde se dirigiram/dirigem, as condies de insero dos migrantes no mercado de trabalho e os
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problemas econmicos e sociais que enfrentam, suas conseqncias para as localidades de origem e para as de destino.
 importante ressaltar, nos movimentos migratrios, sua relao com a realidade econmica regional, nacional e global, como interdependentes e relacionados com a desigualdade de oportunidades e de participao no usufruto da riqueza produzida socialmente. Os movimentos migratrios relacionam-se com as questes do emprego/trabalho que, por sua vez, so determinadas pelo modelo econmico vigente. Merece destaque, tambm, a anlise da situao dos emigrantes, das pessoas que tm deixado o pas nas ultimas dcadas em busca de outras condies de trabalho e consumo.
Tratar sobre as formas de ocupao, utilizao e valorizao que as pessoas estabelecem com o territrio, verificando onde nasceram os alunos, de onde suas famlias vieram, discutir as relaes e tipos de trabalho, como se apresentam e interferem nas paisagens rurais ou urbanas, o lazer dos diferentes grupos sociais com suas festas e costumes, as relaes entre aquela comunidade e outra, conflitos, mudanas e permanncias, permite que os alunos transformem suas experincias ou observaes em referenciais para a discusso ou atividades desenvolvidas e com isto construam conhecimentos significativos para suas vidas.

Conhecimento e avaliao da situao de trabalho e emprego.

Esse contedo possibilita aos estudantes conhecer e analisar criticamente sua realidade, situar-se nela e desenvolver perspectivas de superao dos limites e dificuldades que enfrentam: capacidades necessrias para elaborar e desenvolver projetos pessoais e coletivos.
A diversidade das situaes de trabalho, espelhando desigualdades, comportando diferentes formas de emprego, de subemprego e de desemprego deve ser pensada em sua relao com o modelo de desenvolvimento dominante. Para que os alunos avancem nessa compreenso,  necessrio um trabalho didtico em que, por meio de aes concretas, do uso de informaes e metodologias adequadas, possam ir sistematizando os conhecimentos de que j dispem, estabelecendo relaes e construindo novos conhecimentos. Para isso  preciso que, alm do conhecimento e utilizao das informaes sobre as formas de trabalho existentes em escala local, o aluno perceba sua articulao com o circuito regional/nacional ou internacional.
Essa articulao pode ser ilustrada por levantamento  ou "mapa"  das atividades econmicas existentes na localidade e na regio: criando smbolos e convenes cartogrficas, definindo escalas e formas de projeo, compreendendo a organizao do territrio a partir de sua representao,  possvel visualizar a situao do trabalho na localidade, sua interdependncia com a regio, a nao, o circuito internacional, percebendo a diversidade e a desigualdade de formas de trabalho e de acesso a bens e servios,
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questionando a permanncia de tal situao, valorizando a busca de alternativas comunitrias.
As zonas rurais apresentam diversos tipos de atividades que refletem essa desigualdade e diversidade: a propriamente agrcola, a agroindustrial como, por exemplo, em unidades de processamento de produtos agrcolas e de origem animal , diferenciadas segundo o regime de propriedade da terra e acesso aos financiamentos, e as do setor tercirio, que envolvem trabalhos em servios de sade, educao, administrao pblica, prestao de servios domsticos, transporte de passageiros e cargas etc.
O trabalho agrcola organiza-se das mais diversas formas de acordo com o regime de propriedade da terra, o tamanho da propriedade e tipo de explorao agrcola, do grande latifndio e da agroindstria mecanizada (muitas vezes com a produo direcionada ao mercado mundial e contando com grandes capitais nacionais e internacionais),  lavoura de subsistncia no mecanizada e explorada pelo grupo familiar, com pouco capital e acesso ao crdito. Encontram-se, portanto, diferentes tipos de trabalhadores, administradores, tcnicos e gerentes, "bias-frias", trabalhadores espordicos e contratados para um tipo de trabalho.
As lutas dos trabalhadores para organizar seus sindicatos, os movimentos dos trabalhadores pela terra, pela reforma agrria, sua luta por direitos, pelo acesso aos servios essenciais de sade, educao, previdncia social, so temas importantes a serem analisados em sala de aula.  no meio rural que se concentra 60% dos casos de trabalho infantil. Mesmo sendo um trabalhado sub-remunerado, complementa o oramento familiar: da a necessidade de polticas de distribuio de renda e programas de apoio  criana trabalhadora que garantam sua permanncia na escola.
Valorizar formas de produo que viabilizem alternativas de sobrevivncia e que proponham a superao de problemas socioambientais, escapando da lgica da produtividade a qualquer custo, podem ser estudadas a partir de experincias tanto urbanas quanto agrrias (a organizao dos trabalhadores em cooperativas de produo, como o caso dos seringueiros da Amaznia  um exemplo).
A importncia do trabalho e do trabalhador agrcola, ligado ao estudo do regime de propriedade da terra na histria do pas e na atualidade, sua relao com a regio, a nao e o mundo, suas dificuldades e desafios, so contedos atuais, em debate na sociedade. Os estudos comparativos da situao brasileira com a de outros pases, verificando os diferentes regimes de propriedade da terra, o papel do estado em relao a subsdios e protees aos produtores agrcolas, as reformas agrrias realizadas, enriquecem essa discusso.
Nas zonas urbanas encontra-se tambm uma enorme diversidade e desigualdade.
Nas cidades, verifica-se a convivncia do trabalho assalariado no setor industrial e no setor de servios com o trabalho autnomo (profisses liberais, prestao de servio, trabalho
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domstico, comrcio); encontram-se operrios, artesos, comerciantes, servidores pblicos, tcnicos e prestadores de servios, grandes, pequenas e microempresas, uma enorme variedade de trabalhadores envolvidos em servios, na produo e na comercializao de produtos, envolvendo diferentes instrumentos de trabalho, as mais variadas tecnologias, diferentes tipos de qualificao profissional, de locais de trabalho, horrios e direitos.
Grandes empresas, ligadas freqentemente ao capital internacional, subcontratam outras que tornam-se subordinadas da demanda das grandes firmas, formando importantes e frgeis cadeias produtivas, pois os grandes capitais podem se deslocar de uma cidade para outra, ou de uma regio para outra, segundo a lgica do lucro, o que no acontece com o grande nmero de empresas que deles dependem.
Novamente v-se a convivncia de diferentes formas de ocupao com formas de subemprego e desemprego colocando em questo o papel do Estado (governos federal, estadual e municipal) e a importncia da sociedade civil na definio de prioridades nas polticas pblicas e na alocao de recursos, assim como na construo de alternativas que potencializem as possibilidades locais, tanto materiais quanto humanas.
O impacto das novas tecnologias no mercado de trabalho e emprego, as atividades econmicas geradoras de empregos e o perfil de empresas que respondem pelo maior nmero de empregos, so questes que esto em pauta e que podem ser tratadas com os alunos, assim como as possibilidades que se abrem atravs das cooperativas de produo e consumo, reunindo pequenas empresas em projetos de economia solidria.
A introduo de diferentes tecnologias influencia e modifica os ritmos da cidade e do campo, a organizao do trabalho e do consumo, estando desigualmente e diferentemente distribudas nas paisagens e nas diferentes atividades. Em Geografia e Cincias Naturais,  possvel, por exemplo, eleger um determinado desenvolvimento tecnolgico relevante na localidade, verificando como afeta a vida quotidiana, sua acessibilidade, conforto e desconforto que trazem, benefcios e prejuzos, impacto ambiental e impacto no emprego/desemprego.
O trabalho infanto-juvenil, o mercado informal, subemprego e desemprego, a deteriorao do valor dos salrios nas diferentes profisses/ocupaes, as desigualdades entre homens e mulheres nas oportunidades de emprego e salrio, as formas de discriminao ainda existentes no mercado de trabalho em relao s mulheres, negros, pessoas com mais idade so contedos fundamentais. A partir da anlise de um tipo de trabalho significativo da regio, pesquisar se  uma atividade predominantemente masculina ou feminina, se  um trabalho igualmente distribudo entre os sexos, se brancos e negros tm o mesmo salrio para igual funo e possibilidades iguais de ascenso profissional.
Alm dos trabalhos de produo de bens ou de servios, merece ateno especial o trabalho domstico. Remetendo  discusso desenvolvida em Pluralidade Cultural e Orientao Sexual, este trabalho, durante muito tempo considerado prprio das mulheres e das meninas, v-se questionado e alterado com o ingresso massivo das mulheres na
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produo, redefinindo-se como um tipo de trabalho cuja responsabilidade cabe igualmente a homens e mulheres.

 Conhecimento dos processos e possibilidades de insero no mercado de trabalho.

A vivncia juvenil  hoje fortemente marcada peia importncia dada ao lazer e ao consumo. Porm, no  possvel desconhecer as inquietaes provocadas pela expectativa de ingresso no mercado de trabalho ou pela escolha de profisso, que, muitas vezes viabilizam esse mesmo acesso do jovem ao lazer e ao consumo.
A idade de entrada no mercado de trabalho, as expectativas .sobre esse ingresso, a falta de emprego para os jovens, as profisses almejadas, a relao entre escolarizao e trabalho constituem contedos importantes a serem trabalhados, sendo que a troca de experincias sobre esses temas entre alunos e professores c de fundamental importncia. Quem j est inserido no mercado de trabalho? Quem participa do trabalho domstico? Quais so as expectativas profissionais dos alunos?
O conhecimento da situao do mercado de trabalho na atualidade serve como contexto para a discusso dos projetos profissionais dos alunos, assim como para aprender uma srie de procedimentos importantes, como por exemplo, saber onde e como buscar as informaes desejadas ou os passos para a obteno da documentao necessria para o ingresso no mercado de trabalho. A valorizao das associaes e da cooperao entre os trabalhadores, o conhecimento das novas profisses que esto surgindo e das qualificaes profissionais exigidas e formas de organizao do trabalho ampliam o universo de possibilidade de escolha dos alunos, pela socializao das informaes.
A localizao de organizaes governamentais e no-governamentais que atuam em questes relacionadas com o trabalho, tanto na proteo dos direitos do trabalhador, como na divulgao e disseminao de novos conhecimentos  importante para poder discutir com os alunos as alternativas de trabalho, a importncia crescente do trabalho cooperado, a discusso sobre as formas da economia solidria, as novas tecnologias alternativas na produo agrcola, novas ocupaes e profisses. Prope-se localizar, na regio, agncias privadas, publicas ou comunitrias de formao profissional, para conhecer os cursos existentes, as condies de acesso, a durao, a qualificao e oportunidades que oferecem.
Para esse trabalho  possvel usar materiais divulgados pelos meios de comunicao, buscando, em jornais de circulao local, as sees de anncios, investigando tipos de ocupao oferecidos, oportunidades para homens e mulheres, idade exigida para ingresso na ocupao/profisso, exigncias de formao, restries, remunerao, documentao exigida, condies de trabalho, horrios, direitos trabalhistas. Esre  um contedo de Lngua Portuguesa, pois trata-se de um tipo de texto peculiar, sinttico, com o uso de abreviaturas e terminologia prpria.
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Em Geografia e em consonncia com a perspectiva da Pluralidade Cultural, analisar como as pessoas, por exemplo, da escola ou da famlia, adquiriram os conhecimentos e habilidades necessrias para o desempenho de suas arividades profissionais, como foi seu modo de insero no trabalho (escolha de profisso).
Escolher algum local de trabalho  por exemplo, a prpria escola ou alguma empresa, local de prestao de servios pblico ou privado , para estudar a organizao e diviso interna do trabalho, possibilidades e limites existentes em cada uma das funes, estrutura hierrquica, vigncia de direitos, analisando como so tomadas as decises, se existe ou no participao dos funcionrios na construo das regras a existncia de discriminao ou desvalorizao de determinadas profisses ou servios etc.
Agncias governamentais e no-governamentais, sindicatos e associaes profissionais trabalham com dados sobre emprego e mercado de trabalho que podem ser utilizados para subsidiar a discusso. Sempre que possvel, contextualizar os dados colhidos pelos alunos com estas informaes, reconhecendo suas propostas e pautas atuais, seu campo de ao e como se posicionam frente aos problemas detectados no mercado de trabalho.

TRABALHO, CONSUMO, SADE E MEIO AMBIENTE
A explorao dos recursos naturais intensificou-se muito a partir das revolues industriais e do desenvolvimento de novas tecnologias, associados a um processo de formao de um mercado mundial que transforma as demandas tambm em demandas mundiais. A fome, a misria, a injustia social, a violncia e a baixa qualidade de vida de grande parte da populao mundial so fatores derivados do modelo econmico com graves repercusses nas questes ambientais e na sade das populaes22.
As condies de trabalho, de sade, acidentes e mortalidade relacionam-se diretamente com as condies de alimentao do grupo social, que, por sua vez, refletem a desigualdade gerada pelo modelo econmico. Segundo dados da OMS, quatro das dez causas principais de incapacitao nos pases perifricos relacionam-se com as condies de pobreza das populaes: trata-se da anemia por falta de ferro, subnutrio proteica, problemas surgidos no perodo anterior ou posterior ao parto e ferimentos em decorrncia de quedas. Quando se analisam os principais fatores de risco de morte citados pelo relatrio da OMS23 a subnutrio aparece como a principal causa de morte nos pases perifricos, seguida de falta de saneamento e de higiene pessoal, hipertenso e fumo. Estes dados devem ser relacionados com as condies de vida, de trabalho e de moradia das populaes, com a pobreza sendo a causa tanto de mortes prematuras como de incapacitao. Setores da populao sofrem com a desnutrio, com o retorno de doenas que se consideravam 
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erradicadas  com condies de moradia e saneamento deterioradas. Colocando em pauta  discusso sobre as responsabilidades do Estado e de cada um dos setores que direta ou indiretamente traam sobre as questes da sade.
O direito de todos a um meio ambiente e moradia saudveis est longe de ser realidade para grande parte da populao. O que compete ao Estado,  sociedade civil, ao cidado? Verifica-se a necessidade de polticas que priorizem a alimentao, a sade, a habitao. O que a escola pode fazer? Pode participar deste movimento, propiciando o debate em corno de alguns temas que possibilitem aos alunos uma maior compreenso do contexto social em que vivem e lhes permitam atuar em sua vida quotidiana e na comunidade, de forma crtica e solidria.
 Reconhecimento da presena do trabalho e do consumo nos elementos naturais e construdos do meio ambiente.
Nos elementos "naturais" pode-se reconhecer a presena de sculos de trabalho humano, de aprendizagem e seleo sobre o que  til  vida, comestvel ou nocivo, o que pode ser usado como remdio. A seleo do que  comestvel, do que  passvel de ser usado como medicamento, o desenvolvimento de espcies vegetais e a domesticao de animais, as tcnicas de cultivo, de extrao e de conservao, so fruto de sculos de trabalho humano visando suprir determinadas necessidades. Em Histria, Geografia e Cincias Naturais, ao tratar os movimentos de expanso colonial e as trocas comerciais,  possvel mostrar como os resultados deste longo processo de trabalho modificaram hbitos alimentares e de consumo nos mais diferentes lugares do mundo: a produo e uso das especiarias no Oriente, o milho e a batata americanas, os animais e espcies vegetais europias que so introduzidas na Amrica, assim como tantos outros conhecimentos, tcnicas e produtos.
22Ver temas transversais Meio Ambiente e Sade.
23The Global Burden of Disease", OMS, Harvard, Banco Mundial, 1997. 
As relaes entre o ambiente construdo e as diferentes formas de produo humana, podem ser discutidas tendo como parmetro as aes propostas em educao ambiental de proreo, preservao/conservao,24 recuperao25,degradao26, analisando os tipos de trabalho e de consumo desenvolvidos nos diferentes modelos econmicos e suas repercusses. Ao estudar os fatores fsicos e sociais do meio ambiente, prope-se ver a incerrelao e dependncia encre estes, focalizando a organizao do trabalho e do consumo refletindo respeito e equilbrio ou degradao e desequilbrio, desperdcio ou conservao. 
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 Valorizao do critrio de sustentabilidade no consumo, pessoal e coletivo.
A vida na casa e na escola pode ser analisada como um sistema de trocas discutindo como evitar o desperdcio de energia e recursos, seu uso adequado, a existncia de tecnologias e alternativas para minimizar o esgotamento de recursos no-rcnovveis (critrio de sustentabilidade), o desperdcio de materiais e aes a serem desenvolvidas para prolongar a vida de determinados produtos, como, por exemplo, por meio de reciclagem e reutilizao.
Discutir os cuidados com o ambiente escolar, o uso adequado dos recursos disponveis, favorecendo atitudes de no desperdcio de materiais ou objetos de uso pessoal. A partir da identificao de alguns objetos mais utilizados, sua matria-prima e processos de transformao, o aluno pode reconhecer a necessidade e a dependncia que a humanidade tem dos recursos naturais, mediante sua presena em tudo o que utiliza, bem como das diferentes formas de trabalho e tcnicas adoadas para converter aqueles recursos em materiais disponveis.
O desperdcio e o lixo gerados pelo modelo da sociedade de consumo exigem uma reflexo e uma ao muito especial. O uso amplamente difundido de produtos com embalagens descartveis merece ateno. E importante discutir sobre as possibilidades de reduo da produo de lixo, preferindo embalagens simples, reutilizveis ou biodegradveis. Se os fundamentos cientficos subsidiam, o ensino dos procedimentos envolvidos tambm  imprescindvel para criar um contexto pedaggico no qual possam exercitar-se as atitudes propostas. No basta dizer que no se deve jogar lixo nas ruas ou
no desperdiar materiais, nem informar sobre as implicaes ambientais dessas aes.
So aes efetivas sobre o problema do lixo, sua coleta e destino, reciclagem e reaproveitamento, uso adequado, separao, assim sobre como buscar as informaes, analis-las, organiz-las e delas extrair concluses, que podem subsidiar novas atitudes. 
 importante verificar a existncia de agncias governamentais e no- governamentais que trabalham com sade e preservao,conservao recuperao e reabilitao ambientais na localidade para desenvolver projetos com a escola.
 Valorizao de hbitos e atitudes saudveis e conservativas no consumo de alimentos, produtos de higiene e medicamentos.
Cada pessoa apreende um conjunto de idias a respeito do corpo, provenientes do convvio familiar, do convvio social mais amplo, da mdia. Os tipos de alimentos e a forma de prepar-los so determinados pela cultura, pelo gosto, pela renda e pelas possibilidades de acesso aos bens de consumo.
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24Conservao: utilizaao racional de um recurso qualquer de modo a obter um rendimento considerado bom, garantindo-se sua renovao ou sua auto-sustentao. Conservar implica manejar, usar com cuidado, manter.
25Recuperao: aplicado a uma arca degradada, supe restabelecer suas caractersticas originais. Vincula-se  reparao do dano ambiental causado.
26Degradao: alteraes e desequilbrios provocados no meio ambiente que prejudicam os seres vivos ou impedem os processos vitais, causada pela ao humana como desestruturao fsica: eroso, poluio e contaminao. 
Atualmente convive-se com a mdia modelando hbitos de consumo de alimentos e medicamentos atravs da propaganda. Da a importncia de discutir as mensagens da propaganda de alimentos, dirigidas para o pblico jovem e infantil, verificando a existncia 
ou no de inconvenientes para a sade, a existncia ou no de propaganda enganosa, o efeito que pode ocasionar no meio ambiente.
Os cuidados a serem tomados na compra de alimentos industrializados apontam a necessidade da criao de uma srie de hbitos, como a leitura da data de validade, dos rtulos, verificando sua composio nutricional, procedncia, a existncia de central de atendimento ao consumidor; verificar as condies da embalagem  segurana, estado de conservao, preferindo embalagens simples e biodegradveis ou reutilizveis , o registro do produto no Ministrio de Sade, exigindo sempre a nota fiscal, o que permitir a devoluo do produto em caso de estar deteriorado; as condies de higiene e armazenamento do produto no local de comercializao.
E possvel promover visitas da classe a centros de comercializao para verificar tais condies, disposio das mercadorias, facilidade de visualizao dos produtos, de seus preos, propagandas expostas etc., assim como preparar, com os alunos, exemplos de dietas equilibradas, levando em conta sua qualidade nutricional, variedade, relao qualidade/ preo. Esse tipo de visitas pode ser feito em feiras e mercados locais, vendo, nos produtos no industrializados, formas de conservao, higiene etc.
As precaues a serem tomadas no manejo e preparao dos alimentos, seus problemas de contaminao e deteriorao  um contedo transversalizado em Cincias Naturais. O estudo das tcnicas de conservao domstica e tradicionais de alimentos utilizadas na atualidade  e apontadas em Sade  e a conservao industrial dos alimentos, via aditivos, pode ser discutida comparativamente, verificando riscos e benefcios de cada uma das alternativas.
O uso de aditivos27,intencionais e incidentais, merece ser destacado, recuperando seu impacto na sade. Os aditivos intencionais so usados em quantidades controladas visando  conservao do alimento,  melhoria de seu aspecto,  cor e ao realce de seu sabor. Os aditivos no intencionais ou "incidentais" so uma consequncia dos processos industriais e, tambm, originrios da prpria matria-prima: resduos de pesticidas agrcolas, por exemplo. A utilizao e a quantidade destes produtos deve obedecer s normas da legislao vigente e ser registrado na Diviso Nacional de Alimentos do Ministrio da Sade.  possvel, com os alunos, organizar quadros contendo informaes sobre produtos de uso coridiano, verificando em seus rtulos a presena de aditivos, observando sua quantidade, sua funo (corante, flavorizante, conservante, acidulante etc.), sua necessidade e riscos e definindo, com a classe, critrios a serem levados em conta na hora de escolher 
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produtos industrializados. Ver, desta forma, nos produtos (que circulam, se esto sendo atendidas as normas de segurana e higiene definidas pelo Cdigo do Consumidor. 
A pesquisa sobre hbitos alimentares em outras culturas, prximas ou distantes no tempo e no espao, sobre os prprios hbitos alimentares e de pessoas de  comunidades de diferentes idades, permite conhecer alimentos mais consumidos nas diferentes refeies, motivos do consumo, gostos, como estes se formam, a influncia das condies socioeconmicas e de conhecimento no consumo de alimentos, atendendo, desta forma, tambm  perspectiva de Pluralidade Cultural.
Os produtos domsticos de natureza qumica so consumidos sem o conhecimento sobre seu perigo e toxicidade. Esses produtos englobam os sabonetes, sabes, solventes e pesticidas.
27Aditivos: corantes, flavorizantes, conservantes, antioxidantes, estabilizantes, espumfero e antiespumferos, espessante edulcorantew, umectante e antiumectante, acidulante.

O que  necessrio para a limpeza da casa e da escola? Quais so os produtos que esto sendo utilizados? Dada a grande quantidade de produtos existentes no mercado,  importante discutir quais seriam os bsicos para a limpeza de uma casa. Ao identificar os diferentes produtos, verificar seu impacto ambiental, a partir da leitura nos rtulos de sua composio qumica, ao efetiva em relao s prometidas pela propaganda. Estas informaes podem ser encontradas em associaes de defesa dos consumidores e em rgos do Ministrio da Sade que analisam a efetiva ao de produtos oferecidos no mercado. K importante discutir os cuidados a serem tomados na manipulao dos produtos sanitrios, sua toxicidade, ao nociva sobre a pele, necessidade de armazenamento separado de alimentos, calor ou fogo, devendo ser mantidos fora do alcance de crianas pequenas.
A propaganda de medicamentos e a prtica da automedicao devem ser objeto de uma reflexo especial com os alunos. Os remdios podem causar efeitos colaterais e prejudicar a sade, dai a importncia da proibio da prtica da automedicao.
Ao adoecer, procura-se um mdico da rede pblica de sade, um mdico que participa de algum convnio ou que trabalha em clnica particular?  preciso que todos aprendam que, em qualquer um dos casos, utilizam-se servios pagos direta ou indiretamente, como no caso do servio pblico de sade, que  pago por todos atravs dos impostos. E direito do usurio dos servios de sade exigir um bom atendimento e  seu dever dar ao mdico todas as informaes necessrias para a elaborao de um diagnstico. Outra aprendizagem importante  a de que existem vrios remdios com a mesma composio, comercializados sob nomes diferentes e com preos muito diferenciados e que  possvel solicitar ao mdico a indicao do mais confivel, com boa relao preo/qualidade.
Ao receber a receita, o consumidor deve obedecer rigorosamente s indicaes do mdico sobre dosagem e tempo de uso do remdio. Alguns cuidados devem ser tomados na hora da compra: leitura do rtulo verificando data de validade, condies da embalagem e do armazenamento do produto, leitura atenta das instrues para o preparo do medicamento, como no caso das solues que o prprio consumidor prepara. Um cuidado especial deve ser tomado: os medicamentos, em sua embalagem, podem apresentar tarjas
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 Parmetros curriculares Nacionais
Orientao sexual 
vermelhas ou pretas. A tarja vermelha significa que o remdio s pode ser vendido sob prescrio mdica, pois seus efeitos colaterais so mais srios; a tarja preta indica um remdio de alto risco, que pode causar dependncia fsica, ou levar  morte quando tomado em dose excessiva. Estes remdios s podem ser vendidos com apresentao de receita, que deve ficar retida na farmcia.
 Compreenso da importncia dos meios de transporte na produo econmica e na qualidade da vida cotdiana
Os meios de transporte so fundamentais na circulao de pessoas e de mercadorias, interferindo de forma significativa na qualidade de vida das populaes e das pessoas em particular. Ao verificar as transformaes dos meios de transporte, mudanas e permanncias, ver como cada localidade se relaciona com outras vizinhas, como acontece o abastecimento de mercadorias, o escoamento da produo. No fluxo do  ir- e  vir do trabalho ao consumo e do consumo ao trabalho,  possvel pesquisar os caminhos de algum produto consumido na classe, seja durvel ou perecvel, discutindo-se como chegou at a escola, os caminhos percorridos, como foi transportado. A dimenso da circulao fica clara, assim como os tipos de trabalho e a quantidade de pessoas, em diferentes lugares, que trabalham neste processo.
 possvel, tambm, estudar a situao do transporte pblico da localidade: custo, condies de segurana e higiene, velocidade, conforto do usurio, intervalos de circulao, origem-destino, percurso, trabalhadores envolvidos no servio de forma direta ou indireta, suas condies de trabalho, remunerao e direitos, assim como se esto sendo ou no respeitados os direitos dos consumidores do servio.
As opes de investimento pblico ou privado em determinado tipo de transporte   coletivo ou individual, terrestre, areo, fluvial ou martimo , e de cada uma das possibilidades dentro destas categorias, refletem decises no mbito da gesto pblica e respondem a vrios fatores econmicos e polticos. Estudos comparativos entre os diversos meios de transporte, que contemplem seus custos, impacto ambiental, rapidez, segurana, podem ser realizados sobre transporte de passageiros ou de cargas, temarizando-se suas repercusses na qualidade de vida das comunidades e as alternativas possveis.

CONSUMO, MEIOS DE COMUNICAO DE MASSAS, PUBLICIDADE E VENDAS 
Este bloco trata de alguns elementos importantes do sistema produo-consumo na atualidade: os meios de comunicao de massas, a publicidade e as diferentes tcnicas de vendas.
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A discusso sobre os meios de comunicao e a publicidade criando necessidades e divulgando novos padres de consumo e comportamento coloca em pauta a necessidade de refletir sobre a relao entre os meios de comunicao, publicidade, economia e poltica, sobre como se organiza o processo de produo, criao, distribuio da informao, assim como a sempre crescente importncia da indstria cultural. 
 Constatao e anlise do impacto dos meios de comunicao na vida   cotidiana. 
Os chamados meios de comunicao de massas esto organizados como empresas pblicas e privadas, constituindo, em alguns casos, conglomerados internacionais com grande poder econmico e influncia na determinao do que ser considerado notcia ou o cine ser desprezado como tal, na formao do "gosto" e de novos hbitos e valores. Mesmo quando considerados em sua dimenso nacional, regional ou local, so ncleos de poder econmico e poltico com grande influncia. Cumprem, assim, um papel importante na progressiva homogeneizao de comportamentos em torno de determinados modelos e padres dominantes. Porm, so cambem fundamentais para o reconhecimento da diversidade existente e das novas possibilidades de atuao. Por vezes dificultando o exerccio da crtica, os meios de comunicao tm importante papel na ao cidad, como um meio eficaz para o controle da execuo de polticas pblicas, para a veiculao de leis indicaes e publicidade de aes coletivas e de movimentos sociais.
Em Cincias Naturais, a abordagem das tecnologias nos diferentes meios de comunicao existentes  por exemplo, em jornais, rdio e televiso  permite comparar suas semelhanas e diferenas. Existem diferenas quanto ao tipo do veculo utilizado, tecnologia, custo, alcance, usurio, programao. Os diversos meios de comunicao dirigem suas propagaes e atingem pblicos muito diversos: identificamos jornais dirigidos para pblicos bem especficos, canais de televiso direcionados, por exemplo, para o pblico mais jovem, estaes de rdio s musicais ou informativas etc. Alguns atingem mais o meio urbano, outros atingem mais o meio rural, alguns se dirigem especificamente para setores da populao, diferenciados segundo poder aquisitivo, escolaridade, tipo de trabalho.
Em Cincias Naturais, Histria e Geografia,  possvel recuperar a histria destas invenes e seu impacto na construo dos lugares.  possvel discutir como, em um primeiro momento a difuso dos livros e dos jornais, e, posteriormente do telgrafo, do telefone, do rdio, da TV, assim como as novas formas de comunicao via redes mundiais de computadores modificaram e modificam a vida das pessoas, criando novas e mltiplas relaes entre os lugares, alterando hbitos e padres culturais. E possvel recuperar algumas destas informaes que pertencem  histria recente atravs de relatos das famlias dos alunos, verificando o impacto causado pela produo e consumo cm massa do rdio nos anos 40 e 50, assim como o causado pela entrada em cena da TV, na dcada de 50 e 60, cujo consumo se expande a partir da dcada de 70, assim como sua percepo atual do papel dos meios de comunicao na vida cotidiana.
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Os diferentes meios de comunicao expressam as paisagens urbanas e rurais, com suas respectivas formas de trabalho pela mdia, propondo modelos e padres urbanos.  possvel abordar criticamente esta influncia, analisando tanto a descaracterizao das culturas locais, com as paisagens sendo influenciadas umas pelas outras por meio das imagens veiculadas, como sua apropriao e transformao criativa.
 necessrio construir noes sobre o papel da informao e da comunicao na constituio e nas mltiplas relaes que existem entre o local, o regional e o mundial, as alteraes que o fluxo de informaes provocou e provoca na vida em sociedade, o impacto da indstria cultural e de entretenimento na lngua, na msica, na valorizao de determinados modelos e padres culturais em detrimento de outros.
 interessante verificar como, nesses meios de comunicao organizados como empresas pblicas ou privadas, renem-se diferentes tipos de trabalhadores e de organizao do trabalho, com diferentes profisses e especializaes que tambm dependem do tipo de veculo utilizado. Trata-se de empresas, que podem ter grande poder econmico e mobilizam um grande nmero de trabalhadores na produo da informao e do entretenimento, que convivem com outras, de pequeno porte, como jornais e rdios locais, assim como com as rdios e TVs comunitrias.
 Constatao e anlise da influncia da publicidade na vida cotidiana. 
A publicidade  mais do que uma simples forma de divulgar um produto ou um servio para torn-lo conhecido do pblico e, portanto, vendvel. Alm de produtos e servios, por meio da publicidade, divulgam-se estilos de vida, padres de beleza e comportamento que traduzem determinados valores e expectativas. Formadora, portanto, de modelos, novas necessidades e hbitos de consumo, cumpre um papel relevante na sociedade contempornea, relacionando-se s caractersticas atuais do modelo econmico e s novas possibilidades e recursos dos meios de comunicao. Sua presena  marcante nos centros urbanos, atravs dos diferentes meios de comunicao comerciais  rdio, TV, jornais e revistas , nas ruas (outdoors, painis eletrnicos, meios de transporte,cartazes), nas feiras e mercados, em peas de vesturio, atingindo pblicos cada vez mais amplos, chegando, via TV e rdio, s regies rurais.
Verificando o tipo de bens e servios que so anunciados, por exemplo, atravs da TV,  possvel introduzir a discusso sobre o que se considera vital e suprfluo, e em Histria, verificar como os problemas colocados pela satisfao das necessidades  o que era identificado como "necessidade"  foi equacionado em diferentes sociedades, ontem e hoje.
Por meio da publicidade se anunciam produtos durveis  eletrodomsticos, produtos da indstria cultural, automveis  e no durveis  vesturio, alimentao, higiene, brinquedos. Em Arte, Lngua Estrangeira e Lngua Portuguesa, partindo de um
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produto ou servio  possvel discutir sua publicidade, as imagens que utiliza, msicas e texto, sua classificao (produto de alimentao, vesturio, beleza) segundo seu destinatrio (sexo, idade e classe social). Por intermdio de textos e imagens transmitem-se mensagens:trata-se de produtos que servem para limpar, alimentar, vestir ou para tornar o comprador feliz, com xito nos relacionamentos, conquistar fama e dinheiro? Qual  o modelo de vida transmitido atravs destas mensagens? A publicidade traz  tona valores a serem incorporados e posturas a serem adoadas, propondo um modelo de mundo, que pode implicar a desvalorizao ou discriminao de grupos tnicos ou de padres de vida diferentes.28
Um ponto que merece especial ateno  a dedicao das mensagens publicitrias ao pblico juvenil e infantil. Para os jovens criam-se e divulgam-se novos produtos e servios prioritariamente voltados para o vesturio e consumo de bens da indstria cultural. Para as crianas, criam-se novos produtos de alimentao e brinquedos. Como so essas propagandas? Quais so os produtos anunciados? Quais so os recursos usados para apresentar o objeto como necessrio para ser feliz? Provoca danos ou hbitos que possam prejudicar a sade?
Outro ponto que merece ateno trata da imagem do portador de necessidades especiais nos meios de comunicao: que atitudes esto sendo construdas ou perpetuadas, que preconceitos criados, que esteretipos fortalecidos, que estigma alimentado, em texto ou imagens, que envolvem personagens diferentes/deficientes?
O tempo e o espao dedicado  publicidade nos diferentes meios de comunicao varia de acordo com o perfil do veculo, o pblico que pretende atingir, seus objetivos expressos. O espao que ocupa em determinados jornais, o tempo que ocupa em alguns canais de TV ou estaes de rdio em relao ao tempo dedicado  programao de entretenimento, informativa, esportiva, educativa, merece ser verificado em Matemtica,assim como o custo da propaganda e sua incidncia no preo final do produto. Existem diferenas do mesmo anncio quando veiculado pela TV, pelo rdio, em uma revista ou jornal:  possvel trabalhar na criao de anncios publicitrios com a classe, estabelecendo critrios e discutindo os resultados.
O Cdigo de Defesa do Consumidor protege contra a publicidade enganosa ou abusiva: discutindo com os alunos o que pode ser compreendido como tal, verificar diversos textos publicitrios, identificando se neles existe ou no publicidade enganosa ou abusiva.
 Reconhecimento das diferentes formas de lazer da localidade e problematizao da relao lazer-consumo.
O lazer aparece como um espao especialmente importante no desenvolvimento da sociabilidade dos jovens, constituindo-se em um campo de expresso de aspiraes, desejos  
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e sonhos, nos quais tambm  possvel projetar outros modos de vida. A msica, os bailes, o esporte fazem parte da vida em todas as regies do pas, diferenciando-se de acordo com as caractersticas culturais locais. A preferncia por determinado tipo de 
	
	28 Ver tema transversal Pluralidade Cultural.
msica muitas vezes serve para identificar o pertencimento a um grupo com proposta de vida e estilo caracterstico que se expressa atravs da vestimenta, do penteado, do uso de cdigos lingusticos particulares.
Para os jovens destinam-se boa parte dos artigos da indstria cultural, como discos, fitas, revistas, filmes, porem muitos no tem acesso aos produtos da indstria cultural ou tem um acesso restrito a estes, enquanto que poucos conseguem usufruir tudo o que  oferecido pelo mercado. E importante problematizar a relao entre lazer-consumo. A partir do levantamento das opes de lazer preferidas entre os jovens da classe, utilizando procedimentos de Matemtica,  possvel estudar seu custo, seu impacto sobre o oramento familiar, a relao entre trabalho/remunerao/lazer, a desigualdade de acesso ao lazer quando vinculado ao consumo de produtos e servios da indstria cultural.
Em Histria, Educao Fsica, Arte, Geografia, verificando como se organiza o lazer na comunidade, quais so as opes de livre acesso (pblicas) e as de acesso restrito (privadas), a existncia ou no de atividades que envolvem msica, teatro, artes plsticas, esportes, dana,  possvel discutir sua importncia na vida da famlia e da comunidade.
Em Lngua Estrangeira, Lngua Portuguesa, Geografia e Histria, trabalhar com letras de msicas, verificar sua origem, como refletem a cultura em que se inserem, qual  a mensagem que propem, quais so seus contedos universais e particulares.
A programao televisiva aparece como nica alternativa de lazer e entretenimento para muitos. Nos grandes centros urbanos, esta situao deve ser relacionada com a falta de equipamentos pblicos de lazer e de atividades culturais locais, assim como com as dificuldades de acesso aos locais de lazer, pela distncia e falta de transporte pblico adequado, pelo temor da violncia social, pelo custo implicado. E importante discutir quais so as atividades de lazer que podem ser organizadas na comunidade, como  possvel se organizar e reivindicar a criao de centros de lazer comunitrios, assim como incentivar a produo cultural prpria em msica, teatro, produo de jornais e textos literrios, clubes esportivos, centros recreativos.
 Conhecimento e discernimento dos sistemas de compra e venda de produtos, contratao ou pagamento de servios e elaborao de oramentos. 
Aprender a comparar preos, a acompanhar a soma de uma compra na loja ou mercado, a conferir o troco, a estar atento s vantagens e desvantagens de cada sistema,  direito e um dever do consumidor. Os professores podero procurar apoio para estes trabalhos em organizaes de defesa dos direitos do consumidor, como os Procons, que publicam materiais especficos sobre estes temas. Atravs da identificao das vrias formas possveis de
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pagamento (via dinheiro, carto bancrio, cheque, carto de crdito), ver vantagens e desvantagens, custos financeiros implicados, cuidados a serem tomados no momento da assinatura de adeso a algum destes sistemas.
Conjuntamente com estas formas de pagamento, encontram-se tcnicas de vendas que merecem ser estudadas: vendas nacionais e internacionais via mdia eletrnica, vendas a prazo, vendas a vista. Ao tratar da diferena entre o preo de um produto, quando pago  vista e a prazo,  interessante perceber a incidncia dos juros na composio do preo total, e como quem dispe de menos renda termina pagando mais caro pelos produtos. Tambm  importante discutir a incidncia dos impostos indiretos nos produtos ou servios consumidos ou contratados, assim como discutir as vantagens de compras conjuntas e das cooperativas de compras.
O discernimento, nos produtos e servios oferecidos pelo mercado, daqueles que oferecem a melhor relao entre qualidade/preo, no aceitando imposies de vendedores ou recusando a propaganda enganosa veiculada pela mdia, pode ser desenvolvido praticando estudos comparativos entre produtos similares e de diferentes marcas, em Cincias Naturais e Matemtica, verificando: composio, peso (bruto/lquido); embalagem (segurana, impacto no meio ambiente); indicaes do rtulo, clareza e facilidade de visualizao da data de validade, preo, organizando quadros comparativos com as informaes obtidas sobre as diferentes marcas. E importante concluir esse tipo de atividade discutindo com os alunos o estabelecimento de critrios para a seleo das informaes que sero consideradas mais relevantes e que determinaro sua escolha entre as marcas, tendo em vista a relao preo/qualidade.
A elaborao de oramentos com os alunos  uma atividade de grande importncia para a discusso de todos os temas vinculados aos direitos do consumidor, meio ambiente e sade. Vrios exerccios podem ser feitos, tais como a elaborao de um planejamento de um oramento individual, a de um oramento familiar, ou de alguma atividade conjunta da classe, uma festa, um passeio, uma atividade de produo. Planejar uma compra para determinado grupo de pessoas prevendo alimentao equilibrada para uma semana, verificando seu custo, seu impacto no oramento familiar, observando a relao entre os gastos fixos neste oramento e os gastos ocasionais, facilitam a compreenso da relao trabalho/remunerao/consumo.

DIREITOS HUMANOS, CIDADANIA, TRABALHO E CONSUMO 
O propsito deste bloco de contedo  possibilitar aos alunos o conhecimento de direitos que envolvem as esferas do trabalho e do consumo, assim como saber onde buscar as informaes que lhes sirvam de subsdio para resolver individual e coletivamence os problemas que se apresentem no cotidiano. O mais importante  saber que existem tais direitos, ter conscincia de que se tem direito a ter direitos, e auto-confiana para exigi-los e promov-los.
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O conhecimento dos direitos do consumidor, contidos no Cdigo de Defesa do Consumidor e dos direitos dos trabalhadores, especialmente aqueles relacionados com os direitos e protees ao trabalho intanto-juvenil, a importncia das associaes, cooperativas,sindicatos e organizaes civis, das organizaes governamentais nacionais e internacionais envolvidas com a defesa dos trabalhadores e dos consumidores, com suas conquistas e lutas para que estes direitos tomassem a forma de leis, servem como subsdio para uma postura ativa e solidria.
As leis garantem a existncia de um marco legal, trata-se de um marco que necessita adquirir visibilidade, ser implementado quotidianamente atravs da prtica dos cidados, ser protegido por instncias jurdicas geis e respeitadas para a resoluo de conflitos e por associaes organizadas para sua defesa e implementao.  importante compreender que muitas lutas sociais acontecem para minimizar a distncia entre a lei e sua aplicao.
Existe tambm uma distncia entre a lei e a conscincia e prtica dos direitos por parte dos indivduos. Em parte, isso se deve ao desconhecimento dos direitos formalizados pela lei. Deve-se tambm a fatores culturais fortemente enraizados e que podem ser explicados pela prpria condio de cidadania existente no Brasil, compreendida muitas vezes em sentido restrito, limitando-se ao exerccio de determinados direitos polticos,com os direitos sociais e civis precariamente constitudos reflorindo uma sociedade com enorme desigualdade econmica e fortemente hierarquizada.
Por isso torna-se necessria problematizar com os alunos o conhecimento que tm sobre a existncia das leis, qual e o significado que lhe atribuem e sua influncia na vida quotidiana, seu conhecimento e opinio sobre quais so as instncias encarregadas de aplicar a lei e defender os direitos, de forma a que possam posicionar-se frente a estas questes.
Trata-se, desta forma, de discutir o descrdito e a desconfiana que cercam as leis no Brasil, analisando suas razes histricas, culturais e socioeconmicas. Se existem leis que "pegam" e leis que no "pegam", verificar a importncia do Estado e da sociedade civil como instncias fundamentais para a conquista e defesa de direitos e respeito s leis,discutindo como se distribui a responsabilidade pela defesa dos direitos em uma sociedade democrtica, o que cabe ao cidado, o que cabe aos seus representantes nos sindicatos e outras organizaes, o que cabe ao governo federal, estadual, municipal, ao poder legislativo,executivo e judicirio.
Lngua Portuguesa d o suporte para este trabalho, ao analisar as peculiaridades da linguagem jurdica, sua estrutura e organizao. No se pretende que os alunos se tornem especialistas em legislao, mas que aprendam a ler textos jurdicos, leis ou contratos, que possam ser capazes de redigir uma petio, uma reclamao, uma carta. Outro suporte necessrio neste aprendizado so as organizaes governamentais e no-governamentais que produzem materiais de divulgao sobre direitos, leis e formas mais comuns de contratos tornando-os, desta forma, mais acessveis e compreensveis.
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Direitos dos trabalhadores29 
Trata-se de que o aluno aprenda uma serie de contedos procedimentais e atitudinais que possibilitem buscar informaes e utilizar as agncias de proteao aos direitos.
 Compreenso da dimenso histrica dos direitos dos trabalhadores. 
O ponto relevante  a compreenso de que os direitos hoje existente so resultado de conquistas ao longo da histria. Muitos foram os momentos de tenso e de luta registrados na histria do trabalho e na memria dos trabalhadores. Processo sujeito a transformaes, vitrias e derrotas, mostra a importncia da organizao, da associao e da cooperao.
Embora, por momentos, o foco poder estar na organizao dos operrios urbanos,  importante conhecer as reivindicaes dos trabalhadores rurais por direitos e pela reforma agrria e, no caso das populaes indgenas, a luta pela demarcao de suas terras. Estes so movimentos e lutas de longa durao, que percorrem a histria do Brasil.
As lutas dos trabalhadores cobriram  e cobrem  todo o espectro que vai desde a regulamentao do numero de horas mximo a ser dedicado ao trabalho,  conquista de descanso remunerado, frias e direito  aposentadoria, s condies de trabalho, salubridade e segurana, assim como a luta contra a explorao do trabalho infantil e melhoria das condies de trabalho dos jovens, a explorao do (e discriminao ao) trabalho feminino Merece ateno a conquista de direitos previdencirios para os trabalhadores rurais, a regulamentao do trabalho dos trabalhadores avulsos (bias-frias), assim como a legislao sobre a posse da terra, ligada  sua funo social (Constituio de 1988, cap. XXIII).

29A formulao dos direitos que regulam as relaes de trabalho partem do reconhecimento da desigualdade de poder existente entre o empregador e o empregado, levando o Estado a interferir em relaes anteriormente vistas como da esfera privada. Na Conveno Internacional sobre Direitos econmico^, Sociais e Culturais, aprovada pela Assemblia Geral das Naes Unidas em 1966, passou-se a reconhecer a existncia, ao lado dos direitos individuais, dos chamados direitos sociais, como o direito ao trabalho,  moradia,  educao e  previdncia social. No Captulo II da Constituio de II, que trata dos Direitos Sociais, so definidos como tais o direito  educao,  sade, o trabalho e o fazer,  segurana,  previdncia social, a proreao  maternidade e  infncia, a assistncia aos desamparados (art. 6). No art. 7, so listados os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais e o artigo 8 trata sobre a liberdade de associao profissional ou sindical. 
Hoje o direito ao trabalho  o ponro central pois ameaado por um modelo de desenvolvimento gerador de desemprego. Por outra parte, toda a temtica dos direitos conquistados est na pauta, pois esse mesmo modelo rende  precarizao das relaes de trabalho. Convive-se, portanto com a luta contra o desemprego e pela manuteno e criao de novos empregos, a defesa dos direitos j conquistados, a extenso dos direitos previdencirios aos trabalhadores do mercado "informal", e com conquistas mais recentes, contra as formas de discriminao por etnia, sexo e idade e ao portador de necessidades especiais.
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 importante buscar informaes junto s associaes profissionais e sindicatos pois essa histria acontece de forma diferente, em tempos e com alcances diferentes dependendo do tipo de produo de cada regio, de acordo com as relaes de trabalho existentes, com a estrutura do poder poltico. Atravs da produo artstica, da leitura e anlise de textos literrios, ficcionais ou biogrficos, das artes visuais, msica ou teatro, encontram-se relatos marcantes sobre a histria do trabalho e dos trabalhadores no Brasil.  
 Identificao e valorizao de movimentos que lutam contra a discriminao de etnia, sexo, idade e portadores de necessidades especiais. 
Se, desde a Constituio de 193430, conta-se com um artigo que probe a discriminao do trabalhador, na Constituio de 1988, conta-se, no apenas com a reiterao da igualdade material formal entre os trabalhadores  independentemente de etnia, sexo ou idade  como a introduo de clusulas de "ao afirmativa" para estes trabalhadores, tendo em vista que o acesso ao mercado de trabalho e aos postos mais elevados continua selecionando em funo de sexo, etnia e idade. A discriminao  refora a j desigual distribuio de renda existente no Brasil.
Verificando as atividades econmicas da localidade c da regio, em Geografia,  possvel eleger algum tipo de atividade econmica relevante para analisar o perfil do trabalhador, como se organiza seu trabalho, o nmero de horas a ele dedicado, a vigncia ou no de direitos trabalhistas, valorizando socialmente as diferentes funes das pessoas na comunidade assim como os diferentes tipos de trabalho e opondo-se a todo tipo de discriminao, por sexo, etnia ou idade. 
 A transversalidade com Matemtica ser fundamental para organizar as informaes em quadros e tabelas, percebendo as relaes entre os dados colhidos, conseguindo visualizar relaes entre tipos de trabalho, salrio, horrios, direitos.
O trabalho domstico, mesmo com a progressiva incorporao das mulheres ao mercado de trabalho, ainda  visto por muitos como um trabalho a ser desenvolvido pelas mulheres e meninas. Isto implica em dupla jornada de trabalho para as mulheres e, muitas vezes, em sobrecarga para as meninas, que cuidam destas tarefas e devem levar adiante suas atividades escolares. Pluralidade Cultural e tica oferecem subsdios para a crtica dessa viso, a partir da compreenso da tarefa como comum a todos os que partilham um mesmo espao, relacionando-o ao autocuidado e ao respeito mtuo e apontando para a necessidade de sua diviso igualitria entre homens e mulheres.
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Uma ateno especial merece ser dada  situao da criana e do jovem portador de necessidades especiais. O Estatuto da Criana e do Adolescente, em seu art. 66, dispe que "ao adolescente portador de deficincia  assegurado trabalho protegido". 
	30Contituio de 1934, art.113,1:  Todos so iguais perante a lei. No haver privilgio, nem distines, por motivo de nascimento, sexo, raa, profisses prprias ou dos pais , classe social, riqueza, crenas religiosas ou idias polticas. A Contituio de 1988 anaa nessa formulao, no tituloi II, art.5, do qual destacam-se os seguintes pontos:  homens e mulheres so iguais em direitos e obrigaes, nos termos desta Constituio ;  a prtica do racismo constitui crime inafiansvel e imprescritvel, sujeito  pena de recluso, nos termos de lei  9 I,XIII,XLII). Destaca-se o art. 7 , XXX, que probe diferena de salrios, de exerccio de funes e de critrios de admisso por motivo de sexo, cor ou estado civil . 
Trata-se de um movimento que luta contra as atitudes discriminatrias em relao ao portador de necessidades especiais que possam coibir seu pleno exerccio da cidadania, entre estas, a acessibilidade aos lugares, ao lazer e tambm ao trabalho. O objetivo  a eliminao de quatro barreiras: a barreira atitudinal, a falta de ambiente acessvel e de vontade de efetuar acomodaes razoveis e a falta de informaes sobre recursos de reabilitao e tcnicas. 
 Valorizao dos procedimentos de segurana no trabalho. 
O conhecimento da existncia de legislao sobre segurana e condies de trabalho na produo de bens, servios e trabalhos domsticos, permite verificar se esto sendo atendidas, em situaes de trabalho prximas, as normas de segurana definidas para a atividade em relao aos riscos que apresenta.
 importante saber por exemplo que acidente do trabalho  o que ocorre pelo exerccio do trabalho a servio da empresa, ou ainda pelo exerccio do trabalho aos segurados especiais, provocando leso corporal ou perturbao funcional que cause a morre, a perda ou reduo da capacidade para o trabalho permanente ou temporariamente. Outros tipos de acidentes que no se enquadram nesta definio tambm so equiparados aos acidentes do trabalho, para efeitos de benefcio, como os derivados de situaes de calamidade (enchentes, desabamentos etc.), de doenas provenientes do exerccio da arividade profissional. Por lei, deve existir em cada empresa uma Comisso Interna de Preveno de Acidentes.
No campo, as condies de segurana no trabalho so piores do que nas cidades: os riscos do trabalho agrcola, ocasionado pelas longas jornadas de trabalho e pelo uso crescente de agrotxicos e outros produtos nocivos  sade, pode ser discutido em relao aos problemas que ocasionam em adultos, jovens e crianas trabalhadoras. Existem, tambm, graves problemas nos diferentes tipos de trabalho urbano, como acidentes na operao de mquinas, na execuo de servios urbanos, contaminao por produtos qumicos, danos provocados pelo esforo repetitivo, por problemas de iluminao ou excesso de rudos, falta de segurana nas instalaes. Todos esses problemas agravam-se cm situaes de crise econmica e desemprego, pois os trabalhadores empregados esto submetidos a situao de presso e insegurana e, muitas vezes, acumulam servios anteriormente executados por vrios.
O conhecimento da necessidade de um ambiente de trabalho adequado e protegido e das normas legais sobre segurana no trabalho nos diversos setores para evitar a ocorrncia de acidentes, serve como subsdio para uma postura ativa, de reivindicao de condies adequadas, de respeito ao ritmo e horrios de trabalho, ao descanso, a equipamentos adequados e adaptados ao tipo de servio, bem como para o desenvolvimento de atitudes pessoais de valorizao das aes de proteo.
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	As condies de segurana no trabalho referem-se tanto ao uso de equipamentos de proteo  na construo civil, o uso de capacetes, botas, luvas; o uso de cinto de segurana para trabalhos em alturas, no caso do mdico o uso de luvas, mscara, materiais de desinfeco e de luvas, no caso do professor para o atendimento aos acidentes ocorridos na escola  como a existncia de ambiente bem iluminado e ventilado, com boas condies sanitrias, sem barulho excessivo ou poluio do ar por poeira ou produtos qumicos.
 possvel organizar quadros comparativos com as informaes recolhidas, assim como discutir solues para os problemas detectados, procurando informaes junto aos sindicatos, organizaes profissionais, instituies governamentais e no-governamentais que tratam da sade e da segurana no trabalho. 
 Valorizao da mobilizao contra a explorao do trabalho infanto-juvenil, tanto na produo agrcola, na industrial ou em servios. 
Ao tratar sobre famlia, criana, adolescente e idoso, a Constituio de 1988 dita, no art. 227, que  dever da famlia, da sociedade e do Estado assegurar  criana e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito  vida,  sade,  alimentao,  educao, ao lazer,  profissionalizao,  cultura,  dignidade, ao respeito,  liberdade e  convivncia familiar e comunitria, alem de coloc-los a salvo de toda forma de negligncia, discriminao, explorao, violncia, crueldade e opresso. Nesse mesmo artigo, determina-se a proteo da criana de qualquer forma de discriminao. Os direitos de proteo especial da criana e do adolescente abrangem os seguintes aspectos, entre outros: idade mnima de 14 anos para admisso ao trabalho e na qualidade de aprendiz; garantia de direitos previdencirios e trabalhistas; garantia de acesso do trabalhador adolescente e adulto  escola.
 fundamental que os jovens discutam sobre seus direitos e deveres, suas expectativas e experincias que dizem respeito ao trabalho, as dificuldades encontradas, a relao entre trabalho/escola. Muitos j participam de alguma forma do mercado de trabalho, vivem a expectativa do comeo da definio de um caminho profissional ou da procura de primeiro emprego. Em Geografia, prope-se verificar a presena ou no da explorao do trabalho infantil e juvenil na localidade, tanto na produo agrcola, industrial ou em servios, assim como sua presena no trabalho domstico, relacionando estes dados com fatores econmicos, sociais, polticos e culturais.
Ao entrar em contato com organizaes que defendem os direitos das crianas e dos adolescentes, ver como se organizam, quais so os projetos desenvolvidos e qual seriam as possibilidades de atuao da escola em relao ao trabalhador precoce. Atravs da imprensa,  possvel acompanhar as campanhas para a erradicao do trabalho infantil, verificando quem delas participa: setores da sociedade civil, igrejas, associaes profissionais, organizaes no-governamentais e agncias governamentais federais, estaduais e
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municipais, assim como conhecer programas que j esto sendo implantados em algumas cidades para a retirada do trabalhador infantil da produo, por exemplo, atravs dos programas de bolsa-escola etc.

DIREITOS DOS CONSUMIDORES
Os movimentos de defesa dos consumidores e a organizao das cooperativas de consumo tm como ponto de partida o reconhecimento da necessidade de proteo do cidado consumidor frente a uma relao extremamente desigual de foras, a existente entre consumidores e fornecedores, tanto de produtos e servios privados ou pblicos.
Como distinguir entre os produtos que so apresentados no mercado, saber sobre sua composio e seu impacto sobre a sade e sobre o meio ambiente? Como garantir que o preo pedido pelo produto  justo em relao  qualidade, discernir os materiais usados em sua fabricao? Como se proteger na situao de compra, frente s condies expressas em contratos e em compras por credirio? Como garantir o acesso aos servios pblicos e privados, como garantir que estes cumpram bem seus objetivos? Estas so algumas das questes que ilustram os dilemas dos consumidores.
Organizaes governamentais e no-governamentais desenvolvem um trabalho de proteo e defesa dos direitos dos consumidores que antecede a prpria promulgao do Cdigo de Defesa do Consumidor, de 11 de setembro de 1990.
Esta lei, ainda pouco conhecida por um conjunto significativo da populao, tem como objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito  sua dignidade, sade e segurana, a proteo de seus interesses econmicos, a melhoria de sua qualidade de vida.
Os direitos bsicos do consumidor so:

 a proteo da vida, sade e segurana contra riscos provocados por prticas no fornecimento de produtos e servios considerados perigosos ou nocivos;
 a educao e divulgao sobre o consumo adequado dos produtos e servios assegurada a liberdade de escolha e a igualdade nas contrataes;
 a informao adequada e clara sobre os diferentes produtos e servios, com especificao de quantidade, caractersticas, composio, qualidade e preo, bem como sobre os riscos que apresentem; 
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 a proteo contra a publicidade enganosa e abusiva, mtodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra prticas e clusulas abusivas ou impostas no fornecimento de bens e servios;
 a modificao das clusulas contratuais que estabeleam prestaes desproporcionais ou sua reviso em razo de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
 a efetiva preveno e reparao de danos patrimoniais e morais individuais, coletivos ou difusos;
 o acesso aos rgos judicirios e administrativos, com vistas  preveno ou reparao de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteo jurdica, administrativa e tcnica aos necessitados;
 a facilitao da defesa de seus direitos, inclusive com a inverso do nus da prova, a seu favor, no processo civil;
 a adequada e eficaz prestao dos servios pblicos em geral.

Os direitos do consumidor podem ser assim sintetizados: todo cidado tem direito ao consumo, ao acesso a bens e servios bsicos; todo cidado tem direito  segurana,  garantia contra produtos ou servios que possam ser nocivos  sade ou  vida; todo cidado tem direito a optar entre vrios produtos e servios com qualidade satisfatria e preos competitivos, sem presso por parte do poder econmico e sem ser objeto de explorao do lucro fcil; tem direito  informao, ao conhecimento dos dados indispensveis sobre produtos e servios para uma deciso consciente, sendo que ningum poder ser obrigado a assinar qualquer documento de compra que no seja compreensvel ou que esteja em branco; tem o direito de ser ouvido, pois os interesses dos consumidores devem ser levados em conta no planejamento e execuo de polticas econmicas; tem direito  indenizao, reparao financeira por danos causados por produtos ou servios; todo cidado tem direito  educao para o consumo, que lhe brindar os meios para o exerccio consciente de sua cidadania no mercado.

 Compreenso da dimenso histrica dos direitos dos consumidores.

O movimento de ampliao e defesa dos direitos pode ser compreendido atravs do estudo das aes das associaes e cooperativas de consumidores que, entrelaando-se com iniciativas governamentais, mostram a importncia da associao e da organizao na conquista e na aplicao do Cdigo de Defesa do Consumidor.
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No Brasil, durante os anos 70 e 80, confirmando a confluncia entre a produo em larga escala e o nascimento da defesa do consumidor como um movimento social, encontram-se iniciativas de vrios setores da sociedade civil cm prol de uma legislao de proteao ao consumidor. Na dcada de 80, este movimento em defesa do consumidor aparece representado por Associaes de Donas de Casa em vrios estados, por Cooperativas de Consumo e associaes civis que se organizam em torno da crtica ao consumismo e da defesa do consumidor, articulando-se aos trabalhos precursores de rfos governamentais de defesa e proteao dos consumidores, os Procons (Grupo Executivo de Proteao ao Consumidor).
 uma conquista recente em nossa histria que exemplifica como o Estado pode cumprir seu papel na proteo dos direitos do consumidor e como a sociedade civil pode se organizar na defesa de seus direitos. Prope-se realizar um levantamento sobre as agncias governamentais e no-governamentais de proteao aos direitos contidos no Cdigo de Defesa do Consumidor, recuperar sua histria, conhecer materiais publicados, saber como recorrer em caso de conflito31.
Especialmente interessantes so as experincias de organizao de cooperativas de consumo, que mostram como, atravs da cooperao entre vizinhos, entre comerciantes, entre colegas de trabalho,  possvel comprar produtos ou contratar  servios com melhores preos e condies de pagamento. Em Matemtica, a verificao do custo de um produto no "varejo" e seu custo no "atacado", exemplifica bem as vantagens de uma compra conjunta.
Em Histria e com o apoio de contedos de Pluralidade Cultural  importante recuperar a existncia de experincias de cooperativas de consumo. Associaes ou Movimentos de Donas de Casa, dialogar com seus participantes assim como pesquisar junto s organizaes governamentais e no-governamentais de defesa dos consumidores sobre como organizar cooperativas de consumo.
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 Conhecimento e utilizao no cotidiano do Cdigo de Defesa do Consumidor.

Este cdigo foi uma conquista da sociedade civil que se organizou e lutou pela concretizao em lei de seus direitos e no aconteceu sem oposies. Importantes setores empresariais se manifestaram de forma contrria ao cdigo, exigindo mobilizao e manifestaes por parte das entidades. Este movimento reflete a progressiva conscincia da importncia e da fora do consumidor, no mais objeto passivo a ser manipulado pela propaganda e pelo poder econmico, mas sujeito capaz de pesquisar, escolher e recusar.
Conhecer e aprender a utilizar no cotidiano o Cdigo de Defesa do Consumidor  contedo bsico para lidar com as diversas situaes que envolvem o consumo, no se esgotando nos aqui apresentados. Estes servem como uma introduo ao reconhecimento dos direitos e ao exerccio de procedimentos ligados aos direitos do consumidor. Chama-se a ateno para o fato de que, nestes contedos, um ponto central  o reconhecimento da desigualdade de acesso a bens e servios pblicos e privados, assim como para a existncia de situaes de discriminao nas relaes de consumo, discriminaes por etnia, idade, classe social.

 Utilizao de servios pblicos e privados.

31 Para a execuo da Poltica Nacional das Relaes de Consumo, o poder publico dever contar com os seguintes instrumentos, segundo a Lei 8.078/90: manuteno de assistncia jurdica, integral e gratuita para o consumidor carente; instituio de Promotorias de Justia de Defesa do Consumidor, no mbito do Ministrio Publico; criao de delegacias de polcia especializada no atendimento de consumidores vtimas de infraes penais de consumo: criao de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas Especializadas para a soluo de litgios de consumo; concesso de estmulos  criao e desenvolvimento das Associaes de Defesa do Consumidor.
Muitos rgos, governamentais e no-governamentais defendem o consumidor, entre eles:
- PROCONs estaduais - Grupo Executivo de Proteao e Defesa do Consumidor;
- DECON- Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor;
- Coordenadoria de Defesa dos Direitos do Consumidor do Ministrio Pblico;
- CONDECON- Conselho Estadual de Defesa do Consumidor;
- Vara Especializada de Defesa do Consumidor;
- Juizado de Pequenas Causas;
- PROCONs municipais;
- Associaes civis de defesa do consumidor.
	Como os direitos do consumidor tratam tanto de bens  produtos  como de servios pblicos e privados, por exemplo, de sade, de transporte, de comunicao etc.,  importante distinguir e identificar suas diferenas. A acessibilidade  uma das caractersticas de um servio pblico: todos tem o direito ao uso de um servio, por exemplo, de transporte pblico, educao ou sade. J os servios privados de transporte (txi, por exemplo), de sade (um hospital ou clnica mdica particular) ou de educao no so acessveis a todos, seu usufruto sendo decorrncia do poder aquisitivo do usurio.
Os servios pblicos so responsabilidade do Estado (governos federal, estadual, municipal) e respondem justamente aos mandatos constitucionais descritos anteriormente que tratam dos direitos sociais. So pagos por toda a populao por meio de impostos diretos e indiretos  devendo ser seu acesso universal e de boa qualidade.
Nesses servios pode-se diferenciar entre os pagos diretamente pelo usurio (prestados por empresas pblicas ou privadas  as concessionrias  fornecedoras de gua. luz, telefone, por exemplo) e outros pagos indiretamente, por meio de impostos, como acontece nos servios de sade e educao etc.
A possibilidade de acesso de todos a servios essenciais, sua importncia na melhoria da qualidade de vida da localidade pode ser verificada identificando-se os principais rgos de administrao e de servios (pblicos, privados e comunitrios de sade, educao, formao profissional, lazer) existentes, conhecer suas funes, sua distribuio pelo
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territrio percebendo concentraes, ausncias ou insuficincias. Conhecer sua funo social, como a cumprem, como esto distribudos na localidade e no bairro, quais so as diferenas de acessibilidade de uns e outros, so contedos importantes. E importante discutir quais so esses servios essenciais, como a populao pode se organizar para reivindicar sua implantao na regio por meio de associaes de moradores, quais so os rfos governamentais encarregados da implantao do servio, quais so os caminhos a serem percorridos, como se elabora, por exemplo, transversalizando em Lngua Portuguesa, uma petio etc.
Por meio do levantamento sobre os servios pblicos e privados existentes em determinado setor,  possvel discutir seu objetivo, quais so as formas de organizao do trabalho e de atendimento, quem  usurio do servio, quais so os direitos dos usurios destes servios, se estes direitos esto sendo respeitados. Verificar os principais problemas  que ocorrem e como resolv-los: contas mais altas do que o normal, contas no entregues, corte no fornecimento, cobranas indevidas, falta de segurana e de regularidade no caso dos transportes, perdas e danos de objetos postais ou correspondncia, no caso dos correios etc. Caso no estejam cumprindo adequadamente suas funes verificar como encaminhar uma reclamao, quais so as organizaes que as atendem c quais so os resultados.
Outra questo a ser focalizada  se est sendo respeitado o direito ao acesso de todos aos servios pblicos, aos servios de atendimento e de lazer, aos equipamentos urbanos em geral. A acessibilidade  ter acesso a todos os recursos que a vida social pode oferecer. Existe algum cipo de discriminao por sexo, idade, etnia?
Dentro deste direito a todos ao acesso, merece ateno a eliminao das barreiras arquitetnicas e urbansticas existentes na localidade para garantir o direito de acesso dos portadores de necessidades especiais aos servios que desejam utilizar. Isso representa a necessidade de um ambiente com rampas para portadores de deficincia motora, rebaixamento das caladas, meios de comunicao e de transportes cm condies e adaptados, sinalizao sonora, sistema de informao ao usurio (por exemplo, em braile), e, fundamentalmente, uma atitude de cooperao e ateno especiais que garantam esse acesso com os recursos disponveis.

 Leitura de contratos, compra de produtos, exigncia de nota fiscal.

A leitura cuidadosa dos contratos, tanto de prestao de servios como de compra-venda de produtos  uma responsabilidade fundamental do consumidor. Entretanto, geralmente apresentam uma estrutura de texto peculiar com abundante uso de linguagem especializada, dificultando a compreenso. Trata-se, porm, de um tipo de texto importante, que o aluno encontrar em alguns momentos de sua vida, ao assinar um contrato de trabalho, ao contratar um servio, ao efetuar uma compra. Este  um contedo de Lngua Portuguesa, que pode apresentar este tipo de texto, trabalhando sua leitura, ressaltando os cuidados a
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serem tomados antes de sua assinatura, o conhecimento e preenchimento de formulrios e modelos para autorizaes, canas e contratos, peties e reclamaes. Dentro do item dos contratos  importante identificar e precaver-se contra as situaes que revelam a falta de liberdade do consumidor em situaes concretas, como as que ocorrem, por exemplo, por meio dos mecanismos de contrataes em massa  os chamados contratos de adeso , verificando se esses contratos no contm clusulas abusivas e lesivas ao consumidor.
Relacionando com os direitos e deveres mencionados pelo Cdigo de Defesa do Consumidor, identificar no cotidiano situaes de consumo de produtos discutindo os cuidados a serem tomados na hora de uma compra, as informaes obrigatrias que devem constar em todo produto, quais so os itens a serem observados, desenvolvendo a aquisio de hbitos de leitura que devem ser trabalhados a partir dos suportes de Lngua Portuguesa e Matemtica, como identificar e compreender a data de validade, as informaes do rtulo do produto, sua procedncia, peso, preo. Alm disso, outros hbitos devem ser incentivados, como exigir nota fiscal, prestar ateno s condies de armazenamento e limpeza do estabelecimento fornecedor, verificar as condies das embalagens que devem ser seguras, preferindo embalagens biodegradveis e sem desperdcio de materiais, verificar a existncia de garantia.
Torna-se necessrio tratar dos dilemas em torno da nota fiscal: segurana para o consumidor, direito do consumidor e sua relao com a questo tributria no Brasil. A tolerncia  sonegao deve ser discutida como um dos aspectos que reflete a desconfiana, comum no pas, sobre o uso dos recursos pblicos. Como controlar o uso dos recursos pblicos, provenientes dos impostos diretos e principalmente indiretos cobrados em cada compra de um bem ou de um servio? Esta questo implica em discutir sobre direitos e deveres:  direito e  dever reclamar nota fiscal assim como  direito e dever reclamar sobre a correta aplicao dos recursos advindos dos impostos sobre bens e servios. Existem experincias locais importantes em todo o pas que podem ser analisadas, sobre a participao dos cidados tanto na elaborao como no controle do oramento, estabelecendo coletivamente as prioridades de sua aplicao, o desenvolvimento dos projetos e sua qualidade final. So experincias importantes para a construo da cidadania ativa, mostrando a possibilidade de uma nova relao entre cidados e governantes.
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PROPOSTAS CURRICULARES dos seguintes estados: Alagoas, Amazonas, Bahia, Cear, Distrito Federal, Esprito Santo, Gois, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Par, Paraba, Paran, Pernambuco, Piau, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, So Paulo e Tocantins.

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Coordenao Geral
Clia Maria Carolino Pires e Maria Tereza Perez Soares.

Coordenao de Temas Transversais
Neide Nogueira

Elaborao
Ana Rosa Abreu, Angela Martins Baeder, Antonia Terra de Calazans Fernandes, Antonio Carlos Egyto, Bernard Kenj, Caio Martins Costa, Clia Maria Carolino Pires, Conceio Aparecida de Jesus, Flvia Shilling, Francisco Capuano Scarlato, Geraldo Antonio de Carvalho, Ghisleine Trigo Silveira, Hugo Montenegro, Ktia Lomba Brkling, Luiz Paulo da Moita Lopes, Marcelo Barros da Silva, Margarete Artacho de Ayra Mendes, Maria Ambile Mansutti, Maria Antonieta Alba Celani, Maria Cecilia Guedes Condeixa, Maria Cristina Ribeiro Pereira. Maria Helosa Corra de Toledo Ferraz, Maria Jos Nbrega, Maria Teresinha Figueiredo, Maria Tereza Perez Soares, Maria Virgnia de Freitas, Marlia Costa Dias, Marina Valado, Neide Nogueira, Regina Clia Lico Suzuki, Rosa laveiberg, Roseli Fichmann, Ruy Csar Pietropaolo, Silvio Duarte Bock, Sueli Angelo Furlan, Therezinha Azerdo Rios, Yara Savo e Zysman Neiman.

Consultoria
Ana Mae Tavares Bastos Barbosa, Angela de Castro Gomes, Antnio Augusto Gomes Batista, Carlos Franchi, Csar Coll Salvador, Circe Maria Fernandes Bittencourt, Cludio Antonio G. Egler, Dlia Lerner de Zunino, Edson Claro, Egon de Oliveira Rangel, Elianor Kunz, Elias Thom Saliba, Francisco Cardoso Gomes de Matos, Hdio Silva Jr., Hilrio Flvio Bohn, llana Blaj, Ingrid Dormiem Koudela, Jan Bitou, Joo Bosco Pitombeira F. de Carvalho, Jurandyr Luciano Sanches Ross, Lliana Petrilli Segnini, Lus Carlos de Menezes, Lus Percival Leme Britto, Luiz Marcelo de Carvalho, Luiz Roberto Dante, Maria Adlia Aparecida de Souza, Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagrio, Maria Beatriz Borba Florenzano, Maria Filisminda Rezende Fusari, Maria Helena Simielli, Marilena Lazzarini, Marta Maria C. A. Pernambuco, Mauro Betti, Miguel Arroyo, Modesto Florenzano, Nlio Bizzo, Nilza Eingenheer Bertoni, Otvio Aloisio Maldaner, Paulo Figueiredo Lima, Rmulo Campos Lins, Silvia M. Pompia, Surava Cristina Darido, Ubiratan D'Ambrsio c Vera Junqueira.
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Assessora
Abuendia Padilha Peixoto Pinco, Aloma Fernandes de Carvalho, Andra Shilling, urea Dierbeger, Claudia Aratangy, Helosa Margarido Sales, Iolanda Huzak Furini, Isabel  de Azevedo Marques, Iveta Maria Borges vila Fernandes, Jelsa Ciardi Avolio, Juarez Tarcsio Dayrell, Lydia Rosenberg Aratangy, Maria Del Carmen Ftima Gonzalez Daher, Paula Virginia Shneider, Romildo Pvoa Faria, Thereza Cristina Holl Cury, Vera Lcia. A. Santana e Yes de La Taille.

Reviso e Copydesk
Ana Maria Viana Freire, Lilian Jenkino e Maristela Felix de Lima.

Agradecimentos
Anna Maria Lambert, Beatriz Carlini Cotrini, rica Pellegrini Caramaschi, Gilda Portugal Gouveia, Helena Wendel Abramo, Hrcules Abrao de Arajo, Jos Antonio Carletti, Jos Otvio Prorna Soares, Mrcia Ferreira, Marcos Sorrentino, Maria Auxiliadora Albergaria Pereira, Maria Helena Maestri Gios, Marlia Pontes Spsito, Paulo Eduardo Dias de Mello, Raquel Glezer. Regina Rebolo, Volmir Matos e Walter Takemoto.
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